O retorno de Gil-galad a Lindon não teve o som de vitória nem o alívio esperado.

Havia silêncio.

Um silêncio errado, espesso, que se infiltrava nos corredores do palácio como neblina fria. Nenhuma música. Nenhum riso. Apenas passos apressados, olhares baixos e respirações contidas.

Então, como um golpe direto em seu peito, o grito ecoou.

Não era preciso perguntar.

Não era preciso anunciar.

O Alto-Rei já corria.

As longas passagens até as alas reservadas ao nascimento pareceram intermináveis. Cada batida de seu coração ressoava mais alto que seus próprios passos, e o sonho — aquele maldito sonho — agora se erguia inteiro diante dele, sem véus.


Ao entrar, o ar estava pesado de incensos, ervas e tensão.

Zara estava ali.

Pálida. Exausta. Os cabelos antes cuidadosamente presos agora colavam-se ao rosto úmido de suor. Seu corpo tremia em espasmos involuntários, e ainda assim, quando o viu, ela sorriu.

Um sorriso pequeno. Trêmulo. Triste.

— Você… voltou — murmurou, a voz fraca, mas carregada de algo profundo demais para ser descrito.

Gil-galad aproximou-se como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse desfazê-la. Tomou-lhe a mão com cuidado, como se segurasse algo sagrado e frágil demais para este mundo.

— Estou aqui — disse, com a voz quebrada. — Não vou a lugar algum.

Ela fechou os olhos quando outra dor a atravessou, arqueando-se contra os lençóis. Um gemido escapou-lhe dos lábios, involuntário, cru.

Ao fundo, Elrond conversava em voz baixa com as amas e curandeiras. Gil-galad não precisava ouvir cada palavra para compreender o peso daquelas trocas de olhares.

Horas haviam se passado.

E o corpo de Zara… não cedia.

— O corpo está resistente demais — murmurou uma das curandeiras, com respeito e temor. — O parto não encontra passagem suficiente.

A frase pairou no ar como uma sentença não dita.

Zara abriu os olhos novamente e, ao perceber o olhar de Gil-galad — aflito, impotente, dilacerado — desviou o rosto.

— Ereinion… — chamou, com dificuldade. — Não fique. Não… não precisa me ver assim.

Ele franziu o cenho, como se aquelas palavras o ferissem mais do que qualquer lâmina.

— Não diga isso — respondeu, aproximando-se ainda mais. — Não existe lugar no mundo onde eu devesse estar além daqui.

Ela engoliu em seco, lágrimas silenciosas escorrendo pelos cantos dos olhos.

— Se algo der errado…

— Não. Tudo vai dar certo! — Ele cortou, firme, quase feroz. — Eu estou com você!

Gil-galad inclinou-se, tocando-lhe a testa com a própria, ignorando todo o decoro real, todo o peso da coroa.

— Você não está sozinha. Nunca esteve. — sua voz era baixa, mas carregada de uma força antiga. — Se este mundo exigir algo de você… exigirá de mim primeiro.

Após alguns instantes, outro grito rasgou o quarto.

Zara apertou a mão dele com força surpreendente, como se aquele fosse o único ponto que a mantinha ancorada à realidade.

— Prometa… — ela arfou. — Prometa que… se eu não conseguir…

— Eu prometo apenas uma coisa — disse ele, com os olhos marejados, mas firmes. — Que lutarei por você. Por vocês dois. Até o último sopro que os Valar me concederem.

Ela chorou então.

Não de medo.

Mas de amor.

E, do lado de fora, a Árvore Dourada pareceu pulsar mais intensamente, como se toda Lindon prendesse a respiração junto deles — aguardando o desfecho de um destino que já não podia mais ser adiado.


A madrugada avançava como um inimigo silencioso, roubando a força de Zara pouco a pouco.

As tochas ardiam baixas. O ar estava espesso, saturado de incenso e temor. O tempo deixara de ter forma — havia apenas dor, respirações curtas e o peso de horas intermináveis.

