Segundas Intenções
23 Capítulo 22
Notas iniciais
CALLIE PDV
Eu estava em um ótimo sono. Com a consciência voltando aos poucos, um sorriso preguiçoso nasce em meu rosto ao sentir a essência de Arizona entrando por minhas narinas. Seus lábios estavam em meu pescoço e seu corpo nu ao lado do meu na minha cama em meu quarto.
– Bom dia... – minha voz sai rouca por causa da sonolência.
– Bom dia... – responde Arizona, contra meu pescoço.
– Dormiu bem? – pergunto.
Abro meus olhos aos poucos para me acostumar com a claridade e vejo um rosto angelical do lado do meu. Um sorriso de covinhas, um par de olhos azuis e seus cabelos loiros bagunçados faziam meu coração inchar.
– Melhor que deveria.
– Está com fome? – pergunto, colocando uma mecha de cabelo loiro atrás de sua orelha.
– Oh, sim! – grunhe Arizona.
– Gastamos bastante energia ontem, não acha? – provoco-a e a loira revira os olhos, o que eu achava bonitinho.
– Uma dama não fala sobre suas relações sexuais. – responde Arizona e eu dou uma risada.
– Oh, sério?
– Aham... – cantarola Arizona, levantando da cama.
Eu observo as curvas da loira, com a claridade entrando pela janela. Arizona vira e ergue uma sobrancelha ao ver que eu a encarava.
– Eu preciso admitir uma coisa... – diz a loira, sorrindo.
– O que? – pergunto, apoiando minha cabeça com minha mão no travesseiro.
– Se você ficar aí e me obrigar a descer lá para pegar algo para comer... eu aposto que destruirei sua cozinha.
– Não me diga que você não sabe cozinhar? – provoco, escorregando para fora da cama.
– Eu sei fazer... – murmura Arizona, colocando um dedo no lábio inferior para expressar que estava pensando. – Oh... eu sei fazer ótimos Pound Cakes!
– Pound Cakes? – cantarolo e pego dois roupões dentro do meu guarda-roupa e jogo um para a loira. Visto o meu e o amarro na frente.
– Sim... e eles são ótimos! – responde Arizona, mordendo o lábio inferior.
– Você fala de mim... mas não resiste em morder seu lábio inferior. – digo, analisando seus lábios rosados.
– Aprendi com a melhor... – provoca a loira, colocando os braços em meus ombros por causa da pequena, mas presente diferença de altura.
– Oh... então sou eu agora quem está ensinando as coisas? – pergunto, erguendo uma sobrancelha.
– Digamos que você já está bem experiente no que ando lhe ensinando...
– Isso significa que o quê fizemos ontem está aprovado?
– Depende o lugar... – ronrona a loira, com um sorriso pervertido. – Fizemos no chuveiro, na banheira... na sua cama...
– Em uma média geral... – digo, segurando um sorriso.
– Hum... – cantarola Arizona, pensando. – Razoável...
– Razoável? – repito, semicerrando os olhos. – Você não achou razoável quando gritou meu nome no terceiro orgas...
– Shhhh! – rosna a loira, tampando minha boca. – Tudo bem... tudo bem! Nota... 9!
– 9? – murmuro. – Hum... já é um progresso! O que posso fazer para conseguir um 10?
– Oh... isso você só irá descobrir hoje à noite. – ronrona Arizona, dando uma piscadela maliciosa. Ela caminha até a porta do meu quarto e vira ao ver que eu não a acompanhava. – Não vai vir?
– Claro. – murmuro, sorrindo.
Saímos de meu quarto e andamos até o banheiro onde gastamos alguns minutos escovando os dentes. Eu ria ao ver a loira escovando seus dentes com a minha escova e fazendo caretas na frente do espelho. Ao terminarmos, saímos do banheiro e caminhamos pelo longo corredor do segundo andar.
– Não tive a oportunidade apresentar a casa ontem, mas ali fica o quarto da minha irmã... “A Perfeita”... – rosno, fazendo uma careta zombeteira. – E o quarto os meus pais.
