Notas iniciais
"Surprise, bitches. I bet you thought you'd seen the last of me." Estou de volta! E vocês devem estar se perguntando: Por que você não postou SI em outro site? Ou ainda: Por que diabos sua conta foi bloqueada? Bem, em primeiro lugar, eu usei esses dois meses para repensar algumas coisas e ele foi de muito bom uso, acredite. E com isso não sobrou nem um minuto sequer para que eu pensasse em postar em outro site, já que para ocupar minha vida solitária eu comecei a trabalhar, estudar mais e a treinar em duas modalidades diferentes (o que vai acarretar menos tempo para eu postar SI ;/). Em segundo, para os que ainda não sabe, minha conta foi bloqueada porque eu copiei cenas ao longo da trilogia de MTB de uma Fanfic americana. Nada justifica o que eu fiz, não quero tentar me explicar e nem quero remeter a confusão que isso gerou semanas atrás, mas apenas peço perdão por ter sido tão hipócrita e patética, o que eu assumo completamente que fui, por isso exclui logo toda a trilogia. E peço também as minhas mais sinceras desculpas àquelas pessoas que isso afetou de algum modo. Eu errei e assumo meu erro. Independente disso, espero que ainda queiram saber o desfecho de Segundas Intenções, fanfic que é realmente minha (exceto pelas cenas que existem nos filmes que ela foi inspirada, series e algumas menções de cenas de outros filmes. Não escondo as cenas e se caso isso gerar alguma dúvida, é só me perguntar que irei dizer quais). Não sei com qual frequência irei postar SI, mas irei, não se preocupem. Para esse capítulo recomendo que ouçam Broken Ones da Jacquie Lee, no PDV da Arizona quando a Dra. Harris entra no quarto. E me perdoem por qualquer erro de português.

CALLIE PDV

DOIS DIAS DEPOIS

Apenas o barulho de meus sapatos batendo no chão durante a minha fuga ecoava no escuro. Eu estava desesperada por ajuda e apenas queria sair dali para salvar minha vida. Meu coração estava tão acelerado que ele latejava no meu peito. Minha respiração queimava e eu continuava forçando minhas pernas. Viro um corredor e dou de cara com ele segurando um machado. Alex sorri e eu grito, voltando a consciência.

Eu abro os olhos assustada com o barulho de meus batimentos cardíacos apitando no monitor. Pisco algumas vezes por causa da minha visão embaçada e tento identificar as vozes no fundo que me confundiam ainda mais. Olho para os lados, como primeira reação, procurando por Alex.

– Filha... – chama minha mãe novamente.

Olho para frente e vejo Lucia preocupada, me estudando ao lado de Aria. Inspiro fundo para acalmar meu coração e repetir para mim mentalmente que tudo não passava de um sonho. Mas, não era um sonho, porque eu estava em um hospital. Começo a estudar o local e as imagens dos assassinatos, das mortes e dos sangues voltam a minha mente e meus batimentos cardíacos aceleram novamente.

– Callie, está tudo bem... – diz minha mãe, caminhando até meu lado no leito hospitalar.

– On-onde estou? – sussurro, quase inaudível.

– Você está no Seattle Grace Hospital. – responde a minha irmã, levantando-se da cadeira de acompanhante. – Como você está se sentindo?

Eu franzo o cenho, estranhando sua preocupação. Começo então a relembrar tudo o que descobri e eu encaro minha mãe, lembrando-me dos segredos.

– Seu pai nos contou tudo o que aconteceu. – diz minha mãe, colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. – Você teve um choque emocional muito forte e por isso desmaiou. Aria, por favor, vá chamar uma enfermeira. – pede Lucia. Aria suspira e obedece, saindo do quarto.

– Por quanto tempo estou aqui? – pergunto, tentando me colocar ereta na cama por causa de meu corpo dolorido.

– Já é manhã de terça-feira. Eles decidiram lhe dar alguns remédios para dormir, já que seu corpo estava exausto tanto fisicamente quanto emocionalmente. – responde minha mãe.

Eu forçava minha mente a se lembrar de algo e alguns flashes voltavam, como médicos ao redor de mim injetando mais e mais remédios e eu caindo em outra onda de sono profundo.

– Como o papai está? – pergunto, temerosa.

– Ele está bem. – responde Lucia e eu solto um suspiro de alívio.

– Graças a Deus...

– Ele passou por uma cirurgia, mas por sorte a bala não perfurou nenhum órgão. Carlos recebeu alta algumas horas atrás e está em nossa casa. – completa, com um sorriso fraco.

– Por que você nunca me contou? – pergunto, sendo direta. A expressão tranquila da minha mãe muda para uma séria.

– Do que você está falando? – ela finge de boba e eu reviro os olhos.

– Mãe, você sabe do que eu estou falando. Se papai te contou tudo ele deve ter dito também que agora eu estou a par de todos os segredos da família. – rosno, engolindo seco. Lucia se distancia do leito e caminha até a cadeira de acompanhante, provavelmente envergonhada. – Por que você escondeu isso de mim se até Aria sabia?

– Nós não sabíamos que ela sabia. – retruca minha mãe, virando-se para mim. – Eu e seu pai pensamos que se mantivéssemos apenas entre nós isso nunca seria um problema.

– Nunca seria um problema? – pergunto, não acreditando no que ouvia. – Você me julga por quem eu sou, mas você também pecou!

– Isso foi no passado! – brada Lucia e eu me assusto com sua reação. Ela respira fundo para se recompor. – Eu me tornei uma mulher diferente depois daquilo! Jesus me mostrou o caminho! Ele me perdoou!

– Jesus pode ter lhe perdoado... – digo, semicerrando os olhos. – Mas o meu pai perdoou? Por que você fez isso? Isso... isso é completamente errado!

– Eu estava infeliz! – retruca minha mãe, tentando se justificar. – Eu e seu pai estávamos passando por uma fase difícil! E...

Lucia estava prestes a continuar quando a voz de Aria ecoa pelo corredor e segundos depois ela adentra, conversando com a residente e uma enfermeira. Minha irmã percebe que eu e nossa mãe estávamos no meio de uma discussão e ela abaixa cabeça, envergonhada, por já imaginar a razão.

