Segunda Chance
8 Treino dos Clubes Esportivos - Quarto Dia
KARIN POV
Depois de conversarmos um pouquinho, Toushirou ficou ao meu lado quieto. Achei que participaria das brincadeiras na piscina, mas não. Continuou sentado aqui comigo. O espiei confusa, mais uma vez estranhando esse tipo de atitude. Desde que chegamos... Não, desde o ônibus ele tem se comportado de um jeito totalmente diferente de antes.
Tirando os treinos da manhã e a tarde, nos horários livres da programação desse “acampamento” ele preferia ficar ao meu lado... Parecia a época de quando estudamos juntos. Prendi o fôlego e desviei o olhar. Deixe de bobagens, Karin. O motivo mais provável disso é que não dava em cima dele descaradamente.
Falando nisso... Vi uma garota se aproximando daqui, o biquíni vermelho chamativo enquanto ofegava e sorria. Kirishima Ayame e a garota se sentou bem do lado dele me ignorando total.
— Ah... É tão divertido, não é Hitsugaya-kun?
— Hum.
Engoli o riso. Virei a cara, com a mão na boca tremendo ao segurar a gargalhada. Não tive como evitar. Toushirou acabou com o bom humor dela com o resmungo. Foi claramente um aviso, ele não queria conversa com ela. Então assistindo de soslaio, vi essa garota “descongelar” e se inclinou contra o braço dele.
— Por que você está aqui tão sozinho?
Arregalei os olhos. Ela.. ela encostou os seios no braço dele?! E peraí! Como assim sozinho?! Estou bem aqui! Abri a boca, já pra dizer umas poucas e boas quando Toushirou se manifestou.
— Eu não estou sozinho e Kirishima, se afaste.
A encarando de soslaio, Toushirou deve ter feito de um jeito irritado porque a garota empalideceu num segundo. Rindo sem graça, fez o que ele disse.
— Gomen, nem percebi. A..acho que Miyura está me chamando.
Ao se levantar do banco se afastou rápido daqui indo até o outro da piscina. Eu não sabia se ria ou ficava com pena dela. Deve ter sido uma encarada bem fria.
— Detesto isso.
Olhei o cidadão em tempo de Toushirou suspirar com desgosto. Quase ri chamando sua atenção e pela sua expressão séria claro que não gostou.
— Acha engraçado?
— Bom, além desse fora grosseiro ela deve ter ficado com medo de você.
Ri divertida. Eu nunca vi um cara permanecer tão frio com uma garota seminua perto dele. Toushirou tinha gelo no sangue por acaso? Ele nem corou ou gaguejou e olhe que Ayame é linda.
— Eu não gosto desse tipo de garota, Kurosaki.
Levantei a sobrancelha duvidosa.
— Sei...
— Estou falando da atitude. – se voltando mais para mim, seu olhar ficou cético – Você namoraria um cara que cede a esse tipo de coisa?
Franzi as sobrancelhas indignada.
— Claro que não.
— Então é o mesmo.
Pisquei impressionada. Eu sabia que tinha umas atitudes adultas, mas chegar a pensar assim sobre isso enquanto que outros caras não... Ele realmente é diferente.
— Você é esquisito.
Quase rindo, Toushirou apenas desviou o olhar para a piscina.
— Já me disseram isso. Você, inclusive, disse ontem.
Bem lembrado. Já que estamos nesse assunto, queria realmente sanar minha curiosidade a respeito de um tema. Pigarreei um pouco nervosa para disfarçar e criei coragem.
— Então tem um tipo de garota?
— Você não?
Arregalei os olhos, ofendida.
— Há?
— Estou falando de garotos, Kurosaki. Você não tem um tipo também?
Me fitando de viés, seu olhar era escuro e risonho. Emburrei irritada e sem graça. Não consigo ficar normal perto dele. Ora ficava nervosa, sem graça, ou bem infantil. Claro que tinha um tipo e estava sentado bem do meu lado. Mas obvio que não diria pra ele.
— Eu perguntei primeiro.
Estreitando o olhar, Toushirou bem pensava que sou teimosa, mas cedeu relaxando a postura ao se encostar na parede.
— Baixinha, teimosa, com personalidade forte. Ela deve ser orgulhosa, mas não tanto.
— Por quê?
Que tipo de garota é essa? Sorrindo para mim, seu rosto assumiu um ar de cheio de malicia misturado a charme.
— O desafio de conquista-la é o melhor.