Arizona fica tensa por alguns segundos e eu franzo o cenho, estranhando. O sorriso que reinava em seu rosto em meu quarto morre aos poucos. Ao ver que eu a observava, a loira dá um sorriso sem graça e continua caminhando até chegar à escada.
– Tudo bem? – pergunto, de fato preocupada.
– Estou bem. – responde Arizona. – Hãm... você tem certeza que seus pais...
– Eles só chegarão segunda-feira. – completo sua frase, antes que fosse necessária sua pergunta.
– Tem certeza? – pergunta Arizona e seu olhar inseguro lhe traí.
– Sim, eu tenho. – respondo, um tanto confusa. “Por que ela estava agindo daquele jeito?” – Eles me ligaram e disseram que o desfile da minha mãe foi para Liverpool.
– Oh... – suspira Arizona, como se estivesse aliviada.
– Nossa... não é como se eu fosse obrigar você a se apresentar à eles, Arizona. – digo, com certa raiva por ela ter agido daquele jeito.
– O que? Não! – retruca Arizona, parando de andar no meio da escada. – Não é isso, Calliope!
– Então por que ficou desse jeito quando citei minha família? – pergunto, cruzando os braços na frente do corpo.
– Eu estava normal. – diz Arizona, tentando se justificar.
– Não, você não estava! – retruco, balançando a cabeça.
– Eu juro, eu estava normal! Apenas me senti mal por... estar aqui e... não conhecê-los... e... – gagueja, pensando no que falar.
– Você está divagando, Arizona...
– Argh! – rosna a mulher, revirando os olhos. – Eu não sou boa com esse tipo de coisa, Callie!
– Tudo bem... – sussurro. Uma briga logo de manhã era a última coisa que eu queria.
– Podemos ir comer, por favor? – implora Arizona, apontando para onde ela achava que era a cozinha. – Eu estou morrendo de fome!
– Sim. – respondo, dando um sorriso fraco.
Terminamos de descer as escadas e eu guio Arizona para onde era a cozinha. Ali era o segundo lugar, quando não estava infestada por familiares, que eu conseguia pensar. Olho no relógio no alto da parede e vejo que era apenas dez horas da manhã. Oh... eu amava Sábados.
– O que quer comer? – pergunto, enquanto a loira se sentava em um banco diante do largo balcão.
– O que você faz de melhor. – responde Arizona, com seu bom humor voltando aos poucos.
– Hum... o que eu faço de melhor não posso fazer aqui. – digo, com uma piscadela.
– Jesus... no quê eu te tornei? Pare de pensar em sexo, Callie! – diz Arizona, dando uma risada doce.
– Eu não estava falando sobre sexo! – minto, pegando os ingredientes e panelas para fazer algumas simples panquecas. – E daí? Eu gosto de sexo... quem não gosta?
– Muitas gostam de sexo comigo. – se gaba Arizona e eu reviro os olhos.
– Oh... tipo Leah Murphy? – pergunto e uma risada doce sai dos lábios da mulher.
– Ela é uma delas... – responde Arizona. Eu engulo seco e me viro para a mulher. A minha mesma desconfiança de não ser a única com ela volta à tona. Hesito por alguns segundos e tomo coragem.
– O que você quer dizer com “uma delas”? – pergunto, com uma careta zombeteira para não deixar clara a minha preocupação. – Vai me dizer que ainda vai para a cama com elas?
– Como assim? – pergunta Arizona, confusa.
– Você ainda vai para a cama com alguma “delas”? – pergunto e seu olhar cruza com o meu.
– Você está me perguntando se eu tenho alguma coisa com outras mulheres além de você? – pergunta a loira e um sorriso de lado nasce em seu rosto. – Não se preocupe, Calliope, eu não tenho.
– Nós temos “alguma coisa”? – sussurro, temerosa. Arizona fica em silêncio por alguns segundos, ainda sorrindo.
– Se temos “alguma coisa”? – cantarola Arizona, pensando. – Sim, pode-se dizer que sim.
Um sorriso idiota nasce em meus lábios e eu me viro novamente para o fogão, recomeçando a minha receita.
