Notas iniciais
Sou teimosa!

Desligo a ligação com Lícia e fico olhando para a tela do celular, que ainda está aceso, com um sorriso bobo nos lábios. O sofá no qual estou deitado está posicionado lateralmente ao espelho e meu reflexo me encara. O que eu vejo é a figura de um cara que está começando a sentir alguma coisa pela garota que mal conhece, porém possui alguma importância para ele e seu sorriso chega a ser irreconhecível. É, não estou sabendo mesmo como lidar com esse novo sentimento que nunca havia tido por ninguém antes.

Durante a ligação, tive que me separar dos meus amigos, porque eles estavam zoando demais pelo fato da minha ligação estar demorando além do normal e até inventaram que estava na hora de voltarmos para o set de filmagem. No entanto, já sabia que iríamos gravar só após o almoço, por isso me tranquei aqui no meu trailer e cá estou eu, ainda com as últimas frases de Lícia ecoando em minha mente.

– Ei, Elliot...vai ficar se admirando o dia todo? – a voz de David surge das escadas, reverberando pelas paredes apertadas do trailer, tirando-me da distração dos meus pensamentos. Então, ele caminha até mim e, posiciona-se de costas para o espelho, recostando na bancada atrás de si.

– Nem vi você chegar – olho para ele, que está de braços cruzados. Hoje, todos nós estamos completamente vestidos em tons pastel. Não gosto dessas cores e não usaria fora das gravações de forma alguma.

– Chega pra lá – desencosta da bancada e dá um tapa em meu pé, que está no braço do sofá. Recolho minhas pernas e sento-me, cruzando as pernas em cima do assento. Encosto minhas costas no encosto, ajeitando minha posição para liberar um espaço de dois braços de distância entre nós.

– O que você manda de novo? – digo para David, que senta e ajeita uma almofada em suas costas, reclinando a cabeça na parede de madeira escura.

Ele fecha os olhos, com a cabeça tombada pra trás, mas se remexe o suficiente para ver que aquela posição está desconfortável, por isso retira a almofada dos costas e posiciona-a atrás de sua cabeça, antes de responder. – Bem, — ele abre os olhos – estava chato lá. Os caras não ficavam quietos e não queria ficar sozinho no meu trailer – diz simplesmente, sem esboçar nenhum sentimento.

Certamente, tem algo por trás dessa aparente tranquilidade de David. Ele gosta de estar sempre cercado dos nossos amigos, por isso eu imagino que esteja com problemas.

– O quê que está pegando, D? Desabafe pra mim, vai! – modifico minha posição no sofá de forma que fique de frente para ele, recostando os cotovelos no braço do sofá.

Revira os olhos, tirando a almofada de trás de si. – Está na cara, né? – aponta para seu rosto, olhando para mim e respira fundo. – Estou tendo problemas com a Heather – bufa.

– Que tipo?

– Ela está começando a reclamar da distância e que não estou lhe dando muita atenção – passa a mão pelos cabelos.

– Cara, eu já passei por isso...mas, a Heather é legal e não deixe que escape! Tenta conversar direito com ela, afinal de contas, está contigo desde o início e é complicado não só para nós, mas para nossas famílias também. Passamos tempo demais na estrada e perdemos vários momentos especiais com eles e as...- faço uma pausa para engolir em seco, focando o abajur atrás de sua cabeça – Namoradas. – digo, por fim, quando David começa a mostrar sinais de ansiedade por não terminar a frase.

– Certo, você tem razão. Seria muito bom trazê-la alguma vez para que veja, com seus próprios olhos, o quão atarefados são nossos dias – sorri e abaixa a cabeça, equilibrando-a nas mãos.

– Você tem ligado pra ela?

– Direto, cara! Ligo pra ela mais do que para meus pais – levanta a cabeça e olha para seus dedos.

