Notas iniciais
Bem, quase uma semana inteira sem capítulo... Estava fazendo umas alterações de última hora, e pessoalmente acho que ficou bem mais interessante. Boa Leitura!

Andamos pelo reflexo da mesma estrada onde estávamos no mundo real. Havia uma diferença em tudo que você olhava, o ar parecia diferente, mais puro. Quando nos aproximávamos do centro da cidade, era possível ver as pessoas fazendo compras ou apenas andando. Pessoas que se você as visse no seu bairro não iria perceber a diferença, mas que podiam correr mais rápido que qualquer atleta olímpico, que poderia sentir seu cheiro a mais de um quilometro e que faria coisas que poderiam ser consideradas absurdas. Pessoas iguais a mim.

– Então, onde vamos? — perguntei depois que Alexandria entrou em um beco qualquer e puxou uma escada de incêndio de um prédio antigo.

– Eu preciso pegar umas coisas antes de irmos para o palácio de cristal. — ela começou a subir a escada com habilidade.

No primeiro andar havia uma porta de metal pesada, correntes grossas envolviam um trinco trancado por um cadeado do tamanho da minha mão. Alexandria pegou uma chave em forma de estrela, as pontas com um segredo complicado, colocou-a no cadeado e ele se abriu tão fácil quanto mágica. A porta dava em um salão enorme com paredes cobertas por espelhos e o piso de madeira, parecia um estúdio de balé meio abandonado.

– Que lugar é esse? — perguntei.

Ela parou no meio do salão, hesitante. Havia uma escada no canto que levava a um balcão com três portas de madeira.

– Minha casa, ou costumava ser. — respondeu, sua voz fria e sem emoção. Mas eu podia sentir o sofrimento por trás daquelas palavras.

Como se fosse uma onda, uma tristeza me invadiu me forçando a cair de joelhos. A cena de uma garota que parecia ter apenas um dez ou doze anos chorando se apossou da minha mente. Ela encarava uma foto de um casal jovem e feliz, as lágrimas molhando o vidro do porta retrato. E tão rápido quanto veio a imagem sumiu, me deixando apenas com o aperto amargo no coração.

– Como se atreve a invadir minha mente. — Alexandria gritou, seus olhos me perfuravam com uma frieza assassina. — Você não tem esse direito.

– Invadir sua mente? Eu não fiz nada.

– Você não tinha esse direito. — ela sussurrou, enquanto encarava o vazio. Ajoelhada no chão.

E de repente a verdade me atingiu, a garota da visão era Alexandria. Eu havia sentido suas emoções e visto suas lembranças, mas como isso era possível?

– Me desculpe. — pedi enquanto me aproximava, seus olhos me encaravam e não identifiquei o que havia escondido neles. — Eu não queria fazer isso, mas também não consegui impedir que acontecesse. Me desculpe.

Eu sentia seu ódio amainar e um sentimento de vazio a tomar por inteiro. Não fazia frio, mas seu corpo inteiro tremia.

– Na verdade, nem eu sabia que isso era possível. — ela disse, depois de o que me pareceu uma eternidade.

– Eram seus pais. — saiu mais como uma afirmação do que uma pergunta. Ela assentiu, sabendo que se eu vi aquilo, também a vira chorar.

– Eles morreram há muito tempo. Eram guardiões, fui criada num mosteiro de treinamento.

– Sinto muito, mesmo. — ela me encarou balançando a cabeça como se espantasse uma ideia que surgiu de repente. E eu senti sua confusão, ela não conseguia organizar seus pensamentos.

Alguns elos de competidores e guardiões são tão fortes que nem mesmo nos pensamentos eles têm segredos... Não era um pensamento meu, simplesmente aparecera. Sua voz ecoando no fundo da minha mente. Talvez, Ian se conecte comigo de uma forma mais profunda que o elo de guardiã.

– Como assim mais profunda? — perguntei em voz alta.

– Estava ouvindo meus pensamentos? — ela perguntou irritada, já se afastando.

– Não fiz de propósito, na verdade, foi como se você gritasse na minha cabeça. Não tive como não escutar. — me expliquei.

Pode me ouvir? Ela perguntou.

Ela parecia hesitante como se não quisesse que fosse verdade, mesmo.
Posso, respondi em pensamento sem ter certeza de que ela realmente me ouviria. Seu rosto se contorceu numa expressão de incredulidade e soube que ela tinha me ouvido.

– Isso é muito estranho. — murmurei.

– Não. — ela respondeu séria. — Isso é muito mal.

Alexandria se levantou de repente, mal se importando de me deixar lá. Também não se importou em me dar respostas, parecia que ela estava mais do que irritada. Eu diria talvez que frustração era o que ela sentia em todos os seus poros.

