Segunda Chance

10 Treino dos Clubes Esportivos - Sexto Dia


Assim que Hitsugaya tomou aquela atitude inesperada, de se jogar na piscina mergulhando em desespero, os cinco adolescentes ali presentes perceberam a gravidade do que fizeram. As garotas ficaram mudas em pânico. Ele mesmo junto com os outros três suaram frio, enquanto assistiam Histugaya alcançar a garota afundando na parte mais profunda da piscina. Quase caiu na água também, mas parou quando esse cara emergiu ofegante com a bruxa nos braços. Merda... O rosto dela estava pálido.

— Que droga!

Correu até a borda lateral da piscina, junto com o frouxo de Keita enquanto Hitsugaya chegava. Assim que alcançou a borda, sem palavras entregou a garota e tanto Keita como ele a seguraram pelos braços, tirando-a da água. Merda... Ela estava gelada. Já iria tentar fazer uma massagem cardíaca, para reanimar essa bruxa, quando mandaram nele.

— Se afaste!

Olhou pro lado, descrente e chocado em tempo desse kouhai arrogante sair da piscina e se ajoelhar perto da bruxa.

— Só queria ajudar, seu...

Hitsugaya apenas o ignorou. Entalado entre o pânico e a raiva, Digio o assistiu se inclinar na garota, verificando se respirava, se ainda tinha pulso pressionando dois dedos na sua carótida. E então para o espanto de todos, realizar uma respiração boca a boca nessa bruxa. Em gestos precisos e ligeiros, ele inclinou a cabeça dela para trás levando sua mão ao nariz dela enquanto se debruçava na mesma inspirando fundo. Ninguém ali dizia nada. Fazia coisa alguma. A sensação de quase terem matado essa garota gelava por dentro. Ousou olhar para a direita e encontrou Ruka, ajoelhada no chão com uma expressão de horror. Era o mesmo que nada nessa bagunça.

— Mentira. Ela.. ela se afogou mesmo?

Nesse instante que Rikuo acordou do choque. Se virou alterado pra ela, espantando a ruiva.

— Para de dizer besteiras! É obvio que essa bruxa tá fingindo!

— Ma..mas...

— Fique quieta! Eu sei do que tou falando! Não é Noitra?

Ao mirar para o sujeito a sua direita, Rikuo ficou mudo arquejando incrédulo. Noitra tinha um semblante retorcido em pavor, tremendo sem tirar os olhos dessa bruxa. Olhou para ela também e ainda estava desmaiada. Apertando o nariz arrebitado de Kurosaki, Hitsugaya cobria outra vez a boca na dela soprando fôlego. Ao longe ouviu um ranger e levantou a cabeça em tempo de Hinamori escapulir pela porta de trás. Rangeu os dentes... Essa maldita. Foi tão silenciosa que nem viu sair daqui. Voltou os olhos para bruxa. Hitsugaya repetia o processo de RCP, esperando essa encrenqueira reagir. Estremeceu irritado, sentindo uma agonia em nervosismo crescer enquanto ela não acordava. Que merda... Era bom mesmo que não tivesse morrido ou então estavam tremendamente ferrados.

— Caralho e agora? E se ela...

Noitra recuou devagar, apavorado e percebeu na hora o que iria fazer.

— Deixe de ser medroso. De jeito nenhum que essa garota vai morrer!

O encarando atordoado, esse magrelo arquejou agitado. Já iria dizer outra coisa para distraí-lo quando Rikuo jogou o bastão pra longe, atingindo num intrépido contra os bancos ali perto. Todos o encararam, exceto Hitsugaya. Rikuo arquejava, pálido e tremendo com um olhar de pânico.

Mas que droga!

— E daí?! Até parece que vou ficar aqui esperando!

— Matte, seus malditos!

Foi inútil. Correram em debandada para a saída do ginásio. Ruka parecia que ganhou alguma energia nesse instante. Se levantou atrapalhada do piso, estremecendo igual a uma vara verde.

— Hitsugaya-kun, eu...eu não tive nada haver com isso. Eu pedi que não fizessem esse tipo de brincad...

— CALEM A BOCA!!!