Meu queixo caiu. Digo, fiquei realmente pasma com o que acabou de dizer. Eu não imaginava que tivesse um lado desses.
— Então quer dizer que você gosta das difíceis?
— Das verdadeiras e não as que bancam. Minha ultima namorada se transformou em outra pessoa quando começamos a namorar.
Outra noticia desnorteante. Ele... ele tinha namorada. Espere um pouco. Tinha? Então quer dizer que estava solteiro. Agora entendo essa caçada das garotas.
— Agora é sua vez, Kurosaki.
Pestanejei de susto. E agora? Toushirou me olhou esperando e engoli em seco, apoiando o queixo nos meus punhos ao fitar o povo na piscina. Eu e minha boca grande.
— Não é nada de especial. Apenas quero um cara que me inspire confiança.
Suspirei um pouco triste ao fitar o vazio agora. Essa era a única qualidade que realmente importava pra mim. E infelizmente, ele não tinha.
— Só isso?
— É. Do que adianta se ele for bonito, charmoso, legal comigo e carinhoso se for um canalha por dentro? Não tem nada mais decepcionante do que gostar de uma pessoa e ela se provar uma mentirosa.
Apertei os lábios com mais desgosto. Droga, por que comecei esse assunto? Só estava me deixando deprimida.
— Gomen.
Perdi o fôlego. Chocada o olhei e vi Toushirou me fitando arrependido. Será que...
— Eu não sabia que era um assunto chato pra você.
O pedacinho de esperança que senti trincou deixando no lugar uma sensação de raiva. Agora não sei se era dele ou de mim mesma. Acho que era de mim. Sou uma tola mesmo. Ele não se lembra, Karin sua baka.
— Hei. Não faz isso! Kyah!!!
Um barulho forte de chapinar nos distraiu e vi Noitra e Rikuo rindo enquanto uma garota afundava no lugar que a jogaram na água. Se aproximando das próximas vítimas, eles pegaram Keita que acessava no celular num canto afastado e o jogaram na piscina também. Gelei. Meu instinto de sobrevivência nessa escola estava dizendo para correr dali.
— Acho que já vou. Jya nee.
— Ei.
Nem prestei atenção direito, acabei o ignorando pelos gritos das vitimas que não quiseram se molhar sendo jogadas na piscina. Corri pro vestiário e peguei meu short jeans no armário o vestindo em segundos. Ao sair de lá, corri até a saída já hiperventilando. Vi Toushirou de relance me olhar confuso, mas não pude ficar lá.
Eu não sei se aqueles idiotas se acovardariam por causa de Toushirou sentado ali comigo, mas não queria me arriscar. Já tive experiência com esse tipo de brincadeira. Na sétima série, na primeira aula livre de piscina um babaca me jogou mesmo que implorasse. Passei o dia seguinte num hospital, me recuperando de um afogamento quase fatal.
Então de jeito nenhum ficaria mais um segundo naquele ginásio.
— Ah, para. Alguém vai ver a gente.
— Sabe que não resisto.
Opa, o que é isso? Fui me aproximando ouvindo mais claramente.
— Eu não acredito em você.
— Tem certeza?
A pergunta foi cheia de malicia. Com o pulso martelando me aproximei mais devagar, sem fazer o menor barulho. Perto dos arbustos margeando a calçada, vi um casal debaixo do poste de luz. A garota de longos cabelos ruivos estava encostada na parede, olhando esnobe o cara de pé em sua frente. Digio a encurralara se debruçando na parede ao apoiar a mão na mesma. Ele mantinha um ar convencido com toda a razão.
Yumi mal conseguia controlar a fôlego tão perto assim dele e o sujeito sabia bem disso. Se inclinava mais, tombando o rosto para o dela com aquele sorrisinho de deleite. Antes que a beijasse, porem, ela parou seu avanço o empurrando no peito.
— Matte. Não tão depressa.
Oh... Ficou interessante. Cheguei mais perto, pisando suave como um gato e agachei perto dos arbustos. Digio quase riu se afastando.
— Bancando a difícil, Oikawara?
— E desde quando você gosta desse tipo de garota? Quero saber se vai cumprir o que me prometeu.
Digio nem titubeou.
— Impossível.
— O que...? Como assim? Disse que ia me conseguir uma vaga pra gerente do clube.
Nani? Do que essa garota tá falando? Engatinhei mais perto do arbusto. Pelas frestas das gavinhas pude ver os dois. Digio a encarava cético, minando a pose dela. Yumi estremecia nervosa e insegura.
