Segunda chance, ou...
1 como Elizaveta se tornou a mocinha de outra pessoa
Notas iniciais
Super indico para aqueles que ainda não baixaram a coletânea que o façam AGORA. Tem histórias de todos os tipos, para agradar todos os gostos. Pessoalmente, adorei todas! :)
Nas Notas Finais falarei um pouco mais da experiência que tive ao escrever e também sobre curiosidades/fatos sobre o desenvolvimento do UA. Então, espero vocês lá embaixo! :3
-Segunda chance (ou como Elizaveta Héderváry se tornou a mocinha de outra pessoa)-
– É a última vez, mocinha. Eu te prometo.
Elizaveta cobriu a boca e tossiu um pouco mais, o acesso tomando conta de seu corpo de vinte e três anos com brutalidade espantosa, levando a jovem a espasmos na cama metálica. O pai acariciou um de seus braços com delicadeza, com uma careta desgostosa no rosto: odiava aquela impotência de ver sua mocinha sofrendo.
– É melhor... mesmo... pai. A faculdade... trancada... dois meses. E mal...pude... Félikis... – a voz de Elizaveta antigamente alta, estridente e confiante, agora era apenas um fantasma sibilante e agonizante do que já havia sido um dia. Ele sorriu, provavelmente ao pensar em como ela poderia ser tão inocente, tão tola, ao pensar naquele momento nos estudos.
Mas ela era tão jovem... Jovem demais para passar por isso.
–Pai... chorando. – ela tentou se pronunciar, levantando um dos braços em direção ao rosto velho que se encontrava sobre ela.
O homem apertou aquela mão no rosto, sentindo a pele macia e quente contra a pele grossa, peluda e molhada de face. Vê-la arfar era excruciante. Delicadamente, baixou o braço da moça até a cama metálica e fria daquela odiosa sala de hospital, e pôs-se a acariciar aqueles cabelos castanhos, cheios e cacheados, cuja textura lembrava muito a de sua finada esposa, entre os dedos.
Elizaveta era a única coisa que ele tinha, e estava prestes a perdê-la.
– Senhor Héderváry. – o doutor Honda, um jovem oriental de ar cansado retirou o outro homem de suas divagações. – Estamos prontos para o procedimento.
–Tão rápido...
Maygar Héderváry suspirou amargado, todavia, a sorte já estava lançada. Plantou um beijo na testa de sua única filha. Encarou o médico a sua frente e assentiu, as lágrimas rolando novamente. Olhou uma única vez para trás e saiu do quarto de cabeça erguida, embora tudo que ele desejasse naquele pequeno instante que parecia durar uma eternidade era morrer.
A enfermeira posicionou a máscara da anestesia sobre o nariz da paciente e Elizaveta Héderváry dormiu.
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Elizaveta Héderváry acordou arfando.
Entretanto, ela percebeu que era um arfar diferente da dificultar de respirar com a qual lidara por tanto tempo. Era um arfar que parecia com aqueles que ela dava ao acordar após um pesadelo quando não passava de uma menininha. Passeou os olhos pela sala praticamente esperando que seu pai viesse acudi-la. A razão a atingiu como um raio: ela tinha vinte e três anos, era uma mulher crescida e independente que não precisava do papai para enfrentar os pesadelos. Ou assim ela se julgava.
Sentou-se na cama vagarosamente e com alguma dificuldade; seus membros pareciam dormentes, as pernas formigavam. Um bipe seco que ela bem conhecia vinha da sua esquerda; “Hospital” resmungou mentalmente, emburrada, revirando os olhos tão dramaticamente quanto fazia quando Félikis questionava seu senso de moda. Instintivamente levou as mãos até o nariz, esperando encontrar aquele tubo asqueroso cuja função deveria ser ajudar a manter sua respiração estável. Apalpou o nariz, não o encontrando.
Virou o rosto para encarar a máquina a sua esquerda e finalmente compreendeu que a visão, a última visão que tivera do pai fora apenas mais um pesadelo.
Talvez fosse melhor dizer que ela estava vivendo num pesadelo. Porque aquela gigantesca máquina assustadora, repleta de botões e telas, com toda certeza não pertencia ao ano de 2014. O corpo forte, porém de certa forma debilitado de Elizaveta tremeu ao observar todas aquelas telas, uma delas contendo até mesmo uma imagem 3D escaneada de seu próprio corpo com uma precisão assustadora, contendo seus machucados no joelho que adquirira quando criança e as pintas em suas costas. Em outra, seus níveis de oxigênio, e em mais uma, com seus batimentos cardíacos.
Primeiro ela recolheu as pernas lentamente: o controle completo de seu corpo parecia algo onírico agora, apesar do Dr. Kirkland tê-la assegurado de que eventualmente ele voltaria. Em seguida, abraçou seus membros inferiores e enterrou sua cabeça nos joelhos, contemplativa. De certo alguém apareceria agora para cuidar dela; eles sempre sabiam quando ela acordava ou dormia. Tinha de parecer forte.
Tinha de ser forte. Se mostrasse algum tipo de fraqueja, de instabilidade, não a deixariam sair do hospital. Elizaveta sentia que iria enlouquecer se permanecesse mais um segundo naquela caixa sem janelas que chamavam de quarto, ou mesmo se fosse enviada novamente para a sala do psiquiatra residente, Dr. Braginski, cujos olhos inquisitivos pareciam levá-la a plena loucura.
De início, quando acordou pela primeira vez no local, Elizaveta foi invadida por uma onda, um tsunami de esperança. Esperança clara em ter sua vida de volta. Esperança em acreditar que poderia voltar a estudar, sair com os amigos e passar o tempo que quisesse com Félikis e o pai. Esses pensamentos ingênuos agora lhe pareciam patéticos.
Entretanto, naquele mesmo dia, algo no fundo de seu âmago gritava que havia alguma coisa errada no último olhar que o pai lhe lançara antes de sair da sala; a forma com que ele usou seu apelido, “mocinha”; a maneira como seus olhos amendoados pareciam transbordar não só de lágrimas, mas de um quê de despedida.
Deveria mesmo ter dado ouvidos à segunda impressão.
Subitamente, uma parcela da parede desceu ao chão, algo que ainda assombrava a garota, por mais que depois de todo esse tempo já devesse estar acostumada aos novos gadgets e aparelhos mirabolantes do tempo e espaço em que ela agora, forçadamente, residia.
– Ah, olá senhorita Elizaveta! Perdoe-me o atraso, houve um contratempo na enefermaria, mas já estou a postos para cuidar de você!
A voz maternal e o sorriso acanhado do enfermeiro Tino logo fizeram com que a paciente relaxasse os ombros tensos e voltasse os braços e o torso para uma posição menos defensiva.
Tino era, sem sombra de dúvidas, seu enfermeiro preferido dentre aqueles que conhecera no Hospital W, tanto no passado, quanto no presente. O homenzinho baixo de cabelos loiros,ao contrário dos demais enfermeiros, não a tratava como se ela fosse uma espécie de estrela do rock ou um alien dissecado; a tratava como uma pessoa ordinária e comum. E realmente, era apenas disso que ela precisava.
– Como vão as crianças, seu esposo?
– Oh sim, vão muito bem! As crianças estão eufóricas, Su-san acabou de construir um cachorrinho robótico só para elas! É muito difícil fazer o Su-san passar algum tempo em casa, logo estou muito contente. – o enfermeiro, na ponta dos pés, apertava e girava botões freneticamente.
– Um cachorrinho robótico? – Elizaveta enrolou e desenrolou um cacho com os dedos. Jamais tivera um animal de estimação, visto as alergias do pai. Mas convivera um bom tempo com os pastores alemães de Gilbert para ter uma ideia de como garotos adoravam aquelas criaturinha babonas e leais.
