Segundas Chances
14 Fantasma
Notas iniciais
Isabella
Minhas pernas tremiam e o único som além dos meus passos descoordenados, eram os gritos de James.
O som estava cada vez mais distante, afastando-se e abafando-se enquanto eu corria.
Eu sabia que não tinha muito tempo, aquele tiro não manteria James no chão para sempre. Eu queria me xingar por nunca ter aprendido a atirar, mas teria que fazer isso depois.
Mal tivera tempo de pensar sobre o cenário que deixara para trás. O chão claro, agora continha manchas do sangue de James, mais precisamente da sua perna direita, onde eu havia acertado. Haviam também fios de cabelos grudados no líquido pegajoso. Aquele vidro tinha cortado uma boa parte do meu cabelo.
Mas eu não ligava, não ligava que tinha atirado em um homem, ou destruído meu cabelo e a pele da minha bochecha. Eu estava livre. Ou poderia ficar.
As escadas pareciam não acabar, e quando cheguei ao primeiro andar, soltei um suspiro cansado. Eu não era atlética o suficiente para algo assim. Porém, a adrenalina teria que me ajudar.
No desespero, quase bati de cara na porta da frente do prédio, rapidamente retornei, achando o botão que abria a porta eletrônica, pronta para correr pelas ruas escuras a procura de um caminho para sair de onde estava.
Edward
O endereço era no bairro nobre da cidade, as ruas já estão iluminadas por postes de luzes amareladas e nada mais se ouvia ali. As casas estavam quase todas apagadas, a maioria das famílias dormindo para se preparar para um novo dia da semana.
Os seguranças estavam em dois carros, seguindo-me em velocidade lenta, faltava pouco para chegar no tal prédio. Eu rezava baixinho enquanto me preparava para mais uma investigação.
" É o prédio a frente, chefe"
Quase pulei de susto ao ouvir a voz de Roger soar pelos altos falantes. Sem respondê-lo, parei o carro um pouco antes de chegar a frente do endereço e segurei firme no volante.
Ela estava ali, tinha que estar.
E estava.
Meus olhos não acreditavam no que viam, Bella saía esbaforida e confusa do prédio elegante ao mesmo tempo que eu descia do carro.
Corri ao seu encontro e ela arregalou os olhos, segurando um grito.
— Não chegue perto ou eu atiro! — ela gritou.
Rapidamente, tirei o capuz do casaco velho que usava e levantei as mãos. Bella apontava uma arma diretamente para meu peito e tentava controlar a tremedeira que estava presente em todo o seu corpo.
— Edward? — ela perguntou.
— Sou eu. Bella meu amor, sou eu. — respondi calmamente.
Eu não fazia ideia pelo que Bella esteve passando por todo esse tempo e muito menos quanto isso tinha afetado-a. Ela apontava uma arma diretamente para meu peito, enquanto tentava controlar a tremedeira.
— Edward! — ela gritou e abaixou a arma.
Ela continuou parada no mesmo lugar, olhando-me como se eu fosse apenas um fruto de sua imaginação.
— Sou eu. Sou eu, está vendo? — me aproximei calmamente dela, olhando-a intensamente.
Ao longe, pude ouvir gritos de James e xinguei por isso. Ela ficaria mais assustada.
De repente, algo mudou em seus olhos. Ela pareceu se dar conta do que realmente estava acontecendo e correu em minha direção. Em segundos, Bella estava em meus braços. Ela me apertava forte e respirava perto do meu pescoço. Mas não havia lágrimas, não havia sequer um ruído. Apenas sua respiração e o cheiro de sangue.
Afastei um pouco seu corpo para poder avaliá-la. Seu lado direito do rosto estava vermelho e pegajoso, assim como seu cabelo cortado. Ela sangrava, mas não o suficiente para tantas manchas vermelhas em sua roupa.
Isabella
Eu não reconhecia meu próprio reflexo, meus movimentos e reações eram incomuns, não reagia mais como a antiga Isabella. Talvez eu fosse realmente outra.
