Segunda Rodada
2 O Segundo Corpo
CAPÍTULO II
O SEGUNDO CORPO
Atendi ao celular no quinto toque, antes de sequer ouvir a voz de Will, o bagulho de sirenes e inúmeras outras vozes a se misturar me fez desejar desligar. A pasta que ainda carregava nas mãos, enquanto saia da cafeteria e seguia para meu carro estacionado em frente, parecia queimar a fazendo minha mão suar.
— O que foi?- Talvez tenha parecido um tanto rude, porém, era Will, eu não me importava mesmo.
— Sempre encantadora.- Debochou do outro lado da linha.
— Deixe de enrolação, tenho algo importante para fazer.
— Deveria ser mais simpática, com esse humor e gênio, vai morrer sozinha.
— Isso não é da sua conta Will, e lembre, sua moral nesse ramo está lá em baixo ou seria lá em cima?- Aquela troca de farpás entre nós era algo bem rotineiro, era quase que como um hobby.
Afastei o celular do ouvido, Will havia começado uma série de palavras nada bonitas. Nesse meio tempo, sentei no assento do motorista e fechei a porta, acomodei a pasta no assento ao lado e liguei o carro.
Will ainda continuava sensível quando o assunto era aquele, a traição de Jéssica, sua noiva loira e esbelta, de olhos azuis elétricos e lábios cheios, com péssima personalidade e inteligência debilitada. Ele amava falar sobre ela nas noites de sexta, quando o pessoal da equipe se reunia no bar ao lado da sede. Falava sobre o delicioso bolo que ela preparou para ele, o quanto ela era cuidadosa, o quanto era "gostosa" e boa de cama, até que a ilibada Jéssica foi pega em um sexo selvagem com Alex, o porteiro, no apartamento que Will e ela dividiam. Desde então, era a "vadia" ou "aquela lá". Estaria mentindo se dissesse que senti pena, que o consolei ou algo parecido, a realidade é que gargalhei descontroladamente quando recebi a notícia e fiz questão de enviar um "Eu te avisei!" para ele. Nunca acreditei na tal Jéssica e havia deixado isso claro em inúmeras situações, mas Will não quis ouvir a voz de sua "preocupada amiga", diante disso, não podia fazer mais nada.
— Se já terminou, poderia dizer de uma vez o motivo para está me incomodando?- Interrompi sua longa lista de impropérios.
— Temos mais um corpo, apenas dois quarteirões da onde o primeiro foi achado.- Seu tom ainda era raivoso quando falou.
— Me mande o endereço e logo estarei aí!- Sem despedidas, desliguei o celular.
Imaginar a raiva de Will diante daquele último ato melhorou um pouco mais meu dia, a lembrança de que outra cena de assassinato me esperava, entendendo, era desanimador. Dois corpos em um único dia, ambos próximos, aquilo era sinônimo de problema e mais trabalho para me manter noites em claro.
O som de mensagem rompeu o silêncio do veículo, assim como a linha de meus pensamentos. Era Will, ele havia enviado o endereço e uma pequena frase, composta por três palavras curtas e nada descentes.
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Achar uma vaga para estacionar foi um verdadeiro sacrifício, aquela hora da manhã as ruas já estavam tomadas por veículos e transeuntes, em especial aquela, uma das principais vias do centro da cidade. Um pequena multidão já estavá formada em frente a casa de shows quando cheguei, com a camisa já colada as costas devido a caminhada sob o sol e o calor sufocante.
Passar pela multidão foi um desafio, ninguém estava disposto a ceder espaço, muitos jornalistas e fotógrafos esperavam obter fotos e fatos exclusivos. Foi uma vitoria chegar a porta e escapar das garras da mídia quando notaram que eu era, escapuli para dentro antes que pudessem me encurralar.
Mesmo sendo dia a casa de shows continuava escura, parecia uma clássica boate, com um bar repleto de bebidas, onde um barman cansado conversava com um dos agentes da nossa equipe. Havia poucas mesas postas ao redor, a maior parte do espaço estava livre para danças e apresentações. Sobre o palco vi Will, ele falava com um homem ruivo vestido apenas com uma calça negra de couro, o primeiro não notou minha aproximação, o segundo por outro lado, virou-se para me olhar assim que alcancei a escadinha para subir no palco. Uma surpresa, o homem ruivo era um vampiro, para ele está acordado aquela hora, Will merecia um tampinha nas contas.
Parei ao lado de Will, o vampiro ruivo contínuo a fitar-me, suas iris eram de um verde felino, suas feições bem definidas e proporcionais, aqueles malditos conseguiam ser absurdamente lindos, sendo que aquele em especial, possuía um belo físico também, constatei graças a falta de uma blusa e a calça colada as pernas e bunda. O vampiro ruivo não deixou de notar meu olhar e um sorriso convidativo se revelou em seus lábios desejáveis, ser um pedaço de mal cominho e ter consciência disso era um pecado. O vislumbre das presas me fez lembrar que aquela era uma investigação de assassinato, e eu devia me concentrar.