Lembrar-se de Gilbert a fazia se lembrar de como sua antiga vida acabou no momento em que fechou os olhos em uma cama metálica de hospital. Gilbert, seu amigo de infância mais antigo, fazia de tudo para parecer descolado e arrogante, mas no fundo – beeem no fundo – não era preocupado apenas consigo mesmo, tanto que foi o primeiro a perceber sua perda de peso. A partir daí, Roderich – um amigo que vinha de uma família “aristocrática” e abastada – passou a aparecer em sua casa em momentos aleatórios trazendo alguma torta deliciosa e se assegurando que ela estava se alimentando direitinho. Ela apenas ria, comia um ou outro pedaço e dizia que estava tudo absolutamente perfeito, e que sua saúde era “como a de um cavalo”, como diria Félikis.
Quando as dores de cabeça e a falta de ar se tornaram corriqueiras, Elizaveta foi finalmente vencida e arrastada por seu pai até o médico mais próximo, no caso, o doutor Honda. Então as loucuras começaram: baterias e mais baterias de exames, xaropes e mais xaropes, noites e mais noites mal dormidas no hospital porque simplesmente ninguém sabia qual era o seu problema. Não houve outra escolha senão trancar a faculdade e viver com uma mochila de troca de roupa sempre a postos para alguma eventualidade. O pior era ver o pai sofrer. Ela só o vira chorar quando ele jogou um punhado de terra por cima do caixão de sua mãe e naquele momento, antes de fechar os olhos. A maneira como a face dele se retraia a cada acesso de tosse era uma facada no coração da moça, que desde a morte da mãe, procurava aos poucos remendar o coração partido do homem que mais amava.
Roderich culpava o médico, Dr. Honda, pelo insucesso: julgava-o jovem demais para cuidar dela. Gilbert acreditava que aquilo era um efeito do estresse. Félikis, que sempre tinha uma opinião para tudo, se mantinha calado. E era isso que doía mais: durante a última semana, parecia que seu pai e Félikis estavam escondendo algum tipo de segredo, e era frustrante ficar presa numa cama, tossindo e suando frio enquanto os dois cochichavam na sala.
Agora, setenta e dois anos depois, ela conhecia o segredo. E detestava-o. Abominava-o.
–... Peter está tão animado que até convidou uma coleguinha para conhecer Hantanamago. Erland só quer que ele coma seu dever de casa para que ele possa ter uma desculpa para passar mais tempo desenvolvendo softwares. Su-san está uma fera, mas eu sei que no fundo o nosso mais velho também adorou o presente. É a adolescência, não?
Elizaveta abandonou seus devaneios para assentir com o enfermeiro, procurando não decepcionar a única pessoa que realmente fora legal com ela nos últimos dias. Ela gostava de Tino; o finlandês a fazia se lembrar de Félikis: tímido à primeira vista, um papagaio quando você dispunha de um tempo para cativá-lo e conhecê-lo. Talvez o fato de que Tino a fazia se lembrar de alguma forma de algo relativo à sua distante antiga vida a fazia se sentir confortável ao redor dele.
Tino já estava falando de como o filho mais velho e seu esposo viviam discutindo quando seu relógio de pulso deu dois apitos curtos e um longo. Elizaveta já estava tempo suficiente internada naquele hospital para compreender o que aquilo significava: uma mensagem, uma convocação. Tocando no aparelho, o homenzinho fez uma tela cibernética projetar a imagem em tamanho real de Arthur Kirkland, ou Dr. Kirkland, na parede.
O doutor Kirkland era o típico britânico. Seus olhos verdes sabiam como emanar desdém, suas palavras eram afiadas, sarcásticas e ácidas, entretanto se vestia e comportava como um cavalheiro de indomáveis e grossas sobrancelhas. Sentado e bebericando um chá, o médico além do jaleco branco usava um novo apetrecho: óculos de armação quadrada do qual se projetava algo parecido como páginas de um livro.
– Enfermeiro Tino V.? Creio que você se encontre com a paciente protocolo 201423HG, cujo despertar se deu há dois meses, correto?
O doutor apertava os olhos, em uma careta que fazia suas sobrancelhas parecerem ainda maiores, o que fazia com que Elizaveta tentasse segurar sua gargalhada, sem muito sucesso.
– Google Glasses? – ela inquiriu, menos por curiosidade e mais para fazer troça.
– Obviamente que não. Você é o que, da era do IPhone 21S? – o inglês retirou os óculos, piscando e encarando o objeto com desdém. – Deus me proíba de me esquecer de recarregar a porcaria do meu relógio de bolso, e muito menos que me faça pedir alguma coisa emprestada para aquele imbecíl do Jones novamente. Ahem, de qualquer forma, a paciente está convocada para uma região urgente na minha sala às quatorze horas do dia de hoje, pontualmente.
– Mas dessa forma ela perderia o encontro com o Dr. Ivan, que com certeza detestaria que...
– Ele também estará lá. – o médico hologramado tomou um gole de seu chá depois de interromper o enfermeiro, estalando a língua com prazer. – A reunião é de suma importância, como já citei, e ela deve estar vestida devidamente, não com a camisola hospitalar, fui claro? As despesas das vestes serão depositadas novamente para você, Tino, contanto que retire o comprovante de...
– Vestida devidamente? – Elizaveta arregalou os olhos ao pensar em se livrar da camisola azul e de se reunir tanto com o seu médico responsável quanto com o odioso psiquiatra. Aquilo, para ela, só podia significar uma única coisa. – Eu vou receber alta? Eu vou poder dar o fora daqui?
Ela encarou o médico com um sorriso de orelha a orelha:
– Vocês acharam alguém? Vocês acharam alguém!
Arthur Kirkland deu um meio sorriso com os lábios, entretanto seus olhos permaneceram impassíveis, estáticos, contradizendo a possível alegria.
– Talvez. De qualquer forma, não se atrasem. Eu detesto perder a droga do meu tempo. Imediatamente dois apitos curtos e um longo foram ouvidos e o holograma desapareceu tão subitamente como tinha aparecido.
– Eu nunca vou entender como essas coisas funcionam, Tino. – ela resmungou, virando o corpo e sentando-se na beira da cama, pés roçando levemente no chão.
– Ah, senhorita Elizaveta, é bastante fácil, funciona como aqueles... hum... qual era mesmo a palavra? Celulares? Sim, sim, ce-lu-la-res. Minha avó tinha um. É só inserir um cartão num objeto licenciado, como relógios, óculos,enfeites de cabelo, gravatas e... Senhorita Elizaveta! Não é hora de você levantar!
Com uma força surpreendente para o seu tamanho, o enfermeiro conseguiu empurrar com delicadeza o corpo da paciente para a cama, mesmo que a mesma estivesse se debatendo.
– Eu quero ir com você comprar as roupas. – ela reclamou, mentindo. Queria mesmo era ver a vida além do hospital, ver se encontrava algum conhecido.
“Eliza, você não deveria estar enrugada, de cabelos brancos?”, perguntariam inquisitivos os que se lembravam da única filha de Maygar Héderváry. Se é que havia alguém que se lembrava.
–... e além do mais, você provavelmente vai comprar alguma coisa no estilo bufante, estilo Scarlett O'Hara para mim.
O pequeno finlandês pareceu ofendido, mas deu uma pequena risadinha, cobrindo os dentes com as mãos, logo mais retornando a operar a grande máquina ao seu lado. Tino era fã de filmes considerados vintage; antes de adormecer em 2014, Elizaveta fazia faculdade de cinema. Os dois conseguiam se entender bem em relação a isso, logo ela podia contar que o enfermeiro sabia sobre quem diabos era Scarlett O’Hara.
– Ora, não se preocupe! Ao contrário do Enfermeiro Yang Soo, eu sei que você não viveu durante a Guerra de Secessão Americana. Eu prometo que vou trazer para você algo legal. Uma roupa típica do nosso tempo. Afinal, você vai finalmente sair daqui!
A garota sorriu, mesmo não considerando o pronome possessivo nosso adequado para caracterizar sua relação com aquele tempo. Aquele tempo maluco, onde portas se abriam do nada em meio de paredes; tempo onde as pessoas usavam relógios e óculos como comunicadores; tempo em que pessoas se comunicavam por hologramas e pais de família construíam cachorrinhos robóticos para os filhos.
