Segredos da Casinha
15 Capítulo 14 - Hazel - Reerguer e Reconectar
Notas iniciais

Dirfino estava deitado em uma cama de solteiro olhando para o teto de um quarto de hotel razoavelmente barato de sua cidade natal. Se estivesse calculando certo, fazia pouco mais de cento e quinze ou cento e dezesseis horas que saíra dos EUA e pouco mais de cinco minutos que conseguira por fim parar para descansar, o que não estava de fato fazendo por conta de todos os pensamentos que abarrotavam sua mente exausta.
Embora estivesse com sorte pelo dólar estar em alta no Brasil e isso lhe dar um pouco mais de folga financeira do que o esperado, não daria para contar com o dinheiro que tinha por muito tempo, então precisava arrumar um emprego o mais rápido possível, além de que seria necessário regularizar seus diplomas escolares já que só seriam válidos no país depois disso. E também precisava procurar algum lugar para alugar, pois ficar vivendo naquele hotel sairia bem caro mesmo sendo o mais barato (com estrutura decente) que encontrou.
Mas nada disso o estava deixando tão nervoso quanto a expectativa de reencontrar seu irmão. Fazia tanto tempo que nem ao menos ouvia a voz de Ezevel e sua última lembrança era o olhar de decepção que ele havia lhe lançado antes de partirem para o cemitério há pouco mais de três anos. Agora estava de volta à cidade e, sinceramente, sentia muita falta do irmão mais velho, de toda a união e suporte que sempre foram um para o outro mesmo morando tão longe. Se arrependia tanto de ter permitido que isso se perdesse e sabia que devia um enorme pedido de desculpa.
Aos poucos seu esgotamento físico foi vencendo sua tempestade mental, suas piscadas foram ficando cada vez mais lentas até por fim suas íris azuis se esconderem atrás das pálpebras quando Dirfino caiu no sono.
oOo
Depois de dormir todas as horas que precisava para recarregar seu corpo e descansar a mente, Dirfino tomou um banho morno e desceu para tomar o café da manhã que já era incluso no preço do quarto, aproveitando esse tempo também para pensar mais um pouco sobre o que diria quando finalmente ficasse cara a cara com seu irmão. Porém, já tinha mudado tantas vezes o discurso em sua cabeça que no fim desistiu e decidiu que falaria o que seu coração mandasse, então vestiu uma máscara de coragem e saiu do hotel.
Enquanto caminhava, teve a impressão de que uma voz distante que se aproximava aos poucos chamava seu nome. Quando a voz ficou alta o bastante para que Dirfino soubesse de onde vinha, também dava para saber de quem era.
— Kitty. — Murmurou enquanto um sorriso se espalhava por seu rosto antes mesmo de se virar e varrer a rua com os olhos até encontrar a antiga amiga que tentava andar rápido em sua direção sem se atrapalhar com as muitas sacolas em suas mãos.
— Dirfino. — Ela repetiu ofegante, então largou as compras no chão e se jogou em cima do garoto, abraçando-o com força. — Nossa... Faz tanto tempo que a gente não se vê.
Kitty era uma garota ruiva, magra e pouca coisa mais baixa que Dirfino. Quando eram crianças ambos faziam parte de uma turminha que costumava brincar na rua à tarde, depois que o sol esfriava, e embora já tivesse se passado tanto tempo, ela ainda tinha o quase exato mesmo rostinho delicado de menina emoldurado num lindo cabelo cor de cobre, era muito fofa. Os dois não mantinha um contato constante, mas sempre se deram super bem e adoravam bater papo quando se encontravam.
— Verdade. A última vez foi no... — A expressão feliz vacilou um pouco quando Dirfino se lembrou do velório da mãe, mas logo ele tratou de balançar a cabeça e esquecer o assunto. — Bom... Já faz muito tempo. O que você tá fazendo na cidade?
— Assim que terminei o colégio quis voltar e fazer faculdade aqui mesmo. Rio de Janeiro é bem legal, mas... Não é pra mim. — Kitty respondeu se soltando do abraço parar poder olhá-lo enquanto conversavam. — Mas e você? O que tá fazendo no Brasil?
— Bah. Essa história é meio longa e complicada. — Replicou desviando o olhar e coçando a nuca. — Posso te contar, se estiver com tempo.
— Claro. Mas vamos sentar em algum lugar, não quero ficar em pé com esse monte de sacola na mão e se deixar no chão pode passar alguém correndo e me roubar. — Kitty sugeriu já pegando as sacolas.
