Segredos do Coração
1 Prólogo
Saori contemplou a paisagem e encantou-se.
Apesar do ar enregelante, uma gota de suor escorreu por sua testa sob o grosso capuz que defendia-a do forte vento.
- Saori, tudo bem? — inquiriu-a o sempre preocupado Frey.
- Acho que sou eu quem deve perguntar. — replicou ela, divertindo-se ao ver o esforço de Frey em chegar até o cume da montanha através da neve.
— Você tem muita energia, mulher. — gracejou ele — Deixou um bando de marmanjos para trás!
- Vocês são uns fracotes. — Saori simulou desdém diante do amigo ao estufar o peito e empinar o nariz.
- Ei, vocês dois. — chamou-os um loiro que vinha trazendo a maior mochila de todas nas costas — A conversa deve estar muito boa, mas estou precisando de uma mãozinha aqui. Será que vocês poderiam.. ai!... — num passo em falso, afundou um bocado na neve — ... me ajudar?
- Hahaha, claro, Haguen. — Frey foi em auxílio ao amigo — Mas foi você a desejar trazer tanta parafernália.
- Chega de bobagens. — sentenciou o mais velho do grupo; era o único que não demonstrava cansaço após a desgastante escalada – Devemos arrumar as barracas o quanto antes.
- Sim, senhor. — Haguen, ao ver-se livre da bagagem, bateu continência — Vivo para obedecer ao tenente Siegfried.
Siegfried franziu o cenho em desagrado, e forçou um pequeno sorriso desapontado:
- Peço que não me trate como se estivéssemos à serviço, Haguen. Ou acaso esqueceu-se do motivo deste nosso passeio?
- Isso é verdade. — Saori espanou a neve de uma pedra e estendeu um grosso tecido para sentar-se.
- Vai ficar com o bumbum geladinho, Saori. — disse Haguen, com um sorriso brincalhão e nada constrangido.
- Melhor que ficar em pé. — a moça enrubesceu e desviou o olhar — Lembre-se que "tudo que sobe, tem que descer". E a descida da montanha não vai ser nada fácil. — espalmou as mãos para retirar a neve acumulada nas luvas e sentou-se — Ah, que vista magnífica!!!
O grupo silenciou-se, contemplando as cores do pôr-do-sol e as formas que as nuvens esculpiam no céu. O cenário era lindo e inspirador. Todo o trabalho de escalar a montanha para chegar ali, enfrentando o vento gelado, provou-se compensador apenas pelo prazer de poder admirar a neve e as rochas e sentir o suave calor do sol em seu rosto.
Haguen foi o primeiro a quebrar o encanto provocado pela beleza da paisagem, espreguiçando-se ao anunciar:
- É realmente muito bonito, mas sou só eu ou mais alguém aqui está com fome?
- Sim, vamos comer. — concordou Siegfried, apanhando algumas embalagens do interior de sua mochila.
Saori foi a primeira a terminar sua refeição. Esfregou as mãos enluvadas para esquentá-las e olhou ao redor.
- Ei, gente! — chamou-os, entusiasmada, indicando a montanha ao lado daquela em que se encontravam – Vamos marcar a próxima escalada?
- E para quando? — Frey perguntou, com um pedaço de biscoito a caminho da boca.
- É, quando? — Haguen empolgou-se.
- Hm... — Saori mordeu o lábio de leve, pensativa — Infelizmente não será logo... Tenho algumas apresentações a fazer no exterior e... Bem, para nos encontrarmos todos e com tempo será difícil, não é? Eu gostaria também que viajássemos juntos, concordam? Quando vocês pegarão férias?
- Em três meses, mais ou menos... — replicou Frey.
- Peguei férias há apenas cinco meses. — Haguen deu de ombro, infeliz – Portanto a próxima não será tão já...
- A princesa Hilda pode requisitar meus serviços a qualquer momento. — respondeu Siegfried.
- Ele não costuma tirar férias... — Haguen explicou à Saori com ares de confidências, indicando Siegfried discretamente — Mas acho que conseguiria tirar alguns dias quando quisesse.
- Há quanto tempo você não tira férias, Siegfried? — Saori indagou, ficando curiosa e também levemente preocupada com a saúde do amigo caso ele se esforçasse demais e sem descanso.
- Uns quatro anos. — Siegfried murmurou, ignorando os olhares atônitos sobre si.
Saori sorriu meigamente para o amigo tão leal a seu país.
Após arrumarem as barracas para passar a noite na montanha, devidamente protegidos do vento e alimentados, desejaram-se boa noite e Saori foi dormir.
Os três rapazes agruparam-se momentos depois, em um local mais afastado para que a moça de olhos cintilantes não os ouvisse. Retiraram os capuzes, acostumados com o frio intenso de Asgard.
— Estou com uma sensação estranha. — murmurou Frey.
— Sim, parece que tem alguém nos observando há um tempo. — aquiesceu Haguen, também em voz baixa.
Siegfried, por sua vez, relanceou o olhar para a barraca a qual Saori fora descansar.
— Enviaremos um relatório completo ao Santuário ao retornarmos. Por hora, mantenham a vigilância e discrição. Devemos passar a imagem de simples humanos.
— Sim, senhor. — respondeu Haguen, e Frey acenou em positivo.
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