Segundas Intenções
7 Capítulo 6
Notas iniciais
ARIZONA PDV
Sentada contra o concreto frio da cela, eu tinha minha cabeça entre meus joelhos. Eu evitava olhar para as mulheres presas nas outras celas que me chamavam a todo o momento. Meu lábio inferior estava inchado e ainda com gosto de ferro. Minha cabeça latejava tanto em pensamentos quanto em dor.
Os barulhos de passos ecoaram pelo corredor, fazendo o coro das presas aumentarem e Teddy aparece ao lado de uma policial. A policial que o sobrenome eu ignorei, abriu a cela para que minha amiga entrasse e eu reviro os olhos, já vendo sua expressão com raiva.
– Você está bem? – pergunta Teddy.
– Sim... – respondo, com um sorriso amistoso.
– Graças a Deus que você está bem! – repete, com a voz mais alterada e eu bufo. – Eu não quero que você fique preocupada com o fato que está dentro de uma prisão... sabe... é algo normal! Acontece todo dia... – rosna Teddy, com a raiva saindo por seus poros. Eu seguro uma risada ao ver o desespero da mulher. – Você acha isso engraçado, Arizona? É claro que você acharia meu desespero engraçado!
– Desculpe... eu vou parar. – sussurro, colocando a mão na frente da boca para tentar parar de rir.
– Será que dá para você me explicar o quê você estava fazendo? – pergunta Teddy, cruzando os braços na frente do corpo.
– Correndo em uma corrida... – respondo, como se fosse óbvio.
– Correndo em uma corrida? – repete Teddy, sarcástica. Ela bufa e começa andar de um lado para outro na cela. – Você foi presa por desacato à autoridade! Quer me dizer o que queria daquele policial?
– Ele estava enchendo minha paciência... apenas isso! – retruco, dando de ombros.
– Enchendo sua paciência? – grita Teddy e eu fico surpresa por alguns segundos com seu tom de voz. – Olha, não se isso é novidade para você, mas o mundo não gira em torno apenas da sua vida, ok? Eu precisei voltar à universidade e explicar para Richard que foi apenas um mal entendido o porquê que uma de suas alunas parar na cadeia! – rosna, perto do meu rosto. Eu fico por alguns segundos em silêncio.
– Eu não pedi para você fazer isso... – rosno baixo.
– E precisa pedir, Arizona? – pergunta Teddy, abrindo os braços. – Eu sou sua amiga! E por ser sua amiga, digo que aquilo foi uma enorme estupidez! O que você tinha na cabeça para confrontar um maldito policial? – grita. A loira olha para o lado e vê a policial fazer uma expressão séria com suas palavras. – Sem ofensa! – pede Teddy, dando um sorriso para a mulher.
– Ah... isso tudo é uma bobagem... – rosno, sentando-me no cimento frio novamente. – Isso tudo é um monte de merda! – grito e as prisioneiras gritam junto comigo. Eu dou uma gargalhada alta e isso faz Teddy ir à loucura.
– Sabe... você pode estar mesmo se divertindo com o fato de que você tenha um futuro pela frente com o dinheiro da sua família... – rosna e eu paro de rir imediatamente quando a palavra “família” entra na conversa. – E com o fato de ir mal na faculdade ou não ligar para os estudos, mas eu, na verdade, gostaria de me formar! Deve ser legal ficar pegando mulheres por aí ou bebendo todas as noites e tanto faz... mas eu planejo ter uma carreira! E um namorado ou... namorada, eu não sei! E depois me casar! – grita. Eu seguro outra risada e a loira me dá um olhar mortal. – Então eu lhe implorarei, como sua melhor amiga, que guarde sua altivez para você mesma!
– Altivez? – pergunto, segurando outra risada.
– Eu li isso em um livro de Políticas Sociais. – rosna a loira, se aproximando da cela. No fundo do corredor duas policiais caminham até perto da minha grade.
– Robbins, venha! – grita a mais velha que parecia ser a chefe dali. Meu sorriso morre novamente e encaro Teddy.