A residente ao entender o que estava acontecendo imediatamente começou seu trabalho e fez alguns exames padrões. Olhou a dilatação da minha pupila, fez perguntas simples de como estava me sentindo e depois por último olhou meu prontuário. Enquanto isso, minha mãe e minha irmã continuaram em silêncio, uma sem olhar para a outra.

– Seus sinais vitais estão ótimos. – murmura a morena, que na identificação dizia Dra. Thompson. – Você ainda pode ficar um pouco sonolenta e sem disposição por causa do choque emocional, mas você irá recuperar normalmente. Apenas fique atenta se houver alguma mudança em seus hábitos emocionais, de sono e alimentação. Vou providenciar sua alta, resolver a papelada e liberar você.

– Obrigada. – respondo, com um sorriso fraco.

A residente e a enfermeira saem do quarto pouco depois, porém, o silêncio entre nós três continua.

– A polícia fez algo? – pergunto, quebrando o silêncio.

– Eles pediram os depoimentos de todos. – sussurra Aria, sentando-se na cadeira do acompanhante novamente. – Provavelmente irão pedir o seu mais tarde.

– Tudo bem... – murmuro, cansada. – Mãe, você poderia ligar para alguém nos buscar lá fora? – peço. Lucia semicerra os olhos para mim, sabendo que eu estava prestes a fazer alguma coisa. Continuo firme e ela suspira.

– Claro. – responde amargamente. Ela sai do quarto e fecha a porta atrás de si.

– Callie... – tenta Aria, já desconfiando do momento a sós.

– Eu te amo, Aria. – sussurro, com um nó na garganta por causa das lágrimas que eu estava segurando. – Por mais que briguemos você é a minha irmã. Ouviu? Minha irmã! Mas... por quê? Por que você tinha essa raiva tão grande? Por que nunca me contou?

– Imagine descobrir isso atrás de uma porta, Callie! – replica Aria, com os olhos lagrimejando. – E então tudo fez sentido quando eu encaixei as peças... porquê do papai sempre preferir você e minha mãe sempre estar do meu lado. Nascemos em uma família separada. Eu apenas queria que Carlos tivesse tanto orgulho de mim assim como ele tem de você. Eu procurei por meu pai biológico por meses escondido da nossa família, mas ele... desapareceu.

– Ele tem orgulho de você, Aria. Carlos criou você! Ele é o seu pai! – corrijo-a. – Mas isso não é razão suficiente para...

– Você apenas diz isso porque não foi sua experiência! – rosna Aria, séria. – As pessoas julgam sentimentos alheios sem ao menos saber a intensidade deles!

– Você está falando de sentimentos? Sério? – retruco, com raiva. – Você ajudou Alex e Arizona a me enganarem! Eu aposto que foi você quem contou tudo sobre mim para eles!

– Eu não sabia que Alex era um assassino psicótico e nem sabia que se tratava de outra mulher, Callie! Eu achei que era um rapaz e que ele apenas iria sair algumas vezes com você! Eu havia gostado de Alex e achei que ele era um bom homem. Eu só queria viver um pouco da minha vida também!

– Mas isso importa? Você apenas pensou em si mesma! Somos irmãs! Deveríamos dar cobertura uma à outra independente desse favoritismo estúpido!

– Você me cobriria? – retruca, enxugando uma lágrima que escapuliu. Eu suspiro em dor. – Mesmo sabendo que eu sou sua meia-irmã?

– Eu não vejo você como minha meia-irmã, Aria. – respondo, sendo sincera. – Eu mal consigo lembrar a minha vida sem você me irritando. – completo e uma risadinha fraca sai por seus lábios. – Biologicamente, sim, você pode ser minha meia irmã, mas... nós não temos culpa das estupidezes que nossos pais fizeram. Você é a minha irmã! E por causa disso, eu vou te cobrir, porque eu sei que nem nossos pais e nem a polícia sabem que você estava envolvida com o Alex.

– Por favor, não conte! – implora minha irmã, se entregando às lágrimas. Eu respiro fundo, com a dor da traição ainda em mim.

– Eu não irei contar, Aria.

– Me desculpe por ter ajudado Alex e indiretamente a Arizona! Eu fiquei tão preocupada com você e com o papai quando nos ligaram dizendo que havia acontecido uma chacina na universidade! Eu fui uma estúpida! Me perdoe! – implora Aria.

– Tudo bem... – sussurro, com um sorriso fraco.

Eu estico o meu braço e enxugo uma lágrima no rosto latino mais novo. Aria pega na minha mão e aperta, com um sorriso genuíno nascendo em seus lábios.

– Mas nunca mais faça isso, ok? – peço. – Nunca mais esconda algo de mim ou... nunca mais me odeie. Eu não aguento outra pessoa dentro da minha própria casa me odiando. – digo, com a dor em meu peito.

– Tudo bem... – ela diz, fazendo um afirmativo com a cabeça por entender o fato de meus pais não me aceitarem.

– Hãm... – balbucio, sem jeito. – Como ela está?

– Arizona? – pergunta Aria. Eu faço um afirmativo com a cabeça. – Ela está em estado grave por causa de sua perna esquerda.

– Como assim? – pergunto, totalmente assustada. Aria abre a boca para me explicar, mas uma batida na porta nos interrompe. Minha mãe aparece, com uma expressão um pouco mais tranquila.

– Já está tudo pronto para irmos. – anuncia. Eu e minha irmã nos entreolhamos, sabendo que não poderíamos tocar naquele assunto perto de Lucia.

Os próximos minutos foram gastos comigo colocando roupas normais em vez da vestimenta hospitalar. Um interno apareceu com uma cadeira de rodas e eu aceitei, mesmo sabendo que tinha forças suficientes para andar. Porém, ainda assim, tudo o que passava na minha mente era as palavras de Aria. Como assim Arizona estava em estado grave? Deus... eu precisava vê-la, mas eu não tinha coragem suficiente.

Meu pai nos esperava em seu carro do lado de fora do hospital. Uma felicidade enorme apoderou de mim ao ver o homem sadio, diferente da imagem que ainda rondava minha mente onde ele estava banhado em sangue.

