Segredos e Mentiras
36 Encontros Marcados
Notas iniciais
EDWARD
Forks era uma cidade realmente muito fria e úmida. A placa dizendo o número de moradores era nova, o que me dizia que aquele número até o ano anterior era bem menor. Muitas pessoas se mudavam para cidades pequenas buscando uma qualidade de vida melhor, índices baixos de violência ou até mesmo um lugar para viverem mais tranquilamente.
Bill mantinha a velocidade baixa devido as placas de índice de velocidade baixas, tinha uma área comercial movimentada, mas poucos carros circulando. Eu vi muitas bicicletas e caminhonetes com pneus preparados para a neve. Será que Bella andava de bicicleta? Ela deveria ficar ainda mais linda sorrindo e pedalando. O mundo não merecia alguém como Isabella, ela é boa demais para estar perto de pessoas como Alice.
— Estamos quase chegando na delegacia senhor Cullen. – Bill informou olhando para o GPS.
— Não entendi porque não estamos indo para a casa dela. E o que esse carro está fazendo aqui afinal? Ela não foi presa por isso foi? — só de imaginar ela novamente em uma delegacia isso me causava um desespero enorme. – Você disse que os documentos dela estavam organizados, que ela poderia dirigir.
— Senhor Cullen eu não acho que o carro dela está lá por acaso. – ele disse firme e começou a estacionar o carro em frente a uma pequena delegacia. Tinha apenas um carro de polícia e eu vi o carro que deia a Bella estacionado a poucos metros.
— O que ele está fazendo aqui? – eu já estava impaciente. O carro desligou e Bill destravou as portas.
— O pai dela é um policial aposentado, mas ainda mantém contato com a delegacia. Ele se aposentou depois que a filha foi condenada, uma aposentadoria que não foi bem aceita pela comunidade.
— Como assim?
— Eles não queriam outro chefe de polícia, Charlie é muito querido e as pessoas confiam muito nele. – eu olhei pelo espelho para Bill, essa história estava totalmente diferente da que imaginei quando soube de tudo. Eu não tive muito tempo para pensar sobre isso, mas imaginei Charlie como alguém recluso depois de tudo.
— Então ele ainda é chefe?
Bill sorriu.
— Não, ele quis se aposentar, mas as pessoas não confiavam no novo chefe de polícia. Era um rapaz vindo de Nova York com a família, muito novo para entender algumas relações que se formam nessas cidades e essa é uma comunidade muito unidade. Ele precisou da ajuda de Charlie e desde então os dois são muito amigos, a família dele é bem próxima de Charlie.
— Você sabe tudo isso...
— Porque tenho amigos que conhecem Charlie e sua história. Incrível como esse mundo é pequeno não? – Bill tinha um certo brilho no olhar que eu sabia ser muito mais que isso. Porém ele não me diria, ele era bom exatamente por isso. Porque ele sabia de tudo e era muito discreto.
Eu saí do carro sem saber o que esperar realmente. Eu queria ver Bella, mas eu precisava confiar em Bill. Eu entrei na delegacia e um rapaz jovem logo se levantou da cadeira sorrindo.
— Boa tarde. Sou o chefe de Polícia local, me chamo Mike. No que posso ajudar o senhor?
— Eu quero saber do carro...
— O Gardian? – ele perguntou animado.
— Sim. Esse mesmo.
— Espera que vou chamar Charlie.
Ele se voltou para sua mesa e se sentou sorrindo.
— Eu não acredito. Perdi cem dólares.
Antes que eu pudesse falar algo ele já estava no telefone chamando Charlie.
— Tem um senhor aqui procurando pelo carro. – ele riu de alguma coisa e então desligou. – Sente-se senhor...
— Cullen. Edward Cullen.
Eu sentei na cadeira a sua frente.
— Da Cullen de Chicago?
— Sim. Isso mesmo.