– É – digo e meu pensamento traz de volta a imagem da Lícia. Eu também tenho ligado mais pra ela do que para os meus velhos. Falando nisso, não liguei para eles hoje.

– E você? – ele diz, olhando para a parede de madeira escura à nossa frente.

– Eu o quê? — olho para o mesmo lugar que ele encara nesse momento, observando as frestas entre cada ripa de madeira.

– Quem é Alícia? – diz simplesmente, me pegando de surpresa.

– Como assim? – gaguejo e olho para ele, que ainda olha para a parede. – Quem te contou?

David me encara sério de repente, no entanto começa a rir do nada. – Eu ouvi você tentando falar em algum idioma e escutei o nome dela no meio.

– Ah, — suspiro de alívio. Ainda bem que não foi pela boca de Alan que ele soube; se tivesse falado algo para David, teria ficado com raiva por entregar algo que descobriu sem querer. Mesmo assim, nem saber o nome dela direito sabe. Se fosse fofoca do nosso amigo tatuado, saberia. – Estamos nos conhecendo melhor – dou de ombros.

– Entendi – começa a se levantar e caminha em direção ao jarro de flores de uma pequena bancada, debaixo da janela quadrangular pequena, que ilumina todo o trailer. – Já vi que você não vai falar muita coisa, como sempre. Quando se trata de garotas, ergue uma barreira ao redor de si e impede que qualquer um tenha acesso, além delas – pega uma flor do vaso e cheira. – Só um conselho, meu caro: não deixe que ela escape; se é isso mesmo o que deseja. A mesma sugestão que deu para mim há alguns minutos, também serve pra você – sorri.

– Cara, não vou falar muita coisa porque ainda não é nada oficial. Afinal de contas, nem sei como classificar o que está rolando – olho para o espelho e ajeito nervosamente o cabelo para o lado.

– Não tem problema. Quando estiver pronto para falar, estarei aqui. Eu vou respeitar sua decisão de se manter quieto sobre o assunto, assim como fiz na época em que surgiu a Deborah.

– Nem me fale nela, D – franzo o cenho para o celular em minas mãos. – Acredita que ela teve a cara de pau de me ligar há alguns dias?

– Sério isso? – olha espantado para mim e assinto.

Na ocasião em que aconteceu toda aquela confusão com a minha ex, contei tudo para David. Ele sempre soube desde o início: das mensagens, dos encontros às escondidas e do quase noivado. Eu ia pedir sua mão em casamento, pois nosso relacionamento já beirava os dois anos e a grana estava entrando facilmente e eu poderia lhe dar uma vida boa. Portanto quando soube da sua traição, que era a única coisa que me faria terminar a relação e ela sabia disso, terminei tudo. Seria impossível me comprometer com algo mais sério, se ela não estivesse disposta a estar na mesma fase em que eu estava. Que ela faça bom proveito do seu amigo!

– Pra você ver – cruzo os braços e volto olho para David, que me fita sem reação.

– Você retornou a ligação? – diz, sentando-se ao meu lado de novo.

– Não, né! É claro que não faria isso! Não tenho mais nada para falar com ela e nem quero.

– Se tivesse feito, ia chutar a sua bunda magricela! – sorri e rio junto com ele. – Bem, de qualquer maneira, foi muito bom conversar contigo. Obrigado por me ouvir e valeu por desabafar!

David levanta do sofá e passa pela bancada, retirando uma rosa do jarro transparente. Anda em direção à saída do trailer e sai pela porta diminuta, forçando-se a agachar para não bater sua cabeça no batente.

Decido enviar uma mensagem para Lícia, antes da hora do almoço pois deixarei meu telefone por aqui. Entro no site para traduzir o que vou mandar, copio e colo o conteúdo do que foi traduzido no corpo do recado.

“Fazendo o quê?”

