Segredos do Passado
7 Os Doze Deuses
Notas iniciais
Dentro da casa, o mordomo de Muraki sentiu a terra estremecer, pensando ser um terremoto – iria interromper seu mestre que, dentro de suas barreiras, talvez não tivesse sentido o impacto. Contudo os tremores pararam e ele julgou ser irrelevante; até um calafrio lhe passar pela espinha. Já havia sentido isso antes, quando Muraki lidava com demônios e poderes. Algo podia ter sido atraído para energia da casa e justificaria o tremor que sentiu.
Pegou uma arma, com alguns feitiços encrustados, e saiu andando pela residência, sem perder o foco ao seu redor. No hall de entrada, encontrou Hisoka e Tatsumi – mirou nos dois shinigamis de longe, planejando acertar o de óculos primeiro (sabia muito bem que o outro era o amado brinquedo de seu mestre e deveria buscar outra maneira de conte-lo).
De sua própria sombra, emergiu uma lâmina que destruiu sua arma e o apavorou. Sem o menor tempo para reagir, Hisoka veio em sua direção, o agarrou com os braços para trás e o conteve contra o chão, surpreendendo Tatsumi;
— Kurosaki-kun? – por aquele ele não estava esperando.
— Meu clã obriga seus altos escalões a treinarem autodefesa, kenjutsu e artes marciais para se protegerem. – ele explicou, lembrando Tatsumi que fazia parte de uma antiga e prestigiada família que, por mais que o odiasse, ainda assim iria tirar proveito de sua existência, sendo ele o filho único do chefe de todos.
— Muito bem! – ele estava bastante satisfeito e, rapidamente, mudou seu humor, ao se agachar na altura do mordomo – Agora você vai nos dizer onde está nosso amigo. – ele nada respondeu e Hisoka sentiu Tatsumi se alterar – Onde está o Tsuzuki-san? O que você e aquele doente fizeram com ele? – Tatsumi o puxou da contenção de Hisoka, pelo pescoço, o ergueu do chão e chocou contra a parede.
Hisoka nunca viu o shinigami daquela forma, mas sabia muito bem que, qualquer um que mexesse com Tsuzuki, iria enfrentar sua fúria. O mordomo já sufocava, quando conseguiu apontar uma direção para o fundo da casa.
— É melhor não estar mentindo! – Tatsumi o soltou e ele desmaiou. Estava completamente acabado e com as marcas da mão do shinigami bem nítidas.
— Tatsumi-san, eles estão lá em baixo sim. – Hisoka sentiu uma pontada aguda de dor.
— Então vamos salva-lo! Eu cuido do Muraki e você do Tsuzuki-san. – Hisoka adoraria tirar a forra com o assassino, mas salvar Tsuzuki era prioridade máxima.
Concordou com Tatsumi e os dois seguiram. Usando as sombras, rapidamente acessaram o cômodo onde, ainda escondidos nelas, viam Muraki manipular um corpo sangrando em uma mesa. O sangue de Hisoka ferveu e Tatsumi não pode se conter igualmente. Com uma sombra, arremessou o médico para longe de Tsuzuki e na direção de Hisoka – que lhe virou o mais forte chute que pode, contra uma estante de vidros.
Os dois foram diretamente ao amigo, em uma cena novamente desagradável. Tentavam chama-lo, enquanto o soltavam, mas ele simplesmente não respondia. Estava alheio ao mundo e exausto, de tanto tentar evitar que Muraki pegasse os deuses.
— Kurosaki-kun, pegue o Tsuzuki-san e saia daqui depressa. – Tatsumi assumiu uma postura de ataque, vendo que Muraki estava se levantando novamente.
— Vocês dois não desistem de me atrapalhar. – ele se levantava com movimentos rígidos – Acho que vou adicionar você a minha coleção de bonecas, shinigami. – pela primeira vez, Tatsumi sentiu o calafrio e o terror de ser referido pelo médico, com aqueles olhos frios e o tom sínico de suas sugestões.
— Tatsumi-san! – Hisoka não queria deixa-lo, mas sabia que daria sua vida pela de Tsuzuki, além de querer muito salva-lo – Não deixe de nos encontrar lá fora! – ele foi saindo vendo um leve sorriso em Tatsumi.
Muraki ficou irritado além dos limites e tentou atacar, sendo detido pelas sombras de Tatsumi. Pegaria Tsuzuki de volta nem que tivesse que matar sua possível nova boneca.
Hisoka saiu com Tsuzuki e o estendeu no jardim. Ele não estava bem! Os ferimentos não queriam cicatrizar e o sangue não parava de escorrer. Que raios Muraki fez a ele?