— Trabalhei em Chicago no meu primeiro ano, fui ao Baile uma vez. Vi você e sua família de longe. A corporação é muito agradecida pelos seus investimentos.
— Fazemos o que podemos pela nossa cidade. Por que perdeu cem dólares? – tentei parecer o menos curioso possível pensando que ele falaria melhor.
— Ah! – então ele sorriu – Aquele velho deixou esse carro há alguns dias e me disse: aquele carro é a mala da minha Renée, alguém virá procurar por ele e quando fizer isso Mike... me ligue na mesma hora. – ele sorriu como se não acreditasse que aquelas palavras fossem verdade – Eu pensei que era roubado. Verifiquei a placa, documentação em dia. Comprado há pouco tempo. É um modelo exclusivo e sabemos que tem um sistema de GPS e localização por satélite em caso de roubos e as peças são todas monitoradas. Se aquela belezinha for desmontada o dono sabe onde cada peça está e como ela está.
— É um sistema de proteção também, caso alguma peça esteja danificada ou com problemas logo uma central sabe e avisa ao proprietário. – complementei sua informação.
— Sim, é o mais seguro e moderno da categoria. E aquele velho sabia disso!
Sorri achando graça de como Mike parecia íntimo do pai de Bella.
— Então o senhor veio atrás dela?
Eu não tive tempo de responder, ouvimos um barulho de um carro estacionando e Mike se levantou rapidamente me olhando simpático.
— Vou fazer algumas rondas e volto mais tarde. Minha mulher faz um bolo de carne maravilhoso senhor Cullen, sinta-se convidado a estar conosco amanhã.
— Hum.. Obrigado.
E assim que ele se foi a figura de Charlie apareceu. Eu não poderia negar que fiquei nervoso. Esse homem representava o mundo para Bella e ela tinha corrido para ele quando as coisas não deram certo depois de anos afastados. Me levantei a fim de parecer respeitoso e cumprimentá-lo melhor. Charlie estava rindo e pegando os cem dólares de Mike, o rapaz parecia muito feliz ao abrir a carteira.
Ele entrou na delegacia e veio até mim com muita confiança.
— Boa tarde senhor Cullen. – eu estendi a mão aceitando o cumprimento.
— Boa tarde senhor.
— Só Charlie por favor.
Ele se sentou no mesmo lugar que Mike e eu voltei a me sentar. Pela primeira vez eu me questionei sobre ser um bom partido. Será que ele não gostaria que eu fosse rico ou que minha família fosse uma das mais tradicionais de Chicago? Charlie parecia um homem experiente e muito vivido. Ele tinha aquelas marcas em seu rosto que a vida dá e nos mostra que a pessoa tem mais dentro de si do que um dia poderia expressar.
— Então você é o famoso Edward. – eu o olhei sem entender. – Das Cullen Tecnology e da Cullen Interprise e Industry.
— Sim...
— Seu avô e seu bisavô estão nos livros de história. – ele falou e se ajeitou melhor na cadeira – Você tem os traços dos dois.
Assenti sabendo que era verdade. Papai se orgulhava disso o tempo todo.
— Eu vim atrás de Bella. – isso saiu meio rápido e foi mais um pensamento do que uma fala programada, mas eu estava sem saber o que fazer na frente dele.
— Eu sei que sim. – disse me olhando nos olhos. Olhos protetores – Eu tenho minha menina em casa. Uma menina que saiu de casa assustada e sem rumo. Ela passou por muitas coisas Edward Cullen e eu não estou deixando você entrar naquela casa se saber o que você quer com a minha menina.
Isso me pegou desprevenido. Eu sabia que tinha vindo atrás dela. Que a amava. Eu sabia que ela era o ar puro em meio a podridão desse mundo, mas o pai dela estava aqui querendo ouvir as palavras que eu tinha reservado para ela. Que eu queria que ela ouvisse primeiro.
— Eu sei que isso não é fácil rapaz. Mas você já analisou na ficha criminal dela?