– Me conte como você acabou indo pra cama com ela. – digo, olhando para Arizona que continuava do mesmo jeito contra o balcão. – Com Leah Murphy...
– Bem... ela é bonita. – murmura a loira, dando de ombros. Eu encaro a mulher, com a mão na cintura.
– Então você foi pra cama comigo por que eu sou bonita? – provoco-a.
– Não, acredite... – sussurra Arizona, desviando o olhar para uma fotografia em cima do balcão. – Essa é sua irmã? – pergunta a loira, apontando para a fotografia. Eu cerro os olhos, percebendo a mudança de assunto.
– Sim, essa é a Aria. – respondo, pegando os ingredientes e colocando-os em uma vasilha.
– Ela viajou com os seus pais também, não é? – pergunta a mulher.
– Aham... – bufo. – Ela quer fazer estilismo, então essa foi uma grande oportunidade dela puxar o saco da minha mãe.
– Oh... isso explica muita coisa. – sussurra Arizona, erguendo as sobrancelhas.
– Sobre o quê?
– Bem... você disse que sua família era dividida. – responde a loira, levantando seu olhar para mim.
– Ah... é sim. Essa casa chega a ser uma bagunça às vezes. A única pessoa que me escuta aqui dentro é Herman... e ela trabalha aqui há anos.
– Seus pais deram folga pra ela?
– Sim. Sempre que eles viajam tanto ela quanto os outros empregados ganham alguns dias de descanso. Mas eles sempre avisam um dia antes de voltarem para que quando chegarem aqui não haja um grama de poeira. – rosno, revirando os olhos. – Me pergunto o porquê de minha mãe simplesmente não poder limpar a própria mesa de escritório...
– Eu realmente me desacostumei com essa vida. – sussurra Arizona. Eu me viro e a estudo. – Antes de sair de casa a minha vida também era assim. Havia empregados para tudo. Depois que me mudei com Alex para um bairro de classe média nem uma faxineira conseguimos pagar. Mas, vivemos em um cubículo e não é difícil limpá-lo, ok... menos nos dias que estamos de ressaca....– diz Arizona, dando uma risadinha. – Pelo menos é o que podemos pagar. Trabalhamos no Joe’s e... acho que Alex está fazendo isso agora, mas eu não sei bem, porque... não conversamos há dois dias.
– Vocês brigaram? – pergunto.
– Sim. – sussurra Arizona, passando as mãos pelos cabelos. – Coisas bobas...
– Amigos brigam... é normal. – digo, tentando melhorar o humor da mulher. – Eu brigava com a Erica, eu brigava com a Addison... Deus... eu brigo o tempo inteiro com a Addison!
– Você não comenta muito sobre o quê aconteceu com Erica. – diz Arizona, cortando a minha fala e só então eu percebo o quê havia falado.
– Éramos melhores amigas e colegas de quarto. Você já sabe o resto... – respondo e ergo uma sobrancelha sugestiva.
– Oh... entendi. – murmura, sem graça. – Não precisa dizer muito. Mas... como terminou? – pergunta a loira, inclinando-se no balcão parecendo de fato curiosa.
– Meus pais descobriram. Eles fizeram de tudo para me separar de Erica. Ameaçaram-me até de mudar país. – respondo, com um suspiro triste.
– Por que eles fizeram isso? – pergunta Arizona, descrente com aquilo.
– Eles são extremamente católicos, Arizona. – digo, apontando para as imagens de santos na sala, ao longe. – Homossexualismo não é aceito por eles. É pecado!
– Ah... que bobagem! – rosna Arizona, séria. Ela respira fundo, hesitando. – Sério... eu não tenho muita paciência para esses tipos de julgamentos.
– Nem eu... – concordo, sem me virar. – Mas... eles continuam sendo os meus pais, eu querendo ou não.
– Nossas famílias são completamente...
– Antagônicas. – completo.
– Mas mesmo assim somos as filhas que sofrem os mesmos problemas. – provoca Arizona e eu não resisto em sorrir.
