Segredos em Um Jardim Élfico
32 Aflições - Parte II - Resgate
No cativeiro, a noite caiu fria.
Zara estava no chão agora. As correntes haviam sido afrouxadas apenas o suficiente para permitir que a dor se espalhasse. Cada respiração era um esforço consciente.
Ela pressionava os braços contra o próprio corpo, como se pudesse proteger algo que nem sabia ao certo se existia.
— Aguente — murmurou para si mesma. — Só mais um pouco.
Os uruks não haviam voltado ainda. Talvez dormissem. Talvez aguardassem ordens.
Ela pensou em Gil-galad.
Não como rei.
Mas como o homem que a olhava como se ela fosse casa.
Não me deixe aqui, implorou em silêncio. Mesmo que nada reste de mim… venha.
Um trovão distante ecoou.
E então, como resposta tardia às suas preces, algo mudou no ar.
Um som.
Não de risos.
Não de passos desleixados.
Passos ritmados. Coordenados.
Espadas.
Zara fechou os olhos, o coração disparando.
Em Lindon, Gil-galad cavalgava à frente de seus soldados, a capa rasgada pelo vento, o olhar fixo no horizonte como se pudesse rasgar o mundo até alcançá-la.
Se houvesse vida dentro dela…
Se houvesse sequer a possibilidade…
Ele não permitiria que a escuridão tocasse mais nada que lhe fosse amado.
Nem que tivesse de incendiar a própria história dos elfos para isso.
O cheiro veio antes do som.
Fumaça antiga, ferro, sangue seco.
Gil-galad ergueu a mão, ordenando silêncio. À frente, entre as árvores tortas, o acampamento uruk pulsava como uma ferida aberta no bosque. Fogueiras baixas. Silhuetas deformadas. Riso grosso.
— Ali — murmurou um dos capitães élficos.
Gil-galad não respondeu.
Ele sentia.
Um peso no peito, como se algo invisível estivesse sendo esmagado lentamente.
— Dividam-se. — sua voz foi um sussurro mortal. — Sem alarde. Quero a rainha viva.
Elrond o encarou por um instante longo demais.
— Nós a traremos de volta — disse, firme.
Gil-galad apenas assentiu. Não confiava na própria voz.
Zara ouviu os risos antes de ver qualquer coisa.
— A rainha não canta mais? — zombou um uruk, chutando o chão próximo a ela. — O rei dourado não veio buscá-la?
Outro gargalhou.
— Talvez ele prefira forjar outro trono do que sujar as mãos por ela.
Zara ergueu o rosto com esforço. Os olhos, mesmo feridos, ainda queimavam.
— Eu não sei cantar, idiota e vocês falam demais para quem vai morrer rápido.
O uruk se agachou à sua frente.
— Corajosa. — sorriu, mostrando dentes quebrados. — Vamos ver quanto tempo isso dura.
Ele não viu a flecha.
Ela atravessou seu crânio com um som seco.
O caos explodiu.
— Agora! — a voz de Gil-galad cortou a noite como lâmina de luz.
Os elfos surgiram das sombras como um vendaval prateado. Espadas cantaram. Flechas choveram. Os uruks urraram, surpreendidos, furiosos.
— ELFOS! — berrou um deles. — MATEM O REI!
Gil-galad avançou.
Não havia elegância.
Não havia canto.
Havia fúria.
Cada golpe era preciso, impiedoso. Ele abriu caminho como se a própria noite se curvasse à sua passagem.
— Onde ela está?! — rugiu, cravando a lâmina no peito de um uruk.
— Tarde demais… — o monstro cuspiu sangue. — Ela já quebrou.
Algo em Gil-galad se partiu.
Ele o matou antes que terminasse a frase.
Elrond chegou primeiro até ela.
— Zara! — ajoelhou-se, quebrando as correntes com um golpe rápido.
Ela tentou se levantar — e falhou.
— Elrond… — a voz saiu fraca, mas lúcida.
— Não fale agora. — Ele a amparou com cuidado extremo. — Estamos aqui.
Mas então o mundo pareceu se estreitar.
Zara sentiu antes de ver.
A presença.
— Gil… — sussurrou.
O Alto-Rei surgiu entre as árvores, coberto de poeira e sangue que não era todo seu. A espada ainda tremia em sua mão.
Ele parou.
O tempo parou com ele.
Ao vê-la ali, ferida, pálida demais, algo em seus olhos se despedaçou sem som.
— Zara… — foi tudo que conseguiu dizer.
Ela tentou sorrir. Um gesto mínimo.
— Demorou — provocou, mesmo à beira do colapso.
Ele caiu de joelhos diante dela, esquecendo-se de reis, soldados, guerra.
— Não. — a voz falhou. — Eu cheguei.
Um uruk restante tentou avançar, rindo:
— Tarde, elfo dour —
A flecha de Elrond o silenciou.
Gil-galad tomou o rosto de Zara entre as mãos, como se o mundo inteiro estivesse ali.
— Olhe para mim. — pediu, desesperado. — Fique comigo.
Ela assentiu, respirando com dificuldade.
— Eu sabia que você viria…
O som distante de trombetas anunciou a vitória.
Mas Gil-galad não ouviu.
Tudo o que via era ela.
E tudo o que temia era aquilo que ainda não sabia, mas que o coração já suspeitava — que aquela noite poderia ter roubado mais do que sangue… poderia ter ameaçado algo que ainda não ousavam nomear.
O caminho até Lindon pareceu mais longo do que qualquer marcha de guerra que Gil-galad já enfrentara.
Zara seguia desacordada nos braços dele.
Não em uma padiola.
Não entregue a curandeiros.
Mas nele.
Cada passo era calculado, como se o menor erro pudesse despedaçar o pouco que ainda a mantinha ali. O sangue já corria livremente, mas sua pele estava fria demais, pálida demais. A respiração vinha curta, irregular.
— Ela perdeu muito sangue — murmurou um dos curandeiros que os acompanhava às pressas. — Precisamos chegar logo.
Gil-galad não respondeu.
Seu olhar estava fixo no rosto de Zara, como se observá-la fosse o único feitiço capaz de mantê-la viva.
Elrond cavalgava ao lado, o semblante fechado, carregando um peso que não ousava verbalizar.
— Ela resistiu mais do que qualquer um — disse, tentando ancorar o rei. — Isso diz muito sobre sua força.
— Não me fale de força. — Gil-galad respondeu baixo, quase sem voz. — Fale-me de sobrevivência.
O silêncio caiu novamente.
Quando os portões de Lindon se abriram, a cidade sentiu.
Elfos interromperam seus afazeres. Guardas endireitaram-se. Um murmúrio correu como vento entre colunas e árvores douradas.
— É a Rainha…
— Ela está ferida…
— Pelos Valar…
Gil-galad atravessou os corredores sem desacelerar. Não houve proclamação. Não houve anúncio. Apenas urgência.
— Preparem o Salão de Cura agora. — ordenou. — Todos os melhores.
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