– Não... por favor me diga que você...
– Sim, eu liguei para o seu pai. – retruca Teddy, dando de ombros e saindo da cela. – Me processe, fofa! – ela grita, caminhando pelo corredor. Eu rosno e bato a mão na parede do bloco.
– Droga! – resmungo, respirando fundo e saindo da cela.
Estudo as luzes acenderem o número a cada andar que o elevador subia. Mentalmente eu já tentava me preparar para o discurso que iria ouvir daqui alguns minutos. Meu lábio agora estava latejando para apenas complementar minha dor de cabeça. Meu cabelo estava uma bagunça e meu celular descarregado.
Precisei usar o de Teddy para ligar para minha mãe que me atendeu eufórica, ordenando que eu fosse diretamente para a empresa do meu pai. Teddy, depois de me tirar da cadeia, precisou voltar para à universidade, pois as aulas começavam cedo. Já era próximo das sete horas da manhã e eu não havia dormido ainda.
– Oh, meu Deus! – gagueja uma mulher de meia idade, simpática e de cabelos castanhos a me ver sair do elevador. – Arizona, você está bem?
– Sim, eu estou bem Patricia. – respondo, com um sorriso fraco e forçado. Patricia Sydney era a mais antiga funcionária do meu pai e oficial secretária dele. A mulher já me conhecia das diversas vezes parecidas com essa que já sai do elevador.
– O que você fez dessa vez? – pergunta Patricia, me guiando em direção à sala de reuniões que meu pai estava.
– O mesmo de sempre. – sussurro e a mulher balança a cabeça negativamente, mas o sorriso nunca deixava seus lábios.
– Quando você vai tomar juízo, menina? – pergunta Patricia e eu dou uma risadinha cansada.
– Acho que nunca. – respondo.
– Você está péssima e fede à cerveja e cigarro. – retruca, enquanto nos aproximávamos da sala.
– Roubaram meu maço na cadeia. – digo, tentando parecer séria. – Você não tem um por aí sobrando?
– Cale a boca e entre! – responde Patricia, me empurrando de leve em direção a porta. Ela bate no carvalho e dá um passo para trás. – Só tente não provocar um ataque cardíaco em seus pais.
Eu sorrio fraco e adentro na enorme sala. Uma mesa de reunião, que tinha cerca de vinte cadeiras, estava no centro. Inúmeras janelas, por estarmos no vigésimo andar, mostravam toda a cidade de Seattle. Minha mãe estava sentada em uma cadeira e tinha expressão séria, enquanto meu pai analisava a paisagem pela janela com as mãos no bolso de sua calça social. E eu sabia que não seria algo bom pelo fato de nem Sofia e nem Robert estarem ali.
– A família está toda reunida! – sussurro, parando no meio da sala e evitando chegar mais perto. – Só assim para que todos estejam na mesa sala... ou melhor, no mesmo prédio...
– Não me venha com gracinhas, Arizona Robbins! – responde Barbara. Eu engulo seco, sabendo que quando ela citava meu nome completo algo estava completamente errado.
– Eu disse que é do costume dela fazer isso... – murmura Daniel, sem tirar os olhos da janela.
– Eu só vim aqui para saber quanto custou, pois vou reembolsar vocês. – digo, convicta.
– Quanto custou o quê? – pergunta meu pai, finalmente virando-se para mim. Seus olhos azuis parecidos com os meus estavam frios.
– O advogado para me tirar da cadeia. – respondo. Minha mãe choraminga ao ouvir aquilo e uma risada sarcástica sai dos lábios de meu pai.
– Arizona... aquele advogado custou U$450 por hora. – responde Daniel, ainda sorrindo sarcasticamente.
– Pelo amor de Deus... – resmungo baixo, pensando o quanto precisaria trabalhar nos finais de semana no bar do Joe’s para pagar aquilo.
– Nem me fale! – completa meu pai, lançando-me um olhar de soslaio.