A loira se levanta e caminha até a sala onde havia mais porta-retratos. Um sentimento de conforto nasce ao ver que mesmo Arizona sendo completamente diferente de mim ela entendia o que eu passava e acima de tudo, tentava não julgar. Lembranças minhas julgando-a no início me faziam sentir culpa. Arizona era uma boa pessoa e eu poderia me acostumar com isso.
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ARIZONA PDV
Eu estava extremamente ferrada.
Essa isso que passava por minha mente naquela manhã, quando eu sorri ao ver Callie acordando. Eu estava feliz demais. Eu estava quebrando a maior e mais importante regra da sedução. Eu não poderia estar... “Não, Arizona, você não está!” a voz azucrinante me corrigia automaticamente e tratava sempre de me lembrar do que eu estava fazendo.
Entretanto, quando parecia que eu seria consumida por meus pensamentos monótonos Callie me retirava daquilo. O sorriso daquela mulher era algo... maravilhoso.
“Oh... eu estou tão ferrada...”.
Um sorriso nasce em meu rosto ao ver uma garotinha latina de aproximadamente cinco anos de idade vestida com frufrus rosa em uma fotografia em um porta-retratos. Levanto meu olhar e vejo a mesma mulher anos mais velha me encarando da cozinha. Ela sorri, envergonhada.
– Pare de olhar essas bobagens! – implora Callie, apontando uma colher na minha direção.
– O quê? – provoco-a, fingindo de desentendia. – Você deveria ser bonitinha dançando balé. Oh... e isso explica sua flexibilidade...
– Arizona! – grita a mulher, rindo.
– Estou brincando! – digo, erguendo as mãos em sinal de rendição.
Continuo observando suas fotografias e vejo uma que me faz ficar desconfortável... de novo. Callie estava abraçada com o Oficial Torres. Ela deveria ter aproximadamente onze anos e ele deveria estar no início de sua carreira, pois seus trajes ainda eram de um policial normal. Continuo analisando a imagem, perdida em pensamentos. Talvez tudo aquilo fosse um mal entendido. Talvez aquela aposta fosse um grande erro. Talvez eu fosse apenas um brinquedo de Burke.
O som angelical de uma voz afinada ecoa pelos corredores. Eu dou um passo para trás e vejo Callie cantarolando o refrão da música Shower da Becky G enquanto cozinhava. Ela requebra em frente ao fogão de olhos fechados e imaginando que eu não a estudava fazendo aquilo. Ela se vira novamente e joga a panqueca para cima e dá uma risada doce quando ela quase cai para fora da frigideira.
– Arizona, está pronto! – ela grita, sem olhar para trás.
Eu caminho enquanto ainda observava ela parar de fazer os seus movimentos. Ela pega as panquecas e coloca em um prato maior, no balcão. Sento-me no banco e vejo-a colocar as panquecas em dois pratos.
– Pode atacar... – provoca, apontando para o prato. Eu pego um garfo e corto um pedaço antes de colocá-lo na boca.
– Hum... está bom. – digo, sincera. A morena sorri, sem graça.
– O quê? Nunca lhe deram café da manhã? – pergunta Callie e eu reviro os olhos.
– Eu não sei se me dariam... – murmuro. – A questão é que nunca esperei café da manhã.
– Sério? – pergunta, franzindo o cenho. Eu concordo com a cabeça e mordo outro pedaço. – E por que me tornei uma exceção? – pergunta Callie, colocando um pedaço de panqueca na boca. Fico em silêncio por alguns segundos questionando-me se falava a verdade ou não.
– Gosto de fazer você “a” exceção. – murmuro, olhando para a morena.
– Isso significa alguma coisa? – pergunta Callie, erguendo uma sobrancelha.
– Sim. – sussurro, sem graça. – Infelizmente, sim.
– Do mesmo jeito que “infelizmente” eu me importo com você? – pergunta inocentemente.
– Somos as filhas bagunçadas, lembra? Somos aquelas que trazem caos às famílias tradicionais e cheias de regras! – provoco-a, adorando vê-la rir e eu consigo. – Nós não julgamos sentimentos.
– Certo. – murmura, mordendo outro pedaço.