Perto do carro, eu saí da cadeira de rodas e caminhei até o veículo. A culpa de sair do hospital e não ver como Arizona estava me corroía. Eu queria virar e ir vê-la, mas algo me impedia. Meu pai sorria para mim através do vidro da janela. Eu dou um sorriso fraco como resposta e abro a porta do banco de trás. Antes de sentar no acolchoado e partir em direção a minha casa eu ainda olhei para o prédio de vários andares.

“Eu não consigo... me desculpe...”

– Pai, eu estou bem. – digo, pela milionésima vez. – É você quem deveria estar descansando.

O homem bufa e analisa meu quarto novamente. Um bom cobertor estava nos pés da cama, meu travesseiro estava posicionado, as janelas estavam fechadas e até uma garrafa com água, para que eu não fizesse esforços para ir à cozinha, estava em cima da mesinha perto da cama.

– Eu apenas preciso dormir, só isso. – completo.

– Você precisa e irá. Não se preocupe com nada. – adverte Carlos.

– Desse jeito ficarei para sempre nesse quarto. – tento provocá-lo, mas sua expressão continua séria.

– Você não vai ficar aqui para sempre, porque logo não estaremos mais nos EUA. – responde meu pai.

– Como assim? – pergunto, confusa.

– Eu e sua mãe conversamos hoje no hospital e decidimos nos mudar para Londres no menor tempo possível. – diz Carlos, em pé, perto da porta.

– O que? – gaguejo. – Não! Eu não posso me mudar daqui! – digo, não sabendo a real razão do meu desespero, mas ele estava ali.

– Por quê? – pergunta, franzindo o cenho.

– Po-porque... eu preciso terminar a minha universidade e... – tento argumentar.

– A universidade fechou, Calliope. – murmura Carlos, com uma expressão triste.

– O que? – sussurro, incrédula.

– Richard anunciou ontem que fechará a universidade. – responde meu pai. – Não haverá mais Universidade de Seattle.

– E os alunos? – pergunto, pensando em Addison e meus amigos.

– Serão enviados para Universidade Pacífica de Seattle. – responde o homem. – Agora vá dormir, depois conversamos sobre isso, ok? – pede meu pai, dando um sorriso fraco e fechando a porta.

Continuo atordoada na mesma posição. Eu sabia que quando meu pai ordenava que faríamos alguma coisa não haveria outra opção. Eu iria para Londres. Deito-me, colocando minha cabeça contra o travesseiro, mas não consigo pegar no sono.

Havia tanta coisa na minha cabeça que meus pensamentos estavam em um forte nó. As imagens das pessoas mortas se misturavam com o medo e eu abria os olhos, com minha respiração começando a ficar descompassada.

Não resisto e levanto da cama. Abro a porta do quarto e na ponta dos pés desço os degraus da escada até achar o telefone fixo. Ao pegá-lo eu volto para o meu quarto na mesma rapidez, esperando que ninguém da família me visse. Sento-me novamente no colchão e disco o telefone da minha melhor amiga.

Alô? – a voz de Addison ressurge na linha após alguns segundos chamando.

– Addison, como é bom escutar sua voz! – suspiro, aliviada.

Callie? Você já saiu do hospital? Oh, graças a Deus! – murmura Addison, também feliz. – Eu fui lhe visitar ontem, mas você ainda estava sedada. Como você está se sentindo?

– Estou fisicamente melhor. – respondo, deixando claro que tudo ainda era uma bagunça para mim. – E você? Eu... eu não te vi depois...

Depois do quarto, não é? – completa Addison, com a voz temerosa. – Alex e Mark apareceram e sedaram Teddy e eu. Nós duas acordamos apenas na manhã seguinte dentro de um depósito de produtos de limpeza.

– Ainda bem que vocês estão bem. – digo, engolindo seco pelo assunto Teddy ser tocado, porque falar dela me lembrava de outra... pessoa. – E por falar nela... você e Teddy...

Nós conversamos hoje mais cedo. – responde Addison, com um suspiro cansado. – Ela veio até aqui em casa e explicou tudo para mim...

Eu fiquei em silêncio enquanto Addison me contava tudo o que Teddy havia lhe relatado. Tudo... Desde as razões que levaram Arizona a aceitar a aposta até o fato da loira começar a ter sentimentos por mim. Addison contava que momento nenhum Teddy parecia mentir, mas ainda assim era difícil acreditar naquilo.

Era difícil acreditar que Arizona havia prometido que conversaria com Burke para tentar mudar a aposta porque ela estava apaixonada por mim e que tinha plano para nós duas. Era... improvável. Depois de deixar a ruiva terminar, contei também sobre os planos da minha família de se mudar para Londres.

O que você vai fazer em relação a isso? – pergunta Addison, ao fim.

– Eu não sei. – sussurro, encarando o teto do meu quarto. – O que você e Teddy fizeram?

Ela foi embora e disse que apenas queria deixar tudo claro para mim. – responde Addison. – Eu também não sei o que vou fazer em relação a isso. Eu... eu... acho que...

– Você vai perdoá-la? – pergunto, não acreditando. – Addison, olha o que elas fizeram conosco!

Eu não sei, ok! – choraminga a ruiva. – Ela parecia verdadeira, Callie e completamente arrependida. Ela disse que Arizona não teve tempo de mudar o curso das coisas.

– Oh... eu... eu estou com tanta raiva que não quero mais vê-la na minha frente! – rosno, fechando os olhos com força. – Mas... ao mesmo tempo.... tudo o que quero é saber como ela está. – choramingo.

Teddy me disse que ela está em estado grave por causa dos tiros no joelho esquerdo. Você foi visitá-la?

– Não tive coragem. E agora estou me martirizando por isso e sequer posso pegar meu carro para ir vê-la!

Quer que eu passe aí? – oferece Addison. Eu abro os olhos, surpresa.

– Meus pais não me deixarão sair, ainda mais que estou em repouso. – murmuro, franzindo o cenho.

Não será a primeira vez que você foge, não é mesmo Calliope Torres? – provoca Addison e a primeira risada fraca sai por meus lábios depois de tudo.

– Tudo bem... esteja aqui daqui 10 minutos. – digo, sentando-me na cama.

Sim, senhora. – murmura a ruiva, finalizando a ligação.

Eu troco de roupa no menor tempo possível e abro a porta do quarto tentando fazer pouco barulho. Tranco-a, para fingir que eu ainda dormia. Caminho pelos corredores na ponta dos pés e desço os degraus da longa escada. Olho para os lados e escuto o barulho das vozes do meu pai e da minha mãe no escritório.