Piscando espantado, assistiu incrédulo Hitsugaya interromper a reanimação respiratória tremulo de raiva. Espere, não é raiva exatamente. Ele disfarçava um desespero aterrador. Foi como um jorro gelado o banhasse inteiro. Fitou a garota desmaiada, lembrando do pânico da mesma quando disse que a jogaria na piscina. Será que ela...

— Alguém chame Unohana, rápido!

Acordou do choque com o chamado urgente e viu mais uma vez Hitsugaya soprar dentro da boca dessa bruxa. Nesse instante, as mãos dela tremeram e segundos depois seu corpo convulsionou, em espasmos fortes enquanto tossia. Rápido, Hitsugaya virou-a de lado e essa garota vomitou mais água aos borbotões.

Foi notável o clima de alivio ao redor. Keita até então quieto choramingava histérico sentado ali por perto.

— Graças a Kame. Não aconteceu nada de ruim.

— Não contem com isso.

O tom frio e cortante da frase fez cair mais uma vez naquele terror. O clima que antes havia amenizado, carregou pesado nesse instante. Se endireitando sem deixar de segurar o ombro da bruxa, Hitsugaya emanava um ar obscuro, sinceramente o deixando arrepiado.

— Seja lá que desculpa vão dar, não contem que se livraram disso. Além de a jogarem nessa piscina, não a socorreram.

Levantando o olhar, esse sujeito encarou diretamente pra ele. Pela primeira vez se intimidou com a hostilidade de uma pessoa. Hitsugaya o encarava de uma maneira como se... se pudesse, não, quisesse matar alguém dolorosamente. Era nítido a vontade estampada nos olhos dele.

— Foi apenas uma brincadeira, como íamos saber...

— Yurusenee.

Arquejou incrédulo. Esse cara disse mesmo isso?

— Escute, seu...

— Cale agora essa boca, Digio. É meu último aviso.

Arregalou os olhos. Sem acreditar viu o olhar desse cara escurecer de um jeito assustador. Tremulo e possesso, Hitsugaya arquejava parecendo ao ponto de explodir. Involuntariamente recuou. Pela visão periférica viu Ruka os olhar em puro nervosismo.

— V..vamos nos acalmar, tudo bem? Não aconteceu nada grave, gente. Felizmente, a Kurosaki...

— Você também, não diga nada.

Ruka arfou ofendida. Pondo a mão no peito tentou fingir uma preocupação alheia que nem de longe sentia.

— Toushirou-kun! Eu só...

— Estava assistindo aos risos. Sei bem o que vi.

Dirigindo o olhar atravessado para Ruka, Hitsugaya deixou claro o tamanho desprezo que sentia por ela. Se fosse em outras circunstâncias teria debochado, até procuraria entrar em atritos com ele somente para provocar. No entanto, esse terror amargando na garganta, trancando-a, provocava ondas de desgostos misturados a pânico. Nunca recuou numa briga, mas sempre que envolvia esse kouhai arrogante mantinha cautela. Hitsugaya era um cara perigoso. Seus instintos gritavam isso.

Sem nada a dizer, Hitsugaya apenas escorregou os braços debaixo da bruxa assim que parou de tossir, trazendo-a para si aninhando nele e se levantou carregando-a nos braços. Do momento em que seguiu caminhando até a saída e desaparecer no temporal que desabava soltou a respiração, sentindo o coração martelar seco na garganta.

Dessa vez, cometeram o maior erro possível. Esse sujeito muito menos a bruxa, deixariam isso passar barato.

Kuso!!!

HITSUGAYA POV

Caminhando o mais rápido que podia pela passarela, ignorei o vento forte e os respingos da chuva mergulhado numa espécie de torpor. Lembrava de quando mergulhei na piscina, afundando rápido e nadar até o corpo que afundava na parte mais funda de lá.

Kurosaki tinha a cabeça inclinada para trás com os lábios entreabertos. Não esboçava reação alguma e isso me apavorou. Angustiado, caminhei ainda mais rápido cruzando essa passarela até descer os degraus alcançando a entrada da pousada. Mesmo que não saibam o tempo mínimo para uma pessoa se afogar, cerca de 60 segundos, como não viram isso? Como a deixaram pra morrer e sorriam como se fosse nada demais?

