Desde o ataque orc e até pouco antes, com a aproximação com os Dulórien, os membros mais antigos da corte observavam com cautela os movimentos do Alto-Rei.

E agora, a mudança era notória:

Gil-galad estava distraído.

Emocional.

Quase humano em seu comportamento.

Os conselheiros notaram.

Elrond notou mais que todos, claro, mas compreendia a necessidade de cautela. Não só para o Alto-Rei, como para Zara, e sabia que em relação a sentimentos, agir depressa só causa mais dor.

Mas alguns não tinham a mesma delicadeza.

A reunião daquela manhã se dissolveu sem tensão aparente. Mapas recolhidos, relatórios encerrados, decisões firmadas com a sobriedade habitual. O crepitar discreto das tochas devolvia ao salão uma atmosfera quase doméstica.

Um dos conselheiros — Calion, cuja voz raramente se elevava — permaneceu.

— Lindon está especialmente bela nesta estação — comentou, caminhando até a varanda. — Os jardins do sul floresceram antes do previsto. As novas roseiras trazidas de Mithlond parecem ter se adaptado bem.

Gil-galad ouviu, mas não respondeu de imediato. Observava o mar ao longe, as mãos cruzadas às costas.

— É um bom presságio — continuou o conselheiro, com suavidade estudada. — Quando as flores prosperam, o povo sente-se seguro.

Elrond, que permanecera em silêncio, percebeu o leve desvio na inflexão da voz. Conhecia aquele tom. Era o tipo de frase que antecedia outra.

— E visitantes têm se mostrado igualmente… encantados — acrescentou Calion.

O olhar de Gil-galad deslocou-se para ele.

— Visitantes? — perguntou, neutro.

— Sim. Especialmente a jovem Dulórien. — Um sorriso discreto tocou-lhe os lábios. — Lindon parece exercer fascínio. Ou talvez seja o contrário.

O silêncio que se seguiu foi quase imperceptível. Elrond não moveu um músculo, mas sentiu a mudança no ar.

Calion continuou, como quem não percebe o peso das próprias palavras:

— É natural que o Alto-Rei demonstre hospitalidade. Ainda assim… o povo observa. E o povo fala. Lindon é antiga, majestade. Sua história é feita de linhagens claras e alianças cuidadosas. Certas proximidades podem ser… mal interpretadas.

Não houve acusação. Não houve menção a beijo algum.

Mas a palavra “proximidades” permaneceu suspensa como lâmina invisível.

Gil-galad não alterou a postura. Apenas perguntou:

— O que exatamente sugeres?

O conselheiro inclinou levemente a cabeça.

— Apenas prudência. Alguns já questionam se convém que o Alto-Rei se mostre tão… próximo a alguém de origem incerta. Um povo livre, sim. Mas sem casa antiga, sem tradição reconhecida. Lindon deve manter sua dignidade acima de quaisquer… inclinações. Creio que nossas interações com eles já atingiram o objetivo necessário. Podemos encerrar a visita.

Ali estava.

Não era o beijo.

Era a narrativa.

Elrond percebeu o momento exato em que Gil-galad compreendeu o alcance daquilo. Não era sua reputação que estava sendo posta à prova. Era a dela.

Não demoraria até que murmúrios se transformassem em julgamentos.

Gil-galad voltou-se completamente para o conselheiro. A expressão permanecia serena — quase fria.

— A hospitalidade de Lindon não se mede pela pureza de sangue — disse, firme.

— Naturalmente, majestade. — Calion inclinou-se. — Ainda assim, o povo não é feito apenas de princípios. É feito de percepções. E principalmente de um Conselho que preza pela integridade não somente do reino assim como também do Rei. Não nos aprazeira a ideia de ter que ir contra ele por… exepcionalidades…

E com isso, retirou-se.

O salão pareceu maior depois que ele partiu.

Elrond aproximou-se alguns passos.

— Ele pareceu… ele viu? — perguntou, baixo.

Gil-galad não respondeu de imediato.

Mas o olhar distante, fixo no horizonte escurecido, era resposta suficiente.

Ele sabia.

Não precisavam dizer mais.

Porque o veneno já estava lançado — e agora não era apenas sobre amor. Era sobre política, linhagem e o peso de um trono que não admitia fraquezas.