Ele caminha e se senta na cadeira na ponta da mesa. Eu caminho até a janela e observo o movimento da cidade enquanto o silêncio vagava pela sala.
– Eu só quero que saiba que não fui eu quem te ligou. – digo.
– Isso não importa! – retruca minha mãe, em uma das raras vezes que eu a via com a voz alterada. – Por que Arizona? Por quê?
– Mãe...
– Não tente virar o jogo! – diz Barbara, se levantando. Só agora com a luz batendo em seu rosto eu vejo o quão infeliz ela estava. – Eu... eu estou cansada, minha filha! Eu estou cansada de sempre alguém telefonar no meio da noite dizendo que você se meteu em confusão! Pelo amor de Deus, quando você vai mudar?
– Ele falou do meu irmão! – grito com todas as forças do meu pulmão, jogando para fora aquilo que tanto doía. Meus pais me encaram por alguns segundos, atônitos. – Todos falam sobre o meu irmão, porque sabem que isso me fere!
– Filha... – tenta falar minha mãe, mas eu a interrompo.
– E você, “pai”... – digo olhando para Daniel e dando ênfase na palavra. – Você não pode se importar, porque desde que Tim morreu... você... você...
– Cuidado com suas palavras, Arizona! – retruca Daniel, se levantando com um supetão. – Não foi apenas você quem o perdeu!
– Você, mais que ninguém, sabe que essa família desmoronou com a morte dele. – sussurro, com uma lágrima fria escorrendo por meu rosto. – E você continua colocando toda a culpa em mim!
– Quer mesmo falar sobre isso, Arizona? – rosna meu pai, apontando o dedo para mim.
– Oh... você quer conversar? – cantarolo, sendo sarcástica.
– Parem! Vocês dois! – grita minha mãe, com a mão no rosto para segurar as lágrimas. – Não foi culpa de ninguém!
– Você realmente precisa aprender a ter boas maneiras, garota! – retruca Daniel, com a voz grave. – Estou cansado de ouvir asneiras saindo de sua boca e eu sempre nunca tive coragem de fazer algo contra!
– Aé? – retruco, com a raiva movendo meu cérebro. – O que vai fazer? Vai se afastar da família novamente? Vai focar no trabalho? Vai me alistar no exército para que eu morra bravamente também?
O maxilar do meu pai trava. Minha respiração estava irregular e minha mãe me encarava com um olhar que eu nunca tinha visto antes... era pura dor. Era eu quem causava dor naquela família.
– Você vai ter o seu castigo, Arizona! – diz meu pai, sentando-se em sua cadeira e pegando seu celular, com o olhar puro ódio.
– Daniel... por favor, não! – implora minha mãe. Eu seguro um sorriso sarcástico.
– Você não terá motivos para rir depois que eu retirar todos os seus privilégios! Por completo! – grita Daniel.
– O que vai fazer? Parar de pagar a faculdade? Você estará me fazendo um favor, obrigada! – retruco, abrindo os braços.
– Não vou parar de pagar sua faculdade, porque se eu fizesse isso, você se tornaria uma sem-teto. – responde meu pai. Eu sinto uma espécie de murro contra meu estômago com a verdade. – Mas você não terá mais nada, não terá mesada, não terá dinheiro sequer para pagar seu maldito apartamento de classe média! Você terá que aprender a trabalhar e ganhar a vida, Arizona Robbins! Como o seu irmão fazia!
– Ah, claro! – rosno, dando uma risadinha fraca. – Porque o seu maior desejo é que eu estivesse morta e ele vivo. – acrescento e viro-me de costas em direção à saída da sala.
– Arizona Robbins, não dê as costas para mim! – grita meu pai, com todas as forças de seu pulmão. – Acha que eu não tenho coragem de fazer isso?
– Faça logo! – respondo, antes de bater a porta com força.
As lágrimas ameaçavam a sair por meus olhos. Vejo Patricia sentada em frente sua mesa de escritório, com uma expressão triste. Eu sabia que ela havia ouvido tudo, na verdade, todo o andar ouviu, pois algumas mulheres e homens me olhavam como se eu fosse uma aberração. E talvez eu fosse...