Kuso... Se demorasse mais um pouco teria sido fatal. Ainda bem que ao menos, ela apenas teve uma parada respiratória. A olhei nervoso, engolindo em seco. Seu rosto tinha empalidecido de um jeito assustador, seus óculos se perderam dentro da água e ainda estava gelada. Um ponto positivo, não causaria sequelas ao cérebro pela falta momentânea de oxigênio. Agradeci intensamente que sabia como proceder os primeiros socorros, se fosse qualquer um teria piorado o quadro.

Estava tão absorto em pensamentos que quase trombei com alguém no corredor. Olhei para frente encontrando Kiba nos olhar espantado.

— Mas o que foi que aconteceu? Por que vocês dois estão ensopados?

Engoli o nervosismo, passando por ele.

— Kurosaki se afogou.

Girando no lugar, ele me seguiu aturdido com a noticia.

— O que? Como isso...

— A jogaram dentro da piscina – estreitei o olhar – Ela não sabe nadar.

— Meu Deus.

Suspirando, olhei para ele bem no instante que caminhou ao meu lado. Ele olhava desolado, cheio de preocupação para a garota nos meus braços.

— Relaxe, já fiz os primeiros socorros.

Ao me olhar, minha expressão pareceu acalma-lo e assentiu, parando de andar.

— Certo. Vou chamar Unohana. Enquanto isso, ligue para uma ambulância assim que a deixar na enfermaria.

— Hai.

Correndo desesperado, Kiba sumiu no fim desse corredor e me encaminhei o mais depressa possível até o local. Assim que cheguei, consegui abrir a porta e entrei indo à maca mais próxima. O biombo estava aberto e fechei rápido, me dirigindo em seguida até um armário no canto desse quarto branco. Peguei todos os cobertores que encontrei e depois fui até o biombo, abrindo apenas um pouco a cortina fechando-a atrás de mim.

Deixei os cobertores num canto da maca e depois tirei os tênis e as meias dos pés dela. Em seguida tirei sua saia e depois arranquei esse moletom pesado e a blusa que vestia por baixo. Deixei-a somente com a lingerie e depois a envolvi nos cobertores, apressado até estar agasalhada direito. Apenas nesse instante que olhei para minhas mãos ao me afastar da maca. Estremeciam e respirando fundo, procurei me acalmar um pouco. Até agora segurei esse pânico, me concentrando no que era mais urgente, não posso deixar isso acontecer agora.

Tremulo peguei o celular do bolso e estalei a língua notando o quanto estava molhado. Que droga... Guardei outra vez e fui até um telefone na escrivaninha no outro extremo. Mal tirei o fone do gancho e escutei um gemido. Larguei na mesa e corri até o biombo, puxando a cortina apressado. Arquejando, assisti Kurosaki arfar tremula piscando desorientada ao virar no colchão. Um jorro de alivio me inundou quando gemeu fraca outra vez.

— O.. o que aconteceu?

Me aproximei da maca, a olhando sem acreditar por estar acordada. Foi um afogamento com parada respiratória, um grau de risco grave só perdendo para o qual onde o coração da vitima também para de bater. Ela devia somente despertar no hospital com o tratamento adequado, mas pelo visto não estava nos seus planos. Essa garota...

Quase ri, segurando sua mão livre dos cobertores.

— Kurosaki, pode me ouvir?

Levantando o olhar das nossas mãos dadas, seus olhos pareciam meio desfocados, mas de algum jeito ela me reconheceu.

— Toushirou? O..o que está fazendo aqui?

Segurei um sorriso, apertando sua mão ao ignorar sua pergunta.

— Você me deu um bruto de um susto.

Franzindo a testa, ela demorou um pouco a entender até que levantou as sobrancelhas. Pânico toldava seus olhos.

— Eu estava... Como? Quem me tirou da água?

— Quem mais seria?

Puxei um banco ali perto e me sentei. Tive um vislumbre da sua surpresa quando arquejou ao olhar pra mim, antes que me debruçasse ao seu lado na maca. Escondi o rosto no outro braço, apoiado no colchão perto da sua barriga. Esse estresse todo havia me esgotado. Ainda segurava sua mão, roçando o polegar na sua pele fria.

— T..toushirou?

— Me dê um segundo, por favor.

Eu precisava me recuperar um pouco. Ainda sentia meu pulso acelerado de tanto medo.

— Achei que tivesse morrido, sua louca.