Antes de caminhar em direção da saída dos fundos eu paro em frente à porta e vejo-a entreaberta. Olho pelo feixe e os vejo conversando sobre o tema Londres. Meu pai falava que finalmente iria se aposentar e minha mãe deu um suspiro aliviado e o abraçou. Depois de anos finalmente vi os dois se beijando. Era isso. Eram os segredos da família nos mantinha separados.

Mesmo depois de sair do hospital você não resiste em fugir, não é? – a voz de Aria estava atrás de mim. Eu me viro assustada e vejo minha irmã sorrindo. Eu dou um suspiro cansado, já imaginado a mulher me dedurando para nossos pais. – Não precisa revirar os olhos, Callie. – diz Aria, calma. – Não vou contar para eles!

– Sério? – sussurro, incrédula.

– Cobrimos uma a outra, lembra? – murmura a latina, com uma piscadela amiga. Um sorriso largo nasce em meu rosto e eu caminho até ela para abraçá-la.

– Obrigada... – sussurro perto de seu ouvido.

– De nada. – responde Aria, me soltando. – Agora vá ver Arizona.

– Como você...

– Eu sei que você tem sentimentos por ela. – corrige Aria, como se fosse óbvio. – Qualquer um vê isso! Agora vá, antes que nossos pais descubram!

– Obrigada... – digo novamente, sorrindo. Eu ando com pressa pelo corredor e saio pela porta dos fundos.

Dou a volta na casa e fico perto da garagem esperando por Addison. Eu aproveito aqueles segundos para olhar meu Thunderbird. Para tentar retirar as imagens do final de semana da minha mente eu me concentro no meu carro, que tantas vezes já me tirou de um grande tédio nas tardes de domingo. Os tiros, os gritos, a quantidade de sangue por todos os lados... ainda estavam na frente dos meus olhos.

Porém, eu me enganei achando que o carro me traria paz. Meu coração aperta quando eu vejo a marca de cinco dedos na janela esquerda do banco de trás do veículo. As imagens minhas e de Arizona fazendo amor ali voltam à minha mente e as lágrimas tentam novamente ganhar a batalha.

Eu respiro fundo para controlar minhas emoções e saio da garagem. Caminho até perto do carvalho, mas a imagem de Arizona o escalando volta a minha mente. Sim, minha mente estava disposta a zombar comigo.

Suspiro e segundos depois avisto o BMW conversível vermelho de Addison estacionando. A ruiva sinaliza para que eu corresse e eu faço isso. Sento no banco do carona um pouco grogue, porque meu corpo ainda estava exausto. Tomo uma respiração longa por alguns segundos e sinalizo com a cabeça para Addison acelerar.

Minutos depois a ruiva para o carro no estacionamento do Seattle Grace Hospital. Saímos do veículo e caminhamos até a entrada, empurrando a porta de vidro. Pedimos a informação para a recepcionista sobre o quarto de Arizona Robbins e eu aleguei ser uma familiar. A mulher hesitou por alguns segundos, mas finalmente concedeu a informação do andar e do quarto. Addison disse que ficaria ali, me esperando.

Eu respiro fundo e aperto o botão do andar no elevador. Quando a porta de metal se abre eu caminho pelo corredor que tinha vários internos e médicos transitando normalmente. Olho o número na parte superior do quarto e vejo que era o quarto dela. Hesito por alguns segundos e giro a maçaneta, adentrando.

Meu coração aperta por completo ao vê-la ainda desacordada em cima da cama. Seu nariz ainda estava inchado por causa da contusão e sua mão direita também tinha esfoliações. Caminho até seu lado no leito e analiso sua expressão ainda mais de perto. Ela parecia estar em um sonho intenso.

Olho para a vidraça para ver se alguém me observava e pego seu prontuário em cima da mesa. Uso o pouco que sabia para entender as anotações e vejo que ela teve duas paradas cardiorrespiratórias nas últimas dez horas. Ela estava com uma infecção grave no osso Tíbia, Patelar e no nervo tibial, além de ter a cartilagem do joelho totalmente afetada.

– Quem é você? – uma voz feminina me chama atenção na porta. Uma interna me estudava intensamente. – Você é familiar da Srta. Robbins?

– Eu... hãm... – gaguejo, soltando o prontuário. – Sim, eu sou. Eu era... ou melhor, sou... namorada dela.

– Oh... – murmura a mulher, surpresa. – Sou Dra. Stewart. Vim checar os sinais vitais dela.

– Tudo bem... – digo, dando espaço para a mulher fazer o trabalho dela. – Como ela está?

– O estado é crítico. – responde a mulher, colocando o estetoscópio no peito de Arizona. – Sua família ainda está decidindo.

– Decidindo? – pergunto, confusa. A mulher cerra os olhos desconfiada do fato de eu não estar por dentro daquilo já que eu dizia ser familiar.

– Sobre a amputação. – responde Dra. Stewart, anotando algo no prontuário. Meus olhos arregalam e eu coloco a mão na frente da boca.

– Amputação? – gaguejo, quase inaudível.

– Infelizmente sim. – responde a mulher. – Existem outros métodos que poderiam salvar a perna dela, mas a chance de darem certo é mínima. Então a família está cogitando o fato de amputar ou não.

– Oh Deus... – choramingo, com as lágrimas ardendo meus olhos.

Eu olho para a expressão angelical da loira no leito e tento imaginar a vida dela sem um membro. Mesmo que houvesse ótimas próteses a sua vida não seria a mesma.

– Hãm... infelizmente você não pode ficar mais aqui. – diz Dra. Stewart. – Eu já fiz muito deixando você ficar, pois não é horário de visita.

– Tudo bem... – sussurro, ainda atordoada.

Eu acompanho a interna até do lado de fora do quarto, porém um apito no monitor nos chama atenção. Viro-me e vejo que se tratava de Arizona parando.

– Código Azul! – grita Dra. Stewart, entrando correndo no quarto novamente.

Eu continuo congelada observando tudo da vidraça do quarto. Meu coração estava tão acelerado que doía a cada batida. Os médicos e enfermeiros que estavam no corredor também adentram no quarto às pressas, começando uma massagem cardíaca em Arizona. Tudo parecia mover-se em câmera lenta.

