A chegada ao reino élfico não demorou muito mais que algumas horas que já denunciavam a Zara a necessidade de muito mais do que um café da manhã, e sim um belo almoço para saciar a barriga e desfazer o mau humor.

Mas a beleza de Lindon conseguiu abrandar aquele temperamento arisco por alguns instantes.

Ela não ousava demonstrar surpresa — mas os olhos, ah… aqueles olhos denunciavam tudo.

A entrada em Lindon era como atravessar um véu feito de luz.

As construções, tão altas e elegantes, pareciam ter sido moldadas por mãos que não conheciam pressa. Cada coluna, cada curva, cada arco… era um convite ao silêncio reverente.

Mas o que mais a desconcertou foram as amas elfas, surgindo como espectros suaves:

— Senhora Dulórien, permita-nos ajudá-la…

— Aceita água fresca?

— Posso tirar sua capa para higienização?

Zara ergueu as mãos, quase em pânico.

— Parem! Eu não preciso de três pessoas pra me tirar uma poeira da bota!

As elfas trocaram olhares discretos.

Aquilo, em Lindon, era o equivalente a ouvir um lobo falar.

O caminho até o grande salão só reforçou seu espanto.

Tudo brilhava, mas não de forma vulgar.

Era como se ouro tivesse sido derretido e, ao tocar a pedra, tivesse se solidificado em luz quente e serena.

E mesmo an alma mais ferida — como a dela naquele momento — se sentia por instantes… leve. Feliz.

Zara suspirou, irritada com o próprio encanto.

— Esse lugar tem magia no ar — murmurou para si mesma. — Só pode ser.

Momentos depois foi então conduzida ao Salão de Refeições.

E ali, sua surpresa virou algo mais próximo de um soco.

Gil-galad estava sentado à cabeceira, vestindo seu tradicional manto dourado, tecido tão fino que parecia vivo ao acompanhar cada movimento. O sobretudo era longo e fechado, desenhando seus ombros largos, e a coroa repousava de forma quase natural em seus cabelos perfeitamente penteados — cabelos que Zara notou com irritação formarem ondas que caíam “divinamente”, como diria Paddy.

Elfos e essa mania de parecer que acordaram de um sonho perfeito, nem parecia que aquele homem estava lutando contra orcs ao lado dela poucas horas atrás, resmungou mentalmente.

Ao lado dele, Elrond discutia mapas, rolos de pergaminho e estratégias.

Zara inclinou-se em reverência simples e ele indicou o lugar próximo a ele na mesa. Ela pretendia apenas sentar e comer.

Mas a conversa chamou sua atenção antes mesmo de ela perceber.

— Se contornarmos o vale pelo leste, reduzimos o risco de emboscada — dizia Elrond —, mas aumentamos o tempo de viagem em dois dias.

Gil-galad analisava em silêncio.

Zara nem pensou antes de falar:

— Ou vocês dividem a tropa principal e mandam um pequeno grupo à frente, durante a noite, pelas passagens secundárias. Orc nenhum espera ver elfos usando rotas que fedem a mofo e lodo. Pegam eles desprevenidos e ainda ganham tempo.

Elrond piscou.

Zara fez uma expressão de quem se arrependeu de ter falado.

Olhou para Gil-galad.

E o arauto e o rei se encararam.

— Isso… na verdade… faz sentido — admitiu, surpreso.

Zara por fim deu de ombros, puxando para si o prato que as amas haviam deixado.

— Claro que faz. Orc é burro, mas não burro o suficiente pra ficar onde vocês acham que ele deveria. Tem que pensar como eles.

Ela rompeu o pão ao meio com as mãos — de forma nada elegante — passando alguma pasta de ervas em cima e começou a comer como se não houvesse amanhã, a expressão de satisfação era cômica.

Os elfos pararam discretamente para observá-la.

Elrond tentou disfarçar um sorriso.

Gil-galad falhou completamente.

— Zara Dulórien — começou o Alto-Rei, após observá-la por longos segundos. — Gostaria de saber mais sobre você. Sobre sua jornada até aqui…

— Não confio em elfos — cortou ela, pegando outro pão e algumas frutas que jamais viu em seu reino.

O silêncio caiu como uma pedra.

Elrond arregalou os olhos.

Gil-galad ergueu uma sobrancelha, não ofendido… mas interessado.

— Não confia — repetiu ele, calmamente. — Então por que veio?

Ela mastigou mais um pedaço.

Engoliu.

Bebeu um gole da taça como se fosse água de rio, secando os lábios com o dorso da mão e passando os dedos sobre os fios de cabelo soltos no rosto.

Depois suspirou fundo.

— Meu pai achou que seria uma ofensa recusar.

Gil-galad inclinou a cabeça, avaliando cada detalhe dela.

— E …? — insistiu, a voz suave mas firme.

Zara travou.

Os dedos apertaram o cabo da taça e ela ficou levemente apreensiva.

— E o quê?

— Eu acreditei que devido a sua natureza pouco…resignável, teria alguma outra razão…

— Bom, Alto-Rei, seu convite mencionou compartilharmos “conhecimento”, não?! Então talvez eu possa aprender algo útil com os elfos.

Gil-galad arqueou a sobrancelha. Esse “útil” em outros ouvidos não soaria agradável, mas ele entendia o jogo de Zara. Ela estava curiosa mas não demonstraria interesse tão abertamente.

— Aprender o quê?

— Nada específico — disse, dando de ombros. — Talvez a forma polida como vocês falam. Ou como comem sem parecer um troll esfomeado. — Mordeu outra vez, rindo de si mesma. — Não que eu vá copiar isso.

Elrond soltou um risinho abafado.

Gil-galad, porém, ficou olhando.

A expressão suave, mas o olhar… aquele olhar ia fundo demais.

Como se reconhecesse algo nela antes mesmo que ela soubesse o que era.

— Creio — disse o Alto-Rei, com um tom que fez Zara engolir em seco — que aprenderemos muito uns com os outros.

Ela desviou o olhar imediatamente.

Sentiu um calor estranho subir pelo rosto.

— Desde que me deixem comer — resmungou, enfiando mais um pedaço de pão na boca. — Aí podemos aprender o que quiserem.

A risada de Gil-galad ecoou pelo salão — suave, inesperadamente calorosa.

E Zara fingiu que não gostou do som.

Mas gostou.

Gostou demais.