— Ei.. Não devia chamar alguém que acabou de acordar de louca.

Quase ri. E ela ainda faz piadas. De qualquer modo, procurei sossegar um pouco. Kiba estava demorando em achar Unohana-sensei. Com certeza, ela e Zaraki haviam arranjado outro canto para namorarem.

— Toushirou.

— Hum?

Pela quantidade de água que engoliu, sua voz estava rouca e fraca. Parecia tão frágil assim.

— Por que estou sem roupas?

— Eu tirei, precisava mante-la aquecida.

A mão que segurava enrijeceu tensa e levantei um pouco o rosto a fitando de soslaio. De olhos arregalados, ela me encarava corada igual a uma rosa. Sua franja bagunçada e molhada dava um ar diferente nela, bonito e... familiar. Estranhei um pouco, mas ignorei me divertindo com a vergonha dela.

— Qual o problema?

— Vo..você viu, não viu?

Curvei os lábios.

— Tem que ser mais clara. Vi o que, exatamente?

Estremecendo nervosa, Kurosaki puxou a mão da minha agarrando bem junto do peito os cobertores. Estava muito envergonhada, era notável isso.

— Tudo, ora. O que mais seria?

— Ah isso. Não prestei atenção.

Seus lábios se apertaram.

— Não minta. Minhas peças intimas são brancas.

— E daí?

Não sei por que, mas estava gostando de vê-la encabulada desse jeito. De olhos arregalados, Kurosaki me encarava indignada.

— E daí? Como assim e daí? Ficaram transparentes. É obvio que apareceu... Quer saber, chega disso.

Emburrada, se deitou melhor na maca estremecendo ao se encolher dentro dos cobertores. Ficamos em silêncio por um tempo. Ela a fitar o vazio e eu a ela. Havia algo no seu rosto dessa forma que me atraía a atenção. Não era uma admiração estranha ou uma súbita vontade de fazer isso. Simplesmente... Havia algo nele como está agora sem os óculos que me parecia de certa forma familiar.

Suspirando, Kurosaki afastou a franja de seus olhos piscando sonolenta e um choque me amorteceu. Prendi o fôlego, empalidecendo ao sentir meu sangue fugir enquanto olhava para seu rosto mais atento. Lenta e definidamente a certeza do que via se fez presente pra mim.

Meu pulso acelerava entre a descrença e o choque. Não é possível.

— O que foi?

Me olhando, ela me pegou no flagra enquanto a encarava aparvalhado. Pisquei desviando o olhar. Fitando o vazio procurei me situar, sentindo meu pulso latejar forte ao ponto de me deixar surdo.

— N..nada. Kurosaki, qual o seu primeiro nome?

— Ahn? Pra que quer saber?

Suspirei tremulo. Mal conseguia respirar.

— Só diga.

Por favor. Pouco me importava que estivesse contando mentiras pra mim até agora. Nesse momento, tudo o que queria, precisava era ouvir e confirmar...

— É Kikyou.

O que? Arregalando os olhos, voltei a fita-la, mas havia dormido. Me endireitei na cadeira aturdido com a atitude dela. Era mentira? Um estratagema pra me enganar? Não, por que faria? A observei atentamente e vi que realmente dormiu exausta. Uma sensação ardente de frustração queimou no meu peito enquanto estreitava os olhos, sem afasta-los dela. O que diabos foi isso? Será que estava vendo coisas? Não, não tem como me enganar assim. Ela é tão familiar pra mim, que me sentia a vontade perto dela, confiava nela até o ponto de me desabafar como fiz ontem.

Subitamente, lembrei do que disse e contra vontade senti meu rosto pegar fogo. Se Kurosaki fosse ela, então quer dizer...

— Onde ela está?

Dei um pulo no banco. Abrindo o biombo, Unohana-sensei puxou a cortina olhando diretamente para Kurosaki. Levantei do banco, pegando suas roupas molhadas pondo numa mesa.

— Hitsugaya, há quanto tempo ela está desacordada?

— Apenas alguns segundos.

Se interrompendo no ato de examiná-la, Unohana-sensei me olhou especulando e expliquei.

— Ela acordou faz alguns minutos. Já iria chamar uma ambulância quando aconteceu.

— Entendo. Sabe-se se ingeriu muita água? Quando tempo ficou submersa?