— Hisoka.... – do nada, ele viu o parceiro reagir e chamar seu nome.
— Tsuzuki!!! – as lágrimas dele eram impossíveis de se conter.
— Que bom que ele não fez nada a você. – Tsuzuki disse e apagou. Seu corpo ficou mole e seus sentidos falharam, fazendo o coração de Hisoka se desesperar.
O menino não teve tempo de se desesperar, pois um poder avassalador começou a se expandir. Luzes envolveram o corpo de Tsuzuki, revelando os deuses, em forma humana.
Suzaku era um homem, com um conjunto vermelho de kimonos, cabelos alaranjados longos e olhos violetas. Seiryu era um homem, com trajes imperiais azuis, cabelos azuis claros longos e olhos vermelhos. Byako se assemelhava a um jovem rapaz, com orelhas e uma cauda, cabelos curtos e rebeldes, usando um kimono branco simples e olhos dourados. Genbu usava trajes cerimoniais verdes, tinha olhos azuis bem escuros e cabelos marrons longos. Touda tinha pele morena, cabelos vermelhos curtos, olhos vermelhos e trajava um conjunto simples de kimonos negros com serpentes vermelhas bordadas. Tai’in era uma jovem menina, com um vestido rosa médio, cabelos presos bem alto e olhos castanhos. Kouchin era uma bela mulher, com trajes de luta negros e curtos, cabelo preto, curto e liso e olhos roxos. Rikugo era um jovem homem, de olhos escuros, cabelos longos e trajando um simples kimono turquesa, com um haori preto. Tenko, Tenku e Taiju eram três senhores muito parecidos, usando roupas verdes e cinzas, com cabelos grisalhos e olhos prateados.
— Hisoka-san, leve o Tsuzuki daqui. – ele viu Ten’itsu aparecer ao seu lado – Esta esfera de luz irá ajuda-lo a aliviar suas dores, enquanto lidamos com a situação. – ela foi bem sucinta, mantendo sua calma.
— O Tatsumi-san ainda está lá dentro! – Hisoka quase esqueceu de avisar, no susto.
— Nós sabemos. – Rikugo respondeu.
— Tsuzuki nos protegeu desse insano, mesmo nós insistindo que iriamos protege-lo. – Kouchin parecia muito nervosa.
— Ele não queria que Kyoto se repetisse e, depois de descobrir os planos do médico, ele nos protegeu com cada gota de seu ser – Suzaku deu sequência.
— Mesmo ele estando preocupado com sua segurança e tendo passado por aquilo tudo, ele não desistiu. – Genbu continuava.
— E agora é nossa vez de protege-lo! Vamos acabar com isso! – Seiryu teve suas palavras respondidas.
Hisoka saiu correndo, deixando uma cena imponente atrás de si. Os Doze Deuses assumiam suas formas animais revelando, respectivamente: a fênix vermelha, o dragão azul, o tigre branco, a tartaruga verde, a serpente negra, a garça branca, um leopardo das neves, um lobo marrom, três corvos grandes e uma serpente albina.
Hisoka alcançou Konoe, Watari e Gushoushin, e ficou assistindo os Deuses emplacarem sua fúria contra Muraki. Ninguém reagia! Nem Tatsumi, que veio parar, em uma única rajada de vento, até eles e com o livro, conseguia ter um pensamento sequer. Jamais alguém deveria ver os Doze Deuses em fúria, daquela forma.
Os jardins lembravam uma grande fogueira, raios e trovões estrondavam na tempestade que se formava, fortes ventos levavam tudo, ciclones de água perfuravam a terra, terremotos estremeciam o chão, a casa desabava, os deuses atacavam Muraki de todos os meios possíveis e os sons de seus animais ecoavam até as profundezas da alma, fazendo o sangue gelar e o ar faltar. Não satisfeitos ao terminarem, Touda ateou fogo em tudo! Reduzindo cada resquício do terreno e dos corpos as cinzas.
Agora sim, que tinham terminado, resolveram voltar para Tsuzuki. Reassumindo suas formas humanas, eles pararam na frente dos shinigamis, caminhando até seu mestre. Tsuzuki estava apoiado no colo de Hisoka, finalmente respirando melhor – a luz de Ten’itsu era muito útil nessas horas.
Os Doze suspiraram juntos e voltaram ao mundo das personificações, deixando os shinigamis atordoados para trás. Mesmo com a situação inacreditável pela que passaram, Konoe tentou voltar a sanidade, sugerindo que voltassem ao seu mundo – assim eles o fizeram.