Tempo em que seu pai estava morto.
Tino sentou-se ao seu lado na cama, os pés sequer encostando-se ao chão. Abraçou sua cabeça de forma apertada, maternalmente.
– Você vai fazer falta no hospital. Acho que ninguém mais aqui já assistiu “A noiva cadáver”. Mas a gente se encontra do lado de fora, não? Se você precisar de alguma coisa...
Elizaveta precisava de um abraço de Roderich. De um cascudo de Gilbert. De tomar três bolas de sorvete com muita calda com Félikis. De assistir as aulas da faculdade. De ouvir seu pai a chamando de “mocinha”. De entrar em sua velha casa, dormir em sua própria cama.
Ela precisava que alguém a dissesse que tudo aquilo não passava de uma piada e que ela estava em 2014 novamente.
Mas Tino não lhe diria isso. Dr. Kirkland não lhe diria isso. Muito menos o doutor Ivan. Não era a verdade, e nenhum deles estava disposto a ludibriá-la. Eram profissionais de um hospital renomado, afinal.
– Obrigada, Tino. Vou ficar bem.
“Vou ficar bem”, repetiu para si mesma o mantra, esperando que suas palavras tomassem vida e se tornassem a verdade.
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...
Uma semana depois de seu despertar, Elizaveta Héderváry continuava ignorante a respeito de muitas coisas sobre o seu paradeiro.
Presa dentro de um quarto que mais parecia uma caixa branca, sem janelas e nem porta, onde enfermeiros entravam e saiam como num passe de mágica, fazendo parte da parede desaparecer. Alguns dos funcionários pareciam inseguros ao tocá-la; outros a cutucavam e faziam perguntas do tipo quem era o presidente, se Justin Timberlake ainda estava vivo, que ano eles estavam. E ela não entendia absolutamente nada.
Três dias depois, menos bombardeada por perguntas incoerentes e mais desperta, percebeu que estava definitivamente melhor: suas crises de tosse, rouquidão, perda de peso e dificuldade de respirar pareciam jamais ter ocorrido; o que a incomodava era o peso de alguns membros dormentes, como as pernas. Ao reclamar a respeito disso para uma enfermeira de longos cabelos loiros, olhos azuis elétricos e rosto impassivo e branco como uma boneca de porcelana, obteve como resposta apenas um “Eu sei”, ríspido.
Também perguntou pelo pai; não houve resposta. Alguns enfermeiros até ensaiaram algumas frases desconexas, mas no fundo, ninguém sabia o seu paradeiro. Isso desesperava a morena: não saber se o pai tinha ciência de que ela estava acordada. De que ela estava bem. De que ela poderia voltar para casa.
Dois dias depois, conheceu o enfermeiro Tino, que inicialmente só viera substituir a impassível enfermeira de longos cabelos loiros. Os dois se deram bem pelo amor pelo cinema, e finalmente Elizaveta pode conversar com alguém. Realmente conversar com alguém. E aquela foi a última vez que ela foi totalmente feliz.
No dia seguinte, Tino retornou ao quarto trazendo uma cadeira de rodas. Explicou-a que iriam até o Dr. Kirkland, o mesmo que realizara sua operação e que era seu responsável no hospital.
Elizaveta contra-argumentou que havia algo errado, que não havia sido operada, que fora apenas mais um exame. Tino suspirou tristemente, seus olhos maternais repletos de dor, dizendo que o doutor seria capaz de pô-la a par de seu quadro e do paradeiro de sua família. Com força impressionante, ele a posicionou na cadeira , abriu a “porta mágica” e a empurrou até o fim do corredor.
...
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Não.
Ela não queria se lembrar daquele dia, pensou se debatendo na cama.
Sabia que era um sonho, um flashback que estava ocorrendo enquanto dormia pesadamente após a refeição trazida pela enfermeira Natalya. Ela pensava que já tivesse esquecido o que ocorrera quando saíra pela primeira vez do seu quarto, mas aparentemente as lembranças retornariam a assombrá-la mais uma vez caso não acordasse.
Forçou os olhos, se debateu.
Não acordou.
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No final do corredor, havia uma parede com uma luzinha azul acesa. Em frente a ela, Tino delicadamente apertou um botão em seu relógio de pulso, que emitiu um pequeno zunido que aparentemente vinha do outro lado da parede. Tão logo depois, o enfermeiro aproximou o aparelho de seus olhos, e logo em seguida, com um clique surdo, parte da parede desapareceu, assim como ocorrera no quarto de Elizaveta.
– Realmente Tino, quanto deve ter custado essas coisas? Nunca vi nada parecido em lugar algum!
O enfermeiro apenas sorriu e a conduziu para dentro do quarto.
O consultório do doutor Kirkland continha uma cama, uma mesa feita de material transparente, cadeiras redondas vermelhas e o forte cheiro de chá de hortelã impregnado em tudo. O tal doutor, como indicava o crachá feito de um material similar ao led se encontrava sentado numa grande cadeira acolchoada atrás da mesa. O homem, que possuía grossas sobrancelhas negras sob os olhos verdes, de tempos em tempos observava um relógio de bolso que parecia ter saído de uma ficção Steampunk.
Em uma das poltronas vermelhas e redondas de frente para a mesa do médico, encontrava-se um homem muito alto, que também trajava um jaleco, com o mesmo crachá, mostrando que se tratava do Dr. Braginski. Seus cabelos loiro-platinados inocentes contrastavam com olhos aterrorizantes, inquisitórios e vazios ao mesmo tempo. Ele sorriu quando ela se aproximou, mas era um sorriso frio, sem mostrar os dentes.
Tino posicionou a cadeira de rodas bem a esquerda do Dr. Braginski, mas não se sentou, permanecendo em pé atrás dela.
– Senhorita. – o doutor Kirkland, de forte sotaque inglês, levantou-se de sua cadeira e apertou a mão da paciente. – Sinto muito por toda a demora em agendar nosso encontro. Desculpe a minha falta de preparo. Não esperávamos que a você acordasse tão cedo. Como suponho que esteja cansada, tentarei ser o mais breve possível.
Ela assentiu, já sentindo a urgência de sair do hospital. Elizaveta já conseguia imaginar o pai, sentado na sala de espera, lendo um jornal desatentamente. Félikis também deveria estar lá, andando impacientemente de um lado para o outro. Se Gilbert ou Roderich viessem seria uma boa surpresa: as discussões bobas dos dois sempre a faziam rir, pois era tão óbvio que estavam apaixonados um pelo outro !
– Ahem. Esta conversa nunca é fácil, senhorita. Você compreende que não se encontra no mesmo hospital em que foi internada?
– O hospital está mesmo diferente. Quer dizer, com toda essa nova tecnologia, novos empregados e tudo mais. Mas é o Hospital W, não?Bem, ao menos que os jalecos dos senhores – ela apontou para os dois doutores, e o sorriso do mais alto tornou-se maior e mais frio.
– Sim, Elizaveta. Entretanto, não é apenas o hospital que está diferente, da? – o sotaque do Dr. Braginski era forte, contrastando com sua fala macia. – Apesar de você permanecer a mesma, todas as demais pessoas dentro e fora do hospital mudaram.
– Doutor Ivan... Acredito quer você, mais do que ninguém, saiba que esse é um assunto a ser tratado aos poucos, e... – retrucou incerto o enfermeiro Tino, apertando os ombros da paciente com mais força; a única resposta que obteve foi o sorriso vazio.
–... o caso é, senhorita, – interrompeu autoritário Arthur Kirkland, entrelaçando suas mãos acima da mesa. – que você passou por procedimentos muito delicados. Se cooperar conosco, em pouco tempo recuperará todo o controle pleno de seus membros. Todavia, há uma lista de coisas que a senhorita não poderá fazer em hipótese alguma pelo resto da vida.
“Número um: nada de fumar. Número dois: não poderá trabalhar ou residir perto de fábricas, jazidas minerais ou de carvão. Número três: não poderá realizar mergulhos em grandes profundidades, nem ir até locais de grande altitude, visto o ar rarefeito e a pressão. Isso também te impede de utilizar aviões, helicópteros, jatos, submarinos e carros com licença acima do tipo 4.”
