Segredos em Um Jardim Élfico
2 Um Convite
Semanas desde aquele sonho tinha se passado.
Naquela manhã, cavaleiros vestidos de dourado cruzaram os limites invisíveis das montanhas de Eredhîr. Os guardas os interceptaram num silêncio firme, mas sem hostilidade. Todos sabiam reconhecer a insígnia do Alto-Rei Gil-galad.
O mensageiro, montado em um cavalo branco que notavelmente não poderia pertencer àquele terreno rude, foi levado diante do rei Raj Dulórien.
Raj era um homem alto, de cabelos pretos tocados pelo cinza, com olhos de um castanho profundo — olhos que suas filhas haviam herdado. Seu manto era simples para um rei, feito de lã escura com um broche de bronze. As rugas em seu rosto e a expressão cansada denunciavam os muitos anos vividos e as muitas batalhas enfrentadas.
Observando a comitiva que se aproximava de seu palácio com certa cautela, ele não parecia totalmente incomodado com os visitantes, porém também reconhecia que a presença de elfos não seria um dos melhores presságios para seu povo.
— Em nome de Gil-galad, Alto-Rei dos Noldor, trago um convite — anunciou o mensageiro, sua voz ecoando pelo salão de pedra.
Os conselheiros murmuraram. Raj ergueu uma sobrancelha.
— Um convite… do Alto-Rei? Para nós?
O mensageiro assentiu.
— Sua Majestade reconhece a nobreza das recentes defesas que vosso povo estabeleceu ao norte, e deseja fortalecer amizade e união entre os reinos livres. Convida a vossa casa a se apresentar em Lindon, para partilhar conhecimento e firmar alianças.
Houve silêncio.
Um silêncio pesado.
Lá no fundo do salão, encostada contra uma coluna como uma sombra que não queria ser notada, estava Zara Dulórien, a primogênita.
Seu longo cabelo escuro estava preso de forma prática, o rosto marcado pelo cansaço mas sem perder a beleza etérea. Zara era filha de Raj e Aywan-sin, uma lendária princesa élfica que junto a Raj, foi um dos últimos romances existentes em seu povo entre um “puro” e um humano.
Desde criança, devido a sua dualidade de mundos, ela não se sentia completamente pertencente a algum lugar. Por mais que amasse seu reino, o frio, as batalhas, a intensidade da liberdade de ser como ela era: tempestuosa, forte, incisiva, algo ainda parecia estar incompleto dentro de si.
Apesar de ser filha do rei, não renunciava ao dever de lutar e proteger seu povo. Havia retornado da frente de batalha há poucas horas e mal tinha desanuviado a mente das preocupações quando soube da chegada dos elfos. Quando escutou aquela mensagem, seu peito subiu e desceu numa respiração curta.
“Amizade?” — ela pensou, estreitando os olhos.
“União? Entre elfos e meio-elfos que lutam na lama e na neve?”
Não fazia sentido.
Nada ali fazia sentido.
Para ela, apenas um tipo de elfo convidaria povos escondidos: aquele que queria algo deles.
Zara se aproximou por trás do pai, virando-se de costas para encara-lo, cochichando baixo para que apenas Raj ouvisse, enquanto o mensageiro aguardava.
— Pai… Não confie tão rápido.
Raj lançou-lhe um olhar cansado, mas terno.
— Zara…
— Elfos não convidam povos como o nosso para jantares e discursos — ela insistiu, a voz baixa, firme. — Eles nos ignoram. Ou nos evitam. Ou fingem que não existimos. Há algo errado nisso.
O mensageiro tossiu levemente, parecendo um pouco impaciente mas sem ousar interromper, algo que mentalmente Zara recriminou.
“Elfos, sempre arrogantes!”
— Zara, minha filha… — Raj pousou uma mão em seu ombro. — Nem sempre podemos rejeitar uma mão estendida, mesmo que não saibamos o que ela guarda.
— Principalmente a mão do Alto-Rei — completou uma voz suave.
Era Paddy, a filha mais nova.
Paddy Dulórien, tinha feições ainda mais delicadas, um sorriso genuinamente alegre e o mesmo olhar castanho de fogo que Zara possuía. Diferença: a irmã mais nova ainda acreditava em coisas como diplomacia, canções e futuros brilhantes.
Zara bufou.
— Se há algo que conheço, é guerra. E isso — ela apontou o pergaminho selado com o brasão de Gil-galad — cheira mais a política do que a paz.
Paddy sorriu para ela.
— Justamente por isso você não deve ir. — Olhou para o pai. — Deixe-me acompanhá-lo. Zara já tem suas próprias preocupações com combates e gelo.
Zara semicerrou os olhos com uma expressão de pouco animosidade.
Raj se endireitou.
— Assim será. Paddy Dulórien irá comigo a Lindon.
A ida levou cerca de uma semana. A passagem foi breve e discreta. Raj mesmo que intrigado foi bem recepcionado por Gil-galad e dialogaram proveitosamente, mesmo com as nuances sombrias que já permeavam a história naquele momento da Terra-Média. Paddy impressionou o Alto-Rei com sua educação, sua elegância e sua mente estratégica — embora só arranhasse a superfície do que sua irmã era capaz, algo que Gil-galad não tardou a perceber:
Os relatos, as táticas elogiadas, os feitos mais impressionantes…
Não vinham de Paddy.
Nem de Raj.
Muito menos dos generais.
Vinham de uma mente por trás de cada movimento.
Uma assinatura.
Um estilo.
Uma precisão quase artística.
E quando Paddy, orgulhosa demais da irmã para mentir, revelou inocentemente:
— Ah, isso? Minha irmã mais velha. Zara. Ela que planeja tudo.
O salão de guerra ficou naturalmente silencioso, como se uma revelação caísse sobre o ambiente.
Gil-galad, que observava um mapa aberto sobre a mesa de discussão, sentiu o nome vibrar como uma força solar dentro de si.
Zara.
Como se fosse uma palavra antiga.
Como se o sonho tivesse finalmente encontrado eco no mundo desperto.
Elrond, que observava do lado oposto da mesa, ergueu as sobrancelhas, curioso ao ver o leve desvio de atenção do rei.
No fim do encontro, entre acordos e promessas de cooperação, um pedido pessoal foi enviado através de Raj:
“A Comandante Zara é convidada a comparecer perante Vossa Majestade para compartilhar conhecimentos militares e táticas de defesa.”
Quando Zara recebeu o recado, chegava de três dias de batalha intensa protegendo barricadas ao extremo norte do reino.
Ela abriu o pergaminho, leu, e soltou uma risada amarga.
— Compartilhar conhecimento? — zombou. — Que bobagem é essa?
Raj a encarou com uma gravidade que não deixava espaço para debate.
— Zara, ignorar o Alto-Rei seria uma ofensa. Uma que poderia trazer até uma guerra… ou algo pior. Você irá. Não estamos em posição de rejeitar auxílio.
Ela fechou os punhos.
Respirou fundo.
Olhou para o norte, onde a neve e o combate, amigos de longa data, a chamavam.
E depois para o sul, onde uma presença desconhecida esperava por ela.
Mas também pensou na idade avançada do seu pai, as investidas sombrias, o medo pelos povos livres. E depois de um longo suspiro, disse:
— Tudo bem, tudo bem! Eu vou.
Mas em seu íntimo…
A sombra da desconfiança crescia.
E, muito mais profundo do que isso, sem que ela entendesse por quê…
Um estranho chamado ecoava em seu peito.
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