– Ok, não precisa me esperar não. Me viro sozinho. — murmurei para o vazio.

Ela entrou em uma das portas do andar de cima, e gesticulou para que eu a seguisse. A porta dava em um quarto pequeno, com uma cama de dossel e uma cômoda de madeira antiga. Havia uma mesinha no canto com papéis, penas e um vidrinho com tinta seca.

– Você escreve? — perguntei tentando amenizar o clima.

– Não. Isso é para cartas, há uns duzentos anos atrás. Agora eu tenho um celular. — ela respondeu sem dar ao trabalho de sorrir da própria piada.

Ela abriu a primeira gaveta da cômoda e tirou algumas roupas de lá, uma porção de rendas e fitas de seda. Imaginei-a usando aqueles vestidos em outro tempo, em outra época, não parecia certo. Ela era prática demais, fria demais para ter nascido em um época tão romântica.

– Quanto tempo faz que você não vem aqui? — perguntei.

– Que eu não venho ao meu mundo? Uns cinquenta anos. Que eu não venho a esta casa? — sua frase se perdeu e senti a tristeza voltando.

– É uma casa maneira, muito mais charmosa que a minha. Acho que eu iria gostar de morar neste mundo. — sorri, mudando o assunto.

– É, talvez.

Embaixo de um fundo falso na gaveta havia uma maleta de couro, não era muito grande e tinha um toque de velhice como tudo naquela casa. Alexandria abriu a maleta e tirou uma adaga de cristal embrulhada em um pano de veludo vermelho. A adaga cintilava em um tom prateado brilhante, tinha alguns diamantes no cabo e uma lâmina fina.

– A adaga do elo. — ela sussurrou, revirando a arma em suas mãos. — Quando fizermos o juramento não têm mais volta, seremos um só. E não há como voltar a sua antiga vida.

Ela me encarou com uma expressão determinada.

– Você aceita isso? — não respondi, apenas assenti com a cabeça esperando que minha voz me denunciasse.

Ela pegou minha mão e passou a adaga na palma, senti o formigamento e a ardência da lâmina rasgando minha pele e o sangue de um rubro quase negro escorrendo a ferida. Ela cortou sua mão também e uniu nossos ferimento deixando o sangue se misturar.

– Repita minhas palavras: eu a aceito como minha guardiã, e as possíveis consequências que podem ocorrer devido a essa decisão. — repeti suas palavras de modo robótico, mal me dando conta do que havia acabado de falar.

Eu estava anestesiado, não sentia dor ou qualquer outra emoção. Mas o sentimento de Alexandria me acertou como um soco no estômago, era algo beirando a culpa.

– Eu aceito meu destino como guardiã, aceito as possíveis consequências que podem ocorrer devido a minha decisão. Aceito que meu destino e minha vida estejam ligadas ao do meu protegido.

E estava feito, com apenas algumas palavras banais eu aceitara meu destino e a verdade que eu vinha secretamente negando até agora. Eu pertencia a esse mundo de violência, meus pais estava mortos, estava sozinho e eu era um competidor de sangue.

– O que quer dizer com sua vida estar ligada a minha? — perguntei. Senti um onda de hesitação inundá-la e ela tentar afastar o sentimento em vão.

– Não quer dizer nada, é apenas um juramento sem sentido. Existe a pelo menos, uns cinco mil anos. — sua voz saiu fria e calculada, ela escolhia as palavras com cuidado. — Esqueça.

A noite chegou rápida e silenciosa. Alexandria trocara os jeans rasgados por um vestido vermelho vivo que parecia queimar sua pele branca e combinava com o batom vermelho sangue que banhava seus lábios. O vestido descia até seus pés, se abrindo em uma fenda do lado esquerdo mostrando pernas bronzeadas e delicadas. Ela sorriu quando me viu ajeitar a gravata meia torta em um terno que cheirava a poeira.

– Me diz por que temos que vestir essas roupas, mesmo? — perguntei, irritado com o nó da gravata.

– Porque precisamos estar elegantes para nos apresentarmos ao conselho. — ela sorriu. — E você até que ficou bem, mesmo o terno sendo mais velho que você.

Ela parecia ter erguido uma muralha em si, eu não conseguia sentir o que ela estava pensando. Por mais incômodo que pudesse ser sentir por nós dois, eu gostaria de saber o que se passava em sua mente naquele momento.

– Não acho que eles devam ser tão exigentes quanto você faz parecer. — resmunguei.

– Você tem razão. — ela fez um nó perfeito na gravata e me empurrou em direção a porta. — Eles são bem piores do que eu faço parecer.

Notas finais
Me digam o que acharam. Sugestões e críticas são bem vindas também.