Ele numerava os itens com os dedos. Enfim, apertou algo aparentemente invisível em sua mesa e pulmões desenhados com um contorno vermelho se materializaram na mesa.
– Aqui está a área que foi danificada. – ele circulou um grande pedaço do pulmão esquerdo com o dedo, fazendo aparecer um círculo azul nos locais onde tocou. – Sua predisposição ao câncer era hereditária e poderia ser facilmente resolvida com a remoção de parte do tecido danificado. Infelizmente, a doença se espalhou muito rápido e não foi tratada em seus estágios iniciais. Segundo seus prontuários, tentaram mantê-la viva sem o uso de aparelhos pelo maior tempo possível, visto que a tecnologia ultrapassada da época não poderia curá-la. No entanto, realizamos sua operação há três semanas com sucesso, substituindo esse tecido por outro sintético, comumente utilizado em robôs do tipo C. Se seguir suas regras e vier para check-ups a cada cinco anos, viverá normalmente com esse implante.
Elizaveta arqueava mais e mais as sobrancelhas a cada frase proferida pelo médico. Não pela questão do câncer; perdera sua mãe para doença quando tinha apenas oito anos. Mas carros com licença acima do tipo quatro? Tecnologia ultrapassada da época? Tecido sintético de robôs do tipo C? Tudo aquilo parecia saído de um filme de ficção científica de última categoria. Entretanto, por mais que todo o discurso de Arthur Kirkland fosse questionável, ela só estava interessada em apenas uma coisa.
– Eu vou poder ir para casa? Meu pai está aqui?
Kirkland suspirou, e Tino apertou ainda mais seus ombros. O doutor Braginski finalmente mostrou os dentes, perfeitamente alinhados.
– A resposta para ambas as suas perguntas é “não”. Você ainda está muito fraca e seu pai sequer sabe que você está acordada.
Elizaveta levantou-se da cadeira de rodas em um rampante, pernas cambaleantes e dedo apontado para o rosto do homem alto.
– Como assim não sabe? Eu exijo que liguem para ele imediatamente! Mesmo que eu tenha que ficar mais um pouco, ele tem o direito de saber!
Imediatamente ela foi puxada de volta para a cadeira por Tino, que parecia estar tremendo.
– Senhorita, acalme-se! – grasnou o doutor Kirkland em um tom nada acalentador. Parecia que ele estava mais irado do que ela. – Braginski, seu imbecíl, você não tem a porcaria do direito de atropelar essa conversa!
– Mas ela tem todo o direito de saber, não?
– Tem, mas não desse jeito!
A voz de Kirkland atingia notas cada vez mais altas. Massageando as têmporas, virou-se para a paciente e continuou:
– Você provavelmente já percebeu que o hospital não está mais como antes. Toda essa tecnologia... não seria nem sonhável no ano de 2014, não? E não é só aqui dentro que está tudo mudado; tudo está diferente, Elizaveta. Esse não é mais o mundo em que você nasceu e cresceu.
“O doutor Honda, seu antigo médico, foi um aprendiz do chinês Dr. Yao. Este último foi um dos precursores de uma técnica hoje conhecida como congelamento total de organismos. De início com pandas, o Dr. Yao percebeu que, assim como com óvulos e espermatozoides, era possível congelar organismos inteiros para que mais tarde fossem descongelados e aproveitados.
“A sociedade medicinal ficou muito animada com essas pesquisas, mas não decidiu fazer estardalhaço na época, com medo que religiosos oferecessem reprimendas. De todo modo, essa técnica seria ideal para congelar humanos em fase terminal, com doenças desconhecidas ou mesmo intratáveis e incuráveis, para que no futuro, quando a tecnologia e o conhecimento avançassem, pudessem passar pelo processo de cura e ser reintroduzidos na sociedade.
“Com o sucesso de seu mestre ao congelar seres humanos sem matá-los definitivamente, o doutor Honda estava interessado em tentar aplicar a técnica também. E ao constatar seu estágio terminal, ofereceu essa opção ao seu pai, e ele aceitou arcar com os custos, tanto materiais quanto emocionais desse procedimento. Lentamente por meio de medicamentos, seu corpo foi preparado para o congelamento. Finalmente hoje, em janeiro de 2085, foi possível realizar sua cirurgia. Não por questões do avanço da medicina, mas por questões financeiras, visto que seu pai veio a falecer antes do total pagamento do processo e seu parente mais próximo depois dele não pode ser encontrado.”
“Desta forma, nos encontramos em um impasse, tendo em conta que o pagamento de seu processo não foi totalmente....”
– Então você está querendo me dizer – interrompeu Elizaveta, cuidadosamente – que eu dormi por setenta e dois anos, congelada.
O médico assentiu solene.
A garota caiu na gargalhada, seu corpo se sacudindo num torpor para frente e para trás. Ela podia sentir até lágrimas saindo dos seus olhos!Todo aquele papo de congelamento parecia tão surreal para ela! Mas era claro, cristalino, o que estava acontecendo naquele momento.
– Onde estão as câmeras? – ela se virou para perguntar para Tino. Sem resposta, começou a falar para os quatro cantos da sala.
– Ok, Gilbert, eu quase cai nessa. Você anda vendo ficção científica demais! Quem te ajudou a contratar esses caras? O Félikis? Com certeza foi o Félikis!
–Isso não é uma piada! Eu tenho cara de que faço piada com um assunto sério como esse? – Arthur Kirkland postou as mãos nos quadris, indignado. Ela continuou a rir e rir até ficar sem ar.
Arthur suspirou e, apertando mais alguns botões na mesa, fez com que diversos documentos digitalizados aparecessem na mesa.
– Esta – apontou com o indicador para um dos documentos – é a assinatura do seu pai, não? E aqui, mais abaixo, do doutor Honda. Temos neste outro papel a assinatura dos enfermeiros como testemunhas. Aqui, os recibos mensais de seu pai a respeito do seu procedimento. Essas são algumas folhas do seu prontuário, assinadas por todos os médicos que foram responsáveis por você ao longo dos anos. Oh, e todos os presidentes dos Estados Unidos, desde Barack Obama tiveram de assinar documentos confirmando que seu congelamento não representaria um perigo para a segurança da nação. E, claro, o atestado de óbito de seu pai.
“Por que você acha que todos neste hospital estão sendo tão cuidadosos com você, te enchendo de perguntas, mas não respondendo uma sua sequer? Ou portas que parecem invisíveis nas paredes? Seu enfermeiro acionou a campainha dessa sala por meio do relógio, e só pode entrar após exame de retina, não foi? Não estamos brincando, de modo algum. Estamos falando a verdade.”
Elizaveta novamente levantou-se, cambaleante, afastando-se da mesa pouco a pouco.
–Não, tudo isso não passa de uma mentira! Gilbert, não tem graça!
– É um choque compreensível. –ponderou o dr. Braginski. – Como chefe da ala psiquiátrica do hospital, trabalharemos juntos para superar os traumas, não? Reintrodução de pacientes como você é algo totalmente palpável. Pode demorar semanas, meses ou anos, mas depende apenas da sua...
– Parem de mentir para mim! – gritou a paciente, passando as mãos nervosamente nos cachos castanhos, assustada. – Tino, é uma mentira, não é? Tudo isso...
Os olhos maternais do enfermeiro pareciam repletos de dor. Ele olhou para baixo, antes de responder:
– Sinto muito pelo seu pai. Sinto muito por tudo isso.
A sinceridade das palavras atingiu Elizaveta como uma bala. A dor que sentiu no peito parecia tão real que tudo que ela pode fazer foi escorregar aos poucos até o chão, caindo sentada deselegantemente como uma boneca de trapos, murmurando palavras sem sentido.
