Segredos de Ouro

4 Eu estou pensando em você o tempo todo


Notas iniciais
“A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace.”

Salem/ Estados Unidos (Massachusetts)/ Cemitério Abandonado

Lindsay se encontrava chorando, sempre sonhou em ter um aconchego, um amor que a consumisse e a fizesse feliz. Para ela, Jamie era o garoto que iria proporcionar tudo aquilo. E agora, ele estava praticamente morto.

Lindsay senta no chão duro do cemitério e coloca a cabeça de Jamie entre suas pernas. Ele ainda não havia ido embora. Ainda havia tempo de se despedir. Chorando, ela começa a dizer suas palavras finais para o garoto.

– Você prometeu pra mim que seria para sempre – diz ela gaguejando – (Lindsay)

Jamie levanta lentamente sua mão direita e acaricia o cabelo de Lindsay.

– Eu juro que queria muito me desculpar, mas eu não tenho forças para isso. Então não o farei. (Jamie)

Lindsay soluçava de tanto chorar.

– Por favor, não me deixe. (Lindsay)

– Eu não tenho escolhas meu amor. Você é a melhor pessoa que já cruzou meu caminho, o fato de eu morrer sabendo que Deus colocou uma pessoa maravilhosa na minha vida nesta Terra, não qualquer uma, mas você Lindsay Harris, é uma vida perfeita e realizada. (Jamie)

Lindsay fica sem palavras e só continua chorando.

– Nunca seremos mais que isso, chegamos ao ápice do nosso amor. (Jamie)

Jamie começa a acariciar o rosto de Lindsay, que se afogava em lágrimas.

– Eu te amo, Lindsay. (Jamie)

Lindsay tenta engolir o choro.

– Não há nada mais que eu poderia querer fora que durássemos para sempre. Mas não é possível. – ela acaricia o rosto dele – Isto é um adeus Jamie. Eu amo você. (Lindsay)

Lindsay agacha sua cabeça lentamente e beija de leve a boca de Jamie. Ao fazer isto, percebe que ele havia ido embora naquele momento. Nunca mais eles se veriam. O fim havia chegado, e Lindsay sofreria para sempre.

Estados Unidos/ Seattle/ Cemitério View Lake

Todos os familiares e amigos de Jamie se encontravam no cemitério, até Agatha, no qual o garoto havia brigado se encontrava lá. Lindsay sabia que ele havia se sacrificado por ela, e o amava por isso. Antes de o garoto ser enterrado, Lindsay se pronuncia.

– Eu queria fazer uma pequena declaração sobre o Jamie. (Lindsay)

A mãe do garoto abre um sorriso para Lindsay, ela sabia que o filho dela a amava muito. Lindsay se odiava por aquilo, mal ela sabia o motivo real da morte do filho. Se soubesse, a odiaria pelo resto da vida.

– No verão passado, eu e Jamie fomos para um acampamento de férias, eu havia acabado de terminar com meu ex e eu estava tentando parecer feliz, pois em breve seria meu aniversário, mas eu estava muito triste. Estava prestes a decidir que ficaria o acampamento inteiro na barraca, dormindo e comendo chocolate o dia todo. Mas aí o Jamie apareceu na barraca e me deu um relicário de presente de aniversário adiantado. Eu abri o relicário e dentro dele havia uma foto minha e do meu ex, eu fiquei surpresa, embora ele me amasse, ele fez o que certamente me faria feliz no momento. Sei que aquilo o machucou, mas ele o fez. Foi o momento mais altruísta da vida dele, e naquele instante eu percebi um sentimento dentro de mim que nunca se aflorou de forma tão intensa. O amor verdadeiro. Eu não queria, me apavorava estar apaixonada pelo meu melhor amigo, mas desde aquele instante, eu o amei como nunca havia o amado antes. (Lindsay)

Ao dizer suas palavras finais da declaração, o caixão de Jamie é colocado no buraco de terra e assim, fechado para sempre.

Pronta para sair do cemitério, Lindsay caminha até seu carro e é parada por um delegado.

– A senhora que é Lindsay Harris, certo? (Delegado)

Lindsay se surpreende.

– Sim, algum problema? (Lindsay)

– É que o senhor Mauro Harris, o seu pai, foi encontrado e acusado de empurrar uma mulher chamada Tereza Harris, que acredito ser sua mãe, de um carro em uma avenida de grande escalão. Ele está preso na minha delegacia. (Delegado)

O rosto de Lindsay se enche de ódio, aquele seria o momento. Ela precisava encontrar seu pai e dizer para ele todas as verdades que estavam quase saindo pela sua boca.

– Eu queria muito encontrar ele... Tem como o senhor me levar lá? (Lindsay)

O delegado afirma com a cabeça.