“Talvez seja eu a dor dessa família”.
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CALLIE PDV
– Mãe... eu sei... – sussurro pela milionésima vez no telefone.
Minha cabeça estava dolorida e eu sequer havia acordado direito. Era apenas 7 horas da manhã e eu não me lembrava de ter chegado ao meu quarto e deitado na cama. Provavelmente quando cheguei sã e salva na universidade, o meu medo se dissipou e eu despenquei na cama do meu quarto.
Addison estava dormindo profundamente na cama do outro lado do quarto. Ainda estávamos na mesma roupa de ontem, exceto pelos saltos espalhados pelo quarto.
– Se você sabe, por que seu pai precisou ir à festa lhe procurar? – pergunta minha mãe do outro lado da linha.
– Eu não acredito! – rosno, com a minha dor de cabeça aumentado a cada palavra que eu pronunciava. “Maldita cerveja”. – Ele realmente foi à festa?
– Sim, foi. E sorte sua por ele não ter lhe encontrado lá! – retruca Lucia. – Você me fez uma promessa, Calliope, e você a quebrou. – ameaça minha mãe. Eu reviro os olhos, cansada.
– Qual é, mãe... eu apena sai com Addison e...
– Oh, claro! Tinha que ser com essa sua amiga! – responde minha mãe, com veneno nas palavras. – É ela quem está te levando para o caminho do pecado, minha filha!
– Não comece com seus discursos cristãos, mãe! – rosno, séria. – Minha cabeça está me matando e não estou com o mínimo interesse de escutá-los.
– Calliope Iphegenia Torres! – ameaça Lucia.
– Eu só tenho uma dúvida... – digo, ignorando seu tom ameaçador. – Como meu pai descobriu que eu não estava na universidade?
– Aria ligou para aí lhe procurando e eles falaram que você tinha saído com Addison do alojamento A. – responde minha mãe e eu fecho os olhos, segurando minha raiva com um sorriso sarcástico.
– Eu sabia que tinha sido Aria! – rosno, tentando diminuir minha voz para não acordar Addison. – Ela simplesmente quer acabar com a minha vida!
– Não coloque a culpa em sua irmã por suas irresponsabilidades!
– Não quero saber sobre o seu favoritismo com a filha mais nova, ok?
– Calliope, trate de ter mais respeito! – retruca minha mãe. – Seu pai está furioso com você! E ele só não lhe procurou ou ligou ainda, pois teme estar com a cabeça quente.
– Claro... foi você quem encheu a cabeça dele com essas bobagens de que eu sou uma pecadora por ser quem eu realmente sou. – digo, com as lágrimas começando a se formar sempre que aquele assunto era tocado.
– Não quero entrar nesse assunto, minha filha. – murmura Lucia. – Que tal reunirmos nesse final de semana para rezarmos? Tenho certeza que Jesus irá ajudar você.
– Não, obrigada. – respondo, tentando não ser rude. – Tenho que estudar nesse final de semana.
– Então reze aí, sozinha, tudo bem? – pede minha mãe e eu inspiro fundo para não falar algo que fosse me arrepender.
– Tudo bem. – digo. – Eu... eu preciso ir... às aulas já voltaram ao normal e eu tenho classe agora cedo.
– Fique com Deus, minha filha! – diz minha mãe.
– Que Ele também fique com você. – respondo antes de a linha ficar muda.
Passo minhas mãos por meu rosto cansado até meus cabelos. Abraço meus joelhos, sentada no meio da cama de solteiro. “É realmente pecado se sentir presa a algo que não sou?” meu cérebro questiona, martelando-se na dúvida.
Lembrava-me muito bem das inúmeras missas que minha mãe me levara depois que descobrira sobre me caso com Erica. Ela dizia que era o único jeito de retirar o pecado do meu corpo. E foi por isso que eu me tornei, Callie Torres, a menina que fica no fundo da classe comendo cabelo.
