Seguindo Caminhos
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Acabou levando mais tempo do que havia imaginado, mas após uma semana de gravação, finalmente voltaremos para casa. Nosso ônibus de dois andares está praticamente lotado, com nossa grande família e é possível ouvir da minha poltrona reclinável os roncos de cansaço, que ecoam pelas paredes e janelas, causados pelo árduo trabalho dos últimos dias.
– Ei, Elliot! — alguém sussurra baixo e toca meu braço, agarrando-o com firmeza ao apoiar a outra mão no encosto do banco ao meu lado. — Está escuro demais aqui cara e você é o único que tem algum foco de luz — ele aponta para a pequena fonte, que ilumina o livro em minhas mãos. — Foi difícil passar pelo corredor apertado, mas graças a você tudo correu bem. Não tropecei em ninguém no caminho — sorri e senta ao lado, jogando-se no assento vago.
– Que bom que ajudei de alguma forma — bocejo e espreguiço-me no estofado macio e confortável, aproveitando para esticar meus músculos retesados pelas longas horas de viagem, apagando meu foco de luz em seguida, para não atrapalhar meu amigo ao lado.
Trent estica as costas no encosto da poltrona e faz alguns movimentos com as mãos, porém não consigo distinguir pois há pouco desliguei minha luz. — Está pensando em quê? — ele pergunta ao tentar olhar meu rosto, no entanto sem sucesso. A escuridão que nos cerca só possibilita vermos os formatos dos nossos rostos, mas não as expressões.
Nesse momento, preciso reajustar meus olhos já acostumados à escuridão, pois do outro lado do corredor alguém arrasta a cortina preta que cobre a janela e a luz que entra pelo vidro ilumina exatamente minhas íris, forçando-me a colocar meus braços sobre meus olhos para protegê-los da luminosidade dos postes que vão ficando para trás.
– Argh...- resmungo baixo. — Quem puxou a cortina? — tento olhar para o outro lado do corredor pra tentar enxergar quem ali está. Não me surpreendo, após alguns longos minutos de abrir e fechar os olhos descubro que é Alan. — Vai à merda! — exclamo baixo, o suficiente para ele ouvir e não acordar os demais.
– Ah, vai...é só uma brincadeirinha, Elliot — ele joga seu travesseiro na nossa direção e apanho-o rapidamente, antes que atinja meu rosto em cheio; o que era a sua intenção.
– Me dá isso aqui — Trent pega o travesseiro e usa-o para escorar seu corpo no encosto da poltrona. — Ah...agora sim!
– Ah não...assim não vale! — Alan levanta de seu assento e num instante chega até nós e começa a puxar o novo encosto do meu companheiro de viagem ao lado, posicionando-se no corredor que separara nossos lugares.
– Shhhh...- alguém diz num assento há alguns bancos de distância.
Bufo. — Volta pro seu lugar, Alan! — aponto para o outro lado do corredor. — As pessoas querem dormir.
– Ok — dá de ombros e retorna ao seu lugar.
– Boa noite — Trent diz.
– Boa noite — digo baixo.
Puxo cuidadosamente minha cortina, o suficiente para que olhe o que acontece lá fora e não atrapalhe ninguém. As ruas estão vazias, com exceção de alguns pedestres que caminham vagamente pelas ruas escuras. No momento, neva um pouco e é possível notar o acúmulo de gelo nas esquinas e nos telhados das casas, que passam lentamente conforme nos movemos pelas avenidas.
Paro de olhar os cristais de neve que caem e olho para a penumbra, em busca do celular que começa a vibrar. Levanto um pouco do assento e retiro depressa o objeto que começa a iluminar o rosto de Trent, que há pouco começou a dormir. Felizmente, é uma mensagem e não uma ligação.
"Quando você volta?" — Lícia enviou.
Por sorte, ninguém está vendo meu rosto. Agora tudo voltou a estar como antes e está escuro, portanto nenhum deles poderá testemunhar o sorriso que está em minha face, enquanto digito depressa uma mensagem de resposta. Não gosto de deixá-la esperando.
