Segredos de Sangue
1 Primeiro Derramar: Visita
Notas iniciais
Acharam que eu tinha sumido, né? Bem, eu tinha! Estou com grandes projetos, mas, como havia prometido, não deixei de escrever essa fic maravilinda que me mantem ligada a vocês, amores!
Por isso, depois de muito tempo, trago o primeiro capítulo da segunda temporada. Não terei tempo de atualizar frequentemente, mas essa é a prova de que ainda estou aqui e para não desistirem desses vampiros mais problemáticos do mundo!
Espero que gostem.
Boa leitura! o/
O som do próprio salto ecoava no meio da escuridão mostrando a si mesma que estava sozinha, o barulho atravessava seus ouvidos e a satisfazia, gostava de ouvir seu andar leve e sutil. Qualquer pessoa comum não conseguiria escutá-la se aproximar mesmo se estivesse ali. Até os próprios vampiros tinham certa dificuldade. Sorriu, adorava ressaltar todas suas qualidades. Aproximou-se dos grandes portões da mansão de seu amado, mas antes que pudesse chegar até a entrada sentiu que algo estava diferente naquele local, pode sentir a quilômetros de distância. Aproximou-se com cautela, o som de seus passos se tornaram mudos e ela então notou o que estava diferente. Havia uma garota no gramado, um jantar talvez? Uma transformada? Respirou fundo e conseguiu sentir o sangue pulsar nas veias da menina. Uma humana comum, mas por que ela estaria ali?
A garota de cabelos negros levantou sua cabeça à procura de algo. Será que ela a percebera? Isso era impossível, ela tinha tomado todos os cuidados possíveis, ia se esconder por completo, porém algo fez com que ela encarasse a garota com mais intensidade, seus olhos não lhe eram estranhos. Pérolas... Não podia acreditar no que estava vendo. A menina terminou seu movimento e correu para dentro da casa. Aquilo não fazia sentido, por que ele a manteria ali?
Os saltos voltaram a ecoar, agora mais apressados e menos delicados. Os longos cabelos avermelhados, tão perfeitamente presos ao chapéu, começavam a sair de sua perfeita ordem e os olhos brilhavam de maneira perigosa. As unhas minuciosamente pintadas com vermelho brilhante penetravam a pele de tão firmemente pressionadas em formato de punho. Era visível que o ar calmo e orgulhoso que ostentava antes sumira e fora substituído por algo mais sombrio e perigoso. Os passos pararam em frente a porta de mármore principal e ela esticou a mão, batendo com força contra a madeira.
As abatidas abafadas ecoaram por todo o primeiro andar, mas os moradores da casa já sabiam que receberiam visitas. Gaara trincou os dentes e ouviu gemidos desgostosos de Sasori, aquela era uma péssima hora para aquela mulher estar ali. Kurenai, ao ouvir as batidas, correu para arrumar suas roupas e atender a porta. Não se lembrava de nada sobre visitas para aquele dia e ficou preocupada ao ver Hinata observando tudo da escada.
— Teremos visitas? — questionou a garota. Ela ainda estava magoada por ser obrigada a ficar ali, mas algo lhe dizia que as coisas ainda podiam ficar pior e, por um instante, desejou que nada mudasse. — Kurenai?
— Querida, suba e se prepare para o jantar, okay? — pediu exibindo um sorriso fraco. — Fique no seu quarto até que eu lhe chame e não saia.
Mais batidas foram ouvidas um pouco antes de ela conseguir terminar sua frase, hesitante, Hinata concordou e correu para seu quarto. Temendo quem pudesse ser, Kurenai respirou fundo e girou a maçaneta. Bem devagar, a porta foi se abrindo e revelando a figura de alguém que saíra de um dos retratos que estava em cima da lareira da família Traven.