— Disse que ia me ajudar.
— Sem saber o básico do esporte? Esqueça.
Indignada, ela o empurrou.
— Você é um cretino. Me enganou...
— Não seja convencida. Me usou também, Yumi. Nós dois sabemos qual seu real motivo pra entrar no clube.
Foi a deixa, se entalando ofendida, quase deu uma boa bofetada em Digio, mas ele segurou seu pulso. Droga, queria que tivesse acertado.
— Seu babaca! Eu te ajudei com sua pegadinha nojenta!
O que?
— Cale a boca, quer que todos ouçam?
Engolindo em seco, ela apertou os lábios com desgosto. Puxando o braço, se soltou do aperto de Digio ofegando irritada. Preciso dizer o que sujeito não deu a mínima? Acho que não.
— Eu não te devo nada. Se quiser ficar perto do Hitsugaya, tente sozinha. Não sou brinquedo de ninguém.
— Eu te odeio.
— Não parecia noite passada.
Quase outro tapa e dessa vez ele a puxou roubando um beijo selvagem da ruiva. Meu queixo caiu. Não esperava por isso. Yumi mesmo se debatendo e o socando no peito, segundos depois gemia dengosa. Com a entrega dela, Digio se afastou a soltando e a garota quase caiu com as pernas bambas. Isso arrancou um sorriso satisfeito dele.
— Se quiser mais, sabe onde me encontrar.
Dando meia volta ele se afastou, entrando no prédio sem a menor preocupação.
— Até parece, babaca.
Olhei para Yumi e seu rosto corado e ofegante não me convenceu em nada. Até parece que ia resistir. Quase se agarrou nele agora a pouco! Sacudindo a cabeça, continuei agachada até ela voltar para dentro do ginásio e levantei do meu esconderijo. Sinceramente, não sei o que tem de tão irresistível num cara como o Digio.
Ele é bonito? Deveras. Mas era um cara confiável? De jeito nenhum. Pelo o que entendi ela achou que ter uns pegas com ele, o faria ficar na palma de sua mão. Parece que o tiro saiu pela culatra. Das três vozes que Zaraki escutava, Digio era uma delas. Era o antigo capitão e o centroavante. Obvio que tinha algum credito com o técnico demônio, mas... Toushirou tinha mais influencia de nós três.
Sim, eu era a terceira voz. Mas apenas quando Zaraki está de bom humor, então não tinha lá grande vantagem nas decisões do técnico, por assim dizer. Mesmo assim... Quer dizer então que aquela ruiva oferecida queria me tirar do clube? Vai sonhando. Olhando meu moletom de relance, senti uma ponta de vazio com anseio no fundo do peito. Apertava as mangas com força ao caminhar pela calçada sem prestar atenção em nada.
Somente tenho isso. É tudo o que me restou. Não é um clube com os membros que imaginei, nem a dinâmica com companheirismo nos torneios que teria. Mesmo que seja apenas do interhight de verão que participei até agora. Ainda é um clube de futebol! Me dediquei esses últimos anos afiando minha mente no esporte, já que com o corpo não posso mais. Que se dane os motivos mesquinhos dela. Não vou deixar uma garota fresca como Yumi me tirar do meu lugar.
— Ela que desista.
— Você realmente é esquisita, Kurosaki-chan.
— Kyah!!!
Pulei pra fora da pele. Juro por tudo que é sagrado que perdi uns bons anos de vida. Com o coração rugindo de susto e tremendo, olhei o cidadão que desligava o celular me encarando risonho da porta de saída.
“Estranha”. Era o que gritava sua expressão e bufei com azedume.
— Pare de pregar susto nas pessoas, Kiba-san.
Rindo, ele apenas guardou o celular no bolso da bermuda e reparei que carregava um quadro tático. Espere, esse era o quadro que mostrei ontem pro Toushirou...
— Algum problema?
Pestanejei, levantando o olhar ao encara-lo. Kiba arqueava as sobrancelhas confuso e pigarrei sem graça já refeita do susto
— Não é nada. Está vindo da reunião com o treinador?
— Umhum. Deu trabalho, mas ele aprovou o novo esquema tático. Amanhã mesmo vamos testá-lo.
Pisquei surpresa.
— É mesmo?
Não achei que seria tão rápido. Mas isso quer dizer... Que Toushirou assumiria a posição de meia-armador. Fazendo sinal para que o seguisse, Kiba caminhou comigo seguindo pela calçada que ladeava o primeiro ginásio.