Zara tremia.

Seu corpo, outrora firme como aço forjado para a guerra, agora parecia lutar contra si mesmo. Cada contração era uma maré violenta que a arrancava do chão, e entre uma e outra vinha apenas o cansaço profundo, aquele que não se vence com coragem.

Ela abriu os olhos com dificuldade e encarou as amas ao redor.

Viu nos rostos delas aquilo que ninguém ousava dizer.

O corpo não cedia.

Um soluço seco escapou de seus lábios. A dor já não era apenas física — era algo que lhe consumia a alma.

— Não… não vai acontecer… — murmurou, mais para si do que para os outros.

Outra onda a atravessou, mais forte, mais cruel. Zara gritou, a voz rasgando o silêncio da madrugada, e quando o eco cessou, restou apenas o choro contido, desesperado.

Então, com um fio de voz, ela disse:

— Abram-me.

O mundo parou.

As amas se entreolharam, pálidas. Uma delas levou a mão ao peito, como se o próprio coração tivesse sido atingido. Aquilo era conhecido. Antigo. Arriscado demais. Um caminho que muitos não voltavam para contar.

Gil-galad ergueu a cabeça de súbito.

— Não! — a palavra saiu como um brado de guerra. —Não! Jamais.

Ele avançou até o leito, ajoelhando-se ao lado dela, segurando-lhe o rosto com mãos trêmulas.

— Não vou permitir isso — disse, a voz falhando. — Não à custa da sua vida.

Zara sorriu de forma quebrada, os olhos marejados, o rosto banhado em suor e lágrimas.

— Eu não… — ela arfou, lutando para respirar — eu não aguento mais…

Outra dor a fez se curvar, e ela apertou o braço dele com força, como se aquela âncora fosse a última coisa que a mantinha ali.

— Meu amor… — sussurrou, entre lágrimas. — Se esse for o custo… vale o preço.

Ele balançou a cabeça, negando, o desespero começando a despedaçá-lo por dentro.

— Não diga isso. Não ouse medir sua vida assim.

Mas ela continuou, a voz fraca, porém firme como nunca:

— Assim como foi em seu sonho… não será o fim.

As palavras o atravessaram como lâminas.

O sonho.

A profecia.

A voz antiga.

Gil-galad sentiu o chão lhe escapar.

Levantou-se abruptamente, incapaz de suportar mais aquela visão — a mulher que amava sendo consumida diante de seus olhos, enquanto ele, Alto-Rei, nada podia fazer.

Títulos. Honrarias. Aquilo naquele momento não lhe servia para nada!

Saiu da sala como um homem ferido, o manto arrastando-se pelo chão, os ombros curvados por um peso maior que qualquer coroa.

Do lado de fora, apoiou-se contra a pedra fria do corredor, o rosto escondido entre as mãos. O silêncio ali era cruel, quebrado apenas pelos ecos distantes dos gemidos de Zara.

Foi então que Elrond se aproximou.

O arauto pousou a mão no ombro do rei com firmeza serena, mas seus olhos também carregavam medo.

— Ela ainda respira — disse em tom baixo. — Ainda luta.

Gil-galad ergueu o olhar, devastado.

— Estou perdendo tudo — murmurou. — Se a perco… se os perco…

— Não — interrompeu Elrond, com suavidade, mas convicção. — Ainda não.

Ele inclinou-se levemente, como quem fala algo sagrado.

— Peça-lhe mais uma vez. Uma última vez. — respirou fundo. — Antes que o destino cobre um preço que nenhum de nós está pronto para pagar.

Gil-galad fechou os olhos, o peito em chamas.

Dentro da sala, Zara lutava.

Dentro dele, um rei se despedaçava.

E sobre Lindon, as estrelas pareciam observar em silêncio, aguardando para decidir se aquela madrugada seria lembrada como nascimento… ou luto.