— Bella não poderia ter feito aquilo! – isso soou firme. Ele acreditava naquela loucura?
— É isso que preciso saber antes que você vá e a acuse de algo que ela não merece.
Charlie tinha posto o carro aqui. Ele queria que eu viesse aqui. Ele estava protegendo ela, assim como eu queria proteger ela de tudo e todos. O encarei.
— Eu amo Isabella. Amo aquela menina quebrada e assustada porque ela é a primavera e o ar mais puro que já respirei. A amo porque ela é tudo que um homem de sorte pode querer e a sorte de ter. Eu acredito senhor que ela não fez nada daquilo. Assim como coisas ruins acontecem o tempo todo ela foi vítima de uma pessoa cruel e acabou pagando por algo que não cometeu. Ela pagou com mais que sua liberdade. Eu quero Isabella com mais forças do que poderia explicar.
Charlie sorriu e relaxou.
— Ela é especial não é? Ela herdou aquele ar sublime da mãe. Renée era uma mulher talentosa e brilhante. Não me canso de falar nela e sei que você poderia ouvir horas sobre mim e ela sem cansar porque... é isso que sente não?
— Com certeza. – afirmei sorrindo.
— Minha filha é mais do que um dia você poderia merecer. – ele soava bem como um pai protetor e orgulhoso de sua menina. Me vi assim com alguma filha que viesse a ter com Bella. Definitivamente eu seria assim. – Ela não quis me ver na cadeia sabe. – Charlie fez uma pausa e respirou fundo. – Ela achava que eu estava decepcionado com ela e eu achando que ela estava triste porque eu não consegui tirar ela daquele lugar e nem provar nada que a ajudasse.
O sofrimento dos dois tomou uma outra dimensão aos meus olhos. Separadamente cada um tinha suas dúvidas, incertezas e dores.
— Mas quando amamos senhor Cullen, não há nada que nos impeça de amar e continuar amando. Ela não queria falar comigo e eu respeitei isso até onde eu pude. Eu tinha alguns contatos e os usei, usei todos que eu poderia para que eles protegessem minha pequena. É claro que aquela facada foi demais. – ele passou a mão pelo rosto como se tentasse apagar a preocupação e o terror que eu vi em seus olhos. – Então eu tinha poucas esperanças de ver minha filha novamente e não poderia invadir a vida dela. Foi então que eu dei um chute, a amiga dela saiu.
— Você conhece Ângela? – isso era algo que eu não esperava.
— Você achou que eu iria deixar minha menina sair daquele inferno e ficar sozinha nesse mundo perdida?
— Eu...
— Senhor Cullen eu ajudei Ângela e Ben em tudo que poderia porque eu sabia que ela correria para eles assim que saísse.
— Ela não sabe disso...você sabia dela todos esses anos?
— Sim. Claro que sabia. Enviei dinheiro quando ela ficou muito doente e eles não tinham condições para mais nada. Ângela me contava como ela estava e eu só podia ouvir. Foi então que ela quis uma nova identidade. – isso estava cada vez mais surpreendente – E tinha contatos e enviei eles para Jenks. Ele é melhor nisso. Então ele fez uma Isabella Swan tão rápido quanto o dinheiro caiu na conta dele.
— Você fez isso por ela? Tudo...
— Ben e Ângela não poderiam se prejudicar e quando ela teve essa ideia isso poderia acabar mal para todos. Tinha que ser bem feito e Jenks é o melhor. O mais procurado, mas o melhor.
— Por isso o sistema não acusou nada. Não achou nada.
— O emprego foi algo que ele arrumou depois, ela estava trabalhando em lugares perigosos e que não ajudavam em nada em sua condição...
— Isso... Deus você a colocou na empresa.
Charlie me olhou pela primeira vez receoso.
— Eu ajudei com alguns contatos, mas ela ter sido promovida foi algo que eu não poderia imaginar. Era algo mínimo. Limpar, ficar fora do caminho e ganhar um dinheiro limpo. Ninguém imaginaria que tudo aconteceria da forma como aconteceu.