Fiz a contagem levando o tempo que a vi perseguindo Keita para dentro do ginásio, minha hesitação e depois quando a segui flagrando aqueles cinco.

— Acho que uns três... Quatro minutos talvez.

— Hum.

Pegando seu pulso ela tomou nota verificando no relógio na parede e somente nesse instante vi seus trajes. Uma yukata rosada dos banhos termais internos e era impressão, ou tinha uma mancha avermelhada no seu pescoço? Logo entendi e senti pena de Kiba. Deve ter escapado por pouco da ira de Zaraki.

— O pulso está normalizando e a temperatura aumentou gradativamente. Você que prestou os primeiros socorros?

— Hai.

— Ela deve ficar bem depois de um dia em observação.

Franzi a testa, enquanto Unohana-sensei pousava o braço de Kurosaki de volta à cama.

— Sensei, Kurosaki teve uma parada respiratória. Ela tem que ir ao hospital e receber medicamentos para evitar qualquer sequela.

— Ah, sobre isso não será possível.

— Como assim?

Se virando para mim, ela pegou um jaleco qualquer pendurado num gancho à parede, vestindo sobre a yukata. Como seus cabelos estavam presos no coque improvisado, apenas os soltou fazendo uma trança e colocou de lado – cobrindo a marca no pescoço.

— O rio que corre debaixo da ponte entre a montanha e a cidade transbordou. Teremos que ficar aqui até a chuva acabar.

— Por isso cancelaram o jogo-treino.

Apanhando um estetoscópio de cima dentro do armário, ela o colocou no pescoço se voltando pra mim.

— Zaraki fará uma reunião com vocês daqui a pouco, Hitsugaya. Ah, deve se trocar também, pegará um resfriado assim.

Tem razão, ainda estava com as mesmas roupas. Dei uma olhada em Kurosaki, ainda aquela impressão persistia dentro de mim, mesmo que estivesse enganado. Uma mão segurou meu ombro e mirei a pessoa. Unohana-sensei me olhava compreensiva, com um singelo sorriso nos lábios.

— Fique tranquilo. Estarei de olho nela e administrarei os medicamentos que precisa. Agora vá.

Assentindo a atendi e depois me dirigi até a porta, saindo em seguida.

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— Muito bem. Todos estão aqui? Ótimo, vamos ao que interessa. Graças a esse clima maluco, choveu como nunca e estamos ilhados nessa montanha até amanhã de manhã. O que não estava nada nos meus planos.

A maioria engoliu em seco, enquanto Zaraki passeava o olhar ferino pelos membros do clube espalhados nessa sala. Uma hora depois que saí da enfermaria, Kiba avisou todos que estavam nos dormitórios e mais uns tantos espalhados sobre essa reunião. Meu celular não servia para mais nada, então tirei o cartão de memória e o chip, guardando na carteira.

No caminho até a sala de conferências do hall nessa pousada, Digio, Noitra e Rikuo me encaravam nervosos e tensos. Percebi que outros notaram, mas ninguém disse nada. Eu me mantivesse quieto. Antes dessa reunião, Kiba veio me perguntar antes do chamado o que aconteceu. Apenas mencionei os envolvidos e o que fizeram. Ele estreitou o olhar suspirando fundo me agradecendo por contar.

— Como é de praxe, eu vou adiantar a escalação do time titular e os reservas para as eliminatórias do campeonato. Yoshida escolheu comigo então não reclamem, pivetes.

Pegando uma prancheta na mesa, Zaraki foi chamando os nomes e as posições enquanto Kiba oferecia a cada um o uniforme numerado do time. Levantei as sobrancelhas, surpreso com o design novo. Cinza chumbo com o número negro. Geralmente usamos o contrario. Deve ser para quando jogarmos com um time de uniforme escuro durante as eliminatórias.

— Número dez, meio de campo, Hitsugaya.

— Hai.

Levantei da cadeira e peguei o uniforme. Kiba sorriu cumplice para mim e revirei os olhos. Sei o que queria dizer. O novo time era o mesmo que Kurosaki escolheu. O jogo de ontem deve convencido nosso técnico. Voltando ao meu lugar, esperei Zaraki chamar os sete restantes até que essa reunião dar por encerrada.

— Amanhã, as sete da manhã estaremos saindo.