– Claro, é só me seguir de carro. (Delegado)

Lindsay entra rapidamente no carro, o liga, aguarda e segue o delegado em sua rota policial. O momento da vingança final havia chegado.

∫∫∫

Mauro Harris se encontrava sozinho na pequena cela da delegacia, de cabeça baixa, ele aguardava sua sentença final. Um policial se aproxima dele.

– Se prepara que você tem visitas (Policial)

Mauro bufa de ódio e não olha para a porta, não queria receber visitas de ninguém. O policial abre a grande porta e Lindsay entra na cela. Mauro vira o rosto para ver a inesperada visita e engole seco. Ele se levanta do banco que estava sentado.

– Lindsay? Que bom que você veio me visitar, minha filha... (Mauro)

Lindsay continua imóvel.

– Eu sabia que você iria entender e não iria se voltar contra mim... (Mauro)

Lindsay suspira.

– Caramba, eu devo ter muita cara de ótaria não é? (Lindsay)

Mauro se surpreende.

– Que isso minha filha? Não fala assim... (Mauro)

Lindsay o interrompe.

– Não me chama de filha, eu não sou a sua filha. (Lindsay)

Mauro fica apreensivo e sem saber o que falar.

– Eu não deveria ter te enganado com toda aquela história... (Mauro)

Lindsay o interrompe novamente.

– Não adianta mais, eu já sei de tudo. (Lindsay)

Mauro começa a gaguejar.

– Você sabe de tudo? (Mauro)

Lindsay, que se encontrava de óculos escuros, os retira.

– Até falsificar atestado de orbito você teve a capacidade de fazer e me enganar, o senhor é doente... E depois você simplesmente matou a minha mãe. Como uma pessoa pode ter tanta frieza? De usar uma pessoa desse jeito? Brincar com os sentimentos? Tudo isso pra que cara? Só pra conseguir uma grana? Pra se livrar da pensão? (Lindsay)

O rosto de Mauro fica sério.

– Você está reclamando do que? Eu não te dei o que você queria? (Mauro)

Os olhos de Lindsay se enchem de lágrimas.

– O que eu queria? (Lindsay)

– Você tinha que me agradecer de mandar um dinheiro para sua mãe todo mês... Você não ficou eufórica ao saber que sua mãe havia batido as botas? Agora esse dinheiro todo que ela recebia, vai para você. (Mauro)

– Eufórica eu fiquei quando soube que me livrei de ter um pai como você. Mas que bom que você está contente né? No final deu tudo certo, suas mentiras – ela olha para a prisão ao redor – você está “ótimo” agora. (Lindsay)

Mauro não esboça nenhuma reação.

– No que depender de mim, você vai ficar o resto da sua vida aqui. (Lindsay)

Lindsay vira as costas, porém é impedida.

– Espera Lindsay. (Mauro)

Ela se vira para ele novamente.

– Durante o tempo que a gente foi pai e filha, logo que você nasceu, várias vezes eu lamentei por ter concretizado aquele plano horrível. Você é uma pessoa maravilhosa, tão mais forte e amorosa do que a própria Tereza foi comigo. (Mauro)

Lindsay engole seco e se aproxima de Mauro.

– Pois eu não lamentei nada você não ter me criado como pai... Mas é verdade mesmo, eu sou MUITO melhor do que a Tereza, mas eu sou muito, muito melhor do que você. — Lindsay coloca os óculos de sol novamente – aguarde meus advogados. (Lindsay)

Ela vira de costas para ele novamente e sai da cela, deixando para sempre, Mauro Harris sozinho.

Seattle/ Estados Unidos/ Apartamento de Agatha.

Agatha se encontrava deitada em seu sofá depois de um longo dia no enterro de Jamie, seu “amigo”. A campainha de seu apartamento começa a tocar e ela vai atender a porta, se deparando com Lindsay.

– Lindsay? (Agatha)

Lindsay abre um sorriso.

– Oi Agatha, será que a gente pode conversar? (Lindsay)

Agatha afirma com a cabeça, a convida para entrar e elas se sentam no sofá.

– Eu estava pensando em pedir alguma coisa, você já almoçou? (Agatha)

Lindsay nega o pedido.

– Não, obrigada. Eu combinei de ir a um restaurante com umas amigas antigas mais tarde. (Lindsay)

– Eu queria muito ter passado no mercado e comprado alguma coisa, mas eu não tenho nada para te oferecer. (Agatha)

Lindsay abre um sorriso.

– Não é verdade, você tem muito à oferecer Agatha e você sabe disso não é? Quem me dera ter a metade da sua coragem para me dizer tudo aquilo que você me disse no restaurante e no meu apartamento aquele dia. (Lindsay)

– Lindsay, se você admira mesmo a minha coragem, você precisa escutar o que eu tenho para te dizer... – Agatha abaixa a cabeça – pois foi graça aquela burrada que eu disse que você se meteu nesse ímpeto projeto de fantasma lendário... (Agatha)

Lindsay a interrompe.

