Segredos e Mentiras
11 Precisamos falar sobre Edward
Notas iniciais
— Por que você está com essa cara? – Olhei para Ângela que estava comendo seu sorvete de flocos com muita vontade, eu sorri para ela.
— Ficou bom?
Ela sorriu largamente limpando a colher.
— Quero sempre ser sua cobaia. Mas o que está acontecendo?
Respirei fundo sentindo a leve dor de cabeça se formar.
— Tem essa recepção... e eu tenho que seguir um cardápio louco...
— Aquela magricela louca quer ter ferrar não é mesmo?
Eu tinha conseguido ao menos falar de Alice para ela esse final de semana, mas Edward ainda era um assunto proibido e ela sabia disso. Eu acho que Ângela estava reunindo forças para me confrontar, ignorando que eu evitava falar de meu chefe e de como nós ficamos sozinhos no dia da chuva vendo filme e conversando.
— O cardápio não faz o menor sentido e se os alimentos chegarem eu não sei como não fazer porque tudo que ela mandou só serve para uma receita específica, já tentei misturar, refazer e até mesmo provei com o vinho. Tudo fica uma mistura horrível de sabores cheio de temperos que não combinam.
— Vaca! – Ângela gritou e eu sorri em meio a tristeza de fazer algo ruim. Eu não queria decepcionar Edward ou Esme, ou talvez Tânia. Droga, a lista continuava se pensasse em como Carlisle foi gentil e simpático comigo os dias que esteve lá. – Coloque algo na bebida dela!
A animação de Ângela me fez sorrir para ela.
— Você está sorrindo. – eu sabia que ela não me via fazer isso. – Sabe aquele peso que tinha nas costas... aquele medo... Eu não vejo mais Swan.... – ela cantarolou a última parte rindo como uma criança de dez anos que implica com a outra. Eu fiquei em silêncio enquanto ela saboreava o momento infantil. – E sabe de uma coisa? Eu estou observando você entrar por aquela porta todo final de semana e fingir que nada está acontecendo, mas eu te conheço melhor que isso. Fale ou eu tranco a porta e semana que vem você não passa por ela.
Chantagem baixa.
— Ben não iria trabalhar se soubesse que está sozinha Ângela.
— Então não conseguiria dinheiro para pagar as contas e o aluguel. Tudo sua culpa.
Eu olhei feio para ela. Ben tinha conseguido um emprego como segurança de uma casa noturna, ele cobria os finais de semana e isso estava perfeito já que durante a semana ele trabalhava como atendente em uma lanchonete. Só que era distante de mais e o dono liberou um quartinho pequeno nos fundo para ele dormir e cuidar do estabelecimento na parte da tarde enquanto funcionários da limpeza iam e vinham. Isso deixava os dois mais confortáveis para passar o mês já que Ângela estava ali de quatro meses de gravidez e não poderia mais trabalhar por conta dos riscos de perder o bebê. Eu tinha que falar sobre Edward.
— Meu chefe. – falei e ela não disse nada, continuou comendo o sorvete com calma me olhando. – Não sei o que está acontecendo... é difícil.
— Você gosta dele.
— Eu não posso gostar dele Ângela, eu não tenho como explicar metade da minha vida até hoje e eu acho que ele não merece isso entende?
Ela ficou em silêncio sabendo o quão certa eu estava. Eu teria que explicar como Isabella Swam surgiu e isso não seria nada agradável de se ouvir.
— Ele não merece... Edward é um homem de negócio importante, merece alguém que o acompanhe em viagens, saiba se comportar com todos seus convidados, uma mulher bonita e inteligente que ele possa se orgulhar.
— Não faça isso com você...- eu tinha os olhos cheios de lágrimas porque eu sabia que não merecia ele, mas o queria com todo meu ser. – Você é uma mulher inteligente, bonita e perfeita para qualquer homem que saiba apreciar suas qualidades.
— Só que eu não posso contar a verdade Ângela... e Edward tem uma imagem de mim...
— Ninguém é perfeito Isabella e ele não é o primeiro homem da terra a ser perfeito. Todos nós temos defeitos e qualidades e Edward não é diferente.
Eu sabia que ela tinha razão, sabia perfeitamente disso.