Alguém levantou a mão.

— Treinador. O senhor não disse que não podemos sair da montanha?

Fazendo um esgar, Zaraki se voltou para o garoto, um novato como eu e encarou ceticamente.

— Seguiremos por outra rota, imbecil. Felizmente, tem uma estrada secundária que desce ao lado oeste essa montanha. Mais uma coisa. Quem esquecer algo ou dormir demais ficará pra trás.

Ele olhou diretamente pra mim e estreitei o olhar. Nossa vinda foi uma situação totalmente diferente de agora. Claro que não perderia o horário de novo.

— Dispensados.

Todos se levantaram das cadeiras, já se dirigindo a saída. Mal Akira abriu a porta quando Zaraki mencionou.

— Keita, Noitra, Digio, Rikuo e Hitsugaya. Vocês ficam.

O tom mórbido causou um silêncio tenso aqui dentro. Segundos depois todos escapuliram daqui e o próprio Zaraki foi até a porta e fechou. Calado, ele se dirigiu até a mesa, pousando a prancheta antes de nos encarar.

— Muito bem. Devem saber por que nessa gerente atrevida não está presente hoje.

Keita engoliu em seco.

— Treinador, eu...

— Calado, pivete. Ainda não terminei.

Se olhares desintegrassem, esse que Zaraki lançou para Keita faria. O garoto murchou, mudo e tremulo, quieto no seu lugar.

— Como dizia. Eu sei que ela é irritante. Tanto que dá nos nervos e essas trocas de farpas e peças são um hobby entre vocês.

Rikuo se levantou da cadeira.

— Mas senhor, a gente...

— Eu disse: calados, Touga. Não encurte mais a minha paciência.

Arquejando, Rikuo voltou a se sentar. A essa altura todos os quatro suavam frio. Eu não tinha motivos para temer o que viesse, também nem me importava por estar sendo envolvido.

— Pois bem. Afogar a garota extrapolou todos os limites.

— Não foi por querer! Ela que veio feito um furacão querendo espancar o Keita e quem estivesse no caminho!

Noitra reclamou agitado, me irritando. Kiba até então calado se manifestou. Avançou um passo, descruzando os braços.

— E acha que justifica jogar a menina na piscina?! Ela não sabe nadar, moleque!

Pelo ar alterado, Kiba também sentia tanta raiva como eu.

— E por que a nanica queria espancar esse outro nanico aí?

A pergunta do técnico fez todos engolirem em seco. Foi a minha deixa.

— Ontem à noite roubaram as roupas de Kurosaki enquanto ela usava as termas. Keita fez isso.

Mal acabei de falar e se viraram para mim, aturdidos. A ranhura das cadeiras no piso soou alto aqui dentro. Zaraki me olhava boquiaberto e Kiba, bem... seus olhos quase saltaram pra fora. Se recompondo, o técnico estreitou o olhar duvidoso. Não gostei disso.

— Como você sabe disso?

Com essa pensei seriamente se ficaria calado, mas... não. Seria pior, como se estivesse assumindo a culpa de algo que não fiz.

— A escondi no meu quarto.

Todos arquejaram de susto e ouvi um grito.

— NANI?!

Não foi Zaraki quem gritou. Foi Rikuo. Desviei o olhar para ele e vi que me olhava espantado, junto com os outros três. Suas expressões variavam de espanto à horror, me irritando.

— Que péssimo você tem gosto, garoto.

Apertei os dentes com o comentário do técnico. Kuso, o assunto aqui não é esse. Recuperando-se do susto mais rápido que os demais, Zaraki pigarreou atraindo minha atenção.

— Que seja. Isso não me interessa mesmo. Está dispensado, Hitsugaya. Mas os quatro idiotas ainda não. – dando um sorriso beirando a perverso, dirigiu o olhar para eles – Tenho uma tarefa especial para vocês.

Assentindo, peguei meu uniforme e levantei da cadeira saindo sem olhar para trás. Enquanto ia para meu quarto, pensei no que aconteceu na enfermaria. Será mesmo que foi só impressão? De todo jeito, de algum modo me sentia... Decepcionado.

HITSUGAYA POF

No dia seguinte

KARIN POV

Afogamento.

