A aurora encontrou Númenor envolta em bruma leve, como se o mundo temesse perturbar a quietude que se espalhou depois da batalha e… depois deles.

Zara despertou com a sensação do cheiro dele ainda preso em seu pescoço.

Soltou um suspiro e a mente voltou a se irritar consigo mesma.

“Estúpida. Você se deixou levar outra vez.”

“Mas foi tão bom…” — o lado apaixonado respondeu.

Gil-galad, por sua vez, passou horas sem dormir — não por tormento dessa vez, mas pela memória cálida de tê-la aninhada em seus braços, trocando palavras baixas, como se ambos temessem que o amanhecer fosse uma mentira.

Mesmo assim, ao primeiro clarão, por respeito, ele retornou ao próprio aposento.

Como se o mundo exigisse que a magia da noite fosse tratada com cuidado.


O grande pátio de pedra branca recebia os primeiros raios de sol quando Elrond desceu as escadas, já esperando encontrar Gil-galad carrancudo e Zara irritada — como nos últimos dias.

Em vez disso, viu algo raríssimo.

Eles conversavam… discretamente.

Baixos sorrisos. Olhares que tentavam não revelar demais. Proximidade contida, mas palpável como eletricidade fina no ar.

Zara mantinha o queixo erguido, postura rígida, expressão fria.

Mas seus olhos — Eru, os olhos — tinham o brilho que Elrond não via há cinco anos.

Gil-galad parecia mais leve, quase sereno, mas com aquele nervosismo escondido que apenas quem o conhecia profundamente reconheceria.

Elrond arqueou uma sobrancelha.

“Finalmente.”

Mas não disse nada, apenas observou de longe.


Após aquele momento, Zara voltou ao seu quarto para retirar seus pertences, dando ordens para a sua comitiva organizar o retorno. Quando apareceu nas escadarias de partida do palácio numenoriano, ajeitava as luvas de couro, pronta para comandar sua tropa de volta.

Gil-galad sentiu o coração descer até o chão.

— Você… parte hoje? Agora? — tentou manter a voz firme.

Zara deu um meio sorriso.

— O dever continua, Alto-Rei. Já finalizei as tratativas necessárias junto à Regente. E também não posso ficar brincando de romance numa ilha estrangeira, não é?

Ele respirou fundo, tentando não demonstrar o pânico crescente.

— Zara, espere. Precisamos… concluir o que começamos ontem.

Ela arqueou uma sobrancelha, olhando-o com a mesma audácia feroz que sempre o incendiou.

— Concluir? — repetiu, cruzando os braços. — Considerando que não avançamos mais… pelo seu excesso de prudência, creio que não vamos passar disso, por hora. Mas se ainda quiser provar o que me disse ontem, sugiro que manifeste suas intenções de forma oficial e pessoalmente ao meu pai, Gil-galad. Pessoalmente.

Aproximou-se o bastante para que só ele escutasse.

— E não pense que é o único que anda a desejar me tomar como esposa… então seja breve.

Aquilo foi como um golpe no estômago.

Gil-galad empalideceu por um instante.

Zara apenas sorriu, achando graça e virou-se pronta para sair, seu manto cinza ondulando ao vento como asas partidas.


Elrond, que havia escutado metade da conversa, aproximou-se devagar.

— Meu rei… — começou com um tom que misturava súplica e aviso. — Se pretende formalizar qualquer intenção… seja ela qual for… faça-o logo.

Gil-galad permaneceu parado, olhando a silhueta de Zara se afastando pela escadaria real.

— Elrond… — murmurou, quase sem voz. — Não posso perdê-la outra vez.

O arauto pousou uma mão no ombro dele.

— Então não a perca.

Os olhos do meio-elfo brilharam com empatia séria.

— Desta vez, não deixe que o Conselho fale por você. Não permita que a Coroa substitua o seu coração.

Gil-galad inspirou fundo, sentindo um fogo novo inflamar sua alma — um fogo antigo, mas agora livre do medo.

— Partirei daqui para Eredhîr — afirmou ele, com uma determinação que fez Elrond sorrir — Assim que encerrarmos nossas atividades em Númenor, organize para que eu possa ir o mais rápido possível.

— Leve coragem — aconselhou o arauto. — Se Zara foi um desafio e tanto para o senhor, nem imagino como será em relação ao pai dela.

Gil-galad o encarou.

— Acredita que o pai dela será contrário?

— Não sei, mas sugiro que o senhor esteja preparado pra tudo, inclusive ter que engolir o próprio orgulho.

Gil-galad expressou medo real — coisa raríssima — e voltou o olhar para o mar.

Zara já estava distante.

Mas ainda não fora perdida.

— Prepararei a viagem — avisou Elrond saindo em seguida.

E, do outro lado do porto, Zara estava no barco, dando ordens a seus subordinados, mas seus olhos — por um instante só — voltaram para trás.

Esperando. Temendo. Desejando.

Sabendo — no fundo — que ele viria.


Eredhîrnão era linda como Lindon.

Não era feita de luz e mármore.

Era feita de gelo, fumaça, madeira escura e cheiro de batalha.

Os portões da fortaleza se erguiam como presas afiadas, e quando Gil-galad se apresentou, montado em seu grande cavalo branco, a neve fina tornava tudo ainda mais frio.

Zara chegará alguns dias antes deles.

E, ao contrário do que Elrond esperava, não os aguardava no pátio.

Ela estava trancada em seus aposentos.

Por medo. Por orgulho. Por dor. Por descrença.

Os guardas olharam o Alto-Rei dos Noldor como quem encara um inimigo antigo.