— Ainda é cedo para usarmos esse novo esquema em jogos com outras escolas. Como as eliminatórias para o campeonato de inverno estão perto, quero ver quão bem esses garotos se comportam aproveitando as vantagens dessa tática.
— Ah...
Ele nem se incomodou com minha resposta vaga. Tinha um brilho de expectativa em seu olhar. Nesses momentos, via sua paixão pelo trabalho. Com certeza, Kiba almeja ser um treinador profissional.
— Kurosaki-chan, quando mostrou sua ideia para o Hitsugaya?
Cocei a bochecha pensativa e encabulada. Ele deve ter dito que partiu de mim.
— Ontem à noite. Eu não sabia que ele já iria conversar com você sobre isso. Ontem nem quis conversar sobre o assunto.
Lembrei um pouco nervosa do meu deslize e também... bom, ainda não acredito que dormi no mesmo quarto que Toushirou. Estava bem do meu lado.
— Entendi... Aposto que ele tinha outras ideias em mente.
Kiba tinha uma voz sugestiva, cheia de malicia. O espiei incrédula e realmente não me enganei. Um sorriso pervertido se estampava nele. Me entalei de vergonha.
— Não aconteceu nada disso!
Sua malicia apenas aumentou.
— Ah, qual é? Não precisa mentir pra mim. Somos amigos.
— Não somos amigos e tira esse ar pervertido da cara. A gente não fez nada.
Ao nos depararmos com uns degraus de pedra, subimos entrando no pátio de entrada da pousada. Ainda era cedo e varias pessoas passeavam.
— É mesmo? Não é o que dizem por aí.
— O que estão falando?
— Ué? Não sabe?
Estremeci nervosa. Ele adorava me torturar com esse suspense quando queria saber muito de uma coisa.
— Desembucha logo.
Entramos pelo hall, meio lotado com o movimento ao contrario dos outros dias e Kiba ao pescar um chiclete do bolso, desembalou jogando na boca.
— Os boatos são o seguinte: A bruxa e o capitão tiveram uma noite silenciosa, mas selvagem, tanto que perderam a hora. Eu acho um exagero já que ele não apareceu nenhum pouco arranhado e você com uns chupões.
— K...K..Kiba!!!
Praticamente berrei, gaguejando corada até a raiz dos cabelos. Um grupo de hospedes parou surpreso com meu grito histérico, mas o sujeito ao meu lado nem se importou. Estourando uma bola de chiclete, apenas levantou as mãos com ar de desculpas.
— A culpa não é minha. Hitsugaya ficou calado enquanto jogavam um monte de piadinhas em cima dele o dia todo. Foi como se admitisse.
Como se fosse possível fiquei mais mortificada, entalada de vergonha sem saber onde enfiava a cara! Como continuei pregada no lugar, ele seguiu caminho rumo ao refeitório.
— A gente se vê amanhã.
No dia seguinte
As quatro e ponto da manhã escutei um barulho irritante. Levantei do futon, atordoada pondo os óculos. O barulho continuava tão estridente que se dá pra ouvir daqui. Olhei para Unohana-sensei e vi que estava com abafadores de ouvidos. Como se já soubesse... Tive um estalo. Rápido, peguei minhas coisas e fui pro banheiro do quarto tomar um banho. Consegui me arrumar ligeiro e subi correndo até o terceiro andar.
Assim que terminei de subir as escadas, a corneta parou e encontrei Zaraki parado no meio do corredor encarando os garotos sonolentos.
— Todos acordados? Ótimo. Vão jogar uma água nessas caras e depois me encontrem no estacionamento daqui a vinte minutos.
Um resmungo coletivo ecoou e lembrei da promessa do técnico no jantar. Ah, puxa vida. Sem dizer nada, Zaraki deu meia volta me notando e só acenou para que o seguisse. Fui obediente atrás dele imaginando o que esse sadista aprontou. Depois de vinte minutos estávamos todos lá. Todo misterioso, ele nos mandou entrar no ônibus e assumindo a direção ele mesmo nos levou a um lugar que me fez engolir em seco.
Era um templo. Precisamente um santuário budista que ficava no topo de um morro a 250km da pousada. Oh... caramba. Quando descemos, olhei a escadaria enorme de pedra e os toori avermelhados subindo morro acima. Espiei os meninos e eles entenderam o mesmo que eu.