Decidida em me retirar daqueles pensamentos, eu pulo da cama e vou em direção ao guarda-roupa para pegar algumas coisas para tomar um banho antes de descer para o café da manhã. Mexo no ombro de Addison, alertando-a antes que fosse tarde demais. A ruiva resmunga alguma coisa parecida com “eu desço mais tarde” e eu suspiro, desistindo de acordá-la.
Algumas mulheres caminhavam pelos corredores e todas sussurravam alguma coisa. Eu sabia que não era sobre mim, porque felizmente ninguém sabia que eu era filha do policial que provavelmente havia terminado com a festa de Derek ontem. E eu queria me manter invisível desse jeito.
Eu estava ali para me formar e virar uma médica. E nada e nem ninguém iria atrapalhar isso para mim. Ninguém.
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ARIZONA PDV
Eu caminhava pelos corredores, cabisbaixa. Usava meu óculos de sol escuro, para tentar diminuir a incidência dos raios claros na minha retina. Mesmo depois de tomar um remédio, minha cabeça continuava a latejar... assim como meu lábio. Detalhe que todos que passavam por mim notavam e comentavam.
Não era necessário ser perceptiva para saber que eles estavam falando de mim a cada esquina. Alguns falavam do meu envolvimento com drogas no passado, outros falavam sobre a corrida que perdi, outros falavam até sobre a humilhação que aquele policial me submeteu.
Minhas emoções estavam uma bagunça, mas um sentimento sobressaía a todos... a raiva. Eu estava com raiva daquele maldito policial, eu estava com raiva de Preston Burke, eu estava com raiva dos meus pais, eu estava com raiva de mim. E odiava o fato de qualquer fofoca pelos corredores daquela universidade se tornasse a notícia do mês.
– Tome... – a voz de Teddy ecoa no meu ouvido esquerdo. Eu viro o rosto e vejo a loira com um sorriso amigo oferecendo um copo de café quente. – Você precisa disso mais do que eu.
– Obrigada. – respondo, tentando sorrir, mas meu lábio estava dolorido.
– Você está bem? – pergunta Teddy, receosa.
– Sim... – sussurro. – O seu discurso dentro da cela da prisão me encorajou bastante.
– Droga... eu não sei o que estava pensando quando falei aquilo... me desculpe!
– Não, não peça desculpas... – retruco, colocando a mão em seu ombro. – Eu sou mesmo uma idiota.
– Seu lábio precisa de pontos? – pergunta Teddy, analisando meu rosto. – Quer que eu suture isso?
– Não é porque você está na faculdade de medicina que vou deixar você me costurar. – retruco e a loira sorri. Mas seu sorriso aos poucos diminuiu e eu sabia que algo a incomodava. – Ainda estão comentando sobre mim, não é?
– Eu me sinto mal por isso... – suspira Teddy. – Você é a única pessoa aqui nesta universidade que eu realmente sou amiga e eu não gosto que falem assim de você... – diz, me dando um olhar triste. – Ou te olhem...
– Do jeito que você está me olhando? – pergunto e a loira balança a cabeça negativamente o mais rápido possível, mas eu dou um sorriso triste para tentar tranquilizá-la. – Está tudo bem, Teddy. É sério! Eu... eu cresci gay. Eu sei quando as pessoas estão encarando. E é claro que eles me encarariam... uma mulher que perdeu o irmão, estava envolvida com drogas, corridas e agora... uma ex-presidiária. Então... eu sei quando eles estão encarando.
– Me desculpe... – sussurra Teddy.
– Tudo bem. – respondo, com um suspiro cansado. – Vamos... quero entrar na sala de aula antes de todos para evitar mais olhares.
Ela me oferece o braço e eu aceito, os entrelaçando. Eu agradecia mentalmente por ter uma amiga igual a loira, pois eu sabia que seria difícil passar por aquilo sozinha. E independente da bobagem que eu fizesse... Teddy sempre estaria lá.