As lanças baixaram.

— Somos emissários de paz — disse Elrond, adiantando-se.

O mais velho dos capitães cuspiu ao chão.

— Emissários de paz? Depois de usarem nossa Comandante como ferramenta de guerra? Eredhîr não esquece.

Gil-galad manteve-se firme.

Ele estava acostumado a olhares hostis, mas nunca havia sentido tanto peso quanto ali — onde tudo tinha o cheiro dela.

— Desejo falar com o Rei Raj Dulórien — disse ele, com a voz controlada.

Os portões se abriram, mas não por cortesia.

Era mais uma convocação brusca de quem não tem medo de rei algum.


Raj Dulórien pouco havia mudado.Talvez um pouco mais velho, claro e também mais ranzinza.

Um guerreiro que parecia esculpido em pedra negra, a barba ainda longa e olhos que guardavam oceanos de desconfiança.

Quando Gil-galad entrou, Raj não se levantou. Continuou sentado em seu trono, a escadaria dando o espaço necessário para poder olhar Gil-galad de cima para baixo, em um pré-julgamento de um pai que sofreu muito pela dor da filha.

Não fez reverência. E tampouco amenizou o tom da voz.

— Alto-Rei — disse ele, com um tom que mais parecia veneno. — Pensava que elfos não retornavam onde não são bem-vindos.

Gil-galad sentiu a punhalada.

Mas se manteve digno.

— Venho por Zara.

O salão, onde muitos conselheiros e cidadãos estavam se agitou. Paddy, que havia encontrado os dois elfos um pouco antes de entrarem, alertou a presença do povo, que também estava ali para discutir sobre o “boato” de que Zara teria voltado a se aproximar de Gil-galad.

Murmúrios. Raiva. Dor coletiva.

Raj inclinou-se para frente.

— Minha filha voltou quebrada. Fechada. Mais sombria do que jamais vi. Os boatos diziam que foi por sua culpa. E agora dizem que você voltou a se aproximar dela. E então, agora você vem até aqui, tomando o nome dela em vão?

Elrond respirou fundo.

Essa era a hora que ele tanto temia.

Gil-galad tentou falar — mas Raj o interrompeu, voz crescendo como trovão:

— Você mandou minha filha embora como um capacho descartável!

— Eu…

— Ela voltou para mim sem alma, Alto-Rei. Sem luz. Sem riso. Sem esperança.

Raj levantou-se.

— Por que eu deveria ouvir um pedido seu?

Gil-galad, pela primeira vez em séculos, abaixou a cabeça.

Porque eu a amo.

O salão silenciou.

Os guerreiros, endurecidos pela vida, ficaram petrificados.

Raj apertou os punhos.

— O amor de elfos é traiçoeiro. Longo demais. Frio demais para corações como os nossos.


Elrond deu um passo à frente, firme como aço.

— Rei Dulórien. Permita-me dizer a verdade que nem ele consegue ao certo expressar.

O olhar do líder mudou ligeiramente.

Elrond sempre fora respeitado.

— Fale, meio-elfo.

— Ele errou. Profundamente. — Elrond reconheceu, sem suavizar.

— Covardia não combina com reis — resmungou o Raj.

— Mas arrependimento combina com homens — completou Elrond. — E Gil-galad, embora seja elfo e rei, tem sofrido como um mortal. Ficou anos… preso entre o dever e o amor. Ele foi imprudente. Foi fraco. Mas nunca deixou de amá-la.

Raj piscou, confuso — talvez não esperasse tal honestidade.

Elrond continuou:

— Eu ouvi todos os lamentos dele. Vi noites em que o Alto-Rei permaneceu acordado, segurando cartas que nunca foram lidas. Vi como Lindon perdeu sua luz quando ela se foi.

Um silêncio pesado tomou o salão.

— Zara não ficou quebrada. — Elrond disse com suavidade. — Ela ficou ferida por amar demais. Ferida porque acreditou que não seria retribuída.

Raj cerrou o maxilar.

— E por que eu deveria acreditar que agora será diferente?

Gil-galad ergueu o rosto, olhos brilhando com uma vulnerabilidade que poucos já testemunharam.

— Porque desta vez, eu venho como homem. Não como rei.

— E o que isso significa para mim? — desafiou Raj.

— Significa que imploro seu perdão. — Gil-galad ajoelhou-se.

O salão se engasgou.

Elrond arregalou os olhos — ele jamais pensou ver tal visão.

— Imploro sua permissão para pedir a mão de sua filha — continuou Gil-galad, com voz firme, apesar de estar ajoelhado. — Para honrá-la. Para redimi-la. Para ser digno dela… se ela me permitir tentar.

Raj Dulórien estudou o Alto-Rei por longos segundos.

Olhou para Elrond.

Olhou para as portas fechadas do salão — onde sua filha, sem saber, aguardava um destino que mudaria tudo.

Por fim, ele respirou fundo, pesado como montanhas.

— Levante-se, elfo dourado.

Gil-galad obedeceu, lentamente.

Raj falou, voz mais baixa:

— O perdão não é meu para dar. É dela.

O Rei sentiu o coração afundar.

Mas então o Raj concluiu:

— Mas te concedo algo:

Um brilho duro, mas honesto, surgiu nos olhos dele.

— Concedo a bênção para que tentes conquistar minha filha outra vez.

Elrond sorriu.

Gil-galad inspirou com alívio doloroso.

Raj completou:

— Que Eru te ajude. Porque Zara não será fácil para você. Não mais.

E, atrás das portas, Zara escutava tudo.

E uma lágrima — quente, teimosa, libertadora — escorreu por seu rosto.