Segunda Chance

2 ♪ Big girls cry


Notas iniciais
Hey, de novo, tão cedo hehe Então, como o primeiro capítulo parece mais um prólogo, por ser tão curtinho, eu resolvi postar mais um, hehe Novamente, se for do seu agrado, deixe um comentário, vou adorar ler! ♥ Aproveite a leitura! ^^/

“I may cry ruinin' my makeup

Wash away all the things you've taken

And I don't care if I don't look pretty

Big girls cry when their hearts are breaking”

ღ

— Tem certeza de que está tudo bem, Lara? — Meu irmão perguntou pela enésima vez.

— Sim, maninho, está tudo sob controle. Eu vou trabalhar em casa e tenho mais algumas coisas para arrumar. — Falei, sorrindo para ele, tentando convencê-lo de que tudo estava bem.

— Certo. Eu vou trabalhar, então. Mas qualquer coisa, sabe que pode me ligar, 'tá? — Concordei e trocamos um abraço, antes de Gabriel dar um sorriso e sair pela porta.

Assim que senti que estava sozinha, deixei a solidão me abraçar. Ela era a minha maior companheira, desde cinco meses atrás, naquele fatídico dia.

Caminhei pelo pequeno apartamento, como um fantasma, até chegar no meu quarto, que ainda estava com algumas caixas a serem desempacotadas. Respirei fundo e sentei no chão, abrindo o primeiro pacote. Comecei a tirar de lá alguns cadernos de quando eu estava na faculdade, álbuns de fotografia da minha infância e da minha formatura. E lá no fundo da caixa, como um assassino à espreita, estava uma foto minha e de Lucas.

Engoli o bolo de lágrimas que se formou na minha garganta e peguei a foto, passando o dedo sobre nossos rostos sorridentes, nos braços dele, que me rodeavam. Inspirei e expirei algumas vezes e rasguei a foto em diversos pedaços, colocando-a no lixo.

Aquela Lara da foto não existia mais. Aqueles dias não iriam voltar, então evitaria qualquer lembrança.

Olhei para os álbuns e escolhi um que parecia ter as folhas um pouco amareladas. Folheei e vi que eram fotos da minha infância. Havia fotografias minhas no ombro de Gabriel, viagens para a praia, paisagens de fazendas, onde meu avós moravam… Muitas fotos dos meus pais. Meu pai, Rafael, sempre muito sorridente, e minha mãe, Ana, sempre com seu semblante gentil. Muitas fotos de nós quatro juntos, comemorando feriados e aniversários.

De repente, algumas gotas começaram a cair e lá estava eu chorando novamente. De saudade. Sentindo o coração apertar.

Meu pai havia falecido há um ano atrás, de pneumonia crônica. Ele sempre teve a saúde frágil e acabou não resistindo. Foi um baque para mim e minha família. Eu tinha acabado de me formar na faculdade de História, e dava aula em uma pequena escola próxima do centro de Porto Alegre. Naquele momento, estava dando aulas à distância.

Minha mãe, depois que meu pai falecera, resolveu seguir em um retiro espiritual na Índia, dizendo que seriam por alguns meses. Mas então um dia, meu irmão e eu recebemos uma carta dela, na qual dizia que havia se encontrado naquele lugar e não pretendia voltar mais, que aquele era o caminho que ela deveria seguir.

No começo, eu senti raiva. Como ela pôde fazer aquilo? Nos abandonar naquele momento tão triste? Gabriel havia aceitado mais facilmente. Depois, percebi o quanto eu estava sendo egoísta e respondi sua carta, escrevendo que entendia sua decisão e que estava feliz por ela estar se sentindo bem. Depois disso, começamos a trocar cartas mensalmente.

Quando meu pai morreu, foi o momento mais desesperador da minha vida. Naquela época, achei que fosse afundar. Mas Lucas, o meu noivo, estava comigo.

Nós nos conhecemos na faculdade, logo começamos a namorar. Um pouco antes de papai falecer, Lucas havia me pedido em casamento. Foi uma alegria seguida de uma tristeza. Mas eu me agarrei àquele casamento com todas as minhas forças, para me distrair. Planejei tudo, do início ao fim. Para no final, ser abandonada no altar.

Depois que terminei de tirar tudo das caixas e de organizar os últimos detalhes no meu quarto, fui para cozinha, preparar um chá. Enquanto ouvia o barulho da água começando a ferver na chaleira, só conseguia pensar naquele momento que me atormentava há cinco meses.

Por quê?

Eu não havia sido boa o suficiente? Será que ele fugiu de toda aquela agonia que estava sendo minha vida? Se fosse aquilo, o significaria “na alegria e na tristeza”?

Eu passava e repassava aqueles momentos centenas de vezes por dia na minha cabeça, mas nada explicava. Eu não sou perfeita, é claro. Mas nós nunca brigávamos porque eu sempre fui contra conflitos, então tentava resolver tudo no diálogo. Também tínhamos uma vida sexual relativamente ativa. Conversávamos, passeávamos. O que tinha dado errado?