Entramos na sala e seguimos o caminho do canto esquerdo em direção às carteiras no fundo. Era aula de Políticas Sociais, matéria que apenas servia para aumentar créditos. Olho no meu celular e ainda faltavam cinco minutos para o início da aula. Não havia nenhum sinal de ligação não atendida. “Grandes amigos...” meu cérebro caçoa, ao ver que ninguém ligara para saber como eu estava.
Da carteira em que eu me sentava eu podia observar o pátio através da janela, e eu estava decidida em me perder em pensamentos naquele tempo restante, mas algo através do vidro me chama atenção. Meu sangue gela.
– Arizona, o que foi? – a voz de Teddy ecoava ao longe, mas tudo o que eu conseguia fazer era olhar o homem moreno do lado de fora no pátio universitário. Teddy caminha até perto de mim e também vê Preston Burke sinalizando para que eu saísse do prédio principal. – Como ele entrou aqui?
– Eu não sei. – sussurro, ainda questionando-me o que fazer.
– Você não vai sair, não é? – pergunta Teddy. O moreno apontava para a direção do estacionamento e eu continuava congelada observando-o.
– Ele não vai me deixar em paz enquanto eu não falar com ele. – digo, virando meu rosto para estudá-la.
– Você vai perder essa aula, Arizona! Você precisa de...
– Eu preciso de créditos para passar de ano, eu sei. – rosno, levantando-me da carteira e pegando meus livros. – Pode deixar que com meus créditos eu me viro depois. Preciso resolver um problema de cada vez.
– Então eu vou com você! – retruca a loira, pegando seus livros também.
– Não. Não vou lhe prejudicar mais...
– Ele não está chamando só você. – a voz masculina de Alex vem da porta. Vejo atrás dele George e Mark também. Eu analiso a situação por alguns segundos, confusa. – Ele quer todos.
– O que ele quer com todos nós? – pergunto, caminhando até perto da porta.
– Provavelmente o prêmio dele. – retruca Mark.
– Eu não vou entregar minha moto. – rosno. Minha moto estava no estacionamento da universidade, pois precisei dela para voltar.
– Não é atoa que ele está apontando para o estacionamento. – responde Teddy. Eu respiro fundo e ando com meus amigos em direção à saída do prédio principal. Descemos as escadas no sentido contrário que os alunos subiam.
Eu observava seus rostos, alguns felizes, outros concentrados em apenas estudar. Questionava-me mentalmente o que eu tinha feito para não ter um futuro como aquele. E eu só sou resgatada de pensamentos quando, desastrada, sinto meu corpo bater contra outro corpo na minha frente. Escuto o barulho de alguns livros caindo no chão e um resmungo baixo. Agacho-me imediatamente para ajudar a pessoa. Pego alguns livros e levanto meu rosto.
A morena que seguia Addison para todos os lados estava na minha frente. A mesma que havia ouvido eu e Leah no banheiro, ou até a mesma que havia me empurrado da porta do banheiro na festa de Derek. Meu cérebro a reconhecia de algum lugar, mas seu nome não me vinha à cabeça. Ela não era novata, mas... eu não conseguia me lembrar.
– Me desculpe... – sussurro, entregando-lhe os livros que havia pegado. A mulher ainda me encarava, mas seu olhar era indecifrável. A tonalidade deles era algo próximo de um chocolate, tornando-os atrativos de se olhar. – Eu sou meio... desastrada.
Com certa brutalidade, a mulher pega seus livros da minha mão. Eu sequer tive tempo de questioná-la se realmente havia ficado magoada com a trombada, pois segundos depois ela já estava de pé ainda me olhando com certa... raiva.
Eu fico de pé também e a observo sair às pressas em direção ao segundo andar do prédio. Eu balanço a cabeça, tentando-me livrar dos pensamentos e só assim percebo que Mark, Teddy, George e Alex me encaravam, confusos.
Eu faço um movimento banal com as mãos, pedindo-lhes que ignorasse o que havia acabado de acontecer. Mas, mesmo assim pude ouvir piadinhas vindas de Mark. Saímos do prédio principal às pressas. E não demorou muito para que estivéssemos na entrada do estacionamento. Preston estava debaixo de uma das árvores do pátio com Christian ao seu lado e nenhuma de suas expressões eram boas.