— Boa ideia. — Disse Dirfino estendendo a mão para ajudar. — O que é tudo isso?
— Coisas de cosplay.
— Que legal! Faz uns meses que não entro no Instagram porque minha vida anda bem complicadinha, mas eu adorava olhar tuas fotos...
E assim os velhos amigos seguiram conversando sobre banalidades até encontrar uma lanchonete onde Dirfino pode contar sua história enquanto Kitty bebia um suco e escutava tudo fazendo as mais diversas expressões de descrença com algumas risadas aqui e ali pelas maneiras inusitadas que o bonde sempre arrumava para ajudá-lo.
— (...) voei por uma caralhada de horas chorando feito um cry baby e agora preciso falar com meu irmão pra pedir desculpa pela minha covardia torcendo pra ele me perdoar e a gente voltar a ser “nós” ao invés de “eu e ele”.
— Nossa. Eu não sei se teria conseguido ir embora se fosse comigo e eu descobrisse que a garota sente o mesmo por mim. — Kitty divagou, mexendo o canudo dentro do copo já vazio.
— Acho que o peso disso foi nulo na minha decisão. — Dirfino respondeu forçando um sorriso. — Por um lado desejei com todas as forças desligar a TV, voltar a dormir agarrado com a Mad e depois acordá-la com beijos pra ela voltar pra casa antes que os pais dela viessem brigar por ela ter dormido na casinha. Por outro, eu tive ainda mais certeza do meu amor, o que faz valer a pena deixá-la pra que ela possa alcançar tudo que ela merece. Foram dois sentimentos muito poderosos, mas um anulava o outro, então no fim das contas não fez tanta diferença.
— Que barra. — A garota murmurou, soltando um muxoxo em seguida. — Agora já foi, né? O Importante é torcer pra dar tudo certo. Enfim, sobre a outra parte da conversa: acho que vai ser uma informação bem útil pra você que o Ezevel não mora mais na casa da sua mãe.
— O que? — Replicou arregalando os olhos. — Isso não é possível, é? Ele nunca venderia aquela casa. Passamos nossa infância lá. É onde ele cresceu depois que eu e o pai fomos embora.
— Calma, não vendeu. — Kitty o tranquilizou. — Eu to morando lá agora. Quando voltei pra cidade encontrei o Ezevel por aí e acabamos conversando um bocado, ele comentou comigo que não tava sendo legal morar lá desde que a mãe de vocês morreu porque era como estar em um mausoléu dela. Mas é claro que ele não tinha vontade e muito menos coragem de realmente se desfazer da casa.
— Ainda bem.
— É, ainda bem mesmo. Foi aí que tive uma ideia que resolveria, pelo menos por hora, a minha vida e a dele também. Eu não queria voltar a morar com meus pais depois de ficar tanto tempo “independente” deles no Rio, então sugeri pro Ezevel que me deixasse alugar a casa por um preço mais em conta até eu me reorganizar e em troca eu cuidaria dela sem mexer em nada que ele não quisesse. Aí ele teria alguém de confiança lá e uma parte do dinheiro pra alugar um apartamento. Até agora tem funcionado muito bem.
— Entendi. Você pode me dar o endereço novo dele?
— Brigados do jeito que vocês estão não seria meio invasivo aparecer na casa dele logo de cara? — Questionou enquanto fazia sinal para o funcionário da lanchonete trazer outro suco.
— Seria, mas que escolha eu tenho? Não tem como marcar de encontrar alguém que desliga o telefone só de reconhecer minha voz e ignora qualquer mensagem que venha de mim ou sobre mim. — Respondeu, suspirando pesadamente.
— Posso te ajudar com isso. — Kitty sorriu tendo uma ideia. — Afinal, eu sou amigo dele. Posso chamá-lo pra almoçar e quando ele chegar, você aparece pra conversar. O Ezevel não é o tipo de cara que gosta de chamar atenção, acho que não faria um barraco em um restaurante.
— Acho que vale a pena tentar. Se der errado, o pior que pode acontecer é eu pagar um mico em público. E, claro, continuar sendo odiado pelo meu irmão. Mas na melhor das hipóteses a gente faz as pazes. E considerando que a situação já tá ruim, não tenho nada a perder, né?
oOo
Ezevel estacionou o carro em frente ao restaurante que costumava ir com seus amigos vez ou outra. Dessa vez apenas uma amiga, que chamou de última hora dizendo que estava com preguiça de cozinhar, mas não queria comer fora sozinha. E ele também não reclamaria de não precisar preparar uma refeição quando chegasse em casa.