“Ele precisava de alguém sem tantos problemas na vida”, uma voz inquieta sussurrava para mim sempre. Se fosse esse o motivo, era até um pouco compreensível. Uma mulher que perdera o pai há pouco tempo, que não via mais a mãe e o irmão trabalhava muito, apesar de sempre tentar estar presente. Começando em uma escola nova, novos desafios, muitas coisas para lidar.

A chaleira chiou nos meus ouvidos, tirando-me dos meus pensamentos por um momento. Despejei a água em uma xícara e coloquei o saquinho do chá de erva-doce, levando para a sala. Deixei o chá fazer a infusão e peguei meu notebook, pronta para planejar as aulas da semana e enviar para a coordenadora da escola. Quando o computador iniciou, vi o meu papel de parede, uma foto dos meus alunos carregando um cartaz dizendo: “Fique boa logo”!; sorri com aquilo, pensando que nem tudo estava ruim e comecei a trabalhar.

ღ

Quando terminei de planejar todas as aulas, a noite já despontava pela minha janela, deixando pequenos resquícios da luz do sol ao lado oeste.

Desliguei meu computador e me espreguicei, com meus ossos rangendo e levantei do sofá, indo até a minha sacada, com a brisa fresca de início do outono. Passei a mão pelos cabelos, sentindo eles sujos, e os prendi. Encostei no parapeito, ouvindo os sons da cidade, vendo as luzes dos carros, nos prédios, as poucas estrelas no céu sem lua.

Era assim todos os dias. Eu acordava, comia alguma coisa, voltava pra cama. Tomava banho dia sim, dia não… Planejava as aulas, comia de novo, e ia pra cama. Cama, cozinha, sofá, cozinha, cama, sacada, sofá. Sem vontade nenhuma de fazer algo além disso.

Será que eu iria mudar? Será que eu sentiria novamente aquela vontade de viver? Respirei fundo mais uma vez, até que ouvi meu celular tocando.

Resmunguei um pouco, porque sabia que teria que falar com pessoas. E o único ser humano que eu sentia vontade de conversar era meu irmão, e Gabriel não me ligava, apenas mandava mensagens.

Peguei o aparelho e vi o nome “Luana” piscando na tela. Suspirei, pensando que se eu ignorasse iria ser pior.

— Oi, Lu! — Atendi, tentando mostrar o máximo de emoção, mas soava tão falso…

— Lara, não precisa fingir para mim.— Foi a primeira coisa que ela disse, como sempre fazia. Quem era muito próximo de mim sabia o que estava acontecendo, e eu não precisava mentir. Mas era automático.

— Desculpe, força do hábito…

— Tudo bem contigo?— Ela disse, a voz um tanto apreensiva.

— Na medida do possível, sim. — Fui sincera.

— Bom, já é alguma coisa. Mas enfim, não liguei para entrarmos naquele assunto de novo, apenas queria te convidar para ir em um lugar.

— Lu… já conversamos sobre isso, eu não quero ver pessoas… ainda não. — Falei, me sentindo cansada. Aquela era uma conversa gasta. Depois de tantos acontecimentos traumáticos, sentia um pouco de medo do mundo lá fora.

— Lara, eu te entendo, de verdade. E sei que é difícil, mas já fazem cinco meses, está na hora de encarar um pouco as coisas.

— Eu encaro “essas coisas” todos os dias, Luana. Eu não sei se sabe, mas elas me assombram toda a droga de segundo da minha vida. Então, o mundo, neste momento, não precisa de mim. — Pequenas lágrimas se acumularam, mas pisquei rapidamente para afastá-las.

— Eu sei, eu sei, me desculpe… não queria te magoar. Eu só quero o teu bem, Lara, me deixa triste te ver assim…— Estava claro na voz de Luana que ela estava triste. E eu sabia que ela tinha as melhores das intenções. Mas eu não estava pronta. Ainda não.

— Eu entendo, Lu, e agradeço de coração pela preocupação. Mas, por enquanto, eu preciso ficar em casa. Não consigo, espero que não fique magoada…

— Magoada por tu não ir, claro que não! Mas me deixa chateada te ver assim. Tudo bem, as coisas têm seu tempo. Sabe que eu te amo, Lara, tu é minha amiga, espero que as coisas estejam melhorando mesmo…

“À passos de formiga, mas acho que sim”, pensei em falar, mas acho que pioraria as coisas.

— Estão. Aos poucos, mas estão. — Achei melhor omitir, porque eu nunca fui fã de mentiras, mesmo. — Também te amo, Lu, obrigada por tudo.

— Não precisa agradecer, qualquer coisa é só chamar, certo? Beijos e te cuida!

— Te cuida também. Beijos. — Encerrei a ligação e apertei o celular, sentindo certa raiva de mim. Eu queria aceitar o convite, mas o medo de sair era mais forte e logo eu negava. Não era o momento.

Respirei fundo, enquanto tentava deixar aqueles questionamentos de lado e fui até cozinha encontrar algo para comer. Mas por mais que eu tentasse, um pensamento não me deixava:

“E se eu nunca voltasse a ser quem eu era”? Era o que eu gostaria de saber. Mas por enquanto, vou vivendo assim, até que algo mude. Logo.

Notas finais
É isso, pessoal! Espero que tenham gostado, até a próxima! ^.^/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.