Segredos do Passado 2: O Mundo das Personificações
10 Para o Futuro
Notas iniciais
O véu estava fechado. Sem que as personificações tivessem contato com as pessoas e os shinigamis e sem que os shinigamis pudessem entrar em contato com eles.
O Conde apenas podia torcer para que seus funcionários estivessem seguros, contrariando o desaparecer de suas presenças a mais de uma semana. Os membros das famílias conversavam sobre as palavras que ouviram naquele dia, as presenças que desapareceram, o fato de Hisoka ser um shinigami e como fariam para que nunca mais seu erro se repetisse.
Tudo estava em paz. A contenção do confronto, no lado das personificações do véu, protegeu os outros planos. Seu mundo estava se recuperando com a ajuda de todos e a presença da luz do Rei; mas nada daquilo seria possível sem a ajuda que receberam. Sem o selamento que os shinigamis lutaram para realizar, o confronto teria se alastrado muito mais e, sem dúvida, os danos e baixas teriam sido ainda maiores.
Os shikis estavam em estação no palácio da área central, junto aos Doze Deuses. Chikage era uma moça de jovem aparência, pele perolada e olhos violetas extremamente claros; Huou era um senhor de cabelos acinzentados, com algumas rugas, uma bengala grossa de carvalho e usando um simples kimono marrom; Neguro era um homem moreno, em longos cabelos negros, usando um uniforme de luta preto e com garras no lugar das unhas; e Kuroshungei estava fora do corpo de Teruzuma, em sua forma humana, onde revelava apenas seu rosto pálido, com marcas roxas e orelhas pontudas, enquanto deixava o resto do corpo coberto por uma capa.
Juntos deles estavam Kohaku, Kotaro e Kojiro, todos ajudando os Deuses a reestabelecer o equilíbrio de seu mundo e controlar pequenos focos de distúrbios.
No palácio principal, em um cômodo aos fundos da construção, extenso, arejado, bem iluminado e arrumado, sete camas abrigavam os shinigamis da Enma-cho. Seus shikis os salvaram e socorreram, porem ainda não era certeza que sairiam daquela situação. Isto, até aquela manhã, dez dias depois, em que Tai’in reportou que estavam para acordar.
Eles estavam com dificuldades em se orientar e descobrir o que houve, quando repararam seus shikis no quarto, ajudando-os a se erguerem e recostarem nas camas.
— Seiryu, onde estão a Ten’itsu e o Suzaku? – Tsuzuki tinha certeza do que aconteceu, ao reconhecer onde estavam.
— Você é perspicaz como sempre, Tsuzuki-san. – o dragão não parecia surpreso que ele tivesse entendido – A Ten’itsu se desgastou demais para salvar a todos e ainda não se recuperou. O Suzaku está tomando conta dela.
— A quanto tempo estamos aqui? – ele era sério, já temendo pela vida da deusa.
— Fazem dez dias, hoje, que vocês realizaram o selamento e o confronto acabou. Foi muito difícil para nós salva-los, mas conseguimos a tempo. Não temos contato com os shinigamis e humanos desde o fim da batalha, então não sabemos seus status ou pudemos avisa-los sobre vocês. – ele foi objetivo em suas explicações.
— Então nós conseguimos! – Wakaba estava feliz e tentou mover-se, se arrependendo da ideia pela dor que sentiu.
— Miko-sama, por favor fique deitada. – Kotaro veio a seu auxílio.
— Ainda precisarão ficar em repouso e se recuperar totalmente. – Kojiro complementou o companheiro, se dirigindo a todos.
— Fazem dez dias nossos ou de vocês que estamos aqui? – Watari queria ter certeza do pensamento que montava.
— De vocês. – Rikugo respondeu – Para nós fazem quarenta dias que estamos cuidando de vocês. Por isso seus corpos devem estar com dificuldade por tanto tempo sem se moverem.
— Teremos muito que explicar no trabalho. – Tatsumi suspirava.
— Sim, mas agora devem se concentrar em melhorarem. – Chikage apoiava uma mão sobre o ombro do shinigami.
— O Conde vai ficar bravo conosco. – Konoe acabou tornando seu comentário em uma piada, fazendo com que rissem.
— Sim. – uma simples e fraca resposta, que atraiu as atenções.
— Hisoka, você está bem? – Tsuzuki via que o parceiro já não mais suportava ficar acordado com eles.
— Eu estou cansado. – não era surpresa nenhuma depois de tudo que aquela missão o obrigou a passar.
— Então volte a descansar. – Tsuzuki sorriu para ele – Concentre-se em melhorar apenas. – ele queria muito estender sua mão até o parceiro, mas a situação em que estava e a distância não permitiam.
Ele nada respondeu. Apagou exausto, sendo ajeitado na cama por Kohaku.
— Seu poder está muito instável. – o shiki estava claramente preocupado – Eu vi pelo que ele passou nesse trabalho. Vai ser difícil que se recupere.
