Segundas Chances
1 Assalto
Notas iniciais
Isabella
Estava olhando diretamente para a diretora da minha faculdade de contabilidade, a qual me encontrava no primeiro semestre. Ela pediu para que eu desabafasse, mas não conseguia.
Então sua grande ideia veio. "Escreva jovem mocinha"
Peguei a caneta e a girei entre meus dedos, mordendo os lábios. Tudo bem, eu podia fazer isso.
"Meu nome é Isabella Swan, 17 anos. Recém-formada no Ensino Médio. Estou no primeiro semestre da faculdade de Contabilidade. Tenho um emprego — se é que pode chamar isso de emprego — em uma lanchonete no subúrbio da cidade, meu patrão é um pé no saco que não sabe nem calcular um mais um, minha colega de trabalho é Stripper na boate da rua de cima aos sábados à noite, os clientes são do tipo daqueles velhos que jogam dominó na praça às cinco da tarde. E porque trabalho nessa espelunca? Tenho um pai que bebe mais do que respira e uma mãe que não quer nada da vida a não ser brigar com meu pai quando ele chega do boteco da esquina. Os dois me odeiam. Porém, sou eu quem segura as pontas em casa. Aluguel, comida, remédios e as demais necessidades."
Isso era o máximo que conseguia. Entreguei-lhe o papel e ela levou alguns minutos para me olhar de volta. A senhora de meia idade, suspirou e pegou uma grande pasta, onde logo vi que havia uma foto minha e meu histórico escolar. Ela avaliou minhas notas por alguns minutos e logo depois pegou um carimbo que estava em sua gaveta. Rapidamente a minha folha recebeu um grande carimbo de "Bolsista" em quase toda a sua folha.
Arfei de surpresa e arregalei os olhos. Ela me deu uma bolsa. Cacete!
Chocada e agradecida, apertei sua mão e saí de sua sala. Sim, eu tinha uma vida de merda, mas ao menos, alguns milagres aconteciam de vez em quando.
***
E aqui estou eu no meu amado emprego, esperando dar meu horário para poder ir pra casa, nem uma mosca morta entra na lanchonete. Como se fosse para contrariar meus pensamentos, a porta abriu, fiz minha cara de miss simpatia, mas logo meu sorriso se desfez. Não era aquilo que eu estava esperando.
— É o seguinte, garota... Passa tudo! — o rapaz disse vindo ao meu encontro.
Wow! Por essa eu não esperava! Um assaltante, mas o que era aquilo? Uma arma de brinquedo? O cara só pode estar de brincadeira! Os filhos da minha vizinha brincavam com uma daquelas.
Pensei comigo mesma sem respondê-lo. E então comecei a observá-lo.
Era um rapaz alto, bonito mesmo que provavelmente fosse um drogado, pele branca, olhos claros, com um cabelo numa cor escura estranha.
Mas porque eu estou reparando tanto? Ele está te assaltando, Isabella! Meus pensamentos me situaram na realidade.
— Tá esperando o que? Vamos! Passa a grana toda!
— Calma meu senhor, eu... — ele não me deixou terminar a frase.
— Senhor o cacete. E não tenho todo tempo do mundo!
— Tudo bem, está aqui. — Entreguei-lhe um generoso bolo de cédulas. E eu sentia as palavras agora saírem trêmulas e automáticas pelos meus lábios.
— Você deve estar brincando. Eu disse a grana toda! — ele se exaltou de repente. — Qual parte do assalto você ainda não entendeu?
Aquilo estava começando a me irritar.
— Você e sua arma de brinquedo vão fazer muitos estragos, o que tem ai? Água? — disse cruzando os braços.
Ele abriu a boca para me responder, porém, outro rapaz alto e com uma aparência rústica entrou na lanchonete, ele tinha uma cara mais séria e segurava um revólver.
— Cadê a Grana? — ele perguntou sem enrolações.
Em uma das mãos ele possuía um revólver e apontou-lhe direto para o cara que acabara de me assaltar. Fiquei sem reação.
— Aqui! — disse e entregou todo o dinheiro que acabara de me roubar. O outro cara pegou o dinheiro com agressividade e saiu da loja sem dizer mais nada.
O assaltante de olhos verdes, me fitou e suspirou. Eu deveria estar com cara de apavorada, na certa.
Edward
A garota parecia apavorada, apesar dela ter descoberto sobre a arma de brinquedo, que não era a primeira vez que acontecia, não era lá muito reconfortante essa situação.
— Ele ia mesmo atirar em você, não é? – ela disse ainda olhando para porta.
O certo seria não respondê-la e a ameaçá-la para que ficasse em sigilo. Mas eu não conseguia, estava cansado dessa vida, não que já estivesse nessa há muito tempo. Mas as coisas sempre foram complicadas para mim e eu não tive e não tenho outra escolha.
— Se eu não desse o dinheiro, com certeza.
Virou-se pra mim surpresa, ela não esperava uma resposta de minha parte.
— Por que está nessa?
— Não te interessa. — respondi friamente.
— Sabe a minha vida também nunca foi fácil, pelo que posso ver a sua também não é — ela disse olhando-me.
Vendo que eu não responderia ela continuou.
— E então pra que a arma de brinquedo? — ela disse rindo.
O quão louca era aquela menina? Eu não faria nada, mas como ela poderia rir com um cara que a assaltou? E se eu tivesse alguma arma de verdade?
— Para o que uma arma serve? — perguntei em ironia.
— Essa aí? Só se for para cuspir água. — Foi impossível não soltar um riso irônico.
— Mesmo sem ela, você não é párea pra mim. Eu não me garantiria muito se fosse você.
A garota parecia ter no máximo dezesseis anos, era pequena e com um rosto um tanto angelical, apesar de cansado.
Sua expressão se fechou e ela cruzou os braços, empinando o queixo.
— Por que está nessa vida cara? — ela perguntou de repente.
— Não tenho escolha.
— Pelo menos não está drogado. — ela disse dando de ombros.
— Nunca foi minha praia. — Respondi
— Está vendo? Você não é um assaltante.
— Acabei de te assaltar. — ironizei.
— Olha eu também tenho uma vidinha de merda, porém... Existem outros caminhos, você não precisa fazer isso.
Minha expressão se endureceu com a frase que ouvia de todas as pessoas que estavam de fora da minha vida. Ninguém sabia como era viver desse jeito. Sorte a deles.
Eu não podia acreditar no que estava acontecendo, em que mundo uma vítima conversaria com seu assaltante de forma calma?
Eu havia facilmente caído em sua conversa, ela me distraía.
— Você não sabe nada da minha vida, não sabe o que preciso ou não fazer. E não lhe interessa nem um pouco. – disse grosseiro.
Bastava, eu não podia deixar nenhum "laço" se criar, nem o mínimo de amizade. Não tinha tempo, não tinha o porquê fazer isso. Depois de tanto tempo sem sequer ter um pouco de conversa decente em minha vida, era fácil envolver-me em uma.
— Tenha uma boa noite, garota. — disse levantando-me.
Por um momento encontrei seus olhos verdes e me prendi ali. Seus cabelos castanhos escuros caiam em madeixas grossas por seus ombros e busto. Seu rosto parecia de porcelana de tão branco. Era uma boneca, uma menina.
— Você me assaltou idiota. Boa noite só se for pra você. – falou irritada.
Com um sorriso zombeteiro e peso na consciência, saí da lanchonete.
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