Enfileirados diante do ônibus encaravam o próximo desafio espartano de Zaraki com temor.
— A escadaria do templo desse local possui uns 500 degraus de pedra. É uma subida íngreme, escura e que as mocinhas vão fazer para começar o aquecimento do dia.
— O que?!
O coro foi geral. Dei uma olhadinha em Toushirou e ele já suspirava tenso. É... dessa vez não tinha como escapar.
— NÃO RECLAMEM!!! Quando eu apitar, vão!
Posicionando de três em três diante do primeiro degrau, os vinte e sete jogadores ofegavam tensos, outros pálidos. No primeiro sopro do apito eles correram. Se não fosse pela blusa de treino cinzenta, nem dava para ver direito os meninos. Mordi o lábio. Isso é loucura. Vai sobrecarregar todos os músculos principalmente das pernas sem necessidade.
— Treinador, o sen...
— Nem um pio, Kurosaki. Ainda estou fulo com esses pivetes.
De braços cruzados, ele encarava o vazio imaginando o próximo o exercício que daria pra eles. Fiquei quieta sabendo o que é melhor pra mim. Quando o dia despontou amanhecendo é que voltamos para a pousada. Tinha um cheiro horrível de suor exalando dentro do ônibus sem contar dos gemidos. De repente, ouvi um gorgolejo junto com um escândalo lá trás.
— Yami! Seu porco! Alguém aí tem uma sacola?
Ai meu Deus. Rápido, tampei o nariz e girando na poltrona vi em tempo o grandalhão do Yami-senpai abrir a janela e se debruçar nela. O fedor de vômito deixou todo mundo nauseado e foi como uma epidemia. Quase vomitei também. Assim que chegamos na pousada todos saímos correndo e vi um grupo vomitar num arbustos ali perto.
Até o Toushirou estava meio pálido. Teria sido engraçado se eu mesma não me sentisse mal também. Rápido fui pro bebedouro perto da entrada e puxei uma cartelinha de comprimidos do meu bolso. Era pra emergências, nunca achei que iria precisar.
— Me dê um também.
Olhei pra pessoa e era o Toushirou. Ele estava a ponto de vomitar também. Sem dizer nada ofereci pra ele e tomamos rápido antes que piorasse. Sentando na calçada ele fez o mesmo que eu e coloquei a cabeça entre os joelhos. Zaraki, seu sadista. Nem esperou a gente se recuperar e já foi apitando.
— Já acabou o descanso. Agora todos vão pro segundo campo. Temos muito o que trabalhar.
Ofegante ao meu lado, Toushirou grunhiu esgotado.
— Isso é coisa sua?
Sacudi a cabeça.
— De jeito nenhum.
Ao me endireitar vi os rapazes caminhando como se fossem para o matadouro. Bem, devido ao estado de humor do técnico demônio não tiro suas razões.
— O casal aí. – enrijeci os ombros e olhei o técnico – Deixem de pieguices e levantem.
Seguindo caminho, Zaraki nos lançou uma olhada irritada e ouvi um estalo de língua ao meu lado. Olhei para a pessoa e vi Toushirou com um ar entre cansado e possesso ao fitar adiante.
— Esse homem me irrita.
Não duvido. Seu tom de voz foi bem rancoroso ao dizer isso. Controlando a respiração cansada, me levantei junto com ele batendo a poeira da saia.
— Vamos. Se não ele vai soltar outra piadinha.
Assentindo, Toushirou seguiu os outros jogadores e começamos o treino. Com o exercício extra foi bem puxado. Kiba logo percebeu quando o rendimento caiu durante todo o exercício da manhã. Bem, não tinha jeito. Zaraki estava cumprindo a promessa de fazer os garotos vomitarem de tanta prática. Na parte da tarde, porem, um grupo de desafortunados foi escalado a lavar o ônibus por dentro. Tive pena deles. O restante fez um jogo treino com a nova formação tática. Isso pegou todos de surpresa.
No ataque estavam Digio, Denki e Akira. No meio de campo Noitra, Rikuo e Toushirou. Na defesa estavam Kaibara, Yuzuru, Yami e Keita. Esse era o time titular escalado para as eliminatórias do campeonato de inverno. O goleiro era a única posição que não havia decidido e percebi que os jogadores de coletes vermelhos, os titulares, eram os mesmos que escolhi para esse esquema.