— Levará tempo, mas ele vai conseguir. – Tsuzuki estava confiante que ele superaria e já fazia planos para ajudar assim que estivesse em melhores condições – Além de ele ter conseguido realizar seus treinos muito bem! – ele elogiava seu esforço, vendo o sorriso satisfeito de resposta do dragão.
Com os dias que se passavam, os shinigamis foram conseguindo se recuperar e se atualizavam dos acontecimentos. Sabiam que, antes de voltarem para Enma-cho, foram convocados a receber os agradecimentos diretos do Rei por sua ação, participar de uma solenidade em respeito a seus mortos – inclusive aqueles no cristal que Tsuzuki carregava e já havia recebido o destino correto – e celebrariam com seus shikis a vitória.
Tendo recebido a honra de estarem na presença do dragão dourado, Rei das Personificações, e de agraciarem a solenidade diretamente do Palácio Central, os shinigamis celebraram com prazer sua vitória, ao lado de seus shikis, em uma longa e animada festa. Ficaram no mundo deles por dois meses inteiros e, agora, era hora de voltarem para o seu.
Com a ajuda de seus shikis, os shinigamis se viram em um cenário muito familiar: o jardim da frente do prédio da Ju-ou-cho. Aquele corredor de cerejeiras indo diretamente a porta da frente, o aglomerar de seus colegas conforme ouviam de seus retornos e o recepcionar na Casa das Velas, pelo Conde em pessoa.
Momentos memoráveis, unidos a suas apresentações do que aconteceu durante a luta, a vitória conquistada e o conforto da festa de recepção prestada por seus companheiros, felizes em tê-los de volta.
Tinham que colocar seus documentos em ordem, arrumar suas moradias e terminar de prestar satisfações ao Conde e ao Conselho até serem liberados. Foram longos dias, até uma única missão restar: receber um relatório direto das Cinco Famílias sobre suas atividades durante a crise e entregar-lhes a punição pelo ocorrido.
Novamente em frente a casa da família Kurosaki, os shinigamis entravam em busca dos líderes. Muitos membros os encaravam em analise e julgamento, sussurros de comentários intermináveis preenchiam o caminho e, ao chegarem na sala onde eram esperados, os líderes e seus filhos sustentavam grande tensão. Os shinigamis se sentaram para começarem sua conversa.
— Viemos retirar o relatório. – Konoe sabia que o pedido havia sido feito há dois dias já, portando deveria estar pronto.
— Está aqui. – Kiyotsugo o entregou.
— O enterro da Kurosaki Kikyo já foi realizado, junto de uma purificação do corpo. – ele passava pelo documento minuciosamente – O templo foi reconsagrado e purificado conforme as instruções. – eles já haviam recebido alguns relatos de antemão e verificado tudo, portando aquela visita era mais para saberem se estavam dizendo a verdade – Foi estendida uma celebração de respeito em homenagem as vitimas do ocorrido. – nenhum dos presentes reagia conforme ele lia – E foram feitas barreiras de defesa para este lado, bem como membros de suas organizações foram destacados para defender as pessoas se necessário. – ele tirou seus olhos do documento, direcionando-os aos líderes – Muito bem.
— Existe mais algum assunto que devemos tratar? – Ryuu, o irmão de Hamaji, indagava tentando esconder sua insatisfação com a situação.
— Sim. – Tatsumi ignorou, ajeitando seus óculos muito sério – As personificações requerem que realizem um juramento perante a proteção que honravam no passado; assim, jamais se esquecerão de seus reais deveres. – sem dúvida era um juramento de sangue e Koyomi estreitou os olhos.
— Não faça esta expressão. – Teruzuma não deixaria passar – Vocês são aqueles a se responsabilizarem por estas consequências.
— Continuando. – Tatsumi se esforçava para controlar-se – O Conselho de superiores da Ju-ou-cho estabelece que mantenham um contato extraordinário conosco, em prol de relatarem situações maiores de risco e complexidade. Complementando este detalhe, deverão suspender suas atividades pelos próximos meses, até tudo estar devidamente resolvido. – novamente um deliberado ar de tensão prevaleceu.
— Isso não é exagero? – Sanmoto sabia que seriam punidos pelo ocorrido, mas sua insatisfação era clara.
— Considerando-se tudo, apenas o fato de que vocês não sofrerão uma punição física já deveria deixa-los muito felizes. – Watari o encarou frio, silenciando eventuais comentários.
— Agora terminamos tudo. – Konoe se levantou e os colegas faziam o mesmo – Esperamos que a lição tenha sido clara. – seu olhar escuro e ameaçador deixava claro que aquela intimação deveria ser levada a sério.
— Espere! – Shirona se levantou – Hisoka, eu e você temos que conversar. – o shinigamis mais jovem fez uma pausa, procurando se conter ao comentário.