Depois do café da manhã, eu e Callie saímos da casa para desfrutar uma das poucas vezes que o sol saía por de trás das intensas nuvens de Seattle durante a manhã. Caminhamos pelo gramado e recolhemos nossas roupas e pertences que não tivemos “tempo” de recolher na última noite.
Com dois copos de suco gelado em mãos, saio pela porta dos fundos. Arqueio minha sobrancelha acima de meus óculos escuros ao ver uma morena apenas de biquíni vermelho tomando sol sobre sua toalha na borda da piscina. Minha boca fica seca. Callie vira o rosto e vê que eu a observava. Caminho até ela, também usando um biquíni que a mulher me emprestara e entrego um copo para ela.
– Aqui está, Madame. – digo, sentando ao seu lado.
– Obrigada. – responde Callie, sentando-se também e levando o vidro à boca. Vejo-a me estudar e franzir o cenho como se quisesse perguntar algo.
– O quê? – pergunto, curiosa.
– Nada é que... – murmura a morena. – Por que você não se lembrava de mim? Quero dizer... no início da faculdade...
– Oh... aquele foi um início conturbado para mim. – sussurro, respirando fundo. – Não estava no meu melhor juízo.
– O que você quer dizer com isso?
– Hãm... – gaguejo, dando uma risadinha sem graça. – Você sabe...
– Sei o quê? – pergunta Callie, de fato alheia. Eu franzo o cenho, confusa.
– Você não sabia que eu estava envolvida com drogas? – pergunto e o os olhos de Callie arregalam.
Ela me encara atônita por alguns segundos antes de desviar o olhar sem graça para a piscina. Rapidamente uma onda de vergonha me domina e eu sinto uma espécie de murro contra meu estômago.
– Foi na época que seu irmão morreu? – sussurra Callie, ainda sem coragem de me olhar nos olhos.
– Sim. – digo, martirizando-me por dentro. – Eu... hãm... ah... dane-se.. se eu lhe contar isso você nunca mais vai me olhar do mesmo jeito. – respondo, sendo verdadeira. O olhar de Callie cruza com o meu e eu me vejo perdida em sua imensidão de chocolate.
– Você sabe que pode me contar. – murmura Callie. – Não julgamos sentimentos.
– Eu... ah... – suspiro, passando a mão por meus cabelos. Rapidamente toda a alegria que eu estava sentindo naquela manhã se dissipa. Imagens contorcidas bailam na frente dos meus olhos. – Eu... eu vendia drogas.
– Você era usuária? – pergunta Callie.
– Não. Nunca usei. – respondo, balançando a cabeça freneticamente. – Eu apenas gostava de vender porque queria me sentir parte de algo... mesmo que fosse errado. Eu criei amizades erradas em momentos errados. Eu ferrei tudo o que podia ferrar e apenas não caí em um poço profundo porque minha mãe me tirou de lá. Eu sei que não justifica nada que eu fiz, mas...
– Você não precisa provar nada. – retruca Callie, pegando minha mão. Eu observo o contato, confusa. – Pessoas boas erram às vezes e isso não as torna pessoas más. É claro que havia milhões de outros jeitos de você superar o luto, mas... esse foi o qual você achou. O que você precisa fazer é agradecer por não fazer mais essas coisas.
– Eu fiz muita bobagem enquanto estava bêbada naqueles dias, Callie... – digo, retirando sua mão da minha. Ela não merecia tocar o monstro que eu era.
Callie pega na minha mão de novo e toca meu rosto com a sua outra livre. Ela direciona o meu olhar para o dela. Eu suspiro, com meus olhos queimando para formarem lágrimas.
– Eu não vou te julgar, Arizona! – diz Callie, firme.
– Eu costumava correr. – sussurro, olhando nos olhos da mulher. – Eu procurava coisas que me dessem adrenalina... que me proporcionassem segundos de prazer. E eu era boa em correr. Eu e Preston Burke éramos os melhores! Teve uma noite que Preston me chamou para correr em um túnel em manutenção. Ele disse que não haveria ninguém e poderíamos chamar toda a galera para beber e festejar lá, porém, eu não consegui sair da universidade, pois já era mais que 23 horas e dias antes... havia sido o aniversário de dois anos de morte do meu irmão. Eu simplesmente não tinha cabeça para fazer nada...