Olhei para Kiba impressionada e ele ao notar, ergueu o polegar pra mim aprovando. Inflei de orgulho. Atuando como arbitro Zaraki foi para o meio do campo de futebol com uma bola debaixo do braço.
— Eu sei que é diferente, moleques. Difícil de engolir, mas a nanica da nossa gerente convenceu Kiba e nosso talentoso capitão que essa era a formação mais adequada. Pra ser sincero, estou um pouco tendencioso também. Me mostrem que não são apenas um bando de pirralhos e joguem a sério.
Com a decisão de quem começa o jogo na escolha de cara ou coroa da moeda, o time branco ganhou e Zaraki deu o inicio da partida. Confesso, mordia os lábios em nervosismo, analisando as jogadas e vi Toushirou fazer o que sabe melhor. Liderar o ataque. Com pose de bola conquistada por Yami, o mesmo deu seu característico passe de longa distância até Toushiro que preparou a jogada driblando e avançando no campo adversário. Com 10 minutos de jogo, o primeiro gol foi feito e pulei empolgada. Claro que os jogadores não demonstraram. Era uma regra do clube, até a partida acabar mesmo nos acréscimos não comemorem antes do tempo.
A grande chave da ofensiva desse esquema era o meio-armador. Os ataques giram e partem dele. Sua escolha de passes devia ser rápida e sensata, para que a defesa do adversário seja atravessada. As triangulações e tabelas até de dois jogadores se infiltrando e conectando durante o ataque precisava melhorar, mas fora isso...
— Realmente estava certa, Kurosaki-chan.
Pestanejei me voltando para Kiba e ele sorria satisfeito assistindo o jogo como eu.
— Com as pequenas mudanças que fez, temos chance de ir para o nacional.
— Eu sei.
Sorri voltando os olhos para campo. Seria incrível participar de um torneio como aquele.
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Depois do jantar, finalmente... Finalmente fui para o tão sonhado banho nas termas. A entrada ficava perto do primeiro ginásio. Com uma parede de junco dividindo a fonte natural de água quente, as termas dividiam-se entre a feminina e a masculina. A entrada dos garotos ficava dentro do prédio da pousada. Como a maioria das meninas foi descansar depois do treino puxado, aproveitaria do meu banho sozinha.
No vestuário, tirei a roupa dobrando tudo ao colocar depois no cesto. Os óculos coloquei no estojo e peguei a toalha branca de uma das pilhas. Antes de entrar, me lavei primeiro, sentando tranquila em um dos muitos banquinhos e me peguei o chuveiro de mão preso no suporte da parede. Enquanto me ensaboava ouvi um chapinar e outro vindo do outro lado da parede de junco. Os meninos. Não os culpo, deviam estar super doloridos do treino maluco de hoje.
Assim que terminei, fiz um coque frouxo e caminhei até a piscina natural. Fui entrando, deixando a toalha na beirada e me sentei relaxando. Ah... isso é tão bom. Meus músculos cansados, principalmente da minha perna relaxaram e suspirei deliciada. Ao levantar o rosto admirei o céu nublado, parecia que iria chover mais tarde e com isso, suspirei dando uma olhadinha pro meu corpo.
Confesso que não gosto muito dele. Não tenho ancas largas, posso até ser magra, mas minhas pernas não são torneadas como eu queria. Até meus seios são quase medianos. Sou bem comum e... depois que vi as meninas se exibindo nos seus biquínis ontem, não tive a menor vontade de tirar meu moleton e ficar apenas de maiô na piscina.
— Crescimento precoce.
Mergulhei até o nariz bufando enfadada até que ouvi um barulho. Levantei rápido, agarrando a toalha.
— Quem é?
Silêncio. Sem os óculos minha vista ficava um pouquinho borrada. Estreitei o olhar, pegando uma pedra solta dentro da piscina e vi um vulto na entrada. Arquejando, atirei a pedra e ouvi um grunhido masculino.
Eu sabia.
Saí rápido da piscina termal e me enrolei na toalha, correndo em seguida até o vestuário. Ofegante, olhei de um lado a outro, mas nem um sinal. Peguei a pedra largada no tapete felpudo e vi que tinha uma mancha de sangue. Segurei um sorriso. Amanhã, esse voyeur não escapa. Resolvi me vestir, não daria pra aproveitar direito depois disso. Foi ao pegar meu cesto que senti meu sangue gelar. Estavam nele o estojo com meus óculos e o moletom.
Só os dois.
Minha blusa, saia e a lingerie tinham sumido!
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