— Só que Edward não é um homem qualquer. E ele não pode ter uma mulher como eu do lado dele. Seria péssimo para ele e para mim. Eu preciso desse emprego e preciso me manter exatamente como eu estou, isso me fez bem e eu consegui estar aqui. Foi muito difícil estar aqui.
— Eu estava lá Bells. – então as lágrimas caíram com as lembranças, dores e pesadelos. – E eu sei tudo que aconteceu, mas você não pode se achar o patinho feio para sempre... precisa se tornar o cisne que eu sei que você é.
Lembrei de quando Ângela me chamou de Swan a primeira vez, como estávamos diferentes e como eu chorava sem ninguém por perto para me consolar. Ângela não me abraçou ou disse nada reconfortante. Ela olhou dentro dos meus olhos e disse apenas:
— Seja forte Swan.
E desde aquele momento ela nunca mais me chamou de outra coisa.
— Se um dia ele descobrir todas as mentiras que contei até aqui ele vai se decepcionar e eu não quero mais decepcionar ninguém.
Ângela levantou indo até a cozinha guardar o pote de sorvete que eu tinha feito, ela voltou e se encostou na porta com aquele ar tranquilo que o tempo tinha dado a ela.
— Quando a hora chegar, conte a verdade. – meu coração acelerou nesse momento. – Se ele não aceitar o problema será exclusivamente dele. Porque acima de tudo, quem precisa se aceitar é você. Nada do que aconteceu é sua culpa e talvez ele seja o caminho perfeito para você se libertar desse passado. Talvez a vida esteja lhe dando algo bom Swan... aceite isso.
Eu nunca contei a ninguém o que aconteceu. Nem mesmo sussurrei para os psicólogos que me atenderam ou para os médicos que vieram depois. Ângela sabia porque ela era uma intrometida, ela mesma falou isso depois que conseguiu informações que deveriam ser sigilosas e deduziu a outra parte porque para ela era muito óbvio o que era mentira e verdade. Levantei rapidamente indo lavar as mãos sem necessidade, Ângela ignorou minha tentativa de limpar algo que já estava mais do que limpo. Ela tinha seus próprios traumas e lidava com isso da forma que podia.
— Tem uma séria nova que estreou. – disse me entregando um pano para enxugar. Era a forma de dizer que estava bom, eu tinha que parar com aquela loucura antes que me machucasse. – Quero pipoca doce. Faz?
Sorri e fui fazer a pipoca dela. Eu não pensei mais em passado ou decepção, eu me concentrei em pesquisar receitas e em como me livraria desse cardápio que Alice montou para me prejudicar ou não, talvez ela pensasse que uma coisa combinava com a outra e foi arrumando conforme seus gostos pessoais.
Chegar segunda feira no prédio foi um alívio. Tinha ocorrido um acidente, tudo estava um caos e eu queria experimentar algumas receitas que pudessem funcionar melhor. Por hábito já liguei o computador e vi o sinal de mensagem, cliquei e sorri vendo uma foto de Edward segurando um livro nas mãos.
“ Livro de receitas italianas, dizem que o chefe é um renomado professor aqui da Itália. Não o conheço, mas já pedi para comprarem todos dele. Deve ser bom não?”
Sorri reconhecendo o nome do chefe. E respondi a mensagem avisando a ele que o chefe fazia parte do círculo de chefes cinco estrelas da escola francesa de culinária, ele foi revolucionário na cozinha italiana por transformar pratos típicos e comuns em verdadeiras obras primas dignas de hotéis cinco estrelas e jantares de gala. Informei a Edward que ele tinha um restaurante perto de uma avenida central no centro da cidade, que se possível ele poderia comer e me dizer como foi a experiência. Quando enviei a mensagem sorri para mim mesma como uma boba. Quando ele arrumava tempo para ir em livrarias comprar livros ou em feiras? Será que ele fazia isso antes?
De uma coisa eu tinha certeza sobre Edward Cullen. Ele era uma pessoa extraordinária, tinha um bom coração e vivia como gostava. Ele não era um rico excêntrico ou um jovem playboy. Esme e Carlisle o educaram para ser mais que isso e tinham tido um resultado maravilhoso.
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