– Algo aconteceu, não foi? – pergunta Callie, temerosa.
– Sim. – digo, enxugando uma lágrima no canto de meu olho esquerdo. – Eu apenas fiquei sabendo da notícia no dia seguinte. Havia uma mulher monitorando o túnel daquela madrugada, mas Burke estava tão drogado que não conseguiu desviar dela. Ele me ligou desesperado pedindo por ajuda, mas eu estava topada de remédios para dor de cabeça e não ouvi suas ligações. A polícia foi atrás de todos que tinham ligação com corridas ilegais e meu nome estava na lista.
– Eu... eu me lembro desse caso. – sussurra Callie, assustada. – É o...
– Caso de Heather Brooks. – completo, abaixando a cabeça, envergonhada. – Ela tinha 29 anos na época. Ela teve Pneumotórax e consequentemente Hemotórax, porque duas costelas perfuraram seu pulmão. Ela poderia ter sido salva, mas Burke não podia levá-la para o hospital por estar drogado, então eles demoraram muito tempo para acharem alguém sóbrio. E quando ela chegou ao hospital... era tarde demais.
– Oh... Jesus... Meu pai era o chefe do caso. – completa Callie. Meu estômago aperta, mas não de raiva e sim de dor. – Lembro-me de ouvi-lo comentar sobre isso com a minha mãe.
– Meu pai conseguiu retirar todas as acusações de participação que eles tinham contra mim. – digo. – E desde então ele vem fazendo isso, pois eu sei que ele nunca vai querer manchar o sobrenome Robbins com uma filha na cadeia. E por causa disso, Burke acha que eu sou a culpada, ele acha que como eu sou “rica”, tudo o que aconteceu com ele foi minha culpa. Por não haver câmeras no túnel em manutenção, eles não tiveram provas concretas que foi ele quem atropelara a mulher, então, ele apenas ficou na cadeia durante um ano e meio, pagando por participar de corridas ilegais e drogas e saiu meses atrás.
– Jesus... – suspira Callie, também atordoada com tanta informação.
– Você deve estar se perguntando como eu ainda estou na faculdade, não é? – sussurro, com uma risada sem graça. – Eu também me pergunto a mesma coisa, porque eu não estudava. Eu não fazia questão de estar lá.
– Você tem um dom, Arizona. – retruca Callie, voltando seu olhar para mim. – Algumas pessoas já nascem para o dom da medicina.
– Por que você não está me julgando como as outras pessoas sempre fizeram? – pergunto, confusa.
– Pessoas julgam sem saber pelo o quê você passou. – responde Callie, acariciando minha mão. – Preciso admitir que antes de te conhecer melhor... eu fazia isso. Eu te julgava intensamente! Talvez seja por isso que extrapolei com você no pátio da universidade e eu peço perdão por isso. Então eu não te julgo mais, porque não tenho esse direito.
Eu fico em silêncio, observando-a. “O que?” meu cérebro grita. Callie sorri novamente pra mim e acaricia minha bochecha com o dedo indicador. Ela estava pedindo perdão. Ela confiava em mim. Ela...
E antes mesmo que eu pudesse pensar mais, Callie une nossos lábios em um beijo calmo. Ela suga meu lábio inferior e sua mão direita afaga meu rosto. Meu coração estava tão disparado. Sem hesitar mais, eu respondo ao beijo com fervor. As mãos de Callie descem para meu pescoço e puxam meu corpo para cima do seu.
A morena se deita e eu pairo sobre ela, com meus braços ao redor de seu corpo. Ela levanta sua perna e a coloca entre as minhas, fazendo uma pressão onde eu tanto ansiava. Enquanto isso nossos línguas estavam em uma briga intensa por espaço. Porém, apenas o barulho de pneus freando na frente da casa me faz desconectar nossos lábios, assustada.
– Callie?! – uma voz feminina ressurge na frente da casa.
– Droga! Droga! Droga! – sussurra Callie, me empurrando para o lado. – É a minha mãe!