Assim que entrou no estabelecimento conseguiu avistar os cabelos acobreados de Kitty, que estava sentada de cabeça baixa, mexendo no celular distraidamente. Logo aproximou-se e se acomodou à mesa, na cadeira de frente para ela.
— Desculpa o atraso. Só percebi na metade do caminho que tinha esquecido a carteira na minha sala e tive que voltar. — Se justificou.
— Não tem problema, eu sei que você não atrasa a toa. — Respondeu sorrindo. — Pra adiantar eu já fiz o pedido. Tudo bem?
— Tudo bem, a gente já veio tanto aqui que é meio difícil alguém do nosso grupo errar os gostos do outro. — Murmurou dando de ombros e sorrindo.
— Pior que é verdade, daqui a pouco vai tá todo mundo gordo. — Kitty constatou rindo antes de se levantar. — Eu vou lavar as mãos rapidinho e já volto.
Ezevel tirou o celular do bolso para verificar se tinha alguma mensagem nova assim que a garota se afastou e não percebeu que o caminho que ela fazia não era o do banheiro, e sim para a mesa mais discreta do restaurante, onde Dirfino esperava de mãos trêmulas e suadas.
— Ele chegou.
— Sabe, não é desde que eu cheguei que to repassando essa conversa na cabeça. Eu já pensei e repensei no que dizer pra ele milhares de vezes desde que estamos brigados. E depois de anos, agora eu simplesmente não sei o que vou dizer. — Dirfino divagou nem tanto para ela quanto para si mesmo. — Acho que nunca fiquei tão nervoso na minha vida.
— Ainda bem. — Kitty respondeu, recebendo um olhar confuso como resposta. — Essa é a tua chance de consertar as coisas com teu irmão. Tu não pode desperdiçar dizendo algo que “sabe”. Você precisa dizer algo que sente.
— Tem razão. Obrigado, Kittyzínea. — Dito isso, o garoto respirou fundo e se levantou. — É agora ou nunca. Me deseje sorte e se ele tentar sair, não deixa.
— Mas como eu impediria... E me deixou falando sozinha. — Resmungou o observando andar até a outra mesa, em seguida desejou em um sussurro. — Boa sorte.
Dirfino se acomodou na cadeira que Kitty deixara vazia, engoliu em seco e tentou não tremer a voz ao dizer. — Oi, Ed. Já faz muito tempo, não é?
Ezevel arregalou os olhos ao reconhecer aquele voz e essa foi sua único reação por três segundos extremamente longos, até que, por fim, sua cabeça se ergueu em um movimento que parecia feito câmera lenta. Pela primeira vez em anos os dois pares de íris azuis quase idênticas se encararam e por um instante o mundo mergulhou em um silêncio sufocante.
— Não o suficiente. — Finalmente respondeu, congelando o coração do irmão mais novo com seu tom frio e distante, logo se levantando. — Acho que perdi o apetite.
— Fica, por favor. — Dirfino implorou, se esforçando para não chorar. — Eu te conheço e sei que sente falta do que a gente tinha tanto quanto eu. Me deixa pedir perdão pelo erro que cometi e ao menos tentar consertar as coisas pra devolver isso a nós dois.
Ezevel hesitou um instante, cerrando os punhos e encarando o chão, então olhou para a porta do restaurante e viu Kitty com uma expressão de quem dizia “Por favor, dá uma chance pra ele”. Um suspiro irritado escapou por seus lábios e seu corpo caiu de volta na cadeira.
— Você tem cinco minutos. — Murmurou relutante.
— Obrigado. — Dirfino sorriu miúdo e respirou fundo mais uma vez antes de começar a falar. — Eu sei que nosso pai não sente muito pelas coisas horríveis que te disse num momento que tudo já tava tão ruim, mas acho que alguém precisa se desculpar, você não merecia ouvir...
— Não gaste tempo nem saliva com isso. — Ezevel cruzou os braços e estufou o peito, pronto para repetir o que sempre disse a si mesmo. — Eu nunca precisei da fé ou o apoio daquele cara, nem do dinheiro dele ou sequer um tapinha nas costas. Consegui concretizar o meu sonho por mérito próprio, com dedicação e muito trabalho duro.