Uma parte tola de minha mente chegara a achar que a situação de ameaça constante pela qual eu passara não mudaria nada. Não me assustaria. Não me deixaria sequelas.
Tinha certezas em meio a dúvidas. Como por exemplo Edward, eu o amava. Isso era uma certeza. A questão era porque não conseguia mais ser a Isabella que o fazia sorrir? Talvez, estivesse afundada demais em minha consciência para perceber a quanto era uma má atriz.
Eu não havia tido pesadelos ou crises de choro, nada aparente demais. Quem não era próximo a mim, jamais perceberia o quanto eu andava estranha. A Isabella que voltara daquele apartamento era muito observadora. Avaliava situações e pessoas, cada movimentos de terceiros era motivo de uma segunda olhada.
Eu manipulava todos os alimentos da casa, minuciosamente. Gostava que Edward me tocasse, mas não sempre.
Eu queria ter cem por cento de controle sobre tudo relacionado a mim mesma.
Acontece que, quando se ama e assume um compromisso não só com seu parceiro, mas com si mesma, a doação é inevitável. É esperada. É desejada. E precisa ser atendida.
Para um casal ser feliz, não adiantava cada um ser cem por cento feliz só com si mesmo. Era preciso aprender a alcançar a felicidade juntos, para assim ter uma relação saudável.
Olhando para Edward enquanto ele dormia, havia entendido que precisava livrar nós dois de um fantasma. Um fantasma que estava ocupando meu corpo desde de que eu escapara daquele sequestro.
Edward
Isabella estava sentada em uma cadeira de salão de beleza. Seus olhos verdes vagavam por todos os objetos ao redor. E seu cabelo se dividia entre um lado curto e espigado e outro longo.
Seus olhos não encontravam os meus em nenhum momento e aquilo me fazia pensar no quanto ela estava guardando para si.
Até agora não conseguia acreditar o quão perto ela havia ficado de levar um tiro ou até mesmo de ser abusada. Nunca conversara com uma mulher vítima de abuso sexual, mas quando atuava no mundo do crime, muitas prostituas frequentavam o mesmo meio que eu. Elas diziam — a quem ousava perguntar — o quanto doía, o quanto custava de quem elas eram. Algumas diziam até ter pedido pela morte.
E saber que Isabella estivera próxima de tal situação e violação, me enervava tanto quanto enojava. Ninguém deveria tocar em outro alguém sem o devido consentimento.
Somos donos de nossos corpos, nossa intimidade e nenhuma cabeça saudável ou doente poderia se sobrepor a isso.
***
Isabella havia escolhido seu novo corte de cabelo. A cabeleira se referiu a ele como “Chanel”. E eu tinha que confessar, eu estava um pouco abismado.
Ela estava linda, com a expressão suave, parecendo mais livre.
Eu gostaria que Isabella não só parecesse assim, como se sentisse assim.
— Você está linda – sussurrei com o rosto próximo ao seu. — Entende?
Isabella
Eu entendia.
Já havia algum tempo que conseguia compreender as palavras ocultas de Edward.
Eu também me sentia melhor ao ver uma Isabella diferente, como também sentia saudades do homem a minha frente. Queria que ele soubesse o quanto eu o amava. O quanto eu era agradecida por sua compreensão e ajuda.
Ao chegarmos a casa, fui até o espelho, olhar minha nova aparência mais uma vez.
Meus cabelos agora curtos continuavam em sua cor original escura. Meus olhos verdes, estavam brilhosos apesar de tudo e uma cicatriz fina e rosada estava em minha bochecha. Eu gostava dela. Fazia-me sentir forte.
Dizem que o exterior não importa. É verdade, não importa como um todo, mas ajuda.
Eu não era a única e nem seria a última a passar por traumas. Só tinha que ter consciência de que, sofrer ou sucumbir as sensações que eles me traziam, não resolveria nada. Pelo contrário, só dificultaria o processo de voltar a seguir com a minha vida.
Eu queria seguir em frente. Em frente a um desejo que poderia se tornar realidade. Em frente a minha superação.