***
Sasuke olhou para o calendário na parede e suspirou. Novamente aquela época do ano. Todos odiavam as tradições da família Traven e eles sabiam que até mesmo seu pai não suportava aquelas datas em específico. “Ainda mais com todos esses problemas e Hinata aqui” pensou ansioso. Queria conversar com alguém sobre aquela situação, mas sabia que seus irmãos nunca aceitariam sentar e conversar com o pirralho da família sobre algo que eles já deveriam ter discutido demais entre si. Ninguém teria interesse. Estava prestes a parar de ficar encarando o calendário do celular quando encarou a garota que surgia pelo corredor. Ela parecia saudável, o que era uma grande coisa ao se morar com vampiros, mas olhava para trás de tempos em tempos, como se algo a assustasse. Por impulso, Sasuke perguntou:
— Você está bem?
— Estou! — respondeu assustada. Ela não parecia feliz em vê-lo e ele podia entender aquilo, mas havia algo mais. — Só estou indo para meu quarto, Kurenai foi atender a porta e...
— Se eu fosse você — começou cortando a frase dela e ganhando sua atenção. — Ficaria trancado em meu quarto por cinco dias, não sairia de lá e agradeceria por não ver ninguém.
— Por quê?
A pergunta fora um reflexo. Hinata não sabia se queria receber aquela resposta, mas sentia como se algo importante estivesse para acontecer. Sasuke observou-a por alguns segundos. Sabia que ela não mentia e era muito mais inteligente do que parecia e, além disso, precisava de alguém para conversar, sem contar que, talvez, seu pai o perdoasse se avisasse para ela o que estava prestes a acontecer.
— É semana da reunião familiar.
***
— Vai continuar me encarando ou irá me deixar passar?
A voz era suave como uma navalha. O sorriso falso como o laque que prendia o cabelo no penteado. E a roupa finamente decorada. A mulher parecia alguém vindo da época dos nobres europeus com suas roupas bufantes, o guarda-chuva e o chapéu. Kurenai curvou-se levemente e abriu passagem para ela. Kushina Uzumaki era uma bela mulher, com uma educação excelente, mas a mesma personalidade distorcida de seu filho mais novo. A governanta recebeu os apetrechos da outra e, enquanto tentava organizar as coisas em suas mãos, observou a mulher caminhar calmamente pela sala.
— Onde está Minato?
— O senhor Traven está em sua sala, trabalhando. — respondeu rápida. Queria escapar dali. Não gostava da presença daquela mulher. — Irei avisar que está aqui...
— Não, querida. Me leve até ele — exigiu de maneira delicada.
Kurenai hesitou. Aquele com certeza não era o momento certo para ela estar ali. Entretanto, o olha gélido fazia com que calafrios descessem por sua espinha e foi isso que a convenceu a fazer o que ela queria.
***
Hinata não sabia quem era a mulher ruiva que estava parada no Hall de entrada, mas não achava que deveria descobrir. Sem pensar duas vezes, deu a volta e se direcionou de volta para seu quarto. A casa parecia estar cada vez mais fria e uma sensação de vazio a preencheu com mais força do que esperava acontecer em sua vida.
A sensação de ser observada, que desaparecera misteriosamente quando se mudara para a mansão, voltou com toda a força e a fez correr assustada para seu quarto. Queria se esconder e evitar aquela sensação horrível de não ter como fugir. Parou em frente a porta de seu quarto com a respiração acelerada e as mãos tremendo. Estava prestes a girar a maçaneta quando um vento frio passou pelo corredor fechado. As vozes de Kurenai e da mulher pareciam preencher o lugar, mesmo que estivessem no andar debaixo e Hinata não acreditou poder ficar sozinha.
Estava tão desesperada por um lugar seguro que correu para outra porta, muito desorientada, e abriu e fechou a porta com toda a força que conseguiu. Sua respiração acelerada atrapalhava o raciocínio e ela se forçou a se acalmar encostando a testa na porta.
Por um momento, tudo foi silêncio. Calma começava a anuviar os seus pensamentos quando sentiu uma mão pousar sobre seu ombro. Não conseguiu evitar o grito ou o salto para trás, a afastando do desconhecido. Seus braços estavam erguidos na frente de seu corpo quando olhou para cima e encontrou olhos extremamente verdes e preocupados.