– O quê? Puta merda! – grito, também assustada. Eu cambaleio para o lado ao tentar me levantar. – Você disse que ela estava viajando com o seu pai e sua irmã! – digo. Meu sangue gela. Ele também estava com ela.
– Vista isso! – ordena Callie, jogando um roupão para mim. Eu pego o tecido no ar e a obedeço, amarrando-o na minha cintura.
Callie também veste o seu e pega na minha mão às pressas, puxando-me para o interior da casa. Meu coração estava na minha mão. Atravessamos os corredores e saímos na sala de visitas. Paramos de correr e deslizamos no piso escorregadio.
Uma mulher com um chapéu Floppy, roupas elegantes de tons claros e saltos finos terminava de fechar a porta principal. Ela se vira, com uma quantidade excessiva de sacolas de compras em mãos e se assusta ao ver mais de uma pessoa na sala.
– Oh... – balbucia a mulher, um tanto confusa. Ela olha na minha mão dada à de Callie e semicerra os olhos. – Bom dia?!
– Bom dia, mãe. – cumprimenta Callie, largando minha mão e indo dar dois beijinhos nas bochechas da mulher. Eu suspiro, um pouco aliviada ao ver que era apenas ela. Caminho até Lucia e faço o mesmo. – Essa é Arizona, ela é minha... colega de laboratório e colega de quarto. Arizona... essa é minha mãe, Lucia Torres.
– É um prazer lhe conhecer, Sra. Torres. – digo, cordialmente.
– Digo o mesmo, querida. – responde a mulher, dando um sorriso amarelo para mim e olhando em seguida para sua filha. – Callie... achei que sua colega de quarto fosse Addison e seu colega de laboratório fosse o Mark.
– Houve mudanças. – responde Callie, receosa. – Hãm... o que você está fazendo aqui, mãe?
– Não está feliz em me ver? – pergunta Lucia, dando uma risadinha e apertando uma bochecha de Callie. Um seguro uma risada e Lucia passa por nós em direção ao corredor do lado direito. Callie olha para mim e revira os olhos. – Onde está Herman? Não aguento mais segurar essas sacolas! Herman?!
– Mãe... você deu folga para a Nicole já que chegaria apenas segunda-feira. – responde Callie, engolindo seco. Eu me mantenho ao lado da morena, em silêncio.
– Oh... eu deveria ter avisado então. – murmura Lucia, abrindo uma grande porta e adentrando no escritório. Minha boca se abre ao ver a quantidade de desenhos espalhados pelas paredes pintadas de branco. Havia moldes, rascunhos e tecido à mostra.
– Você ainda não respondeu minha pergunta. – diz Callie e eu percebo sua falta de paciência eminente.
– O desfile em Liverpool foi cancelado por causa de neve intensa na última noite. – responde Lucia, colocando suas sacolas em cima de uma mesa de vidro. – Eu aluguei um jatinho e voltei, porém seu pai e sua irmã ficaram para visitarem as Catedrais.
– Aria quis ficar com o papai? – pergunta a morena, surpresa.
– Sim. Na verdade, foi ideia dele. – responde Lucia, terminando de organizar suas coisas. A mulher se vira e sorri para mim. – Estamos sendo mal educadas, querida, temos uma convidada aqui.
– Eu... eu trouxe ela para estudarmos juntas. – murmura Callie, com a voz quase entregando a mentira.
– É verdade, Sra. Torres. Eu sou grata à ajuda que Callie me dá nos estudos. – completo, tentando ajudar a morena. Eu sabia como os pais poderiam ser invasivos às vezes.
– Callie sempre pensando nos mais necessitados, que orgulho! – retruca Lucia, com um ar superior.
Eu sinto uma espécie de tapa contra meu rosto e ela passa por nós novamente na porta. Callie vira-se para mim e eu vejo sua expressão triste e envergonhada. Eu sussurro um “tudo bem” para a morena, mesmo estando com minhas entranhas ardendo em raiva.
– Eu acho que vou embora... – sussurro para Callie, tentando ser educada.
– Nada disso, Alabama, certo?! – pergunta Lucia. Eu hesito antes de xingar baixo.