E, pela primeira vez desde o beijo, Gil-galad compreendeu que não era a própria honra que estava em risco.

Era Zara.


Assim que a sala se esvaziou por completo, Elrond resolveu intervir.

— Não faça nada movido pelo medo — disse logo, antes mesmo que Gil-galad respirasse. — Não ceda ao que dizem. Nem sabemos o que realmente foi visto…

Gil-galad olhou para ele com uma dor silenciosa, profunda, que Elrond raramente tinha visto no amigo.

— Elrond… se eu não fizer algo… vão começar a especular. A duvidar de mim. A questionar minhas decisões. Zara não será apenas vulnerável — será odiada. Perseguida. Ou pior. Você sabe que o orgulho élfico, especialmente dos noldor não concede aberturas fáceis e pouco se atém a sentimentos ou caráter…

Elrond ergueu o rosto, perplexo:

— E afastá-la, já não será o pior?

Gil-galad fechou os olhos com força.

— Se ela ficar… — a voz dele falhou. — Eu não saberei manter distância. E isso… isso destruirá tudo.

Então veio a sentença que quebrou seu próprio coração:

— Eu direi que sua presença já cumpriu o propósito. Que suas estratégias já foram estudadas. E que agora… ela deve retornar ao seu povo.

Elrond levou alguns segundos antes de encontrar palavras.

— Zara vai pensar que a usou — disse, em tom baixo. — Vai acreditar que foi um brinquedo, uma ferramenta. Que nada do que houve entre vocês existe.

Gil-galad desviou o olhar — porque era exatamente esse o pensamento que o estava dilacerando.

Mas forçou-se a manter firmeza na voz:

— É um preço… que tenho que pagar.

— E o dela? — Elrond rebateu, pela primeira vez elevando a voz a ele. — Já considerou?

O Alto-Rei permaneceu imóvel.

A dor em seu rosto era tão grande que mais parecia uma ferida aberta.

— Se ela ficar perto… Eu não vou conseguir deixá-la ir. Nunca mais.

Silêncio.

E ali estava a verdade pura:

Gil-galad estava se apaixonando de uma forma irreversível.

E isso o aterrorizava mais do que qualquer batalha travada na Terra-média.

Elrond suspirou, derrotado.

— Então você pretende mandá-la embora com a desculpa mais fria e distante possível?

— Sim.

— Mesmo sabendo que isso a destruirá?

— …Sim.

— Mesmo sabendo que destruirá você também?

Gil-galad fechou os olhos, o queixo tremendo apenas um pouco.

— …Sim.


A mensagem chegou ao fim da tarde em uma bandeja de prata, carregada por um elfo jovem demais para entender o veneno que carregava.

Zara leu apenas as primeiras linhas, mas foram suficientes:

“Agradecemos por sua colaboração.

Suas estratégias foram registradas e já cumpriram seu propósito.

Consideramos adequado que retorne a Erendhîr..”

Ela sentiu o mundo parar.

Zara que estava nos jardins, buscando clarear a mente, sentiu que o que parecia tão vivo segundos atrás, de repente ficou mudo.

O pulso dela bateu seco e irregular.

Foi usada.

Foi estudada.

Foi dispensada.

A mão que segurava a carta tremia — mas apenas por dentro.

Por fora, ela era gelo.

Dobrou o papel com precisão militar, guardou no cinto e murmurou friamente:

— Perfeito. Era o esperado de elfos.

Ela pouco considerou quem provavelmente escreveu aquilo. Não importava. O seu orgulho também era tão grande quanto os do elfos noldorins e por isso não buscaria explicações.


Zara não gritou.

Não chorou.

Ela apenas… fechou.

Dispensou a ajuda das amas, não sem antes entregar-lhes todos os itens élficos que lhe foram dados. Quando elas tentaram lhe convencer a permanecer com os presentes, ela disse que se não houvesse destino mais adequado, poderiam queimar.

E empacotou suas coisas com movimentos calculados, quase mecânicos.

Tanto controle, tanto silêncio… que até as amas ficaram apreensivas.

Por dentro, porém?

Um redemoinho.

“Eu sou uma idiota.”

“Era óbvio.”

“Elfos são elfos: belos, frios e traiçoeiros.”

“Eu errei ao confiar, errei ao tocar nele, errei ao…”

Ela teve que interromper o pensamento, ou o peito quebraria no meio.