Eu podia ver a vida se esvaindo da mulher. As lágrimas então começam a descer por meu rosto rapidamente e eu coloco a mão contra o vidro. Sinto outra mão no meu ombro esquerdo e viro o rosto vendo Addison também assustada.

Pareceu um longo inferno até que os médicos conseguiram estabilizar Arizona. Seus sinais vitais, principalmente seu batimento cardíaco, voltaram ao normal. Eu ainda estava paralisada do lado de fora enquanto eu ouvia ao fundo Addison me dando palavras de força. Pude ouvir também os médicos falando que o tempo de espera estava terminando e vi uma das enfermeiras pegando o telefone provavelmente para ligar para Barbara ou Daniel.

Vejo Addison pegar o celular que tocava em seu bolso e franzir o cenho ao ver o número fixo da minha casa. Era claro que minha mãe deduziu que eu estava com Addison. Agora eu quem precisava tomar uma decisão: ficar ou ir embora. Olho pela vidraça novamente e estudo o rosto de Arizona.

“Eu não queria viver sem ela... mas também não conseguia ficar ali...”

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ARIZONA PDV

Havia algo errado com o meu corpo. Minha mente ainda se arrastava para a consciência, mas já eu podia sentir um enorme desconforto. Todos os meus músculos estavam doloridos e doía ao tentar movê-los.

Forço minhas pálpebras e aos poucos tento abrir meus olhos para me acostumar com a claridade contra minha retina. Alguém segurava a minha mão esquerda e é essa pessoa que eu foco primeiramente. Era minha mãe.

Eu já havia acordado antes e estava a par de apenas algumas partes da minha situação, pois sabia que eles nunca contavam o pior para o paciente. Havia um grande risco de amputação da minha perna esquerda por causa dos estragos nos ossos e cartilagem, mas ainda assim havia chances positivas, porém... menores.

Eu sabia que era tortura, mas eu havia pedido para que meus pais prometessem que não deixariam que amputassem minha perna. Eu não queria ficar sem um membro. Eu não queria não poder andar mais.

– Oi... – sussurro, tão baixo que apenas saiu um grunhido.

– Olá, querida. – responde Barbara, enxugando uma lágrima no canto esquerdo do rosto rapidamente. Eu estava grogue, mas eu havia visto aquilo.

Olho ao redor e vejo mais pessoas na sala. Meu pai estava encostado contra a parede e ao seu lado estava Teddy, com Sofia sentada em seu colo na cadeira de acompanhante. Os semblantes deles não eram bons.

– Como você está se sentindo? – pergunta Daniel, me olhando de um jeito que não fazia há anos. Ele estava totalmente preocupado comigo.

– Um pouco de dor. – respondo, mal sentindo meus membros se mexerem ainda. Tento mexer minha perna, mas ela não se move e eu, em primeira reação, associo ao fato dela estar sedada. – Minha perna melhorou? – pergunto, olhando para eles. – Ainda vai ser necessária a cirurgia?

Eles continuam em silêncio, com ninguém tendo coragem suficiente de me responder. O medo vai queimando minhas entranhas aos poucos. Olho o calendário em cima da mesa de lado e meus olhos arregalam. Já era quarta-feira. Não, não! Eu havia acordado pela última vez na manhã da terça-feira.

Olho para eles de novo e vejo que minha mãe recomeçara seu choro. Sofia também me olhava, inocente o suficiente para não chorar por não saber o que estava acontecendo. Mas o problema era: nem eu sabia. Quando eu abro a boca para questioná-los uma médica mediana e loira entra no quarto com mais três internos atrás.

– Boa tarde. – cumprimenta a atendente. – Como você está se sentindo, Srta. Robbins? – pergunta. Eu tento forçar minha mente para lembrar seu nome enquanto ela colocava o estetoscópio em meu peito. – Eu sou a Dra. Harris, ortopedista. – ela diz, ao ver meu esforço. “Ortopedista?”

– Estou com um pouco de dor.

– É normal depois desse tipo de cirurgia. – diz a atendente. Um arrepio corta meu corpo.

– Cirurgia? – gaguejo, sem entender. A médica, os internos e minha família se entreolham. – Que cirurgia? Eu ainda não fiz nenhuma cirurgia!

– Você teve a terceira parada cardiorrespiratória ontem. – explica a médica. – O tempo de decisão chegou ao fim.

– Tempo de decisão? – pergunto, atordoada. Só então meu cérebro começou a raciocinar tudo. O semblante deles, o choro da minha mãe... a dormência dos meus membros. – Não! Não! Por favor!

– A infecção estava espalhando pelo osso e não tivemos outra opção a não ser levá-la para a SO. – diz Dra. Harris, com uma expressão triste. Meus batimentos cardíacos começam a aumentar no monitor rapidamente. – Srta. Robbins, eu preciso que se acalme!

– Não! – sussurro, ainda implorando para que aquilo não estivesse acontecendo.

Eu tento mover os dedos da minha perna esquerda, mas eu não os sinto e isso faz o desespero tomar conta de mim. Forço mover meu tornozelo, mas era como se ele não estivesse ali.

– Arizona, querida... pare! – implora minha mãe, do meu lado.

Eu começo a hiperventilar e empurro a médica para trás na tentativa de puxar o lençol. E quando o puxo meu coração para de bater por longos segundos. Um enorme corte de mais de 30 centímetros começava na lateral da minha panturrilha e ia até a parte superior do meu joelho, perto da metade da minha coxa. A região estava avermelhada e inchada.

Foi uma cirurgia difícil e os riscos ainda são grandes da infecção voltar no restante do osso. – a voz do médico estava longe. Eu levanto o olhar, ainda atordoada.

– Restante do osso? – gaguejo.

– Nós colocamos uma placa de titânio substituindo 65% do seu osso Tíbia. – responde Dr. Harris. – O osso Patelar e sua articulação junto com suas fibrocartilagens foram totalmente destruídos com as duas balas. Nós reconstituímos o osso Patelar também todo de titânio, mas o problema foi suas articulações. Os meniscos e os ligamentos dos ossos Fêmur e Tíbia foram lesados, então tivemos que fazer novas ligações nos nervos.

