Os primeiros raios de sol do dia entravam pela janela e acordaram de vez Yuri. Ele havia tido um sono inquieto aquela noite, então, um mínimo de luz, movimento ou som o acordava. Desistiu de vez de dormir e achou por bem levantar-se de uma vez mesmo estando cedo.

Victor ainda dormia ao seu lado, mas também não podia dizer eu tivera um sono tranquilo. Desde os acontecidos, ele não estava conseguindo descansar e estava bastante chateado. No jantar da noite anterior, ele mal havia conseguido trocar palavras com Yuri. E os pais dele estranharam bastante já que normalmente fala pelos cotovelos, mas nada disseram.

No momento de dormir, Victor ainda deu um beijo na bochecha de Yuri mas recebeu somente um “boa noite” em resposta sem que ele virasse de volta para olhar. E ele virou-se de costas para o companheiro também e escondeu a cabeça embaixo do lençol magoado e algumas lágrimas solitárias escorriam pela sua face.

Victor percebeu que Yuri havia levantado, mas resolveu permanecer ali ainda algum tempo. E pegou-se divagando sobre seus dias de juventude. Apesar de estar sempre rodeado de pessoas que o admiravam, sentia-se solitário. Havia ganhado fama, dinheiro... Todo o tempo fãs aproximavam-se e alguns até tentavam se relacionar.

Porém, jamais permitiu-se deixar além do necessário.

Desde menino e suas primeiras tentativas na patinação – o qual já era tratado como gênio — sempre sentiu que todos o tratavam tal qual um objeto de adoração, Victor o “rei”. Mas não se isolava, tratava todos com cordialidade. A primeira pessoa que enfim lhe interessou e o tratou brevemente como um “humano”, foi a que dançou e brincou com ele sem se importar direito com quem ele era, mesmo que esse alguém fosse um bêbado pirado na festa de encerramento do campeonato de patinação.

Sua válvula de escape para tudo sempre fora a patinação. Treinava dia e noite se deixassem para que ele não voltasse para seu apartamento e o encontrasse vazio. Tinha o Macacchin, mas sentia falta de alguém que o respondesse com palavras, o abraçasse, tratasse como um humano. Tamanha a solidão, que largaria tudo se fosse preciso, em troca de alguém que preenchesse esse vazio.

E agora, a única pessoa que lhe importava estar ao lado era justamente seu aluno, o bêbado da dança, que o fez jogar tudo par o alto. Mas devido às circunstâncias não queria se deixar aproximar além do necessário.

Passado todo esse tempo e depois de ter vivido dias de plena alegria, a solidão que sentia havia feito um buraco muito maior que antes em seu peito. Victor não gostava de falar do passado com ninguém. E tinha medo de contar o que quer que fosse, principalmente a Yuri.

Achava que ele já carregava um fardo desnecessário de o ter “roubado da Rússia”...e um homem ainda por cima! Eles viviam dias tão felizes... não havia necessidade dele saber das tristezas de seu passado. Yuri por si só já havia tido dias de muita solidão, era complexado e ansioso. Não merecia sofrer pelo outro, coisas que não se apagariam. Entre ficar remoendo coisas que não voltariam e curtir a vida ao lado de seu companheiro que o deixava feliz apenas estando por perto, a escolha era óbvia.

Sabia que havia perdido parte da confiança de Yuri e precisaria recuperar à todo custo. Mesmo que isso implicasse em ter que remexer em suas memórias que haviam sido trancadas à sete chaves em seu coração.

E determinado, enfim levantou-se. Procurou uma caixa que especial eu estava guardada no armário e rumou mais rápido que pode ao Ice Castle, afinal, foi a patinação que os haviam aproximado antes. Forma melhor de expressar seus sentimentos não havia.

Chegou esbaforido ao rinque mas Yuri ainda não estava lá, provavelmente estaria fazendo sua corrida matinal para aquecimento. Melhor assim, teve tempo de preparar tudo o que precisava. Aprontou-se e o esperou no centro do rinque.

Yuri não tardou a chegar. E ainda da porta avistou Victor. Congelou.

Ele estava absolutamente lindo e com o traje rosa degradê que havia ganhado a ultima competição que participara. E não conseguiu nada além de balbuciar um “Victor” que não passou despercebido pelo outro que apenas sorriu e fez um sinal.

Os primeiros acordes de “Stay close to me” encheram o ambiente. Victor deslizava de um lado para o outro fazendo a sua coreografia que Yuri conhecia muito bem. Mas hoje especialmente, ele o fazia com uma intensidade e expressão muito maiores. Jamais performou a dança com tamanha precisão e sentimento.

Yuri estava deslumbrado. Não conseguia tirar os olhos de Victor, nem piscava. E ao final da canção, mal pode visualizar que rosto Victor fazia, seus olhos estavam completamente cheios de lágrimas. E Victor também estava.

Permaneceram alguns minutos apenas se encarando de longe. Victor toma coragem e se aproxima o abraçando. E Yuri retribui em um abraço apertado e com choro incontido.

Agonia, solidão, culpa, saudade, alívio. Um turbilhão de sentimentos transbordava em forma de lágrimas de Yuri e Victor. E ambos as deixavam correr livremente e não ousavam sequer mexer um músculo, num abraço infinito. Parecia que seus corpos haviam colado da falta que sentiam do toque um do outro.

—Eu... precisava lhe falar. Não sabia como e achei melhor que meu corpo simplesmente se expressasse – Victor enfim corta o silêncio e diz ainda sem separar seu rosto do pescoço de Yuri.

— Eu entendi. A musica é perfeita, não precisa de mais nada.

—Meu peito dói. Sinto tanto sua falta Yuri, tanto, tanto... mas eu não fui sincero com você e isso te afastou de mim, me perdoa! – Victor enfim encara Yuri.

—Também sinto. Eu fui um idiota, não tem o que se culpar.

—Tenho sim! Eu.... não gosto de me lembrar do passado, mas eu não o confiei a você quando deveria e você acabou sofrendo assim. Não queria que você soubesse o que eu passei mas acabei tornando tudo muito pior – E Victor mais uma vez o abraça.

—Não... Eu percebi que você estava sofrendo com alguma coisa mas fui muito egoísta. Falei “esquece” mas ao invés de lhe dar apoio, eu o afastei porque não sabia lidar com esse ciúme bobo. Desculpe.

—Não, o culpado disso tudo sou eu, mas não quero que se repita nunca mais.

—Victor, eu...quero saber direito o que aconteceu.

—Justo. Senta aí que vou lhe contar.

E Victor o pega pela mão e o leva até um dos bancos da arquibancada para conversarem.