Seu pai estava morto. Ela jamais o veria novamente, ou ouviria sua voz, ou tocaria o seu rosto. Talvez ele não fosse o único morto. Talvez Roderich, ou... Félikis! Ela abria a boca para gritar, mas não emitia nenhum som. Repuxava seus cabelos em um transe.
Uma sinal de três notas longas soou no quarto. O doutor Kirkaland tirou os olhos dela e olhou para a mesa. Suspirou e revirou os olhos:
– O timing desse desgraçado é terrível.
Tino e o doutor Braginski correram ao seu encontro, mas ela não os deixou se aproximar, chutando, mordendo e arranhando, as lágrimas finalmente escorrendo, finalmente encontrando a voz para gritar.
– Me deixem em paz! Eu não deveria estar aqui! Talvez eu devesse estar morta!
Alguém a abraçou pelas costas, a cabeça da moça caída sobre os ombros do desconhecido, que acariciava seus cabelos e sua testa. A respiração da figura era quente e soprava em seu rosto. Uma voz rouca e grossa que ela nunca tinha ouvido cochichou de forma brincalhona:
– Calma aí, mocinha.
Mocinha.
A voz era errada, mas o efeito do apelido foi o mesmo. A respiração irregular de Elizaveta foi encontrando um compasso, mas antes que ela pudesse se virar para ver o rosto a quem pertencia àquela voz, Dr. Braginski se aproximou dela com uma injeção. Uma picada e ela já não pode ver mais nada.
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Já acordada, Elizaveta encontrava-se sentada na cadeira vermelha do consultório do Dr. Kirkland, sem encarar Ivan, seu psiquiatra. Com certeza ele a estaria encarando com aquela expressão vazia arrepiante.
As roupas que tino lhe trouxera eram um pouco engraçadas, mas nada hediondo demais. Apesar de achar a cor da calça engraçada (Tino dissera que era índigo) e a blusa cinza de manga até os cotovelos a incomodava levemente quando roçava na sua pele. Entretanto, ela deveria levantar a mão para o céu pelo fato de que o enfermeiro lhe trouxera mocassins para calçar, não um sapato de plataforma invertida esquisito saído de um clipe da Lady Gaga.
Kirkland tamborilava os dedos em sua mesa nervosamente, até que finalmente o apito da campainha soou. O loiro furiosamente apertou alguns botões invisíveis, deixando entrar na sala um homem de pele olivácea, com cabelos castanhos bem rentes a sua cabeça e barba por fazer.
– Pontual como sempre, Sadik.
– Não enche Kirkland. – ele retrucou presunçoso, antes de se virar para ela com um sorriso. – E olá, mocinha.
Então ele era o dono daquela voz! Elizaveta encarou os olhos castanhos-esverdeados do homem a sua frente por mais tempo do que gostaria de admitir, até que ele finalmente tomou um assento ao seu lado.
Arthur Kirkland tossiu e continuou:
– Elizaveta, este é o Sr. Adnan...
– Sadik, por favor.
– ...o Sr. Adnan, seu advogado legal cedido pelo hospital. Você deveria tê-lo conhecido em outras circunstâncias, mas... Ahem.
Ninguém gostava muito de se lembrar daquele episódio, o que de certo modo era um alívio para a moça.
– A questão é que tanto eu quanto o Dr. Braginski concordamos que você deve receber alta hoje...
– ...relutantemente. – interrompeu o médico mais alto, com seu sorriso cínico e sotaque russo. – Infelizmente o que está em jogo aqui não é apenas a sua melhora, mas questões monetárias.
– Será que vocês podem fazer o favor de me deixar falar?Uma coisa de cada vez, seus idiotas sem educação! – gritou frustrado o doutor de grossas sobrancelhas. – De qualquer forma, o Sr. Adnan providenciou para a senhorita dois documentos de identidade: um contendo sua data de nascimento oficial e expressando que a senhorita passou legalmente pelo congelamento e um documento com datas fictícias, mas que será aceito na maioria dos casos.
– Isto foi feito porque sua condição pode chamar muita atenção indesejada, mocinha e queremos que você viva o mais normalmente que for possível para alguém em sua condição. – Sadik tirou de dentro de uma pasta os documentos e os colocou na mesa.
“Outro detalhe que devemos discutir é a respeito do pagamento do processo. Veja mocinha, seu pai morreu antes de concluí-lo, por tanto alguém chamado... Félikis Łukas...Luk...”
– Łukasiewicz. – ela corrigiu. – Meu primo.
– Isso aí que você falou. O problema é que o Sr. Luksi... Enfim, perdemos rastro de seu primo depois de um tempo. Então, não há ninguém que possa pagar pela sua internação no período em que esteve consciente aqui no hospital.
“Bem, mocinha, você está em péssimos lençóis. Além de dever uma quantia... salgada para o hospital, sinto em dizer que o seu pai... Não deixou muita coisa. Ainda mais com todas as mudanças monetárias ao longo do tempo, problemas inflacionários... E ele vendeu a residência onde morava, o que também te deixa... sem teto.”
– Você é um exemplo de profissionalismo, Adnam. – Arthur Kirkland revirou os olhos.
– Eu tento. – ele falou, dando de ombros, recostando-se despreocupado na cadeira.
Elizaveta sacudiu a cabeça.
– Espera aí... quer dizer que vocês estão me dando alta só porque eu não tenho mais como pagar o hospital?
– Se você quer colocar as coisas desse jeito... – respondeu Ivan Braginski, sincero, gerando uma exclamação de irritação do Dr. Kirkland.
– Mas tem alguém para me buscar, não tem? – ela remexia as mãos atrás das costas, ansiosa.
Os dois médicos na sala se entreolharam. Ela pode ouvir Tino arfando atrás dela. E também o rosto de Sadik ficar vermelho. Ele se levantou e bateu as mãos na mesa.
– Seus idiotas! Como vocês esperam que a mocinha saia daqui, sem dinheiro o suficiente para pagar uma diária em um cubículo meia boca? Vocês não procuraram ninguém? Vocês podiam ter me avisado e eu...
– Eu tentei avisar Kirkland que era uma má ideia. Mas ele nunca me escuta. É porque eu sou comunista... Assim como a ex-mulher dele. – Dr. Braginski manteve o habitual tom passivo, mas com uma pontada de veneno escondida atrás de suas palavras.
Kirkland parecia prestes a estrangular o outro médico a sua frente quando Sadik afastou a cadeira de Elizaveta e a pegou com força pelo braço.
– Vamos mocinha. Tem um bom espaço lá em casa, você pode ficar lá. Vai ser melhor para você, longe desse antro de loucos.
– Mocinha... Lá em casa... O que exatamente você pretende, Adnam? –Dr. Braginski disse, os olhos brilhando. Sadik pareceu ficar sem graça e perder a compostura por um minuto.
– Não, não é o que parece!
– É claramente o que parece! Um libertino como você, tentando levar uma senhorita jovem, bonita e inocente para casa... – Kirkland continuou.
Elizaveta se desvencilhou do homem com facilidade apesar das pernas bambas, postando-se o lado de Tino.
– Eu posso me defender, senhores. Tenho idade para ser a avó de vocês, mas ainda tenho força suficiente para derrubar um por um. Bem, exceto o Tino. A força que ele tem não é normal.
Ela o cutucou com o cotovelo, brincalhona. Braginski fungou, achando aquela situação ridícula. Sadik ergueu uma sobrancelha e sorriu. Kirkland revirou os olhos.
– Não me leve a mal, mocinha. Você é muito atraente... mas não é exatamente o meu tipo. – ele sorriu orgulhoso. – Fora que eu talvez não conseguisse lidar novamente com aqueles seus surtos nervosos. E para acrescentar, li em sua ficha que você é descendente de húngaros. Eu sou turco.
– Não entendi.
Elizaveta sorriu para Tino e cantarolou baixinho.
–“ Kathy, Kathy, voe para longe, os turcos estão chegando. Eles vão pô-la em um poço salgado, vão te tirar de lá e te esmagar com uma roda, e vão te tirar daqui também. Aí vem os turcos, eles vão atirar até seu cérebro sair.”
Tino estremeceu.