– Agatha, por favor, eu não vim falar sobre isso... (Lindsay)

Agatha não dá ouvidos e continua.

– É claro que ninguém se importa se você foi lá ou não, descobriu seu segredo ou não, mas eu preciso te falar que... (Agatha)

Lindsay a interrompe novamente.

– Agatha, você está começando a entrar naquela sua zona confusa de pensamentos... (Lindsay)

Agatha concorda com a cabeça.

– Eu sei, é por que me irrita o fato do modo como as pessoas empacam por causa da palavra pecado, o que é pecado? Você precisa se importar com o que você sente, e não com o que eu ou qualquer pessoa vai te dizer. (Agatha)

– Desculpa Agatha, mas eu não vim aqui para ficar discutindo conceito de antropologia com você... (Lindsay)

Agatha nega com a cabeça.

– Eu não estou falando de antropologia Lindsay, eu estou falando de amor. (Agatha)

Lindsay fica sem reação.

– Agatha, eu vim para fazer as pazes com você, eu fui injusta com você e você não merecia a minha injustiça. Você literalmente salvou a minha vida. (Lindsay)

Agatha concorda.

– Sim, eu salvei... E agora estou tentando salvar novamente. – Agatha pega as mãos de sua prima – fala pra mim, por que você não viaja? Não vai curtir? Não é só por que o Jamie morreu que você vai ficar chorando pelos cantos, pois eu sei que é isso que você faz. Não é pecado curtir e sair do luto. Lindsay, pecado é a gente não tomar posse das nossas vidas, é a gente abrir mão de quem nós somos e de quem amamos. (Agatha)

Lindsay tenta enganar o choro.

– Quem disse que eu estou sofrendo tanto assim pelo Jamie? Talvez eu não esteja curtindo um pouco da minha vida, mas esse meu lado ingênuo que antigamente andava levitando para a rua... Talvez ele sumiu depois dessa minha estória errônea com o Jamie. Agora eu só preciso que você entenda isso, e deixe essa história morrer Agatha. – Lindsay engole o choro – eu quero a minha prima de volta, minha prima que às vezes eu estranho e que eu não entendo, mas que é capaz de se jogar no fogo por alguém. (Lindsay)

Agatha abre um sorriso e começa a se emocionar.

– O resto não interessa. O resto nós deixamos para trás. (Lindsay)

Lindsay e Agatha se levantam do sofá e abrem um abraço apertado. Nada mais importava para Lindsay no momento, só o amor que sempre teve das pessoas que gostava.

Seattle/ Estados Unidos/ Jackson St.

Lindsay andava às pressas nas ruas de Jackson St, pois tinha hora marcada com uma poderosa Médium que prometeu a fazer ter uma chance de se despedir e perdoar a sua querida mãe. Ao chegar à casa da médium, ela toca a campainha e uma mulher negra atende à porta. Tratava-se de Mama Odie, a própria médium.

Mama Odie a conduz para uma pequena sala, onde Lindsay senta em uma cadeira. Mama Odie senta ao seu lado e pega um livro.

– Já conversamos tudo que deveríamos no telefone, Lindsay. Vamos direto ao ponto? (Mama Odie)

Lindsay afirma com a cabeça. Elas haviam conversado tudo a respeito uma da outra no telefone, não precisavam de mais nada além do tratado.

Mama Odie fecha os olhos e seu corpo começa a receber espasmos. Ao abrir os olhos novamente, Mama Odie se vira para Lindsay.

– Sua mãe está aqui (Mama Odie)

Os olhos de Lindsay se enchem de lágrimas.

– Pode se despedir que eu falo por ela... (Mama Odie)

Lindsay engole o choro e se pronuncia.

– Mãe? Como você está? (Lindsay)

Me encontro bem filha, muito mais feliz. – Diz Tereza – (Mama Odie)

Lindsay suspira.

– Não temos muito tempo mãe, mas eu quero dizer que eu te amo muito, você foi muito importante nesse processo que eu estou passando e eu quero dizer que te perdoo, eu te perdoo por ter mentido sobre meu pai esse tempo todo – ela fica sem palavras – obrigado por cuidar de mim... (Lindsay)

Eu te amo muito minha filha – Diz Tereza – (Mama Odie)

– Eu espero que você vá em paz e feliz para o céu, espero que você tenha tudo que você sempre quis e quem sabe não podemos nos encontrar de novo novamente? – Lindsay sorri entre as lágrimas – eu te amo, sempre e para sempre... (Lindsay)

Mama Odie fecha os olhos e os abre em segundos.