— Hinata, você está bem?
A voz de Gaara entrou por seus ouvidos como uma melodia calmante. Pela primeira vez desde que chegara, estava feliz em ver algum dos irmãos. Sem pensar no que estava fazendo e ainda muito nervosa, atirou-se contra o corpo do ruivo que a recebeu surpreso, mas de braços abertos.
— Hinata...
A menina tremia e parecia querer afundar e sumir onde estava. Gaara não compreendia aquela reação extrema, mas a apertou contra si e esperou que isso a ajudasse a se acalmar.
Não sabia quanto tempo se passara, mas a preocupação ecoou em seu ouvido e o fez afastá-la um pouco para ver como estava. Os olhos de Hinata estavam vidrados em seu peito e a garota parecia ter entrado em uma espécie de transe. Constatar aquilo não o ajudou a descobrir o que fazer e o obrigou a fazê-la sentar na cadeira vaga ao lado da cama.
Sasori não fazia mais nenhum barulho e parecia ter adormecido depois de tanto sofrimento e juntando isso ao estado de Hinata, Gaara ficou sem saber o que fazer.
Percebendo que nenhum dos dois sairia de onde estava, Gaara resolveu procurar por Kurenai ou Kakashi. Um deles com certeza saberia como ajudar. Resoluto, colocou levemente um dos casacos de Sasori que encontrara pelo chão sob os ombros de Hinata e saiu do quarto apressado.
***
Naquele instante, todos já sabiam sobre a chegada daquela mulher. Kushina não era o tipo de pessoa que escondia sua presença e tentava passar despercebida. O resto dos irmãos possuíram reações diversas, como sempre.
Naruto, o mais novo filho dela, trancou a porta do quarto e se escondeu ao lado do armário de seu quarto. A voz de Kurama parecia estar cada vez mais alta e pedia por sangue, muito. Trincando os dentes e se obrigando a ficar parado onde estava, Naruto se encolheu ainda mais e escondeu a cabeça entre seus joelhos. Não queria chegar perto dela, não podia permitir que tudo acontecesse de novo.
Por outro lado, Itachi e Yahiko fizeram questão de continuar como estavam. Se era Kushina quem estava ali, nenhum deles tinha nada a ver com aquilo; ela era problema dos gêmeos e de Naruto.
O único que teve coragem – ou talvez fosse estupidez – suficiente para sair de seu quarto e procurar saber de algo foi Sasuke. Normalmente, o garoto tentaria se manter fora de encrencas, mas algo lhe dizia que a presença dela ali significava algo totalmente fora da rotina da família.
Sabendo que não adiantaria em nada procurar por Itachi ou Yahiko e conhecendo o passado de Naruto com Kushina, Sasuke foi obrigada a descer até a cozinha e procurar por Kurenai ou Kakashi. Um dos dois deveria saber lhe explicar o que estava acontecendo daquela vez.
***
Os passos ecoavam por todo o corredor. O salto martelava contra o chão de madeira com mais força do que o necessário. Kurenai ouvia o tec, tec, tec como algo vindo do Inferno e sabia que Minato ficaria uma fera quando soubesse que estava levando-a até ali.
— Como sempre, esta casa está muito bem cuidada — elogiou Kushina olhando para as paredes. — Ótimo trabalho, Kurenai.
Uma pessoa normal gostaria do elogio, mas Kurenai não era uma governanta normal e ela sabia muito bem que se Kushina estava falando coisas agradáveis era porque queria algo. Mantendo-se calada, parou em frente a uma porta e bateu com força.
Por um segundo, nada aconteceu. Puderam ouvir vozes vindas de dentro da sala e os olhos de Kushina se fecharam, por mais que o sorriso não abandonasse seu rosto. A governanta não sabia o que esperar daquela mulher e, pela primeira vez em muito tempo, estava com medo do que poderia acontecer com a própria vida se ela ficasse irritada.