– O que você quer, Preston? – pergunto, séria. – Vamos direto ao assunto, porque eu tenho aula.
– Oh claro, a filha de papai vai virar médica um dia. – retruca o moreno, e eu vejo a raiva em sua voz. – Junto com seu grupo fantástico.
– Não vim aqui para ouvir asneiras, Burke. – retruca Alex, cruzando os braços na frente do corpo. – Desembuche!
– Eu vim aqui para pegar o que é meu... – responde Preston, sorrindo.
– Se você está falando daquela moto ali... – digo, apontando para a minha T-100 Triumph do outro lado do estacionamento. – Sinto muito, mas você fez uma viagem em vão. Na verdade... eu estou bastante curiosa para saber como você entrou aqui se não é estudante.
– Eu tenho meus métodos, não se preocupe com isso. – retruca Preston, dando um passo à frente. – Agora... eu quero o meu prêmio.
– Eu não vou lhe dar a minha moto! – rosno, perto do seu rosto. – Eu não vou pagar por algo que você fraudou!
– Aceite perder! – diz Preston, dando uma risada sarcástica. – É tão feio quando alguém não aceita uma derrota...
– Eu aceitaria a derrota se fosse justa! E não foi! – retruco.
– Então estamos em um impasse, Arizona Robbins. – responde Preston Burke. Ele sorri, mudando de humor rapidamente. – Eu sabia que você não daria a sua moto tão facilmente, então... digamos que eu tenha algo contra você que não gostará muito. Eu posso não estudar aqui, mas... eu sei as regras dessa universidade. E afirmo que você tem um caso com uma professora.
– O que... – sussurro, com meu maxilar travando. – Como...
– Não importa. – retruca o moreno, retirando uma foto do bolso de trás. – Olhe...
Eu a pego de sua mão e meu sangue gela. Era eu e Lauren nos beijando contra uma parede. A loira estava em uma posição tanto... comprometedora, com uma perna ao redor da minha cintura e eu beijando seu pescoço. Aquilo havia acontecido meses atrás dentro do laboratório. Minhas bochechas coram institivamente em imaginar uma foto assim com aqueles homens. Os dois dão uma risadinha e Burke pega a foto de volta.
– Não pense que essa é a única cópia... – diz o moreno, guardando-a no bolso novamente. – Espero que você esteja ciente que isso acarretará a sua expulsão e a demissão da professora Lauren Boswell.
– O que você quer de mim, Preston? – rosno baixo, tentando controlar minha raiva. Eu não podia ser expulsa... eu não podia trazer mais um desgosto para a minha família. – Você quer minha moto? Tudo bem... leve-a agora! Mas destrua essa maldita foto! – grito. Meus amigos continuavam em silêncio ao meu lado. Burke solta uma risada cínica e eu fecho os punhos.
– Que droga, Burke! – grita Teddy, perdendo a paciência. – Diga logo o que quer de nós!
– De vocês? De vocês eu não quero nada, apenas o testemunho desse momento. – retruca Preston, sorrindo. – O que eu quero depende de Arizona.
– Do que você está falando? – sussurro, confusa.
– Eu quero que você se vingue de uma pessoa para mim. – responde Preston. – Eu quero que você se vingue de Callie Torres.
– Quem? – pergunto, franzindo o cenho.
– Callie Torres? – pergunta Mark, assustado. – O que ela te fez?
– Quem é Callie Torres? – pergunto, confusa.
– Ela é amiga de Addison Montgomery. – responde Teddy, também apreensiva. Eu engulo seco. “Por que diabos essa mulher estava na minha vida desse jeito?”
– Por que ela? – pergunto, virando-me para Burke que observava tudo com um sorriso doentio. – Ela é heterossexual, não é?