Elrond chegou à porta assim que soube.

— Zara — chamou, entrando devagar, como quem se aproxima de um animal ferido.

Ela estava sozinha, de costas para a porta já amarrando a capa na garganta, sem sequer levantar a cabeça.

— Você não precisa partir agora — ele disse, firme mas gentil. — Ao menos espere o amanhecer. Deixe-nos organizar escolta, provisões…

Ela girou lentamente o rosto para ele.

E Elrond jamais esqueceria o olhar que viu: vazio, duro, estilhaçado.

— Já errei ao vir — murmurou, com a voz baixa e inquebrável. — Já errei ao permanecer. Não errarei novamente esperando.

Elrond tentou insistir:

— Não foi isso que Gil-galad…

— Alto-Rei — ela cortou, virando novamente para a janela, onde um vento gélido já entrava pelo quarto. — E eu já lhe dei… trabalho demais.

Foi a primeira vez que o nome dele doeu como lâmina voltada ao próprio coração.

Elrond abriu a boca para falar mas ele entendeu: ela não suportaria ouvir mais nada.

Se dissesse uma palavra a mais, talvez ela desmoronasse ali.

Então apenas deu um passo para trás, derrotado.

— Que as estrelas te guiem, Zara Dulórien.

Ela não respondeu.


Gil-galad aguardava no pátio interno, achando que teria tempo para revelar as razões por trás do que havia acontecido.

Que talvez pudesse explicar o porquê.

Ou ao menos ver seus olhos uma última vez.

Mas quando escutou seus passos, ela já vinha totalmente fechada, a capa escura tremulando e a postura firme.

Ele avançou um passo, coração batendo tão alto que parecia ecoar nos muros.

— Zara…

Ela apenas desceu a escadaria que dava acesso ao terraço e subiu em Melfa.

Não o olhou. Apenas fez uma reverência simples, olhando para o horizonte e pronunciou, seca, indiferente, mortal:

— Alto-Rei.

Como se nada tivesse existido entre eles.

Como se ele não tivesse segurado sua alma nas mãos.

Aquilo foi pior que uma lâmina.

Ele tentou novamente, a voz falhando:

— Eu… quero que saiba que não foi —

Mas ela o interrompeu, sem olhar para ele, apenas tensionando as rédeas:

— Não precisa justificar. Cumpri meu papel. E agora retorno ao meu povo. Tudo como deveria ser.

A frase era correta, militar, diplomática.

Mas cada palavra era um punhal enterrado nela e nele.

Ela girou a égua.

Foi nesse segundo — apenas nesse — que sua barreira cedeu por um instante.

As lágrimas vieram silenciosas, rápidas, violentas.

Caíram pelo rosto como chuva forte.

Molharam o tecido da capa.

Mas ela não enxugou.

Não parou.

Não permitiu que ninguém visse.

E sem olhar para trás — porque se olhasse, voltaria correndo — ela partiu pelas trilhas de Lindon.

O som dos cascos ecoando nos jardins foi o adeus mais doloroso que Lindon já testemunhou.


Ele ficou parado.

Imóvel.

Nem um músculo se moveu enquanto ela desaparecia entre as árvores.

Quando o último som dos cascos sumiu…

o último resquício de força também sumiu dele.

Gil-galad fechou os olhos com violência e sentiu uma abrupta vontade de… chorar. Um choro de perda, que poucas vezes se permitiu sentir, e que quando o fazia, deixava marcas irreparáveis em sua alma.

O vazio que se abriu em seu peito era tão brutal que o deixava sem ar.

Elrond se aproximou devagar.

— Gil-galad…

Mas o Rei ergueu uma mão, como quem segura o próprio coração para não despencar.

— Eu a perdi — murmurou, voz baixa, rouca, quebrada. — E fui eu quem a expulsou.

Elrond nada disse.

Não havia cura possível naquele momento.

Gil-galad continuou, num sussurro que ninguém jamais imaginaria ouvir do Alto-Rei de Lindon:

— O que eu fiz… Eru me perdoe. Eu a feri… mais do que qualquer inimigo poderia.

E a noite caiu sobre Lindon com o peso de uma tragédia que ambos — Rei e Comandante — levariam como cicatriz eterna.

Por enquanto.

Porque esse não é o fim.