— Bata mais uma vez.
A ordem veio como um sibilo e Kurenai quase se atirou contra a porta, batendo um pouco mais desesperada do que deveria. A conversa dentro da sala parou e a voz de Minato se fez ser ouvida. Respirando fundo, Kurenai pediu que Kushina esperasse e entrou na sala quase correndo.
Minato estava recostado em sua cadeira, olhando para sua governanta com curiosidade. Conhecia Kurenai desde que ela nascera e começara a trabalhar para sua família, sabia que o comportamento da mulher era muito diferente do que ela aparentava.
— Sinto muito, senhor Minato, não queria interromper, mas...
— Não se preocupe — interrompeu-a com um dar de ombros. — Era só a minha mãe. Aconteceu alguma coisa?
Os olhos da governanta se arregalaram surpresos. Se ele estava falando com a própria mãe era porque aquela época do ano estava chegando. Engolindo em seco e não querendo dar aquela notícia, Kurenai deu mais alguns passos para frente.
— Senhor Minato, o senhor tem uma visita.
O tom mórbido em sua voz deu tantas dicas para Minato que ele já imaginava quem podia ser antes de dar a ordem para que ela abrisse a porta. Com um cumprimento educado, Kurenai se virou e abriu a passagem.
Como sempre, Kushina estava estonteante em suas roupas vitorianas e cabelos encaracolados. Minato podia ver claramente seus gêmeos naquela mulher, entretanto, sabia muito bem que aquela imagem angelical sumiria dentro de instantes. Kushina não era o tipo de mulher que qualquer homem conseguiria lidar.
— Meu amor, quanto tempo! — exclamou com um sorriso sutil.
***
Gemidos de dor entravam por seus ouvidos e faziam seu cérebro reagir. Hinata, que ainda estava em estado de choque, olhou para o lado. Em meio a sua visão anuviada, pode ver a forma de Sasori deitada na cama, se contorcendo.
A garota olhou para os lados, tentando identificar o que acontecia. Sabia que ficara extremamente assustada com a visão daquela mulher ruiva e a sensação que ela lhe fizera sentir. Entretanto, percebeu que o choque fora tão grande que suas memórias estavam anuviadas e apenas pequenos flashs passavam por sua mente. O medo de ficar sozinha no próprio quarto; o momento em que invadira o quarto; quando se jogou nos braços de Gaara. Suas bochechas coraram com a lembrança e isso ajudou a despertar de seu estupor. Os gemidos insistentes chamaram novamente sua atenção.
— Hin... Hina...
Ela jurava que ele estava tentando dizer seu nome e, sem querer pensar muito, se aproximou devagar até ficar de joelhos ao lado da cama. Sasori estava deitado com seu peito para cima, respirando com dificuldade e de olhos fechados, como se estivesse sofrendo. Lembrava-se de dizerem que ele estava sem comer desde sua chegada e, por isso, escondia-se em seu quarto. A debilidade dele era tamanha que Hinata tocou levemente sua testa, sentindo-o febril.
— Sasori? — chamou recebendo apenas um resmungo dolorido.
Por uns segundos, nada aconteceu, mas os olhos castanhos se abriram devagar e a encararam vazios. Hinata sentiu o coração apertar. Nunca desejara ver alguém daquela forma e seria horrível que acontecesse algo a ele, a única pessoa que conversara consigo sem tentar lhe matar.
— O que posso fazer para te ajudar? — perguntou esquecendo-se, por um momento, do que estava para acontecer a sua volta.
Ele mexeu a cabeça, como se dissesse não, mas Hinata sabia, instintivamente, do que ele precisava. Puxando a manga da camisa que usava, sentiu o clima gélido do quarto, colocou seu pulso sobre os lábios dele. Sasori moveu a cabeça para o lado, recusando o que ela lhe oferecia. Contudo, Hinata não deixaria que ele continuasse daquela forma e ergueu-se, sentando na cama, perto dele.