Segundo o dicionário é a asfixia causada pela aspiração de um líquido não corporal por imersão ou, no meu caso, submersão. Eu não acredito que vivi esse horror outra vez. Durante o dia anterior, me concentrei em achar o culpado que roubou minhas roupas. Evitava pensar na confissão do Toushirou verificando cada garoto, se havia um hematoma, corte ou um curativo disfarçando o machucado feito pela minha pedrada.

Eu me foquei nessa caça ao pervertido, pois se pensasse no que Toushirou me disse não raciocinaria. Então, por enquanto, deixei de lado o fato que esse garoto transou com outra pensando em mim. Durante a parte da manhã, não tive lá muito progresso. Debaixo da chuva e um guarda-chuvas a mão, não pude ver nada além de tropeços e escorregões dos garotos no gramado. O campo estava tão encharcado que mesmo usando travas nas chuteiras, alguns não escaparam.

Então, quando o treino acabou vi a oportunidade quando nos reunimos no ginásio das garotas da torcida. Elas se interromperam no meio do ensaio, admirando feito patetas os garotos entrarem todos suados e arfantes do treino. Mencionei que ainda por cima estavam sujos de grama e terra? Elas nem ligaram pra isso.

Zaraki e Kiba me fizeram o favor de deixarem elas bem longe quando me mandei que todos se sentassem no piso de madeira. Com uma caixa de primeiro socorros, fui examinando quem realmente precisava de curativos e os que sentiam dores musculares, dei apenas um gel pra massagem. Com isso podiam se virar, oras. Me dava mais folga para cuidar dos outros. Assim que fui limpar um arranhão feio no joelho de Keita, vi um corte cicatrizando na sua testa. Arregalei os olhos, segurando a raiva e fingi que não vi nada limpando a ferida.

Fiquei quieta até depois do almoço e procurei uma ferramenta. Não importava qual seja, queria uma ferramenta adequada para surrar esse voyeur cretino. Levei a metade da tarde vasculhando aquele deposito velho até encontrar. Um velho bastão de madeira de beisebol. Peguei sentindo o peso, testei uns balanços e me senti pronta.

Agora da vingança. Saí procurando por Keita até o encontrar comprando refrigerante no refeitório. Mal me viu, no meio do cumprimento corri pra cima dele brandindo aquele bastão. Ele me olhou como se fosse a encarnação de um demônio. Do jeito que estava possessa, arquejando de raiva devia parecer com um mesmo. Enfim, o persegui pela pousada inteira, espantando os hóspedes e ouvindo as desculpas esfarrapadas dele. Só me deixou com mais ódio. No meio da fuga, ele saiu para detrás do prédio e demos umas voltas pelos ginásios debaixo da chuva mesmo enquanto tentava o acertar.

Só lembro que quebrei uns vasos. Fiz um rombo na quina de uma parede quando ele se abaixou e saltei pra cima dele, assim que achou que tinha me despistado. Escondido atrás de um dos pilares da varanda do segundo ginásio, por pouco não acerto sua cabeça e quebrei uma lâmpada no lugar. Kuso... Era bom na esquiva. Ele havia corrido para dentro do ginásio e estava tão furiosa que não vi as duas cobras e aqueles moleques. Keita se encurralou no vestiário feminino e ao girar pra trás dei uma pancada na sua cara.

Calma, eu não quebrei nada demais. Só o nariz e o cretino caiu gemendo, tentando estancar o sangue descendo pelo rosto. Eu não estava nem aí. Apenas perguntei numa falsa calma.

— Suas últimas palavras?

— Ku..rosaki-san!!!

— Péssima escolha.

Não adiantava implorar. Eu ia espancar esse garoto até acabar minha vontade. Porem, invadiram o vestiário e por reflexo, girei dando um golpe naquele que tentou me agarrar. Pasma, vi Noitra se esquivar pra trás aturdido e me segurou pelo pulso. Apenas, girei o corpo torcendo seu braço e dei um chute atrás do seu joelho esquerdo. Ele caiu estatelado me xingando e nesse momento, a segunda pessoa me agarrou por trás. Era o Digio, notei pelo risinho e Rikuo me tirou o bastão.