Tsuzuki foi imediatamente encaminhado ao hospital, com Hisoka e Watari, Gushoushin e Konoe foram diretamente prestar satisfações ao Conde e o conselho e Tatsumi ficou responsável por devolver o livro e tratar todas as papeladas do caso.
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Konoe estava até o pescoço com documentos – principalmente os financeiros! Os gastos das buscas pelas almas que foram puxadas do caminho, o concerto da ala médica após o descontrole de Hisoka, os recursos usados com o envio das personificações e os usados para encontrar Tsuzuki.
Foi uma verdadeira catástrofe! No final do curso, não havia membro da organização com algum tipo de sentimento negativo perante Muraki ou feliz que finalmente estava morto – melhor colocando, destruído da face da terra. Com o ataque dos deuses, nem o menor vestígio foi deixado como lembrança da história.
Um detalhe que deixava Hisoka em um misto de desapontamento e felicidade. Queria ter acertado as contas com Muraki ele mesmo, mas como o assassino tomou todas as repercussões por seus atos, pelos deuses, julgava que tinha sido o suficiente. Mas a felicidade não era disso, era de poder olhar-se no espelho e não ver as marcas de sua maldição. Nem sequer um mínimo vermelho do que antes era a lembrança de um terrível pesadelo, quando tinha 13 anos.
Mas isso tudo podia esperar. Conversou um sério assunto com Tatsumi esses dias, tomando uma importante decisão! Iria tocar em Tsuzuki. Usaria sua empatia para descobrir o que aconteceu com ele de verdade, para que pudessem ajuda-lo. Tsuzuki odiaria a ideia e jamais concordaria, além de que Hisoka fosse sentir um impacto poderoso e cruel, mas ele não estava lá para negar e Tatsumi não pode argumentar contra ele.
Tatsumi daria tudo para descobrir como ajudar o amigo, mas não queria colocar o parceiro importante dele em risco para isso. Cuidar de Hisoka era uma garantia de que Tsuzuki voltaria a estar são, com o tempo. Mesmo assim, as palavras de Hisoka o renderam: “Eu quero conhece-lo e entendê-lo de verdade. Não posso mais ficar com ele escondendo as coisas e sofrendo na minha frente, tentando imaginar como ajudar, sem conseguir.”.
Verdade fosse dita, Hisoka estava certo e agora era hora de desvendar os segredos do coração de Tsuzuki! Tatsumi e Watari se juntaram a ele no hospital no final de uma tarde. Ficariam para ajudar Hisoka no curso do plano e contariam com os dois pássaros, assim que terminassem seus trabalhos.
Tsuzuki estava imóvel, estendido na cama, perfeitamente reto, há uma semana já. Hisoka foi até seu pulso esquerdo, onde as cicatrizes de seus suicídios prevaleciam, respirou fundo e tocou. O choque foi violento e agonizante! Hisoka ajoelhou tentando respirar e se concentrar. Imagens dos traumas de sua infância, da noite de desespero que o deixou louco, de seus dias no hospital, dos momentos de lucidez em que seu único pensamento era morrer, do trabalho que quebrou sua parceria com Tatsumi, o momento em que desejou morrer em Kyoto e, o que mais o torturou, as lembranças da mais recente conversa com Muraki.
Hisoka viu tudo, durante cinco horas, enquanto seus expectadores agonizavam na espera. Desgastado e mal se aguentando, soltou o pulso de Tsuzuki, sendo amparado por Tatsumi para ficar em pé e ser guiado até uma cama ao lado do parceiro.
Watari já estava de volta com remédios e água para ele. Realmente entrar em contato com a dor de Tsuzuki era pior que qualquer coisa no mundo. Levou mais algumas horas para se recuperar e, quando conseguiu finalmente falar, contou tudo aos colegas.
Mesmo eles terem ficado altamente revoltados com o segredo que o Conde e Konoe esconderam de Tsuzuki por tanto tempo, compreenderam que contar, apenas feriria o amigo, como tinha conseguido agora. Muitas coisas fizeram sentido também: porque Tsuzuki não falava do passado, tinha um lapso de memória sobre sua morte, dormia perfeitamente reto, não tinha apreço por seus olhos e, não importasse o que, ele nunca deixaria de se importar com os outros, mostrado gentileza e estendendo auxilio – coisas que ele nunca teve.
O pior nem foi isso. Pelo que Hisoka constatou, a consciência de Tsuzuki estava inacessível. Ele simplesmente se recusava a voltar a realidade, sendo bloqueado por um repetido pensamento, cheio de tormento: “Eu realmente não sou humano. Sou apenas algo que nem deveria ter nascido.”.
Agora sim que ninguém sabia como iriam fazer para ajudar.
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