— Escute, você está quase morrendo — falou mesmo não sabendo se aquilo seria possível. — Por favor, beba. Sei que não vai me machucar tanto... Só o faça, está bem?
Voltou a colocar o pulso contra os lábios dele. Sasori ainda estava com os olhos fechados quando, com a outra mão, ela forçou-o a abrir a boca. As presas já estavam para fora e não foi difícil para que penetrassem a pele branca dela. Uma breve fisgada de dor e, no segundo seguinte, sentiu seu sangue se puxado pela boca dele. Lembrou-se da sensação assustadora que tivera quando Sasuke tomara seu sangue, em seu primeiro dia ali, mas não era a mesma coisa e imaginava que o motivo era porque estava dando por vontade própria.
Sasori, aos poucos, recuperou alguma cor, mesmo que não fosse muita, em seu rosto. Até os cabelos vermelhos avivaram. Estava se sentindo tão fraca, que sentiu o corpo cair para frente, os olhos quase fechados. Hinata notou duas mãos segurando seus braços, mas não conseguiu se mexer.
O jovem Traven se erguera um pouco antes que ela desabasse e, com cuidado, posicionou o corpo debilitado contra o seu. Sasori não podia acreditar no que ela acabara de fazer, não que tivesse tentado impedir, mas aquela garota só podia ser louca para dar seu sangue a um vampiro sedento. Bebera demais e sabia que, naquele momento, ela deveria estar desmaiada. Sentia-se culpado, não era para que ela soubesse o que estava acontecendo consigo. Apertou-a em seus braços, saboreando o pouco de sangue que ainda restava em sua boca.
Hinata era louca e Sasori não podia negar que gostava daquilo.
***
— O que está fazendo aqui embaixo, Gaara?
O mais novo dos ruivos olhou para cima. Sasuke terminava de descer os degraus. Os olhos verdes se prenderam nos negros em desafio. Era um acordo silencioso de que nenhum dos irmãos deveria se meter na vida um do outro.
— Veio ver a mamãe, foi? — continuou em tom zombeteiro.
— Pelo que eu saiba, não é da sua conta.
Sasuke era o mais jovem, sendo assim, o mais excluído pelos outros. Ele não gostava nada de ser tratado como um vampiro qualquer ou um transformado, pelos irmãos, mas decidira não arranjar encrencas e ficar quieto. Talvez, se mantivesse sua personalidade quieta e fria, Minato reconhecesse seu controle.
De repente, mais rápido do que todos poderiam explicar, o cheio de sangue penetrou suas narinas e, como resposta, suas bocas salivaram. Os dois conheciam aquele cheiro. Antes que Gaara pudesse tentar voltar correndo para seu quarto, sentiu seu braço ser puxado para trás.
Kurenai estava ali. Encarando-os com reprovação. Tinha certeza que sabiam sobre a presença de Kushina, então, por que estavam do lado de fora?
— Venham, não podem ficar aqui — ordenou puxando-o em direção a cozinha.
— Mas...
Gaara não teve tempo de contestar e Sasuke aproveitou a oportunidade para descobrir o que queria. Nos outros quartos, os vampiros também sentiram o cheiro do sangue de Hinata. Contudo, escolherem continuar escondidos, evitando a mulher que estava pela casa. Nada valia o preço de encontrar uma das mães.
***
— Nossa, isso é hora de estarem comendo?
Minato sorriu levemente para a ex-mulher, tentando esconder que tentava imaginar qual dos filhos iria matar daquela vez. Kushina, que ocupara uma cadeira, sorriu ainda mais ao ver os lábios dele aumentarem direcionados para ela – era maravilhoso ter aqueles olhos azuis observando apenas sua imagem.
— Sabe que eles fazem o que querem — rebateu tentando desconversar. — E você, Kushina, a que devo sua visita?