Xingando e esperneando, mandando eles me soltarem não percebi que saímos do vestiário e que eles se dirigiam pra piscina. Foi quando toda minha adrenalina sumiu e entrei em pânico. Implorei em desespero pra não fazerem isso. Me humilhando praticamente ao lagrimar e no terror, vi Hinamori assistindo satisfeita com Ruka, a ruiva gostando do que via.

Mandando que esfriasse a cabeça, Digio me jogou com uma força absurda na parte mais funda da piscina. O choque com a água ardeu e latejou todo meu corpo. Entrei em pânico, não tive tempo de prender a respiração e por causa da minha perseguição à Keita, minha perna protestou. Engoli tanta água, foi como fogo se alastrando nas vias aeras e os pulmões. Eu não via nada, só bolhas ao redor e em segundos, que me pareceram uma eternidade minha mente foi apagando e a vista escurecendo.

Achei sinceramente que iria morrer, então quando me vi numa maca, quentinha e toda embrulhada em cobertores me surpreendi ao segurarem minha mão. Era um toque terno, mas forte. Sem machucar e olhei para a pessoa que me chamava. Mesmo sem óculos, vi Toushirou todo ensopado sorrindo aliviado pra mim. Ele nem disfarçava. Fraca pelo afogamento e desnorteada não fazia ideia do que estava acontecendo até que durante nossa conversa me lembrei.

Realmente me assustou e agradeci internamente que Toushirou tinha me salvado. Iria fazer isso, mas os assuntos mudaram e acabamos tendo uma discussão boba. Estava tão sonolenta que não entendi nada daquela expressão assombrada dele naquele momento. Se visse coisas, diria que seus olhos brilharam. Toushirou me fez uma pergunta estranha. Do nada quis saber meu primeiro nome e soltei um qualquer antes de desmaiar de cansaço. Não vi nem ouvi mais nada depois. Passei o resto do dia com uma agulha intravenosa na mão, medicada com uns remédios pra evitar edema pulmonar.

Unohana-sensei não saiu do meu lado e aproveitou pra me avisar quando acordei à noite, que no dia seguinte já iríamos embora. Estranhei isso, mas fiquei quieta. As seis horas, ela trouxe minhas coisas e tomei um banho aqui mesmo. Tinha um banheiro pequeno aqui dentro, então pude me arrumar sem problemas. Já estava arrumando os cabelos quando ela me entregou meus óculos. A armação por incrível que pareça não entortou e me disse que a pessoa me pediu desculpas. Foi muito sincero e me espantei com isso.

Enfim. Pronta fui tomar café da manhã junto com todos. Por incrível que pareça ninguém soube do que aconteceu e assim que entramos no ônibus, sentaram ao meu lado. Levei um susto, afinal ninguém dos meninos quis sentar comigo e vi Toushirou se acomodar na poltrona bem humorado. Meu coração não parou de martelar no peito.

— Parece bem melhor.

— Unhum — Ajeitei os óculos, um pouco encabulada — Sabe, ainda não tive a oportunidade de agradecer. Obrigada pelo que fez. De verdade.

Curvando os lábios, Toushirou sorriu de um modo gentil e terno, me desnorteando sem querer.

— Não foi nada. O que planeja fazer?

— Nani?

Ele me olhou significativo de soslaio e entendi. Mordi o sorriso quando o ônibus saiu do estacionamento, manobrando até a saída.

— Ainda não sei. Sabe o que Zaraki arrumou como castigo?

— Fizeram tiros de agilidade a noite inteira. Sem jantar, sem dormir e ainda arrumaram todas as coisas que você quebrou perseguindo Keita.

— Ah... Bem feito.

Ele riu abafado de mim e dei os ombros. Por isso que aqueles quatros estavam desmaiados nos bancos de trás. Durante o caminho, já que a maioria dormiu devido ao horário, tive uma ideia e vasculhei minhas coisas até encontrar o estojo que Yuzu enfiou na minha mala. Ela tinha uma noção errada sobre viagens de treino. Não eram passeios, mas graças a isso tinha uma arma infalível agora.

Levantando entre os bancos no corredor, deixei minha mala atravessada ali mesmo e andei silenciosa até as poltronas traseiras. Estremecia de empolgação, abrindo o estojo de maquiagem e peguei o aplicador com muito cuidado.

Eu faria uma arte e tanto nas caras desses imbecis. Seria um extra para o que farei quando chegarmos.