Sim, Alice ter procurado ela. Ela e eu termos nos apaixonado.
— Ela tinha um curso de culinária...- falei lembrando.
— Eu arrumei para que ela estudasse na cadeia, era um projeto pioneiro e pedi muitos favores para que ela fosse selecionada. Mas isso a daria uma cela diferenciada por causa dos estudos e bom comportamento.
Me sentei mais largado na cadeira já não me importando com nada. Olhei para o homem que lutou silenciosamente pela sua filha como se sua vida dependesse disso.
— Então senhor Cullen, agora que o senhor está aqui na minha frente eu preciso saber se você está disposto a encarar aquele monte de abutres que chamamos de repórteres. Eu preciso saber se você tem ciência que a partir do momento que assumir minha filha, vai estar assumindo o seu passado e todas as coisas que eles podem afirmar que ela fez. – ele pareceu ainda mais sério – Ela foi acusada e condenada. Não temos como fazer nada a respeito disso. Isabella sempre será uma ex presidiária e isso pode interferir diretamente na sua empresa, nas suas amizades ou até mesmo na sua família. Não vou admitir que chegue perto dela a não ser que o senhor tenha plena consciência do que é estar com minha filha.
Um sentimento tomou conta de mim. Eu senti ele uns dias depois que soube de Isabella. Eu senti ele mais forte ainda quando vi o que Alice tinha feito para afastar ela de mim. Um sentimento forte que me fazia querer gritar e berrar com qualquer um ou mais alguém que a visse como apenas uma ex qualquer coisa. Olhei Charlie talvez pela primeira vez como alguém que poderia me afastar dela ou nos prejudicar e isso não era bom.
— Eu amo sua filha. A amo. Com passado. Cadeia. Condenação e tudo que vier junto. – eu sei que ele me sondava com seu olhar experiente e aguçado. – Eu não vim para brincar com os sentimentos dela e nem fazer ela sofrer mais um segundo do que ela já sofreu. Eu não tenho medo da imprensa ou de qualquer julgamento, as pessoas que mais amo na vida amam Isabella e sabem que ela é a luz da minha vida. A mulher que vai ser minha esposa. A mãe dos meus filhos. Eu não dou a mínima para mais nada que não seja eu e ela.
Eu percebi então como meu coração estava acelerado e minha voz tinha saído um pouco mais alta do que o normal. Ele poderia estar agora achando que eu estava sendo desrespeitoso e eu não queria entrar nessa briga com ele, Bella o amava e eu queria muito que ela e ele continuassem juntos e não entrasse numa briga por mim. Quis gemer pensando na confusão que tínhamos feito.
— Ela está em casa. Vá atrás dele rapaz. – o olhei surpreso. Charlie sorriu realmente satisfeito. Se acomodou melhor na cadeira em uma postura relaxada e eu o observei olhar ao redor. – Tenho algumas coisas para fazer, Mike é novo e a papelada fica sempre uma confusão.
Eu não consegui me mexer.
— Edward, ela está nesse momento achando que você não irá até ela. Acho bom mudar a cabeça dela a respeito disso filho.
Isso me despertou e eu levantei na mesma hora.
— Obrigado. – agradeci já indo para a porta. Olhei para trás o vendo sorrir como se fosse uma piada minha reação.
— Quero um anel naquele dedo filho e uma festa. Ela merece uma festa. Das grandes.
Sorri para Charlie pela primeira vez desde que nos conhecemos.
— A maior. – respondi já saindo da delegacia. Bill abriu a porta assim que viu.
— Para casa dela. – falei quando ele entrou ligando o carro.
— Peço a alguém para levar o carro dela para a casa?
— Para Chicago. A casa dela é em Chicago.
Bill sorriu e eu sabia que tudo ficaria bem. Fechei meus olhos relaxando pela primeira vez em dia em dias. Em dias.
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