Eu queria muito. Queria mais que tudo que poderia pensar. Mas, como deixar tudo ficar para trás, sabendo que o único que eu já havia ferido e o único ser que me enojara de formas grandiosas, estava foragido? Pronto para agir novamente contra todos que eu amava?
Eu não sabia. Não fazia ideia de qual seria seu próximo passo. Mas, tinha certeza de que na próxima vez que me encontrasse com James, eu não estaria despreparada.
Não.
Estaria pronta para lutar por mim mesma.
E Charlie que estava a espreita para me surpreender, seria surpreendido.
Duas semanas depois
Rosalie me encarava em choque. Não demorou muito para que ela viesse me visitar. Assim como Alice que exibia uma expressão de preocupação.
Certamente as duas deveriam achar que eu estava louca. Talvez estivesse, mas estava certa e elas sabiam disso também.
— Eu já posso prever a reação do Edward. Isso não vai acabar bem. — Alice falou.
— Ele vai ter que entender… Eu preciso disso. — respondi prontamente.
Foram dias e mais dias pensando no que fazer para me sentir mais segura, em como eu poderia estar mais preparada para situações futuras.
— Bella… De verdade, sinto muito que precise disso para se sentir segura. Eu gostaria que você nunca tivesse passado por todo aquele horror. — Rosalie passou as duas mãos pelo rosto e pela expressão concentrada em seu rosto, ela estava tentando controlar as lágrimas.
Rapidamente, levantei-me e sentei ao seu lado. O restaurante onde estávamos estava quase vazio por conta do horário tarde.
— Obrigada Rose, de verdade, mas… Sofrer pelo que já foi, não adianta. Eu preciso pensar no que pode acontecer.
— Não vai acontecer mais nada. A polícia está atrás do James e o Charlie está sendo investigado. — Alice falou enquanto dava um gole em seu suco de laranja.
— Você não pode estar falando sério. Eu já passei da fase de acreditar na polícia, Alice! — exclamei.
— Bem, resolver com as próprias mãos nunca acabou bem! — aumentou o tom de voz.
Eu entendia que Alice estava preocupada e agradecia por isso. Mas eu não poderia mais ficar sentada esperando as coisas acontecerem. Nem que alguém me protegesse.
— Pode ser a minha única opção!
Alice me fitou e respirou fundo, suavizando a expressão.
— Eu sei, desculpa. — ela estendeu a mão em minha direção, a qual peguei, apertando levemente.
— Você vai conversar com ele hoje a noite? — Rose perguntou.
— Sim. — afirmei.
— Vou preparar o Emmett. Provável que o Edward vá ligar para ele.
Eu ri alto e a abracei de lado.
— Eu sempre soube que vocês dois iam… — comecei.
— Há! Cala a boca, Isabella. Nem mais uma palavra. — ela riu.
Rosalie e Emmett começaram a se envolver um pouco antes do meu sequestro. Os dois não aguentavam ficar no mesmo espaço sem provocar um ao outro. Basicamente, quase todo mundo ao redor achava que eles teriam um caso. E estavam certos.
— Estava na cara – Alice provocou. — Era muito tesão reprimido.
— Não estava! — Rose rebateu. — Parem, vocês duas!
— E ai? Ele ainda te chama de “CreepWoman” na hora H? — perguntei com a expressão séria, abrindo um largo sorriso quando ela me encarou incrédula.
— Isabella! — ela gritou. E todas nós rimos.
Era ótimo falar besteira para variar.
Edward
Bella estava estranha novamente, pensativa e com olhares furtivos em minha direção. Certamente que tinha algo a me contar e pelo seu hesitar, não era algo que ela achasse que fosse me agradar.
Acontece que eu sabia que ela ainda estava sensível por tudo que aconteceu e eu respeitava demais toda a situação para que me deixasse exaltar por algo que estivesse me incomodando.