– E minha mobilidade? – sussurro, com uma lágrima escorrendo na lateral do meu rosto. O médico sinaliza para um interno e ele dá um passo à frente.

– Por agora é restrita. – responde o jovem. – Você terá desconforto quando usar os músculos da perna esquerda e terá deficiência permanente no membro.

– Você está querendo dizer que eu vou coxear? – pergunto, incrédula. – Eu vou mancar pra sempre?

– Infelizmente nem todos os movimentos de seu joelho serão reconstituídos, mas com a fisioterapia você pode recuperar quase todos eles. – explica a Dra. Harris.

Tudo o que eu queria fazer era me entregar às lágrimas. Eu queria gritar, eu queria tirar aquela dor de dentro do meu peito. Minha mãe pega na minha mão novamente, mas eu nego contato, retirando-a. Barbara choraminga e eu vejo Sofia abraçar Teddy. Minha amiga tinha um olhar pura dor. Eu olho para minha perna e analiso o corte enorme. Eu seria coxa. Eu teria aquela enorme cicatriz.

– Eu vou dar a vocês alguns segundos. – diz a atendente, ao ver nosso silêncio. – Daqui a pouco voltarei para checar sua perna.

Minha mãe concorda com a cabeça e a médica juntamente com seus internos sai do quarto em silêncio. Eu continuo encarando minha perna esquerda.

– Querida... – minha mãe tenta pegar na minha mão novamente, mas eu a retiro com mais brutalidade ainda.

– Filha, pare! – adverte meu pai.

A raiva queimava meu interior, uma raiva que eu nem sabia a razão de estar ali. Eu apenas precisava ver uma determinada pessoa independente do jeito que estávamos. Eu precisava ver seu sorriso, ouvir sua voz... apenas sentir sua presença.

– Onde está Callie? – pergunto, com um tom quase desesperado.

– Arizona... – suspira Teddy, levantando-se e entregando Sofia para seu avô.

– Teddy, onde está a Callie? – eu imploro, com as lágrimas ganhando mais intensidade. – Você poderia chamá-la? Por favor? Eu... eu... apenas quero vê-la. Por favor! Ela vai saber me acalmar e...

– Arizona... – choraminga Teddy, do lado do leito. – Callie não está mais aqui.

– O que? – gaguejo, trêmula.

– Ela está dentro de um avião indo embora para Londres. – responde minha melhor amiga.

Meu coração aperta e eu fico estática por alguns segundos tentando entender o que aquelas palavras significavam. Eu havia a escutado muito bem, mas elas não faziam sentido. Só então encarando novamente o semblante de todos as coisas começaram a se ligar na minha cabeça. Callie havia em abandonado.

– Não... não... – sussurro, com a raiva ganhando uma intensidade absurda. Rapidamente os batimentos cardíacos no monitor explodiram. – Não! Não! – grito. – Ela não pode ter me deixado! Não agora! Não assim!

– Arizona, por favor se acalme! – pede Teddy, olhando para o monitor.

– Eu não acredito! – grito, com uma dor espalhando por meu corpo. – Isso é mentira! Ligue para ela Teddy!

– Eu... eu não posso Arizona! – gagueja a loira, também começando a chorar. – Ela disse que não aguentaria ficar aqui!

– Ela não aguentaria ficar aqui? – brado alto, dando um murro na lateral da cama. – Não é ela que está em um maldito leito de hospital e com metade da perna de titânio!

– Arizona! Pare! – adverte meu pai, aumentando o tom de voz. Sofia abraça seu avô, assustada com a situação. Com a gritaria rapidamente a Dra. Harris e os internos entraram no quarto.

– Srta. Robbins, você precisa se acalmar! Você não está recuperada! – adverte a médica, olhando para o meu monitor.

– E nunca estarei! – grito, levantando o lençol com um supetão. – Olhe isso! – aponto para minha perna. A raiva queimava minhas entranhas. Começo a tentar mexer minha perna para mostrar ainda mais minha deficiência.

– Se você não parar iremos sedá-la! – ameaça a médica.

Eu ignoro e continuo tentando mexer minha perna com nenhuma sutileza. Uma descarga de dor atravessa meu corpo quando eu forço demais o musculo lesado. Eu grito de dor, com as lágrimas queimando meus olhos. Os internos seguram meus membros para evitar que eu me debatesse mais e causasse mais estragos. Dra. Harris prepara uma injeção e eu sinto a picada no meu tríceps direito.

Rapidamente as descargas de raiva e dor diminuíram. Eu já não tinha controle sobre meus outros membros e minhas pálpebras pareciam pesar quilos. Minha respiração se estabilizou e então tudo o que vi foi escuridão. Uma fria escuridão.

“Callie havia me deixado”

– Filha, por favor, coma. – pede minha mãe, tentando me entregar uma colher cheia de uma sopa vinda da cozinha do hospital.

– Eu não quero. – digo, com a voz fria que eu estava nos últimos dias.

Já havia se passado uma semana? Bem, não estava nem aí para isso. Eu não queria ver ninguém, eu não queria conversar com ninguém. Eu apenas queria ficar dentro da caverna escura que eu havia criado dentro de mim.

– Você não pode continuar assim, Arizona. – adverte Teddy, ao lado da minha mãe.

A loira sempre vinha me visitar junto com Barbara, quando as duas levavam Sofia para a escola. Meu pai, quando as duas estavam ocupadas, tomava a guarda, já que provavelmente todos estavam com medo que eu procurasse um bisturi e rasgasse minha jugular, porque eu nunca ficava de fato sozinha naquele quarto.

– Já se passaram seis dias. – acrescenta a mulher.

Eu lanço um olhar frio para Teddy e a mulher estremece. Hesito, ficando em silêncio para não liberar toda a raiva que sempre estava armazenada dentro de mim. Estudo a expressão de cansaço da minha mãe quando, com um suspiro, ela se levanta da cadeira e sai do quarto, provavelmente para chorar no banheiro.

Eu sabia que ela fazia isso, porque sempre voltava com os olhos avermelhados e um papel para as lágrimas nas mãos. Teddy também suspira, cansada e se senta na cadeira onde minha mãe estava. Ela pega um espelho em cima da mesa e coloca na minha frente, ignorando meu rosnado de irritação.