— Estava com saudades, Minato, e você sabe disso — respondeu cruzando as pernas, exibindo seu melhor sorriso sugestivo. — Há muito tempo você não aparece para as reuniões. Posso dizer que sua mãe anda muito irritada com essa ausência...
Aquilo era péssimo. Se a antiga matriarca da família não estava satisfeita com sua atuação como líder, Minato tinha ciência de que as coisas poderiam ficar muito piores do que já estavam.
— Além disso — continuou Kushina chamando sua atenção. — Ela pediu para que eu viesse fazer uma visita, sabe? Para ver como você e os meninos estavam se saindo sem uma figura feminina por perto.
Os lábios de Minato quase se tornaram duas linhas inexistentes em seu rosto, de tão brancos que ficaram ao serem pressionados um contra o outro. O senhor Traven tentara, três vezes, manter uma figura feminina dentro da casa e nenhuma das vezes terminara como gostaria. Soraya fora a primeira, mãe de seus dois filhos mais velhos, e precisara sair por uma grave discussão que tivera com a sogra; Kushina fora a próxima, mãe dos gêmeos e de Naruto. Dava-se muito bem com a sogra, mas a personalidade distorcida fizera com que seus três filhos não pudessem se relacionar com outras pessoas enquanto cresciam e Minato, contra a vontade de sua mãe, mandou-a embora antes que pudesse causar mais estragos. Sua última companheira fora Mikoto, a mãe de Sasuke, e a única que parecera se encaixar com os Traven. Contudo, ela descobrira seu maior segredo e, por saber que nunca poderia ser amada, fugiu com um antigo amigo, Fugaku. Minato sabia que não queria nenhuma figura feminina como aquelas por perto.
— Kurenai tem sido mais que o suficiente para os garotos — contrapôs tentando acabar com aquela discussão. — E eu realmente não tenho tido tempo para comparecer às reuniões, acabei de falar com minha mãe pelo telefone. Compensá-la-ei durante a festa dos Traven, esse ano. Nada muito grave.
O sorriso não deixava o rosto de Kushina, mas o sentimento não alcançava seus olhos, que permaneciam como duas esferas de gelo puro. Parecia estar prestes a caçar, mas Minato não tinha como saber o que pretendia.
— Não estaria faltando por causa da jovem de olhos perolados que está em sua casa, não é? — inquiriu levantando seu nariz ainda mais alto, como se tivesse ganhado o melhor prêmio. — Uma humana, Minato? Sério mesmo? Depois de todos esses anos?
Kushina achava saber tudo sobre Minato. Fora a esposa que passara mais tempo dentro de sua casa e pudera escutar, da mãe do próprio, segredos obscuros sobre ele. Observou-o recostar-se contra o encosto da cadeira e cruzar suas mãos em frente ao seu corpo – a típica postura que usava quando declarava um assunto terminado.
— Acho que já está na hora de você ir — declarou por fim.
***
Abrir os olhos doera, mas não tanto quanto a sensação de dormência em seu braço. Sentia todo seu corpo aquecido, por mais que contra a sua pele algo gelado era pressionado. Levantou um pouco a cabeça, tentando focar sua visão, mas apenas um borrão vermelho fez-se presente em seu campo de visão.
— Acordada? — murmurou Sasori contra o ouvido dela. Sua voz, como sempre, passava diversão e uma certa animação, mas havia uma delicadeza e preocupação, bem ao fundo.
Aos poucos, Hinata foi se lembrando da situação em que encontrara Sasori e em como não pudera vê-lo daquela maneira sem tentar fazer alguma coisa para ajudar.
— Você está bem? — questionou ainda sentido o corpo mole pela falta de sangue, mas não podendo evitar preocupar-se com aquele vampiro cheio de segundas intenções e assustadores e profundos olhos castanhos.
— É incrível como consegue se preocupar com os outros quando é você que não pode se mover — comentou parecendo verdadeiramente surpreso. Levemente apertou-a contra o próprio corpo, ao senti-la tremer. — Está fraca. Preciso fazer com que coma algo.