– Ela se foi... (Mama Odie)

Lindsay continua imóvel com um sorriso no rosto, ela sabia que agora a mãe havia cumprido a sua missão, agora ela podia ir para o céu sem nenhum peso nas costas.

– Eu queria tirar outra dúvida com você... (Lindsay)

Mama Odie, sem dizer nada, apenas ouve concordando.

– Em Salem, Lilith insinuou que eu poderia ser a reencarnação de Mayara, a garota que foi pega com Vinicius, traindo ela – Lindsay suspira – como isso pode ser possível? (Lindsay)

Mama Odie abre um sorriso reconfortante.

– Minha querida, não se preocupe com o passado. A esperança está muito além do preconceito, o caráter está além das intrigas, o perdão está além da dor, à justiça está além da vingança e o amor está além da vida. Seja feliz, e esqueça tudo que passou, e só assim, reencontrará o seu caminho de volta. (Mama Odie)

Lindsay havia entendido. Agora era a vez dela de ser feliz e seguir seu caminho. Ela precisava ser feliz, nem que isso custasse a dos outros.

∫∫∫

Lindsay havia finalmente saído do luto, nessas semanas que se passaram, ela havia saído mais com sua prima Agatha Maria e havia tomado uma importante decisão: iria para a Europa junto com Agatha, para ambas curtirem a felicidade. Agatha havia arrumado um emprego de enfermeira em Paris, e Lindsay havia ganhado um curso de moda para aprimorar as suas feições de design. Elas finalmente iriam sair de Seattle e iriam investir na felicidade, com ou sem as pessoas que haviam escolhido para passarem o resto da vida. A alegria do pecado tomou conta de Lindsay, que aprendeu que é muito bom não ser tão divina. Lindsay também havia entendido que não adiantava ela ficar chorando pelos quatro cantos por Jamie, ele pediria para ela seguir sua vida, e era isso que ela estava fazendo. E isso que ela iria fazer: ser sempre feliz.

Salem/ Estados Unidos (Massachusetts)/ Cemitério Abandonado

Lilith Blood se apresentava com seu vestido de noiva, rasgado e com manchas secas de sangue. Havia cansado da vida na Terra, precisava ir para algum lugar divino e esquecer o seu temeroso passado. Lilith se aproxima da tumba de Vinicius, pega uma pedra e começa a escrever suas palavras no mármore pedregoso e gélido da tumba:

“Tudo que se faz por amor, está acima do bem e do mal. O que eu fiz naquela noite no dia do meu casamento, não foi cometer um crime, foi proteger o meu grande amor. Eu tinha certeza, que caso alguém descobrisse do paradeiro de Vinicius, iria coloca-lo na fogueira. Daí eu me antecipei. Eu só tinha que matar ele e sua amante, mas não foi isso que eu fiz. Primeiro eu matei Mayara, e assim que ela morreu, eu fiquei sozinha com ele por alguns instantes. Ele me pedia misericórdia, porém eu estava cheia de raiva. Quando eu cravei minha adaga nele, eu peguei algo mais do que deveria para garantir o nosso futuro. Mas ele nunca soube o que eu fiz, pelo menos em vida.”

Lilith pega sua caixinha de madeira e o abre. Dentro da caixa havia um coração humano, já quase dissecado com o passar dos tempos.

“Eu não podia fugir da vila com um coração humano, então me suicidei e deixei a caixa fechada a sete chaves, que mais tarde iria ser enterrada junto com ele. Eu pensei que com o tempo, ele viria atrás de seu coração, e juntos iríamos poder ser felizes para sempre. Mas isso nunca aconteceu.”

Uma luz vermelha começa a tomar conta de Lilith, ela estava partindo. Para o inferno. Ao sumir, suas últimas palavras ecoavam pelo cemitério.

– Que se dane o amor. (Lilith)

Fim.

Notas finais
A história chegou ao fim. Bom, eu bem disse que seria curta. A história se teve inicio assim que eu escutei a música "Secret - The Pierce". Quando eu ouvi essa música, eu pensei: "preciso criar alguma coisa sobre este enredo: segredo". Acho que todo mundo tem o seu segredo de ouro, que pode ser algo mortal ou não. Fomos apresentados a Lilith, que para mim, foi algo bem complexo de criar. Muitas pessoas me perguntaram: "Foi você que inventou a história dela?". E a resposta é SIM, eu que criei com todo amor a vida conturbada de Lilith Blood. Obrigado por todos os comentários, em breve escreverei a minha grande fanfic do ano, que tem nome provisório de "Encontro Marcado". Quer entrar em contato comigo? Pode me achar no instagram: freitasguu. Ou no facebook, que vou deixar o link aqui: https://www.facebook.com/gustavo.freitassilva.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!