– Olhe nesse reflexo! – ordena Teddy.

Mesmo querendo ignorar aquilo, eu olho para o espelho. Eu estava apática, as olheiras pareciam dois buracos negros nos meus glóbulos oculares, meu rosto estava mais fino sinalizando o quanto eu havia emagrecido por não querer comer o tempo todo. Ver meu rosto daquele jeito fez um arrepio de medo cortar minha coluna. Era como se eu estivesse morta.

– Você está assim há dias. – diz Teddy, com uma expressão triste. – Você não precisa ficar assim, Arizona!

– Sério? Não preciso? – pergunto, com veneno nas palavras. – Olhe para a minha perna e me diga se eu não preciso!

– Amanhã você pode começar a fisioterapia e...

– Eu não vou fazer fisioterapia nenhuma! – rosno, perto de seu rosto.

– Por que não? – pergunta Teddy, com um suspiro cansado. – Nós duas sabemos que isso irá ajudar você a desenvolver a nova musculatura da sua perna e ser...

– Ser menos lesada? – completo, dando uma risadinha sarcástica. – Eu sou uma aleijada, Teddy. Admita!

– Pare, Arizona! – brada Teddy, chegando ao seu limite. Eu me assusto com sua reação.

– Por que deveria parar? – grito de volta, querendo que ela tivesse a mesma dor que eu. – Eu fui expulsa da universidade, sou uma coxa e a mulher que amo me abandonou! Ela se quer me ligou para saber como eu estava ou para saber como foi minha cirurgia... ela sequer lembrou de mim!

– Eu sinto muito por isso... – sussurra Teddy.

– Não sinta. – rosno, virando o rosto para o lado, porque eu sentia vergonha de mim mesma. – Eu achei que ela me amasse, Teddy. Eu sei que fiz uma grande besteira aceitando aquela aposta e eu sei que tudo no início foi uma armação, mas... o sentimento que nasceu entre nós duas era maior que isso. – digo, mas então eu dou uma risada cheia de dor. – Bem... pelo menos eu achei que era maior que isso.

– Mas nem por isso você precisa desis...

– Eu já desisti, Teddy. – digo, convicta. – Não vou fazer fisioterapia! Ninguém vai me obrigar a fazer! Eu não quero me recuperar! Eu quero ficar assim, para sempre que eu olhar para mim no espelho eu lembrar o quão insignificante eu sou.

– Arizona... – tenta Teddy, mas eu viro o rosto para o lado, sinalizando que a conversa havia terminado.

Ouço o suspiro de dor da minha melhor amiga e eu me questiono mentalmente o que ela ainda continuava a fazer ali. Ela era estúpida por continuar do lado de uma pessoa que a maltratava e isso valia também para os meus pais.

Teddy levanta e sai também do quarto. Eu fico em silêncio, analisando minha solidão. Eu não sabia o que fazer quando saísse daquele hospital, não sabia o que fazer da minha vida. Eu apenas queria ver Callie, por mais que eu a odiasse com todas as forças do meu corpo.

Deitada na minha cama, eu analisava o teto do meu antigo quarto. Havia anos que eu não entrava nele, ou melhor, desde quando havia me mudado para morar com Alex. Lembrar-me dele fazia meu estômago revirar, porque ele fora outra pessoa que havia me enganado. Jesus... eu dormia com um assassino no quarto ao lado.

E mesmo querendo distância de qualquer pessoa, eu simplesmente não podia voltar para meu antigo apartamento. Eu não podia voltar para o lugar que eu fiz amor com Callie. Eu não podia deitar naquela cama.

Eu estava na casa da minha mãe que ela compartilhava com Robert, o outro assassino. Talvez fosse por isso que minha mãe estava tão apática também, pois ela se culpava por ter se casado com Robert. Ela se culpava por ter deixado que ele entrasse em nossa família.

Família... Foi difícil explicar para Sofia tudo o que tinha acontecido. Ela simplesmente não entendia o porquê de Robert “ter ido embora” e não podíamos dizer que ele foi um sociopata que se matou.

Como eu me mantinha quase todo o tempo em silêncio eu me tornei uma observadora melhor de que era antes. Eu podia perceber os sentimentos das pessoas com um simples estudo de seus olhos, porque eram eles que diziam sempre a verdade. Daniel estava constantemente ali, sempre dizendo que queria me ver e com isso percebi que meus pais conversavam mais.

Já havia passado duas semanas desde a minha cirurgia e eu ainda me negava a fazer fisioterapia. Eu olhava para minha perna esquerda e via o músculo inerte. Eu mexia meus dedos com certa dificuldade e não conseguia me manter em pé. Isso era uma vergonha para uma pessoa... eu não conseguia me manter em pé.

E essa era a palavra que eu sentia: vergonha. Arizona Robbins que vivia sempre procurando adrenalina, procurando festas, mulheres, bebidas... estava aleijada em cima de uma cama.

Meus pais e meus amigos sempre estavam dispostos a me manter por dentro das novidades. Burke havia sido pego porque as imagens das câmeras mostravam seu rosto perfeitamente. Como o plano de Alex e Robert não havia funcionado, eles não excluíram os vídeos das câmeras.

O julgamento do moreno havia acontecido, mas ele não tinha nenhum envolvimento direto com a chacina. Então ele foi condenado a oito anos de prisão por fazer parte da quadrilha e ter sido flagrado com drogas em seu carro durante a apreensão.

Durante aqueles dias houve os velórios das vítimas do tiroteio na universidade. Minha consciência pesava por eu não ter comparecido e apenas assisti pela televisão a homenagem que os pais dos alunos fizeram. Minha mãe compareceu e acendeu uma vela e cantou o hino da universidade para as famílias enlutadas. Ela dizia que devia agradecer por eu não estar entre elas, mas eu... eu não tinha nada à agradecer.

Uma batida na porta me retira dos pensamentos monótonos. Por causa das persianas fechadas eu apenas encarava a direção que eu achava que estava a porta. Eu respondo que a pessoa poderia entrar e minha mãe aparece, com uma expressão um pouco melhor que nos dias passados, mas ainda assim triste.

– Você tem uma visita. – murmura Barbara, com um sorriso fraco.

– Se for outra médica eu irei expulsá-la daqui. – rosno, com um olhar frio.