— Não, nós não temos, Shirona. – ele se virou frio – Eu sei que quando você foi escolhida como minha comprometida, você foi altamente contra e sua única satisfação seria ser a líder da família quando a sucessão chegasse. Eu me lembro até hoje do que vocês me fizeram passar, de o como me desprezavam e que, quando fiquei doente, você e todos sequer foram capazes de sentir um pouco de simpatia por mim. – só de ouvi-lo, Tsuzuki e os companheiros já sentiam seus sangues ferverem de raiva pelo que passou – Eu nunca deixei de tentar conhecer você e a todos, olhando todos os registros que tínhamos e fazendo meu melhor por resultados; ocultando minhas reais emoções. É por isso que eu sei como você gosta de ser tratada, qual o seu título de batalha e as regras e padrões da família. – pela pausa repentina, um olhar sem emoção alguma veio e foi acompanhado de uma voz em igual tom – Eu só fiz o que fiz, pelas almas que estavam em perigo e as vidas que se envolveram. Eu não fiz por você ou qualquer outro membro das famílias. Eu tenho uma família, amigos e companheiros de verdade agora. Além de eu estar certo desde o começo sobre o fato de que, se você descobrisse sobre mim, você ia querer me matar. – ele deu as costas finalmente – Eu já sei tudo que eu preciso saber, portando nós não temos nada para conversar. Ah! E não fique me chamando pelo meu nome tão casualmente como se fossemos amigos ou próximos.
Tsuzuki passou um braço pelos ombros do rapaz, sorrindo com seus olhos acolhedores e gentis para ele e recebendo seu sorriso aliviado de volta. Os shinigamis se foram desaparecendo no jardim; deixando as famílias para trás, atordoadas em uma verdade que Hisoka jogou sem a menor dó ou tempo de reação.
Uma que Shirona jamais esqueceria; pois o homem que conheceu e respeitou naquele curto espaço de tempo, era o mesmo para o qual ela jamais deu uma chance real.
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Estava tudo acertado no trabalho e, novamente, ao final de mais um grande desafio, Hisoka e Tsuzuki se retiravam para repousar. Hisoka já havia reposto seus treinos de feitiços e artes marciais, junto com novas prática com Kohaku – este fazendo questão de expressar sua satisfação pelo sucesso nos treinos durante a missão.
Houve muito que Hisoka precisou aceitar e superar depois de enfrentar seu passado da forma como foi e não poderia ter contato com melhor apoio que seu parceiro, amigo e família, Tsuzuki e seu irmão mais velho e coruja, Tatsumi. Divertia-se muito colocando os dois nestas posições, pois foram eles quem lhe ensinaram seus significados.
Haviam feito tanto já, que decidiram que aquela virada de ano seria inesquecível. Hisoka e Tsuzuki participaram da festa na empresa com alegria e se retiraram para o apartamento antes do final, já tendo decidido que celebrariam em particular aquela noite.
— Logo os fogos devem começar. – Hisoka e Tsuzuki admiravam o céu da varanda do apartamento.
— Completamos mais um ano de parceria e mais de um ano morando junto. – Tsuzuki sorria ao lado do mais jovem.
— E vamos completar mais ainda. – ele corava um pouco com sua resposta.
— Certamente vamos. – Tsuzuki sentiu a tensão do parceiro, ao abraça-lo pela cintura.
Hisoka era empata, então o carinho forte e aquela emoção quente que fluíam eram claras e diretas. Os olhos ametistas brilhantes e sinceros com aquele sorriso estavam fazendo aquela dor em seu peito voltar, como já vinha acontecendo de alguns meses até ali. Ele se sentia cada vez mais calmo naquele sentimento e podia sentir que outro impulso se formava no parceiro; um que esperava sua permissão para acontecer.
Ele estendeu uma mão para o rosto de Tsuzuki, deixando sua bebida na mesinha da varanda, vendo que o shinigami acatou como um ‘sim’. Se estendeu para perto dele, deixando sua bebida também na mesa, e roubou um beijo. Um que Hisoka se posicionou melhor para aproveitar e os dois fizeram durar o máximo possível – ignorando os fogos de artificio que já haviam começado.
— Eu estou muito feliz, Hisoka. – Tsuzuki o abraçou com carinho, pois ele havia aceitado a única coisa que ele receava que destruísse o relacionamento que já tinham.
— Eu também, Tsuzuki. – era um agradável e prazeroso sentimento, quente e reconfortante, que Hisoka faria de tudo para preservar e viver o máximo com Tsuzuki.
Os fogos continuavam e os dois igualmente. Esquecendo das bebidas na varanda e sua porta meio aberta, se viram indo diretamente para cama de Tsuzuki, já tendo em mente que aquele segundo quarto não mais teria uso. Já nela, sobre os cobertores, antes de qualquer outra coisa, Tsuzuki tinha que perguntar.
— Está realmente tudo bem? – o mais jovem não tinha boas experiencias com aquilo e certamente não era intenção de Tsuzuki machucar seus sentimentos.
— Idiota. – Hisoka o puxou para outro beijo, parando vermelho, sem que se afastassem demais, e encarando o parceiro – É você Tsuzuki. Claro que está tudo bem.
O comentário deixou o shinigami de olhos ametistas vermelho igualmente e ambos procederam com o que pretendiam. Banhados pelas luzes dos fogos, sob o brilho prateado da lua, suas vidas seguiam para o futuro.

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