— Eu sei. Acompanhei pelo Instagram por fora do perfil já que você me bloqueou em... Basicamente todas as redes sociais possíveis. Sempre te admirei e não dá pra descrever o quanto fiquei eufórico quando vi que você conseguiu publicar o seu livro independente com a cara e a coragem. Não consegui parar de sorrir por uma semana, deu até dor nas bochechas. — Revelou sorrindo em um sincero orgulho de seu irmão. — Eu quis comprar um exemplar só que não tinha frete pros Estados Unidos. Mas eu sabia que você ia conseguir no instante em que botou isso na cabeça, não duvidei nem por um segundo.
Embora lutasse para se manter sério, Ezevel não pode evitar que o canto de sua boca se erguesse levemente por alguns segundos.
— Tique-taque, irmãozinho. Seu tempo tá passando. Não quero ouvir sobre as asneiras do papai ou sobre meu livro, quero entender como o cara que eu achei que ia ser meu apoio e meu parceiro pra vida não ficou do meu lado quando eu mais precisei.
— Certo... — Dirfino inspirou fundo e finalmente começou a exorcizar os demônios do passado. — Eu quis levantar e ficar do seu lado mais do que qualquer coisa naquele dia... Mas, além de eu já estar abalado pela morte da mamãe, ele é nosso pai. Eu vivi com ele a minha vida toda e ia continuar vivendo quando voltasse. Quando vi ele gritando naquele jeito, meio que... I don’t know, I... Eu fiquei paralisado sem saber o que fazer e...
— Isso não é desculpa, Dani. — A intenção ao interromper o irmão era parecer bravo, no entanto o que escorria em sua voz era magoa. — Eu tava passando pelo luto também. E tive que enfrentar aquela briga sozinho. Eu só tinha dezoito anos e tive que ouvir meu próprio pai me dizer que eu não ia ser nada, que eu corria atrás de sonhos impossíveis, que eu era um hippie andrógino e vagabundo que só ia trazer vergonha pro nome dele. Eu precisei me refazer sozinho, batalhar pra me manter sem a mãe e ainda tirar forças sabe-se lá de onde pra me erguer e quem sabe conseguir juntar uma grana pra fazer o meu livro. Eu não estou dizendo que minha vida depois daquele dia ia magicamente ter sido mais fácil se você tivesse feito alguma coisas, mas... Eu tinha acabado de perder não só a pessoa que eu mais amava, como também o meu maior apoio... Ia ser legal sentir que ainda tinha alguém por mim.
— Eu sei que não é desculpa. Foi um momento de covardia que eu...
— Com licença, senhores. — O garçom com o rosto muito corado se pronunciou quando a mão começou a tremer pelo peso da bandeja depois de um bom tempo esperando-os terminar a discussão. — Os seus pedidos.
— Obrigado. — Ezevel se forçou a sorrir enquanto o rapaz colocava os pratos na mesa.
— Eu passei todos os dias desde aquela briga me arrependendo de ter sido tão covarde. — Dirfino continuou a falar assim que o garçom constrangido se afastou. — Se você me perdoar, eu vou passar todos os dias daqui pra frente provando que você me tem sim.
— Perdão não é uma coisa fácil de ganhar, ainda mais quando se envolve tanta mágoa. — O mais velho murmurou sério, mas ao poucos sua expressão começou a suavizar. — Eu quero te perdoar, eu... Quero o meu irmão de volta. Só que as coisas não funcionam assim, não dá pra esquecer o passado tão rápido. Vamos inverter a ordem, ok? Eu vou te dar uma chance de me fazer acreditar em você e então decidir se te perdoo. Por enquanto, o seu status vai ser de... Um colega. Quem sabe voltemos a ser amigos e talvez, só talvez, irmãos.
— Não vou te deixar se arrepender disso. — Dirfino abriu o maior e mais sincero sorriso daquela conversa e pegou o garfo para começar a comer a massa com carne moída que estava lhe dando agua na boca com o cheiro que exalava. — Então, colega... O seu cabelo está branco, então suponho que você conseguiu vender os mil livros. Parabéns.
— Ei, eu notei que a discussão meio que acabou. — Kitty se intrometeu, lembrando os irmãos de sua presença no restaurante. — Eu posso sentar com vocês? É muito estranho ocupar uma mesa sozinha quando tá no pico do almoço.
— Claro. — Os dois disseram ao mesmo tempo.
— Obrigada.