– Não sei se posso ser chamada como médica... – a voz feminina ecoa no corredor. Minha mãe abre a porta e eu vejo minha ex-professora de Anatomia Patológica. – Mas eu formo médicos.

– O que você está fazendo aqui? – pergunto, franzindo o cenho. Lauren entra no meu quarto e minha mãe fecha a porta, para deixar nós duas a sós.

– Eu vim ver como você está. – responde Lauren, caminhando até perto de mim. – Não a vi desde a noite do baile. – completa. Eu dou de ombros e aponto para mim mesma na cama.

– Estou assim... – digo, com desdém. Lauren suspira e caminha até a janela. – Não! – eu ordeno, mas a mulher ignora e puxa as persianas deixando os raios da tarde de quinta-feira entrarem pelo quarto. Eu coloco meu braço na frente para que eles não queimassem meus olhos. – Mas que droga, Lauren! Fecha essa porcaria!

– Olha, Arizona! – rosna Lauren, apontando um dedo para mim. – Antes de aparecer aqui eu estava conversando com sua a mãe e ela me contou tudo. Você não pode se manter trancada aqui para sempre!

– Oh, sério, você está conversando com a minha mãe? – pergunto, com um tom sarcástico. – Contou pra ela que a gente se pegava na sua sala?

– Tudo bem, continue... – murmura Lauren, dando de ombros. – Continue me atacando como você vem fazendo com todos ao redor de você!

– Como está a sua filhinha? – pergunto, sabendo que estava sendo completamente baixa por tocar no assunto de Nadia. – Ela sabe que a mamãe está desempregada? – continuo. Lauren fecha os olhos, segurando a raiva. – Como está a sua vida, Lauren? Está uma merda igual a minha?

– Não sou eu quem está deitada em uma cama, sou? – ela responde com veneno nas palavras. Eu sinto uma espécie de tapa contra a minha cara com aquelas palavras.

– Se você veio aqui para me humilhar ainda mais, a porta está aberta para que você saia, Lauren. – rosno, voltando a olhar para o teto.

– Está vendo? – suspira a loira mais velha. – Você não aceita ser atingida, Arizona! Você precisa admitir que não é a única com pontos fracos.

– O que não me falta são pontos fracos. – murmuro, virando apenas o rosto para ela. – Agora isso pode entrar na lista. – digo, apontando para minha perna.

– Isso não precisa se tornar um ponto fraco. – diz Lauren, sentando-se na beirada da minha cama. – Você pode fazer fisioterapia. Ela irá ajudar você a recuperar 80% das funções da sua perna, Arizona.

– E as outras 20%? – retruco, com raiva.

– Você prefere viver assim? – replica Lauren, franzindo o cenho. – Ficar em uma cama em vez de lutar? A Arizona que eu conheci no início desse ano não desistiria tão fácil!

– Aquela Arizona morreu há muito tempo. – rosno.

– Não, ela não morreu. – murmura Lauren. – Ela não se entregaria assim, porque isso seria apenas mais um obstáculo que ela venceria.

– Você não sabe de nada sobre mim, Lauren!

– Você tem razão. – concorda, dando de ombros. – Eu sei que o que tínhamos era apenas físico, mas ainda assim tive a oportunidade de conviver com você. Você transmitia força até mesmo quando não tinha, Arizona. Olhe o que você já viveu! Olhe o que você já sobreviveu! Acha mesmo que depois de tudo isso seria justo desistir?

– Você acha isso justo? – pergunto, referindo-me a mim. – Isso não era nem meu problema. Eu fui uma peça no jogo deles!

– E pelo visto eles ganharam o jogo. – responde Lauren, olhando nos meus olhos. – Porque eles conseguiram destruir você.

Eu fico em silêncio com aquelas palavras martelando na minha cabeça. Lauren dá um sorriso fraco ao ver que tinha colocado a dúvida em mim.

– Não vê o quanto sua família está sofrendo? – pergunta a mulher. – O objetivo deles era fazer sua família sofrer e eles estão conseguindo isso. – diz Lauren. Ela se aproxima mais de mim e pega na minha mão. – Me escute, Arizona... – diz, olhando nos meus olhos. – Nós fomos o ponto de partida deles e eu sinto muito por isso. E por causa disso eu estou aqui para te ajudar a levantar novamente. Você é jovem, você é forte, você tem uma vida inteira pela frente. Faça a fisioterapia! Recomece sua faculdade de medicina! Se torne uma pessoa melhor! Ache Callie!

– Achar Callie? – pergunto, com uma risada triste. – Ela me abandonou, Lauren!

– Se eu fosse ela também estaria despedaçada. – responde Lauren. – Tanto ela quanto você estão tentando voltar ao normal. Dê tempo ao tempo, Arizona! Eu não sei a intensidade do sentimento de vocês, mas eu sei que existe algum. – diz a loira mais velha, acariciando minha mão. – Se ela for a sua pessoa, vocês irão se reencontrar algum dia. Tenha um pouco de fé!

– Fé? – uma risada triste sai dos meus lábios. – Você quer que eu tenha fé nessa altura do campeonato, Lauren? Sério?

– Sim. – afirma Lauren, convicta.

– Eu... eu não sei... – suspiro, confusa.

– Eu não posso fazer mais nada que isso. – murmura Lauren. – Na verdade, ninguém pode fazer mais do que lhe dar conselhos, porque agora tudo depende de você. Você é quem decide!

– Obrigada. – digo, com um sorriso fraco. Na verdade, o primeiro em dias.

– De nada. – responde Lauren, levantando-se. Ela caminha até perto da porta e antes de abri-la olha para mim. – Não desista sem antes lutar bravamente, Arizona.

Eu afirmo com a cabeça e a mulher desaparece, fechando a porta atrás de si. Minha cabeça trabalhava a mil por segundo. Retiro o lençol de minhas pernas e analiso minha cicatriz. Tento novamente mexer meus dedos e com um pouco de dificuldade consigo. Tanto Lauren quanto Teddy e minha família estavam certos. Eu estava deixando que eles tivessem sucesso na vingança deles. Eu deveria tentar. Eu deveria lutar.

“Eu deveria recomeçar...”

Notas finais
Cada uma está seguindo um caminho diferente?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.