– Ugh, desagradável.
– Uma canção de ninar antiga.
– Bem a cara dos húngaros. – fungou Sadik. – Mas enfim, já que ninguém mais se ofereceu para hospedá-la, creio que...
– Mas de jeito nenhum! – Tino se postou entre a húngara e o turco, protegendo a garota. – Ela vai ficar é no meu apartamento, sem discussão.
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Elizaveta e Tino já se encontravam em frente a duas portas de vidro. Os elevadores, como ela corretamente presumira. Tino não mais usava seu uniforme de enfermeiro, mas calças corsário amarronzadas e um pulôver azul. Ele parecia muito mais jovem do que um pai de família se você ignorasse os sulcos em sua testa que apareciam quando ele a franzia.
– Muito obrigada novamente Tino, por tudo. Sem você eu realmente não saberia o que seria de mim.
– Oh senhorita Elizaveta, bondade a sua! Não é todo sai que eu encontro uma paciente com tão bom gosto cinematográfico. Você pode ficar o tempo que quiser; o período que passamos juntos no hospital foi longo o suficiente para que eu pudesse considerá-la uma velha amiga... Mas quando eu digo velha, eu não estou querendo rir de sua situação, e...
– Eu sei Tino, eu sei. Olhe, o elevador está aqui!
Os dois adentraram a pequena cabine, que para surpresa de Elizaveta, era repleta de cadeiras com cintos de segurança. Duas moças orientais já se encontravam sentadas. Tino cumprimentou-as com a cabeça e apertou diversos botões no painel da máquina.
– Sente-se, senhorita Elizaveta. E aperte o cinto; a primeira vez pode lhe parecer conturbada.
Mal ela afivelou-se ao assento acolchoado, as portas se fecharam, e com um pequeno solavanco, o elevador começou a descer em uma velocidade rápida. Mas não apenas desceu: moveu-se um pouco para esquerda e depois um pouco para a diagonal. A porta se abriu e as duas orientais desceram.
– Que diabos é isso? – sussurrou Elizaveta quando os dois se encontram sozinhos.
– Um elevador. Eu pensei que existiam uns desses na sua época.
As portas se fecharam.
– Existiam, mas não aaaaaasssiiiimmmm! – ela deu um pequeno grito, animada, com todos os solavancos, trancos e movimentos em alta velocidade.
Finalmente a porta se abriu no andar correto e os dois puderam saltas
– Sinto muito se sua experiência não foi boa, senhorita...
– O que? Isso foi o máximo Tino! Como é que vocês fazem para carregar cargas mais frágeis?
Tino deu de ombros, digitou algo em seu relógio de pulso e uma porta se abriu em uma parede, revelando um aposento escuro repleto de máquinas com rodas. Apesar dos modelos serem completamente inéditos para ela, Elizaveta pode concluir que eram automóveis.
– Podemos regular a velocidade dos elevadores. Eu gosto de velocidade, fico feliz que você também aprova. Agora, venha conhecer o Estoniator 300.
Os dois andaram em meio aquelas máquinas repletas de rodas, alavancas e motores que se pareciam com turbinas de avião até chegar a um aparelho azul, branco e preto. aparentemente simples, com duas turbinas pequenas, frente arredondada. Os assentos eram de couro amarelo; um deles era maior e mais largo. Não havia volante, apenas diversos botões.
Depois de afivelá-la no banco do passageiro, sentou-se no assento maior, posicionando as mãos em um leitor que imediatamente colheu suas digitais.
“Bem vindo Tino! Onde gostaria de ir nesta bela tarde ensolarada, no dia...” – a voz era metálica, mais simpática.
– Estou bem, Est. Para casa, por favor.
O sistema repetiu o endereço completo de Tino, perguntando se era realmente para lá que desejava ir. Ao apertar um botão, a máquina inclinou-se para frente, pegou um impulso e saiu do espaço escuro.
Para a surpresa de Elizaveta, o carro não estava num asfalto, mas num trilho a três metros de altura do chão.
– Não gosto de falar isso perto dele, mas Est é um modelo bem antigo. Ele é apenas um tipo 2, tadinho. Mas é melhor para você se acostumar. –Tino sussurrou.
Elizaveta sequer respondeu. Como uma garotinha que viaja pela primeira vez de avião, grudou o rosto ao vidro convexo ao seu lado, absorvendo tudo: os grandes telões; os carros que pareciam voar, mas na verdade estavam grudados em trilhos a sua frente; os carros que efetivamente voavam nos céus; os edifícios em formato de conchas, quase em espiral.
– Isso é...
Ela não conseguia encontrar palavras. O quão maravilhoso deveria ter sido viver no tempo em que essas construções começaram a sair do chão? Quando os carros começaram a ganhar modelos tão inusitados?
Ela poderia ter sabido a resposta.
Ela poderia ser uma das pessoas a viver naquele tempo.
Ela poderia estar grisalha, em uma cadeira de balanço, contando aos netos histórias de um tempo quando carros não voavam e paredes não se abriam revelando portas.
Mas estava jovem. Cheia de vida.
Por mais que doesse abandonar a velha vida, os amigos, a família... Ela tinha uma nova chance. Uma chance para começar de novo em um mundo repleto de máquinas fantásticas, construções exóticas, tecnologia de ponta.
Viveria com Tino por alguns dias, arranjaria algum emprego. Com dinheiro suficiente, alugaria algum espaçozinho para viver. Talvez conseguisse novamente um espaço na universidade! E, com sorte, Gilbert, Roderich ou Félikis estariam vivos, e ela poderia reencontrá-los novamente.
–... maravilhoso.
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Berwald, o marido de Tino, era alto e sério. Seus grandes olhos azul-gelo atrás das lentes dos óculos pareciam penetrar a alma dos que olhava, mas relaxavam ao ver Tino, a “esposa”. Isso claramente incomodava o mais baixo, mas era uma brincadeirinha de casais; eles possuíam uma dinâmica adorável.
Hanatamago, o cachorrinho robótico, era uma graça. Podia imitar o rugido de um leão e o cacarejar de uma galinha. Estava programado também para ser uma babá das crianças, seus olhinhos câmeras que registravam tudo para Berwald.
Erland, o filho mais velho do casal, tinha treze anos e cabelos ruivos adoráveis. Quando os pais lhe contaram sobre a situação de “tia Elizaveta”, o mais novo membro da família, ele fingiu desprezo, mas mais tarde se tornou fascinado com os relatos em primeira mão da tecnologia antiga da época. Ele também passou a falar sobre garotas com Elizaveta.
Peter, o mais novo, com dez anos de vida loira, era muito elétrico. O apartamento da família era pequeno, mas o danado corria de vento em polpa pela casa. Não entendeu exatamente de onde Elizaveta vinha; mas se era mais alguém para brincar, ele não se importava.
Ela passou a cuidar das crianças pelas tardes, quando nem Tino nem Berwald estavam. Eles a ensinavam como mexer em aparelhos como a televisão, o rádio e o computador. Erland a emprestou um relógio antigo para servir de “comunicador”.
Geralmente depois de fazer a tarefa de casa e assistir uma hora de televisão, Peter ficava entediado e vinha procurar Elizaveta para brincar. Ela o contava histórias antigas,contos de fada antigos, odisseias das quais participara no jardim de Gilbert quando era uma pimpolha.
Erland adorava seu computador, mas depois de um tempo, parava e escutava as histórias. Quando ele finalmente amoleceu, Elizaveta os ensinou brincadeiras antigas: pique esconde, batata quente, roda. Seu talento de fazer sombras que imitavam bichos na parede parecia fascinar as crianças, que pareciam adorar a diversão simples que ela os proporcionava.
A morena pouco saia de casa; sempre acompanhada por Tino, ajudava-o com compras do supermercado.
E um por um, os dias foram passando até que se tornaram semanas e finalmente, um mês.
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Era sábado, pois Tino e Peter haviam saído para pescar em uma reserva artificial, como sempre faziam.Berwald estava na casa, ajustando alguns óculos 3D. Erland estava trabalhando duro em um projeto da escola sobre o ano de 2010, contando com a ajuda e supervisão de Elizaveta. Mais um dia aparentemente ordinário, até que a campainha tocou.