— Então... Pensei que você tivesse dito que tava acompanhando meu trabalho pelo Insta e eu postei tudo lá, já faz meses que meu cabelo tá platinado. — Constatou Ezevel com o cenho franzido de leve. — Como não viu isso?
Dirfino engoliu a comida que estava da boca e suspirou com pesar. — Digamos que... Assim como você teve um período conturbado na sua vida, eu também tive o meu. É uma longa história. Se você tiver tempo e quiser ouvir...
— Tenho. Conta aí.
Kitty se acomodou à mesa no mesmo momento em que Dirfino começou a contar toda a história complicada outra vez.
— Uau. Sério, uau. — Ezevel murmurou ao fim do relato. — Isso parece aquelas coisas que só acontecem em fanfic adolescente.
— Bah, eu sei. Nunca que eu ia imaginar que algo assim ia acontecer comigo. — O mais novo murmurou rindo. — Enfim, a história já sugere isso, mas eu vou falar mesmo assim: preciso de um emprego. Algum de vocês sabe um lugar que esteja precisando de alguém?
— Perto de casa, umas três ruas depois, tem uma padaria que tá sempre contratando. — Kitty respondeu com um sorriso. — Em geral, os novatos pegam o horário da manhã, então tu vai ter que acordar umas cinco/cinco e meia da manhã e folga no fim de semana é meio difícil, mas pelo menos o horário é meio período.
— Tá falando de uma padaria chamada Pecado da Gula? — Dirfino perguntou pensando no tempo em que vinha para visitar.
— Sim, essa aí.
— É aquela mesma padaria que a mãe levava a gente pra lanchar quando você tava aqui e a gente ficava doido pra ela deixar a gente comer biga. — Ezevel lembrou em tom saudoso.
— Vai ser bem nostálgico voltar lá. — Dirfino sorriu miúdo com a enxurrada de memórias que bombardearam sua mente. — Vou gastar essa tarde pra fazer logo meu currículo e entregar pra tentar garantir a vaga. Depois eu resolvo a questão de ver um quitinete pra alugar e regular os meus documentos e diplomas aqui.
— Ah é, você precisa de um lugar pra morar. — Kitty estivera concentrada, assim como o próprio Dirfino, na parte da reconciliação e esqueceu daquele “detalhe”. — Porque não fica morando comigo na casa da sua mãe? Eu ia gostar de ter mais alguém lá pra dividir as despesas. Até porque morar numa casa tão grande sozinha dá uma sensação proporcional de solidão.
— Disso eu sei bem. — Ezevel murmurou mais para si mesmo, pensando nos meses que não passavam logo após a morte de sua mãe.
— Você se importaria de eu aceitar o convite da Kitty, Ed? — Dirfino perguntou em tom cauteloso.
— Bah. É casa da nossa mãe, você tem tanto direito sobre ela quanto eu. — O mais velho respondeu dando de ombros. — Ela ia gostar de te ter morando lá. Lembro bem dela falando do quanto sentia falta de ter os dois meninos debaixo das asas.
— Eu adorava ver o sorriso dela logo que a gente se via no aeroporto e o jeito que ela corria e praticamente me esmagava num abraço. — O mais novo relembrou sorrindo, mas com vontade de chorar.
— Eu sinto falta dela. — Os dois disseram ao mesmo tempo.
Kitty os deixou sentir aquele momento e só depois voltou a falar do assunto da mudança de Dirfino e comentou que tinha impressora em casa, então seu futuro “colega de quarto” não precisaria ir a uma lan house para imprimir seus currículos.
(...)
Já fazia quase três meses que Dirfino estava morando com Kitty e exatos dois meses que trabalhava no Pecado da Gula, suas experiências como balconista, empacotador e repositor o ajudaram a conseguir a vaga e sua dedicação ao trabalho, gentileza e desenvoltura até com os clientes difíceis mantinham a satisfação da clientela e aprovação dos patrões. As coisas estavam caminhando positivamente por enquanto.
Naquele noite, finalmente, Ezevel apresentaria sua namorada ao irmão em um jantar. Como o apartamento onde morava era muito pequeno e ficava praticamente defumado quando Ezevel tentava cozinhar algo mais demorado e/ou elaborado, esse evento aconteceria na antiga casa de sua mãe. O que não foi um problema, pois passar tanto tempo morando em outro lugar de fato ajudou a passar pela mais longa fase de seu luto e tornou menos desconfortável ficar lá.