– Arizona. – corrijo-a, com um sorriso extremamente forçado.
– Assim como o estado? – pergunta, com desdém.
– Não. – respondo, amargamente educada. – É uma homenagem ao USS Arizona. Meu avô era militar e salvou 19 homens de serem afogados.
– Oh... interessante. – murmura Lucia. – Calliope já disse que o nome dela vem do grego e significa música? Já a ouviu cantar? A voz dela é maravilhosa! – diz. Olho para a morena e vejo sua expressão sem graça e suas bochechas corando.
– Você está exagerando, mãe... – rosna Callie, dando uma risada forçada.
– Não posso me gabar da minha filha maravilhosa que tenho? – retruca Lucia, com um olhar duro. – Fique conosco para o almoço, Arizona, já que está próximo das 13 horas.
– Não quero incomodar, além que preciso voltar para a universidade e...
– Não será incômodo algum. – diz Lucia, colocando as mãos na cintura para mostrar sua superioridade. – Irei ligar para Herman e ela estará aqui em minutos. É mais fácil chamá-la do que chamar todas as cozinheiras.
– Eu realmente não quero incomodar e... – tento novamente, mas antes mesmo de terminar, Callie me interrompe.
– Mãe, não é necessário incomodar Herman. – murmura Callie, caminhando até perto dela. – Eu posso cozinhar...
– Herman está sendo paga para isso, querida. – retruca Lucia, apertando de leve a bochecha de Callie novamente que dá um passo para trás para evitar contato. – Deixe-a fazer o seu trabalho! Aliás, vocês sabem o que aconteceu com a piscina? – pergunta, franzindo o cenho e olhando através da janela da cozinha. – Por que ela está toda suja de pó colorido?
– Hãm... alguém deve ter... hãm... jogado isso aí durante a noite. – rosna Callie, com um sorriso falso.
– Preciso falar para Carlos trocar o sistema de segurança. Não acredito que existem vândalos aqui neste bairro. – suspira Lucia, fazendo um movimento banal com as mãos. – Por que vocês não vão tomar banho? Irei ligar para Herman.
Callie suspira, ao ver que havia perdido. A morena caminha em minha direção e me puxa pelo braço em direção as escadas que ligavam até o segundo andar. Em me mantenho em silêncio, sabendo que Callie queria seu espaço. Andamos pelos corredores e adentramos em seu quarto, o qual morena fecha a porta bruscamente.
– Entendeu agora sobre o que eu falava antes? – pergunta Callie, ainda escorada contra a madeira de sua porta.
– Sem julgamentos. – murmuro, tentando passar qualquer conforto.
– Me desculpe por aquilo que ela falou...
– Tudo bem. – retruco, colocando um sorriso fraco no rosto. – Por sorte você disse que estávamos estudando, porque eu tenho certeza que ela me expulsaria daqui se fosse por outro motivo.
– Não é que eu tenha vergonha, Arizona... – tenta falar Callie, mas eu caminho até ela, sorrindo.
– Eu entendo, ok? – digo, colocando minhas mãos em seu rosto. – São os pais nem sempre entendem. Quando eu contei para minha família que eu era gay, a primeira reação que eu achei que teriam era gritar para mim: “O quão rápido você pode sair da nossa casa?”. – murmuro e Callie sorri. – Mas em vez disso foi: “Você ainda é a garota que nós criamos para ser?”.
– Olhando por esse aspecto sua família não parece ser tão má. – provoca a morena.
– Apenas um lado da árvore genealógica. – respondo e uma risada doce sai dos lábios de Callie, fazendo-me ficar mais tranquila.
– Vá tomar um banho enquanto eu acho um par de roupas para você. – ordena Callie, dando um beijo rápido em meus lábios e caminhando em direção ao guarda-roupa.
– Mandona!– cantarolo baixo, abrindo a porta e caminhando para o banheiro que eu me lembrava do caminho muito bem graças à ontem.
– Apenas gosto das coisas do meu jeito... – retruca Callie, lançando-me uma piscadela na porta. Eu sorrio e adentro no banheiro.
“É apenas almoçar e dar o fora dali”.
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