Segredos da Casinha
2 Capítulo 2 - Visita ao Passado
Notas iniciais
Dois Meses, Uma Semana e Cinco Dias Antes...
A casa de Danilo não costumava ser tão movimentada quanto estava naquela noite. Na verdade, suas maiores festas mal chegavam a vinte convidados e normalmente eram regadas à pizza, refrigerante e, no máximo, algumas cervejas. Porém a ocasião era especial por um único motivo com duas palavras: Jason Parker.
Jason e Dirfino eram duas pessoas bem diferentes. Enquanto o brasileiro precisava de bastante tempo para ganhar intimidade antes de mostrar o quão animado e interessante era, o britânico era um poço de sorrisos soltos e espontaneidade que sempre atraía a atenção e o apreço de todos ao seu redor sem fazer esforço algum.
E ainda assim, eles conseguiam ser melhores amigos.
Por isso, mesmo não ficando muito confortável no meio de tanta gente, Danilo achou que valeria a pena dar uma festa de despedida digna ao yin do seu yang. E, de qualquer jeito, depois virar alguns shots de tequila em uma rodinha de jogadores de “Eu nunca”, ele já não parecia tão incomodado. Aliás, estava bem solto dançando sem o mínimo de coordenação em meio aos adolescentes frenéticos.
Jason se divertia não só pela festa em si, mas também pelo prazer de ver seu amigo nerd mais solto que arroz pela primeira vez desde que se conheceram e essa era uma imagem impagável (claro, se desconsiderasse o preço das garrafas de tequila).
— Eu sempre soube que por baixo de toda a sua pose de bom moço CDF tinha um rato de balada escondidinho num cativeiro gritando pra sair. — Afirmou quase aos berros para ser ouvido por cima da música pop que ribombava sabe-se lá de onde, já que naquela casa não tinha nenhum aparelho de som com aquela potência.
— Admito que isso aqui até tá interessante, mas... — Disse Dirfino evidenciando pela voz que estava bêbado, embora ainda tivesse plena consciência de tudo o que fazia. — Aposto que sei um jeito de ficar ainda melhor.
— É? E qual seria? — Jason já sabia que rumo àquela conversa tomaria só pelo sorriso safado que já vira dezenas de vezes antes estampando o rosto lindo de seu melhor amigo.
O brasileiro envolveu os braços no pescoço do britânico e o beijou com intensidade o bastante para deixá-lo sem fôlego, então murmurou com os lábios bem próximos ao ouvido dele. — Começa assim. Se quiser saber o resto, te mostro lá em cima.
Não foi preciso um segundo convite, logo os dois seguiam de mãos dadas por entre o mar de adolescente até alcançar a escada para o segundo andar. Eram apenas quinze degraus e dois metros de corredor até o destino, porém parecia um percurso cinco vezes maior quando feito por dois jovens com tequila no sangue se pegando freneticamente no caminho.
Ao chegar finalmente ao quarto, Danilo tirou a camisa de Jason e o jogou na cama sem fazer muita questão de sutileza, então, com um sorriso malicioso, engatinhou sobre ele para poder voltar a beijá-lo, logo sentindo mãos percorrendo seu corpo por baixo das roupas.
O tempo começou a passar de um jeito diferente para aqueles dois, e seus sentidos pareciam ter ficado seletivos, excluindo tudo o que vinha de fora e enfatizando cada toque, cheiro, gosto e som um do outro ali dentro.
O único problema foi não perceberem a música alta parar suspeitamente de soar pela casa e o que os tirou de seu momento de luxúria foi o pai de Danilo, que chegara mais cedo do que o previsto de sua viagem de trabalho, entrando no quarto de repente e puxando Jason de cima de seu filho, praticamente o jogando no chão.
— Pai, eu... — Dirfino tentou falar, sentando-se na cama e cobrindo-se da cintura para baixo com o lençol, porém foi interrompido com o tom mais frio e cortante que já ouvira.
— Vistam-se e saiam da minha casa.
Presente...
— (...) viu a gente se pegando e me expulsou.
— Puta merda! — Maddison exclamou, embasbacada depois de ouvir um resumo do dia fatídico. — Eu não acredito que seu pai, a pessoa que deveria te amar acima de qualquer outra coisa no mundo inteiro, te botou pra fora de casa só porque te viu beijando um cara.
— Beijando. Claro. — Respondeu Dirfino desviando o olhar para a esquerda por um segundo. — Pois é, foi uma experiência bem louca. Eu já tinha feito umas festas sem pedir antes. Normal, coisa de adolescente. Só fiquei uma semaninha de castigo ao ser pego, duas no máximo. Não achei que dessa vez ia dar nada também e acabou com a minha vida toda.
— Mas esse seu “melhor amigo” aí tá mais pra “amigo da onça” também, né? — Disse sentindo a indignação aumentar ao analisar outro ponto da história. — Tipo, vocês estavam juntos nessa e ele simplesmente te deixou na rua da amargura.
— Não, não, não. O Jason foi meu anjo da guarda depois que meu pai me expulsou. — Replicou com firmeza. — Ele me hospedou enquanto pode, fez de tudo pra me ajudar a tentar falar com meu irmão no Brasil, me ajudou a invadir minha casa, quer dizer, minha antiga casa mesmo sabendo que podia ser preso e fichado se a gente fosse pego. Então se não fosse pela audácia dele, eu só teria uma calça jeans e um moletom porque eu nunca teria coragem de voltar lá sozinho. E ainda tentamos entrar uma segunda vez, mas acho que meu pai percebeu que nós estivemos lá e aumentou as trancas da casa. Pelo menos eu já tinha conseguido pegar meus documentos e meu óculos.