O casal chegou quando Dirfino estava terminando de arrumar os pratos e talheres. Kitty começou a colocar a comida na mesa, onde logo todos se acomodaram para comer.
Yasmin era uma mulher muito bonita. Negra com longos e bem cuidados cachos pretos, gorda, alta e com um sorriso cativante. Ela era gentil e simpática, Dirfino mal precisou de dez minutos para gostar dela e perceber que Ezevel a amava.
A conversa começou de um jeito clichê com assuntos como faculdade, trabalho e rotina, depois um assunto foi puxando outro até que todos estavam rindo alto lembrando de histórias de seus tempos de infância e adolescência, o que nem era tão longe assim.
E então aconteceu.
Foi um momento muito rápido no meio de toda a descontração. Ezevel estava sorrindo e contando sobre uma vez que estavam brincando de esconde-esconde na rua quando tinham 13 e 9 anos e um dos garotos do bairro acabou pegando uma carreira de um cachorro, então se virou para o irmão mais novo e disse “Lembra, Ted?”.
Esse apelido vinha tanto do clássico nome que crianças costumavam dar para seus ursos de pelúcia quanto pela fonética parecida com “Ed”. Era um gesto de carinho que Ezevel tinha para com o irmão caçula desde muito cedo e não pareceu se dar conta de que havia dito naquele momento, mas aquela simples palavra tão pequena impactou Dirfino de um jeito que ele sequer conseguiria descrever.
Aquelas três letrinhas significavam que estavam ao menos começando a se reconectar.
oOo
Enquanto lavavam e secavam a louça, depois que Ezevel e Yasmin foram embora, Dirfino se virou para Kitty e fez um pedido.
— Tu pode me emprestar teu notebook mais tarde? Agora que está tudo calmo e estável por aqui, eu queria ver se consigo pegar algum dos meus amigos lá dos Estados Unidos online pra saber como eles estão por lá.
— Poxa, você tinha que pedir logo hoje? — Ela respondeu soltando um muxoxo. — Eu tenho uns textos gigantes da faculdade pra ler em PDF. Mas porque você não usa o computador da sala? Não é novo, mas dá pro gasto. Fiquei usando ele quase um mês quando precisei deixar meu notebook no conserto.
— Bom, é que... Era o computador da minha mãe. — Murmurou encolhendo um pouco os ombros.
— Eu acho que é por isso que tanto tu quanto o Edu não superam a morte da sua mãe. — Kitty desviou o olhar do prato que secava para encará-lo. — Parece que vocês se recusam a entender que ela não vai mais voltar. “Não mexe nisso” “não pode tirar aquilo dali”. Não estou tentando soar cruel, mas não é um jeito saudável de lidar com uma perda. Vocês tem que deixar ela ir, sabe?
— Pior que eu sei que tu tem razão. — Lamentou de cabeça baixa. — Vou tentar mudar isso daqui pra frente. Acho que vai me fazer bem.
— Começa usando o computador. — A ruiva sorriu miúdo em incentivo. — Vai ser até melhor porque ele tá praticamente só ocupando espaço e juntando poeira agora.
— Ok.
Depois disso o silêncio dominou a cozinha enquanto os dois terminavam com a louça, então Kitty foi para seu quarto e Dirfino foi até a sala, sentou na cadeira com rodinhas em frente ao computador e o ligou.
Ninguém do bonde estava on, mas havia mensagens de cada um deles. Andrew com sua compreensão sobrenatural e ao mesmo tempo preocupado se o amigo estava bem, Adele com um sermão pronto sobre a falta de confiança por ele não ter contato o que pretendia fazer e um agradecimento fofo pela carta, Connor o chamando de algo equivalente a “vacilão” e pedindo notícias o mais rápido possível, Luke surtando por ter sido “friamente abandonado” e Morgana perguntando se ele chegou bem e como estava se virando no Brasil. Apenas Mad não disse nada.
Dirfino respondeu todos e então abriu o chat de Maddison. Digitou uma frase e apagou, depois um texto imenso e apagou, depois um singelo “Dear Maddie” e apagou, enterrou as mãos no cabelo e respirou fundo tentando não chorar. Por fim decidiu não mandar nada, afinal, se Mad não havia lhe mandado nada era provável que não quisesse conversar. Talvez estivesse até brava com ele por ter ido embora, ainda mais depois de...
Talvez fosse melhor esperar as coisas esfriarem um pouco mais.
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