— Não podemos sair, Kurenai mandou que ficássemos no quarto — explicou vagarosamente. Hinata sentia, mais uma vez, os olhos tentarem fechar por causa da fraqueza.
— Por quê?
— Visita...
As íris peroladas haviam sido escondidas pelas pálpebras mais uma vez e Hinata ressonava tranquilamente. A anemia poderia consumi-la aos poucos e Sasori não estava disposto a deixar que nada acontecesse ao mais novo interesse de sua vida eterna. Sabia que levaria ótimos puxões de orelhas e teria que ouvir tantos sermões quanto ouvira quando fugira do ritual; além disso, não queria nem pensar em como seria seu próximo castigo. Contudo, Hinata era uma pequena caixa de Pandora – a tentação que não conseguia deixar de sentir.
Estava prestes a deixá-la deitada na cama de Gaara e ir procurar por Kurenai ou comida humana quando um estrondo se fez presente pela casa. Com certeza havia sido a porta principal da casa, mas quem teria motivo para batê-la daquele jeito. Antes que pudesse ter respostas, a própria porta do quarto de Gaara foi aberta com um encontrão e seu irmão gêmeo e Sasuke adentraram o quarto com os olhos arregalados.
— O que foi que você fez, Sasori? — perguntou Gaara com um leve rosnado.
— Se eu contar que não fui eu, vocês acreditam? — devolveu rindo. Por mais que tentasse, a vontade de fazer piada com tudo a sua volta era algo não conseguia evitar.
— Sasori, seu pai vai te matar! — exclamou Kurenai com os olhos arregalados e surpresa por ver Hinata ainda mais branca que o normal. — O que foi que você...
— Olha, podemos discutir sobre o que eu posso ou não ter feito por muito tempo — interrompeu curvando-se e erguendo o corpo desmaiado de Hinata da cama. Manteve-a tão próxima a seu corpo que Gaara não pode deixar de notar a atitude quase protetiva do outro. — Mas não é melhor que façamos Hinata se sentir melhor primeiro? Já providenciaram comida humana?
Como previra, momentos depois que colocara a jovem na cama dela, fora arrastado por Gaara para o lado de fora, onde ambos esbarraram nos outros irmãos e em um Kakashi com a aparência muito ansiosa.
— Por que nos chamou, Kakashi? — perguntou Nagato com uma sobrancelha arqueada. — Deveríamos estar descansando e outros pirralhos se preparando para ir à escola. Qual o problema?
— Seu pai quer vê-los, jovem Nagato — explicou segurando seu quepe entre as mãos e amassando-o com nervosismo. — Disse que é muito urgente.
***
— Isso é uma vergonha para o nome daquela família! Pode acreditar nisso, Nikko? — rosnou Kushina andando de um lado para o outro dentro do quarto de hotel que dividia com sua prima. — Minato irá destruir o nome dos Traven se não o impedirmos de alguma forma!
Nikko apenas ouvia a tudo calada. Era a filha única do líder do Conselho de Sangue, uma puro-sangue que possuía o respeito e era invejada por todos os vampiros pelos poderes únicos que recebera de sua mãe. Seus olhos seguiam os passos que Kushina dava pelo quarto, assistindo com atenção o show histérico da outra.
— Não deveria se meter em assunto que não lhe dizem respeito — aconselhou sucinta. — Minato faz parte do Conselho de Sangue, poucos teriam coragem de enfrentá-lo ou colocar o nome da família dele em uma poça de lama. Nunca, nada, encostou nos Traven.
— E não irá — concordou surpreendendo a outra vampira. — Aquela pirralha... Aquela pirralha me lembra muito alguém do passado do Minato e quando eu descobrir. Bem, a matriarca Traven gostará muito de saber que seu querido filho não perdeu o contato com os humanos e está ensinando isso a seus descendentes.
Notas finais
Deixem suas opiniões para que eu saiba seus pensamentos sobre a história!
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