Eu sentia que a minha Bella ainda não tinha voltado para casa, e sabia também que talvez ela nunca voltasse. Tudo bem por mim, eu não me importava de que ela já não fosse a mesma, desde de que estivesse feliz. Desde de que, conseguíssemos levar as coisas adiante.
De duas semanas para cá, ela estava mais leve. Sorria mais, brincava mais e me permitia chegar mais perto de seu corpo e pensamentos. Eu tentava fazer o máximo que podia por ela.
Havíamos explorado tudo o que aconteceu naquele apartamento, ela havia me contado passo por passo de seus dias com James. Eu havia odiado cada detalhe. Ela havia comido com medo, dormido com medo e passara os dias com medo, não só por ela, mas por nosso bebê. Isso marcava uma pessoa, eu sabia.
Conseguia entender porque ela gostava de dormir tão apertada em meus braços, porque ela olhava duas, três e até quatro vezes todo o alimento que ia comer e todo líquido que ia sorver. Eu gostaria que ela não sentisse que precisava fazer isso, mas depois de tudo que ela havia passado, como poderia dizer algo contra sua preocupação? A resposta era simples, eu não podia. Tinha que dar o meu apoio no que ela precisasse.
— Edward? — sua voz doce interrompeu meus pensamentos.
Virei-me até estar frente a frente com ela. Fitando sem pausas seus olhos verdes.
— Oi, querida. — respondi.
Ela se aproximou mais de mim, até estar com os braços ao redor do meu corpo, devagar, seu rosto se inclinou até que seus lábios tomassem conta dos meus. Ela me beijou como há muito tempo não fazia, com calma, suavidade, como se estivesse sentindo tudo pela primeira vez.
Aquilo me preocupou.
O que estava passando em sua mente?
— Você vai adiar muito? — perguntei com a voz em súplica.
Ela se afastou e riu.
— Não. Eu só estava… Passando os pensamentos para palavras. — deu de ombros.
— Vamos lá, bote pra fora. — estimulei.
Bella soltou-se dos meus braços e sentou na poltrona azul-claro que havia na sala, juntando as mãos e me encarando séria.
— Tem dias que tenho pensando em como poderia me sentir melhor. Mas não foi fácil chegar a uma conclusão. A verdade é que tiveram várias coisas naquele apartamento que me incomodaram, eu não sabia me proteger, não sabia o que deveria falar e muito menos como poderia escapar. Tudo que aconteceu foi por instinto e sorte. E eu não posso contar só com isso se houver uma próxima vez. — ela gesticulou com os braços e me lançou um olhar intenso quando fiz menção de me pronunciar — Ninguém nunca vai poder me dizer que não corro perigo, não mais Edward! Já aconteceu uma vez, não custa nada para uma segunda! A questão é: Eu descobri o que me fará melhorar, eu quero estar preparada de verdade se precisar, não só em caso de sequestros, mas em qualquer caso de risco. Primeiro, eu quero entrar em um curso de defesa pessoal e segundo, quero que você me ensine a atirar. — ela finalizou, cruzando os braços.
Eu tinha que admirar a capacidade dessa mulher de me deixar sem palavras. Puta que paril! Aprender a atirar, ela havia enlouquecido?
Não importava o quanto ela parecesse estar convicta de que se tornar uma super heroína ia resolver as coisas, isso não aconteceria. Isabella nunca mais ficaria exposta da forma de antes, eu a protegeria como deveria ter feito desde de que soube que Charlie estava a solta. Não haveria erros desta vez e se alguém tivesse que atirar, esse alguém não seria ela.
Bella já havia atirado em James uma vez e me confessara de que gostaria de tê-lo matado. O que ela não entendia era que, se sem um peso de assassinato nas costas ela já tinha adquirido sequelas… Eu não gostaria nem de imaginar o que sobraria de Bella se tivesse mais do sangue de James nãos mãos. Ela não entedia o que era matar uma pessoa de fato.
E eu nunca deixaria que Bella tivesse aquele destino.
— O dia que você aprender a matar uma pessoa Isabella, eu não me chamo Edward Cullen.
Fale com o autor