– Acredite em mim... ela não é! E eu tenho vários motivos para fazer isso, mas o mais forte é que ela é filha do policial Carlos Torres. – responde Burke e minha expressão muda. – Ou mais conhecido por nós dois como Oficial Torres.
– O policial de ontem? – sussurro, com meu estômago apertando em raiva.
– Sim. – diz Burke. – Depois que você foi levada para a delegacia ele prendeu a minha caminhonete e o carro de Christian. E como não sou filho de um empresário rico como você... irá custar caro para retirá-la de lá. Então eu quero que pelo menos alguém daquela família sofra. Por isso estou lhe entregando esse pequeno desafio... aposta... chantagem... chame como quiser.
Minha cabeça estava a mil por hora com o rosto daquela mulher na frente dos meus olhos e depois consequentemente o de seu pai. Passo minha língua por cima do corte em meu lábio inferior apenas para que a dor voltasse e eu me lembrasse do que realmente tinha acontecido. Burke ao ver meu silêncio continua.
– Eu quero que use seus poderes em cima dela... – diz o homem, olhando para mim como se eu fosse uma arma. – Eu quero que você a seduza, eu quero que a faça confiar em você e depois eu quero que a humilhe do mesmo jeito que o pai dela fez com você. Ela é o tesouro dele e se quer atingi-lo será através dela que conseguirá fazer isso.
– Eu... eu... – gaguejo, tentando organizar meus pensamentos, mas era quase impossível pensar em algo racional. – Eu não faço esse tipo de coisa...
– Você seduz mulheres e as faz irem para cama com você. – retruca Burke, erguendo uma sobrancelha. – Especialmente Lauren que é... casada.
– Divorciada. – corrijo, olhando-o com raiva.
– Tanto faz... – retruca o homem. – A foto prova tudo!
– Eu não vou fazer isso com essa mulher... – rosno, convicta. – Ela não tem nada haver com isso!
– E o que você conhece dela? Nada! – rosna o moreno.
– Eu não vou fazer isso! – retruco, séria. – Ela não merece!
– Então você vai perder sua moto, sua faculdade e o resto de confiança de sua mãe. – diz Burke, cerrando os olhos. – Oh, sua mãe vai ficar devastada com isso...
– Cale a boca! Não ouse falar da minha mãe! – grito, indo em direção do homem com os punhos fechados, mas sinto pares de mãos fortes me segurarem por trás.
– Arizona, pare! – pede Mark e ao seu lado estava Alex e George.
– Me soltem! – grito, tentando me livrar de suas mãos. Eles me soltam, certificando se eu ia novamente ameaçar atacar Preston. – Não toque no nome da minha família! – rosno, apontando o dedo no rosto de Burke.
– Então lhe faça o que foi mandado! – retruca o moreno.
– Você não me dá ordens! – grito.
– Arizona, qual é! – retruca Alex. – Faça o que lhe foi mandado! Ela é apenas mais uma mulher!
– Se você se esqueceu, Alex, eu também sou uma! – rosno, séria. – Eu não brinco com sentimentos! Eu não brinco com outras mulheres! Já basta os homens fazerem isso...
– É aí que você está errada, Arizona Robbins. – interrompe Burke, com a voz fria. – Você é a mais experiente no ramo. E, lamento lhe dizer, você não tem muitas opções agora e minha paciência está chegando ao fim. E como prova que sou um bom amigo, lhe darei um tempo para decidir seu futuro... que tal... até a hora do almoço? Ainda estarei rondado por aqui. Quem sabe Richard Webber não tenha uma surpresa na sua mesa de escritório junto com seu almoço?
Eu estudo o homem com a expressão séria. A foto ainda estava em seu bolso. Meu futuro estava no bolso de trás do seu jeans surrado. Minha respiração estava irregular e a raiva e outros mais sentimentos fluíam pelo meu corpo. Uma voz irritante gritava na minha cabeça que aquilo era algo errado. Burke ao ver minha luta interna dá um sorriso doentio e quase vitorioso.
– Chame isso de pacto com o inimigo. – diz Preston Burke, calmamente.
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