"Já estar a caminho de casa"
"Essa é uma boa notícia! =D"
Respiro fundo e, sem demora escrevo a frase que tenho evitado por essas duas longas semanas, pois repensei se era isso mesmo o que desejava. Quando ela deixava de mandar alguma notícia, ficava preocupado e distraído, chegando até a atrapalhar as gravações do clipe. Deveria ter sido mais profissional e não ter me permitido levar por conta do que sinto por Lícia, porém não tive como deixar que não me afetasse. Falar com ela, seja por mensagem ou ligação me faz muito bem, portanto envio a seguinte mensagem.
"Precisamos conversar"
Olho para a tela do celular e fico aguardando aqui, sentado em meu assento, esperando pacientemente uma resposta dela. Cinco, dez, quinze, vinte minutos depois e nenhum sinal de vida da garota por quem estou me apaixonando. Puxo a mesinha retrátil e ali deposito meu celular, vislumbrando de vez em quando o objeto quadrangular para ver se acende, avisando que uma nova mensagem chegou. Porém, sem sucesso.
Inclino minha cabeça no encosto e volto a olhar para a janela. As árvores e as pessoas vão ficando pra trás depressa, as luzes contrastam com a escuridão do lugar onde estou e, assim meus olhos começam a pesar quando as imagens se tornam um borrão, então fecho meus olhos e caio em um sono sem sonhos.
Algo começa a incomodar meus sentidos e meu sono vai se tornando mais leve, à medida que o zumbido de algo ali perto começa a se tornar mais perceptível e nítido. Abro os olhos lentamente e olho para baixo, observando a tela do celular acesa e vibrando repetidamente. Estico meu braço em sua direção e tampo o visor com a palma da mão, trazendo-o para perto do meu rosto e colocando-o em minha orelha.
– Alô — digo numa voz rouca de quem acabara de acordar, esfregando os olhos e encontrando uma posição confortável para falar e não ser ouvido por ninguém.
– Oi oi, Elliot! — sua voz familiar, mas não agradável preenche meus ouvidos e sinto um enorme desconforto, graças à lembrança que ressurge em minha mente de uma só vez. Sua voz estridente e infantil fala sem parar do outro lado da linha e, vai se modificando até tornar-se em um tom meloso.
– O que você quer, Deborah? O fato de não ter retornado sua ligação já não significou que não quero falar contigo? — digo entredentes.
– Ai, mocinho! — diz ela, numa voz afetada. — Não precisa me tratar desse jeito. Só estou ligando porque estou em sua casa e fui convidada para passar o dia de Ação de Graças com vocês. Sua mãe fez a gentileza de fazer isso e pediu que ligasse para saber se estava chegando.
– Você o quê? — falo mais alto que um sussurro, fazendo Trent se remexer ao meu lado. Eu não acredito que meus pais, melhor dizendo, minha mãe fez isso comigo. Eu não esperava ter que lidar com isso ao chegar em casa. Faltam apenas dois dias para o Natal e terei que aguentar sua presença até lá? Se estão pensando que ficarei sentado como um cordeirinho, vendo todos planejarem as coisas por mim, eles estão redondamente enganados.
Então, nesse momento me ocorre uma brilhante ideia.
– ...e é isso. — ela diz, numa voz monótona. — Está me ouvindo?
– Sim. Olha, vou ter que desligar. Até! — desligo a ligação e verifico as horas no visor: 22h.
Mais do que depressa, disco o número de Lícia e, após três longos toques, ela atende com a voz mais doce que já ouvira antes.
– Alô — diz ela, enquanto boceja ruidosamente o que com que me arrependa, só um pouco, de ter ligado.
Me atrapalho todo na hora de responder e começo a gaguejar. Por isso, respiro fundo algumas vezes antes que ela desligue a ligação e digo: — Oi!
– Oi, Elliot! — ela sorri.
– Desculpe por ligar a essa hora, no saber que estava dormir — chuto de leve o assento da frente.
– Não tem problema! Diz aí, o quê que está pegando?
Demoro alguns segundos para processar o que disse e respondo assim que compreendo. — Quero lhe fazer um convite. Não só a você, mas para Amanda também. Mas, precisar passar aí.
– Ah é? — ela diz com interesse repentino em sua voz delicada.
– Sim. Amanhã poder passar aí?
– Claro que sim, Elliot! Que horas?
– Que tal às seis?
– Fechado — sorri.
– Fechado! — repito com entusiamo sua frase e sorrio também ao confirmar que a verei amanhã e conversaremos. Preciso ajeitar as coisas antes de convidá-la para passar o Natal comigo.
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