Elizaveta foi o mais rápido que pode para atendê-la, mas Berwald já havia aberto a porta. E com seu jeito monossílabo, intimidava o intruso: o obviamente embaraçado Sadik Adnan.
Por mais ridículo que parecesse, Elizaveta na hora desejou ter penteado seus cabelos de manhã e ter vestido algo mais adequado do que shorts de sarja e uma blusa larga amarela. Ela afastou os pensamentos da cabeça: Sadik era arrogante, e se estava lá era por motivos profissionais.
Quando a viu, ele abriu um sorriso.
– Mocinha, você pode dizer ao cavalheiro altão que me conhece?
Berwald a encarou, inexpressivo. Ela assentiu e ele voltou a fazer o seu trabalho.
– Como diabos você me encontrou?
Ele recostou-se no espaço que seria o batente da porta, se houvesse porta.
– Fiz minhas pesquisas. Acredito que você vai gostar de saber da novidade que tenho.
Ela levantou uma sobrancelha.
– Caramba, mocinha! Você deveria ter dito antes que era amiga de Roderich Edelstein!
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Ela desceu do elevador, cuidadosamente. Pedira para Sadik descer e esperá-la lá fora. Se era para ver Roderich, ela precisava de estar no mínimo aceitável: o aristocrata jamais permitira que ela entrasse em sua casa parecendo uma Amazona selvagem.
Depois de ajeitar os cabelos e vestir o único vestido que possuía, mas nunca usara, ela finalmente foi ao encontro de Sadik, que impacientemente se recostara em seu veículo.
Entretanto, ao vê-la trajando o vestido verde rodado, ele perdeu a compostura arrogante instantaneamente. Fez um barulho esquisito com a garganta, e sem proferir uma palavra, abriu a porta do carona para ela.
O automóvel do turco era obviamente mais novo que o modelo de Tino. E podia flutuar livremente, ao contrário do tradicional modelo “montanha-russa” que ela conhecera. Até metade do caminho, nenhum dos dois proferiu palavra alguma. O silêncio foi quebrado pelo advogado:
– Precisava?
– Hun?
– Precisava se emperiquitar tanto para visitar um velho caduco de noventa anos, mocinha?
Ela gargalhou.
– Ora, qual é o problema? É um velho amigo com tendências elegantes. E eu gosto muito dele.
Sadik fez uma careta.
– Mas ele provavelmente está todo caído e...
Elizaveta desferiu um tapa no braço direito do homem.
– Ele é só meu amigo!
Ele fez uma expressão jocosa, fingindo estar chateado enquanto esfregava a área atacada com o braço. O silêncio voltou a reinar por alguns instantes, até que ele pigarreou.
– A mocinha...
–... qual é o da “mocinha”, Adnan?
–... Sadik. Eu detesto essas formalidades estúpidas.
– Você não respondeu minha pergunta.
Ele respirou fundo, apertou alguns botões e fez o automóvel descer até um portal de pedra pomposo.
– Eu não sei. Mocinha. É o tipo de apelido idiota que poderia te fazer me detestar. E além disso, parece que combina com você. – ele pegou alguns cachos dela, espremendo-os entre os dedos. – Mo-ci-nha.
– Meu pai me chamava assim.
– Seu pai tinha bom gosto.
– Você é um bossal, sabia?
Ele sorriu e piscou.
– Eu me esforço.
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Os dois foram recepcionados por um mordomo-robô, que os levou até a sala de estar. Minutos mais tarde, ela reencontrou Roderich.
Roderich Edelstein estava muito diferente. Grisalho, em uma cadeira de rodas, repleto de rugas, mas mantendo seu ar nobre e sua compostura.
Os dois se abraçaram por longos minutos.
Ele contou tudo. Contou sobre o casamento com Gilbert; do sucesso que atingiu com a carreira de violinista; do fato de que Félikis havia se casado com um lituano e lá se encontrava.
Gilbert não estava mais lá. Mas havia deixado um pequeno vídeo para ela, inédito, que nem mesmo seu esposo havia assistido. O último desejo do albino foi que ela o assistisse e em particular.
Reviram álbuns de fotos, riram de piadas antigas, comeram bolo e tomaram chá.
Foi uma tarde nostálgica, mas gostosa.
As partes tristes se resumiram na notícia da morte de Gilbert – Gilbert, que era tão vivo, e cujo nome deveria ser a antítese da palavra morte – e a hora em que Elizaveta viu o álbum de casamento de seus melhores amigos.
– Em várias fotos, vocês dois estão abraçados, mas distantes. Por quê?
Roderich ajeitou os óculos no nariz e sorriu, triste:
– Uma tolice de Gilbert. Mais uma tolice brilhante.
Ele colocou a mão de sua convidada, lisa e pequena, entre suas mãos enrugadas e trêmulas.
– É o espaço que guardamos para você, Eliza.
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Já estava anoitecendo quando a visita terminou; por meio do velho relógio de Erland, Tino mandou um holograma para ela, preocupado. Depois que ela encerrou a conexão, Roderich indagou quem aquele era.
– Um enfermeiro que cuidou de mim. Estou basicamente morando no sofá dele.
A expressão indignada de Roderich não teve preço.
– De modo algum eu vou te deixar “morando em um sofá”, Eliza. A partir de amanhã mandarei te buscar. Sem Gilbert e suas tolices, essa casa fica vazia. Temos muitos quartos. Ficarei feliz de te receber.
– Obrigada, mas eu prefiro...
– Faço absoluta questão.
– Eu...
– Sem discussões. – ele empurrou o cabelo para trás e sorriu. – Finalmente vou ter um motivo para voltar a tocar meu violino.
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O caminho de volta para o apartamento de Tino também foi silencioso na sua maior parte, com Sadik concentrado no tráfego e Elizaveta concentrada na pequena fita em suas mãos.
Desta vez, quem começou foi a garota.
– Você não terminou de dizer aquela frase.
– Hãn?
– Antes de estacionarmos. Antes de você explicar porque me chama de mocinha.
Ele riu.
– Você não vai querer saber.
– Sadik! Não me deixe curiosa!
Ele respirou fundo.
– A mocinha está de tirar o fôlego nesse vestido. Maravilhosa. Incrível. Encantadora. Satisfeita?
Ela revirou os olhos e bateu no braço do advogado.
– Eu pensei que eu “não era o seu tipo”.
Ele fez o carro perder altitude e estacionou.
– Ora, vamos mocinha. Não seja idiota. Você é obviamente o meu tipo. Musculosa, morena, olhos verdes, língua afiada, mas coração mole. Só falta gostar de saunas.
Ela deu de ombros, e virou o rosto, tentando parecer inafetada pelos elogios.Ele suspirou.
– Se eu dissesse alguma coisa na hora, não me deixariam te levar para casa. E o Arthur, aquele puritano, acreditaria ainda mais na afirmação errônea de que eu sou um libertino sem coração.
“Você não faz ideia da raiva que eu senti quando aquele anão de jardim te levou para casa. Eu queria você lá, para conversar sobre o passado. Para que eu pudesse te apresentar ao futuro. Para que fosse ao meu lado que você fizesse as descobertas. ”
–Para que eventualmente você me seduzisse e me levasse para cama. – ela concluiu.
– Ei mocinha, eu não sou tão insensível e rude! Para que você eventualmente se apaixonasse por mim. Ela riu, constrangida.
– Eu sou húngara.
– Eu sou turco. E?
– Tenho idade para ser sua avó.
– Gosto de mulheres mais velhas. Vamos. Deixa eu te levar para tomar alguma coisa amanhã.
Ela abriu a porta do carro e desceu.
– Às vinte horas em ponto. Chegue um minuto atrasado e eu vou te castrar. Ah, e só para constar, Sadik, eu amo saunas.
Ele gargalhou, animado.
– Algo me diz que nós vamos nos dar muito bem, mocinha.