Mas, a resposta nunca chega, por isso jogo o celular no assento do sofá e levanto do estofado. Caminho até o outro lado do trailer e abro o frigobar, que possui a mesma cor das paredes ao redor. Agacho até a altura onde está, abro-o e olho em seu interior refrigerado, encontrando refrigerantes pendurados na pequena porta e algumas comidas prontas como saladas, fatias de pizza e frutas descascadas, em invólucros de plástico. Opto pela salada caesar e uma coca diet, portanto fecho-a com o calcanhar e ouço o barulho que as garrafas de vidro fazem ao se chacoalharem.

Levo comigo os dois itens escolhidos e os deposito em cima da bancada, onde encontra-se o jarro de flores. Puxo uma cadeira pelo tapete azul, colocando-a de frente para a superfície plana onde meu almoço se encontra. Eu poderia muito bem almoçar na farta mesa, com diversos tipos de comida onde todos estão no momento, porém quero estar um pouco só para organizar meus pensamentos e, quem sabe, escrever uma música sobre essas ideias desorganizadas e complexas. Essa é a forma que gosto de acomodá-los.

Abro a gaveta debaixo da bancada, onde certamente está meu bloco de notas, que deixo sempre para quando me sinto inspirado. Puxo a capa preta e vou passando as folhas rapidamente até encontrar um espaço em branco onde possa escrever. Sento na cadeira e retiro a caneta preta da espiral lateral do caderno. Sempre preferi escrever com essa cor, jamais em azul porque parece que minha mente entra em um bloqueio e nada consigo passar para o papel.

Deslizo facilmente a ponta da caneta pela superfície branca, escrevendo meus pensamentos conforme vão surgindo, tentando criar rimas. Palavra após palavra, seu rosto vai surgindo à medida que vou escrevendo em meio aos meus pensamentos confusos. A forma como nos conhecemos lá no camarim, no supermercado, a carona que dei para ela e sua amiga e, por último quando lhe devolvi seu batom. Foram situações diferentes que construíram essa bagunça em minha mente, deixando em todos os cantos a sua forma de agir. Cada uma delas me marcou e produziu um rastro de coisas boas, no qual é impossível mensurar. No entanto, ainda assim estou tentando descrever em palavras algo que meu consciente luta para entender. Seus cabelos escuros, como os meus, que caem em seu lindo rosto, escondendo brevemente seu olhar doce e gentil. Eu adoro a forma como ela os retira, colocando-o por trás de sua pequena orelha. Tudo nela é pequeno, até mesmo suas mãos.

Então, quando termino de escrever e noto a quantidade de coisas ali escritas, leio.

“Sua forma de falar

Sua forma de agir

Me deixam sem ar.

Por favor, não me interprete errado

Acho que estou ficando entorpecido sem você.

Você que entrou em minha vida iluminando tudo

Acho que sou um homem sortudo

E acho que estou me apaixonando.

Mesmo sem saber o que sente por mim

Eu vou tentar conquistar seu coração

Assim como fez comigo.”

O outro verso fica assim.

“Olhos azuis em olhos castanhos

Assim fico quando nossos olhares se encontraram

De início, tudo pareceu se conectar

Tudo começou a se encaixar

Através dos flashes vi você

E, naquele momento, tive a certeza

Que queria você!

E, não vou deixar escapar

Porque é contigo que quero estar.”

Depois de ler tudo, não gosto de nada do que escrevi. Por isso, descarto as duas possibilidades e começo a almoçar. A comida cai como uma garrafa d’água em meio a um deserto e sua presença conforta meu estômago faminto, tanto que em menos de três minutos já devorei todo o conteúdo da embalagem de plástico.