— Então o que aconteceu? — Maddison estava totalmente curiosa, mal se lembrando do taco envolto por seus dedos de tão envolvida que a história a deixava.
— Bem... Aquela festa era uma despedida. — Dirfino coçou a nuca e desviou o olhar, enquanto deixava um suspiro triste escapar por seus lábios. — Os pais dele deixaram todos os negócios em ordem, como o planejado desde que vieram pro país, e voltaram pra Inglaterra. Dava pra ver nos olhos do Jason como o coração dele partia ao me deixar sozinho, mas fazer o que? Ele me deu os 150 dólares que tinha guardado, me desejou boa sorte e foi embora. Fazia, tipo, umas duas semanas e meia mais ou menos da minha mudança involuntária.
— Nossa...
— É. Nessa época que você devia ter me contado sobre esse boato do ator pornô gay por que até que a ideia não seria ruim. — Ponderou com uma expressão pensativa. — Seriam medidas extremas? Com certeza. Mas daria pelo menos pra juntar uma grana e voltar pro Brasil. Eu era um tremendo piteuzinho, agora estou um trapo. Nem o McDonalds me quer fritando os hambúrgueres deles. O máximo que consigo são cinco pratas ou um churros das velhinhas que ajudo a levar as compras pro carro.
Maddison não aguentou segurar a risada. — Olha só, eu to rindo com respeito, tá bom?
— Tá. Tem problema não.
— Eu não fazia ideia de que você era do Brasil. — Comentou depois de por fim conseguir parar de rir. — Ei! Você falou do seu irmão e tals. Como não conseguiu entrar em contato com ele na era da tecnologia?
— Outra história complicada com o meu pai. — De novo, Dirfino coçou a nuca. — Pra resumir, aos cinco anos, vim morar com ele aqui e meu irmão ficou por lá com a minha mãe, só que ainda mantendo contato. Aí, há alguns anos atrás, ela morreu e eu viajei com meu pai pro velório. Até aí “tudo bem”. — Suspirou como se só a lembrança já o deixasse emocionalmente cansado. — Pouco antes do enterro, teve uma confusão entre o meu pai e o meu irmão. Eles se ofenderam pacas e quase saíram na porrada. E eu meio que... Não fiz nada, só fiquei parado olhando. E desde então o Ezevel não fala com nosso pai por raiva e nem comigo por mágoa. Na moral, nem o culpo.
— Caracas. Quanta desgraça numa vida só. — A sentença escapou da boca de Maddison antes que tivesse tempo de se refrear.
— Pois é, miga. Mas não se preocupe, vou fingir educadamente que não me assusta ter que achar um pedaço confortável de calçada pra dormir agora que fui pego aqui. — Respondeu com um sorriso forçado. — Fica como agradecimento pelo teto provisório.
Por alguns segundos, a garota balançou o taco de beisebol de um lado para o outro, com um ar pensativo. — Talvez... Talvez eu te deixe ficar aqui. Mas você vai ter que responder três perguntas e tenho que sentir que você foi sincero.
— Pode mandar. — Dirfino arregalou os olhos e sorriu em um ânimo exagerado.
— Primeiro: como conseguiu entrar na casinha? — Questionou realmente curiosa.
— Bah. Eu morava bem do lado, já tinha visto sem querer onde tu guardava a chave. — Ele respondeu com uma risadinha. — Olha, você tem sorte desse ser um bairro seguro, senão já tinha sido roubada fácil. Tu não sabe disfarçar.
— Caracas. Vou ter que resolver isso. — Murmurou soltando um muxoxo. — Segunda pergunta: você nunca roubou mesmo nada, nadinha, daqui?
— Bem... Pra ser 100% sincero, eu tenho que admitir que já peguei sabão líquido do seu banheiro as vezes. E quando você deixa alguma vasilha com batatinha ou pipoca ou algum outro restinho de lanche, eu como. — Sussurrou encolhendo os ombros como se aquilo o fizesse se sentir culpado. — AH! Mas aquilo de nunca ter encostado no seu violão é verdade. É que sinto muita falta do meu, que foi um presente que a minha mãe me deu da última vez que fui visitar, quando ela ainda tava viva. Hoje não deu pra segurar. É aniversário dela. Ou seria se ela estivesse viva, né? Nessas ocasiões eu sempre tocava pra ela pelo telefone. Ou por Skype.
— Garoto, cada três minutos de conversa contigo é um baque diferente. — Constatou Maddison com os olhos arregalados. — Melhor ir logo pra última pergunta antes que eu comece a chorar com essa resposta.
— Foi mal. E pode perguntar.
— Certo. Você e o tal do Jason não tavam só se beijando, né?
Dirfino sentiu o calor subir por seu pescoço, se espalhando por todo o rosto que, com certeza, estava mais vermelho que um pedaço de melancia. — Não.
— Sabia. — Maddison riu e finalmente largou o taco. — Agora senta aí que ainda tenho um monte de perguntas. Mas primeiro vou ligar o Xbox que eu não faltei aula hoje à toa.
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