---
“Alô, ops, tá gravando?
Liz? Oi Liz, sou eu, O Incrível, Magnânimo, Maravilhoso e Arrebatador. Chamado de Gilbert pelos íntimos e “Não pare, não pare”, pelo Rod.
[Risos escandalosos]
Caso você esteja se perguntando, sim eu casei com o aristocrata. Louco, não é? Ele é um tremendo almofadinha, mas ele não conseguiria viver sem mim. Sério, como é que ele pode se perder tantas vezes na casa que é dele?
O negócio é o seguinte, minha cara parceira no crime: eu fui o último a saber. Sério. O Roderich não quis me contar, o ingrato.
Eu queria ter podido me despedir. Mas provavelmente estragaria a surpresa toda.
E o que você está achando do futuro, han? Já andou de elevador? Já visitou as montanhas artificiais que parecem saídas de “Avatar”? Você precisa ver os novos filmes, Liz! São quase tão incríveis quanto eu!
Eu sei, eu sei: sem apocalipse zumbi, sem meteoro que devastou a terra, sem robôs escravizando os humanos. Chaaaaaaaaaato. Mas é o seu mundo agora, Liz. Então sem chorar pelo leite derramado. Você pode ter perdido momentos maravilhosos e inesquecíveis perto da minha incrível pessoa, mas pense em todos aqueles que virão amanhã, e depois de amanhã e assim por diante.
Se eu não estiver aí para te recepcionar, me perdoe. Pode ser que a voz grossa onipotente lá de cima precise da minha presença para abrilhantar o recinto. Mas não tema: você vai encontrar pessoas legais – não tão legais quanto eu, óbvio: sou um em um milhão.Mas vai encontrar um cara – ou um ciborgue, ou uma garota – legal. E gente que vai te tratar como parte da família. Você vai poder voltar para a faculdade ou fugir para o circo, o que quer que te faça mais feliz. Mas me prometa que vai viver a vida como eu mesmo vivi: ao máximo, sem um arrependimento para contar história.
Seja incrível, mas com moderação.
Droga, como se desliga essa porcaria! Ugh, eu gostaria de terminar com uma frase de efeito, mas agora eu não vou mais conseguir e..
Merda, eu não quero que o Rod me veja chorando e...
Eu disse chorando? Não, não sou sentimental, é só suor masculino rolando de minha testa, não estou nem fungando! Olha só, regojize-se com minha masculinidade!
[Risada maníaca seguida de pequenos suspiros. A câmera treme e desliga.]
Notas finais
Bem, assim que o tema vencedor foi anunciado, eu imediatamente já soube o que queria fazer. Eu adoro ficção científica, mas nunca escrevi nada do tipo; entretanto eu tinha uma velha ideia na manga: quando mais nova, eu mentalizei uma história sobre uma garota que sofreu algo grave/ estava padecendo e foi congelada pelo noivo, um ricaço. Anos depois ela finalmente é descongelada, e além de passar pelo choque das mudanças, mais tarde ela se apaixona por um dos enfermeiros do hospital, mesmo que seu noivo, o homem que ela julgava amar, estando vivo.
Bem, não preciso dizer que a história original foi modificada, e muito.
Primeiramente, eu quis escrever sobre um protagonista em uma profissão não tão explorada pelo universo das fanfictions hetalianas brasileiras, motivo pelo qual o Sadik é advogado. Entretanto, eu ainda queria que a protagonista tivesse uma figura interna do hospital para a confortar, motivo pelo qual eu considero o Tino um personagem muito importante na narrativa. Além disso, toda a história de triângulo amoroso caiu por terra quando eu percebi que a história da Elizaveta estava mais inclinada para um drama familiar porque ela considera os poucos amigos que tem como parte da família.
Enredo pronto, hora de escrever. A parte mais fácil, certo?
Só que não.
Nos dois meses de prazo para escrever a fanfiction, durante duas semanas eu viajei com a família e não pude ao menos tocar na fanfiction. Olhando pelo lado positivo, é daí que saiu os headcannons desse AU: pela falta de contato direto com a história, eu tinha de mantê-la em mente para poder voltar a escrevê-la mais tarde.
Infelizmente, eu havia me esquecido de um compromisso básico: eu tinha de arrancar dois dos meus sisos.
Coisa básica.
Resumo da ópera: não dá para escrever com dor. Ao menos não para a Bastet aqui.
Finalmente, eu passei pelo período do writers block, mesmo quando os prazos foram adiados. E foi um sofrimento, porque eu precisava terminar, mas não queria que o texto ficasse pobre. Felizmente passei por isso, e cinco minutos antes do fim do prazo, eu finalmente entreguei a fanfiction para a Mayumi-sama. Pontualidade bastetiana, haha!
Segue-se certos headcannons e explicações sobre a história:
*Eu prefiro usar o nome humano da Hungria como Erzsébet. Mas só de escrever o sobrenome dela foi um parto, então me contentei com Elizaveta e ponto final.
*A Eliza é filha única. O Félikis é seu primo por parte de mãe e um ano mais novo que ela. Acredito que na história ficou subentendido que a cidade onde a ação se passa é uma metrópole, o no mínimo uma cidade grande. Pois bem, o Félikis vinha de uma cidade um pouco menor, onde não havia o curso de moda que ele tanto almejava. Mas na cidade da prima, o curso existia. Portanto, ele se mudou para a casa da prima, o que a deixou muito feliz, visto que os dois se adoravam, mas se viam raramente pessoalmente desde a morte da mãe dela.
*Maygar é um dos Ancients. Alguns o descrevem como irmão da Eliza, mas aqui ele é o pai.
*Cadê o Ludwig? Bem, ele era muito novinho no início da história e não tinha muita ligação com a Elizaveta.
*A empresa em que Berwald trabalha é muito conceituada. O dono dela é um tal de Lukas Bondevik, não sei se vocês já ouviram falar. O fato é que o Berwald é viciado em trabalho e nunca para, o que frustra um pouco o Tino e o Erland, por mais que o último jamais admita isso.
*Tino e Berwald são casados legalmente e não sofrem nenhum tipo de preconceito. Tanto Erland quanto Peter são filhos biológicos dos dois através de recombinação de DNA.
*Erland é o Ladônia. Além da descrição física, eu tentei deixar isso claro através da descrição de seu hobbie: programação de softwares.
*O Estôniator é uma homenagem ao Estônia. Ele foi concebido por Berwald para ser um carro falante e amigável, diferente da maioria das máquinas frias e distantes. O automóvel do Sadik, por exemplo, não fala mais do que o necessário.
* A família do Roderich contém diversas gerações de músicos e maestros famosos. Quando toda a herança familiar passou para o nosso aristocrata, ela a honrou ao retomar peças clássicas as paradas de sucesso devido suas interpretações ousadas. Ele é famoso mundialmente, apesar de ter sido um pouco esquecido desde que se aposentou.
*O Roderich e o Gilbert finalmente se declararam um para o outro uma semana depois do congelamento da Elizaveta. Os dois planejavam se casar exatamente no dia que ela acordasse e foram morar juntos. Entretanto os dois decidiram apressar as coisas para algumas semanas antes da partida de Félikis para a Lituânia. O casal viajou o mundo inteiro em lua de mel. Não quiseram ter filhos, mas adotaram um robô, o mesmo robô mordomo que atendeu Elizaveta e Sadik. Quem ele é? Kugelmugel.
*O Gilbert sempre foi meio esculhambadinho com a saúde. Morreu aos oitenta e um anos, fazendo Roderich entrar em depressão e finalmente, cair na cadeira de rodas, encerrando sua carreira e se fechando dentro de casa.
*As moças do elevador são a Taiwan e a Vietnan.
*A ex-esposa comunista do Arthur é a Fem!Russia. Não, ela não é parente do Ivan.
*O Justin Timberlake já morreu. Sinto muito gente. ):
*Scarllet OHara é a protagonista de E o vento levou. O livro preferido do Yang Soo.
Espero que vocês tenham gostado, pessoal! Até a próxima! :3
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