Arrasto a cadeira para trás e o barulho que o atrito faz em contato com o chão é abafado pelo tapete. Levanto e caminho até a mini cozinha, jogando fora na lixeira de metal a embalagem do meu almoço e levo comigo a lata de coca diet para fora do trailer. O frio me recebe de braços abertos, ventilando um pouco da temperatura baixa para dentro do meu casaco bege. Há uma enorme tenda de tecido branca posicionada logo ao lado dos quatro trailers ao redor do campo coberto de neve, onde toda a equipe ainda almoça. Eles reúnem-se em torno da mesa farta – como já havia imaginado -, enquanto conversam e riem alto. Alan, David e Trent estão sentados em cada extremidade do retângulo, portanto escolho um assento vago e afrouxo um pouco meu casaco para sentar confortavelmente, baixando o zíper até o meio do peito. Estou vestindo outras duas blusas de manga cumprida, também em tom pastel, por baixo do agasalho.

– Qual é a piada? – rio e dou uma golada no refrigerante, passando uma perna por cima do banco para sentar.

– O Trent acabou de contar uma de suas aventuras infantis – Alan fala mais alto do que as risadas, dando tapas em suas pernas.

Olho para Trent, que está equilibrando o garfo no ar, ao mesmo tempo em que cai na gargalhada jogando seu corpo para trás. – Eu contei de quando era criança. Sempre tive pavor de ficar no escuro sozinho – se recompõe, ajeitando suas costas ao ficar ereto – Meus irmãos sabiam disso e se aproveitavam desse medo. Vivam aparecendo no meio do corredor e me davam sustos. Agarravam meus pés, puxavam minhas roupas e se aproximavam de mim, fazendo “buuh!” – ele larga o talher no prato e reproduz o que seus irmãos faziam com ele, em Denis.

Não acho muita graça, mas sorrio de qualquer forma e olho para longe da mesa. No entanto, a mesa inteira cai na gargalhada mais uma vez.

Andrea passa pela nossa mesa, vestindo aquelas roupas pretas de sempre, trazendo consigo a sua habitual prancheta em mãos.

– Vocês têm cinco minutos, pessoal! – ela anuncia em voz baixa e todos param de rir na hora.

As conversas acabam no mesmo instante em que Andrea sai da tenda e a equipe começa a se levantar dos seus assentos, formando uma fila até as lixeiras coloridas para jogar fora restos de comida ou os pratos descartáveis. Termino minha bebida e caminho de volta até meu trailer, para não ter que passar os cinco minutos que ainda me restam enfrentando uma fila quilométrica. Subo as escadas e jogo a lata na lixeira do lado da porta. Ando pelo tapete largo atrás do meu celular, porque esqueci onde o deixei há alguns minutos. Ajoelho-me no chão, levantando almofadas, procurando debaixo do sofá até encontrá-lo sob a almofada branca, onde antes repousara a cabeça de David. No momento em que a retiro dali, o visor ilumina-se mostrando que tenho uma mensagem não lida esperando por mim. Sento na superfície acolchoada para ler seu conteúdo e mais uma vez o espelho entrega minhas emoções, ao me forçar a ver meu sorriso ridículo no rosto. Estou sendo patético; eu sei, mas não há ninguém aqui para me julgar mesmo. Por isso, sento no sofá e abro o recado.

“Desculpe a demora, pois estava na aula do intercâmbio. E você? ;P”

“Estava almoçando” – escrevo logo assim que a tradução aparece e envio.

Alguém bate à porta. – Vamos, Elliot! Acabou o tempo e só falta você – reconheço no ato a voz de Andrea e reviro os olhos antes de responder.

– Já vou! – viro o rosto para onde sua voz surgiu e grito para que ouça.

– Se você não sair logo, vou te puxar pelos cabelos – sorri e ouço seus passos quando se afasta.

Como Lícia não responde, coloco o celular em cima da mesa de centro e saio pela porta, mais uma vez, de encontro ao que mais gosto de fazer, apesar de querer passar mais alguns minutos à espera de sua resposta. Se bem que, se não estivesse trabalhando no momento, já estaria em sua casa. Não, não posso ter esses pensamentos sem saber se ela sente algo por mim. Quando voltar para Divine, ligarei para ela e conversaremos sobre isso.

Notas finais
Obrigada por lerem! ^^