— O que temos?- Falei, enfim, e Will fechou o bloco de notas em sua mão.
— Esse é Dimitri, ele é um dos dançarinos da boate e foi ele a encontrar o corpo.- Will revelou.
Desviei meu olhar de um homem ao outro, o vampiro com seu olhar fixo começava a tornar-se inconveniente.
— É uma surpresa que tenha comunicado o ocorrido, vocês tendem a ser pouco corporativos quando o assunto é assassinato.- Disse e era verdade, ocultação de cadáveres era uma das especialidades daquela espécie.
— Não tenho nada a ver com o assassinato, -Dimitri começou e me senti tentada a atiça-lo, mas mordi a língua a espera de que ele continuasse.- e pensar que um assassino desconhecido anda solto pelo estabelecimento, não faz bem aos negócios.
— A boate é sua?
— Sim.
— Então suponho que outros vampiros trabalham por aqui, o que me intriga é que não conseguiram perceber nada de errado até que fosse tarde.- Uma verdade, afinal seres como aqueles possuíam um monte de habilidades sobre-humanas e pensar que não puderam notar um assassinato debaixo dos seus narizes era absurdo.
— Faço de suas palavras as minhas.- Raiva pareceu queimar por detrás daqueles olhos verdes incomuns.
— Peço que permaneça aqui um pouco mais, outro agente virá para tirá uma declaração oficial.
— Tudo bem.- Concordou, sua surpreendente colaboração era um tanto espantosa, seres como ele tendiam a ser um porre de se lidar.
Will saiu à frente, era hora de conferir o corpo, tentar ver algo que os demais agentes no local ainda não haviam notado. Passamos pelas cortinas do palco e seguimos por um corredor abarrotado de fantasias extravagantes e portas, foi quase no fim daquele mesmo corredor, que adentrando por uma das portas. Era uma espécie de camarim, onde mais fantasias se encontravam arrumadas em araras, além de uma sofá confortável para ditar uma soneca e um longo espelho ao lado de uma mesa repleta se maquiagens e perfumes.
O corpo estava em frente ao espelho, nenhum lençol o cobria e era recente o suficiente para ainda parecer vivo apesar da palidez, era uma mulher e dessa vez sua parte inferior estava lá. Como o outro corpo, ela estava nua, sem marcas de mordidas ou qualquer outro ferimento, mas ainda lhe faltava algo, os braços, eles haviam sumido e como antes, quase não havia sangue, novamente o que faltava parecia ter sido tirado num cabo de guerra muito limpo.
— O que acha Will?- Perguntei ao me voltar para ele, que havia permanecido a porta, suas sobrancelhas grossas franzidas.
— Sinceramente, acho isso tudo uma merda, vamos ter uma dor de cabeça danada pra arrumar uma solução pra isso. O pior é que ainda não temos nada concreto, nem mesmo o que ao certo anda fazendo isso.- Will suspirou e massageou a testa.
— Essa é uma das poucas vezes que tenho que concordar com você.- Sorri diante da careta dele e continuei.- Mas não estamos totalmente sem palpites dessa vez, com um segundo corpo podemos tentar identificar um padrão, algo que ligue os dois mortos.
— Ainda sim, não é quase nada.
Cansada de está no mesmo ambiente de um corpo mutilado, empurrei Will para poder passar pela porta, já no corredor tentei organizar as informações que já tínhamos e Will estava certo, eram praticamente nulas. Minha mente continuava a ir para o envelope deixado no carro, meu foco estava comprometido e talvez estivesse bem pior depois do que eu decidisse fazer ainda naquele dia.
— Chame o agente especial Ian, ele é bom no que faz e nos poupará de algumas noites em claro.- Disse e Will praguejou.
— Você só pode esta de brincadeira, o comportamento daquele cara é terrível.
— O seu também é, e eu o suporto, então tente fazer o mesmo pelo menos enquanto essa caso durar.
— Sempre me sinto constrangido quando demostra o grande afeto que nutri por mim, Eora, talvez eu possa lhe dar uma chance se pedir com jeitinho.
— Nos seus sonhos.- Falei e lhe ofereci o dedo do meio, seguindo pelo corredor.
Com Max aqui, eu poderia me permitir um pouco de desleixo com o trabalho, iria precisar. Papai havia sumido há quase 15 anos anos, e agora, depois de tanto tempo, eu podia enfim obter respostas para aquilo, e sinceramente, eu me permitiria ser um pouco egoísta ao pensar primeiro em mim e depois naqueles dois cadáveres incompletos, pelo menos, por um ou dois dias.
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