Segredos da Casinha

16 Capítulo 15 - Mitchell - Olhos e Bochechas


Notas iniciais
Olá leitores... Ok, talvez eu tenha enrolado um pouquinho pra postar por não querer me despedir dos personagens de novo. Me desculpem. Bem... Foi uma longa jornada e estou feliz de ter chegado até aqui. Obrigado por quem veio comigo até o fim também. Ah! Desculpa se os acontecimentos parecem corridos, eu tive que descrever coisas que aconteceram em mais ou menos cinco anos em um capítulo só, então aconteceu bastante coisa. Enfim, boa leitura... P.s.: pra quem não conhece, aquilo que a Kitty diz na cena que vocês vão saber qual é quando lerem é um trecho de uma música que já foi gravada por muita gente, mas eu em específico tava pensando na versão do Limão Com Mel. Os links para as músicas citadas e a tradução da mensagem estarão nas notas finais.

Lá estava Kitty sentada no sofá, muito confortável e tranquila mesmo tendo a mais plena consciência de que em breve se arrependeria de estar procrastinando um trabalho da faculdade para terminar de assistir Legend of the Blue Sea, pois esse problema era da Kitty do futuro. Para a Kitty do presente esteva valendo a pena.

Dirfino entrou pela porta da sala segurando uma sacola de plástico com alguns doces de padaria e declamando o famoso bordão “querida, cheguei”.

A garota sorriu e tateou o sofá a procura do controle da televisão para pausar o dorama. — Quer que eu esquente a comida enquanto tu se troca?

— Seria ótimo, obrigado. — Ele respondeu, estendendo a sacolinha em sua mão. — Eu trouxe uns mimos pra você.

— Eba! — Exclamou Kitty de um jeito fofo.

Dirfino sorriu e foi para o banheiro tomar banho. A agua quente relaxou seus músculos, descansando um pouco seu corpo do trabalho duro de toda a manhã, o que já não poderia ser dito sobre sua mente, que começava a trabalhar revisando o que havia estudado no dia anterior e se preparando para o que estudaria depois de almoçar.

Sua rotina havia se tornado apenas isso; dormir, acordar, trabalhar e estudar, com uma pausa ou outra para comer alguma coisa. Era cansativo, mas ele se forçava ao máximo.

Quando chegou à cozinha, viu Kitty sentada à mesa saboreando seus doces. Se serviu da comida recém-esquentada e foi se sentar ao lado dela, então começou a comer em silêncio.

— Não fica pilhado, por favor. — Disse a ruiva depois de alguns minutos. — Eu chamei o Ezevel e a Yasmin pra jantar aqui hoje.

— Aaaaah, Kittyyyy. — Dirfino murmurou, colocando a colher que levaria à boca de volta no prato. — Eu tenho que estudar. Não é legal quando se chama uma visita e um dos anfitriões fica o tempo todo com cara de quem quer que a visita vá embora.

— Dan, será que você não pode se dar uma folga uma noite sequer? — Kitty perguntou com um revirar de olhos. — Toda vez que te vejo nos últimos meses ou você tá enfiado em livros ou em apostilas ou em vídeo aula. Assim você vai ter uma crise de ansiedade antes mesmo de chegar perto da prova.

— Não, eu preciso manter o meu foco. — Replicou ele firmemente. — Não posso correr o risco de não passar e perder mais tempo.

— A maioria dos professores de cursinho diz que relaxar é uma parte muito importante no progresso do estudo e você anda uma pilha de nervos. — Reforçou, olhando-o nos olhos. — Porque não se deixa respirar?

— Eu. Não. Posso, Kitty. — Naquelas palavras, assim como em seus olhos marejados, a fragilidade do garoto ficou bem evidente. — Não posso me dar ao luxo de parar depois de tudo que eu passei. Eu preciso me esforçar mais e conseguir construir alguma coisa sólida de verdade. Não dá pra passar o resto da vida me reerguendo na areia movediça ou contando com a sorte.

— Ei. — Kitty estendeu a mão por cima da mesa e segurou firme a de Dirfino, que estava trêmula. — Você tá seguro agora. Mesmo se do nada você for demitido, o que eu duvido já que todos os clientes e o seu chefe te adoram, vai continuar seguro. Você tem a mim, tem o Ezevel e a Yasmin, tem a sua própria casa. Nós somos a sua família e vamos te apoiar aconteça o que acontecer. Nunca mais você vai precisar ter medo do futuro porque estaremos lá do seu lado.

— Eu sei disso. O problema é que eu saber disso não muda como eu me sinto. — Dirfino murmurou, baixando a cabeça e fechando os olhos, tentando não chorar. — Minha vida virou de cabeça pra baixo duas vezes e eu dei sorte de...

— É, eu já imaginava que não. — Ela interrompeu, fazendo um carinho suave com seu polegar no dorso da mão do amigo. — Mas sabe o que pode ajudar?

— O que?

— Passar umas horinhas com as pessoas que te amam e te apoiam. — Respondeu com um sorriso de canto quase imperceptível. — Quanto mais você ficar se afundando nas apostilas e pensando num futuro super longe, menos vai perceber o que de bom você já tem. Aí não vai importar o que você conseguir ou deixar de conseguir, porque não vai ter valido a pena passar por tudo o que você passou.

— Acho que você tá certa. — Concordou enquanto enxugava as lágrimas que teimaram em cair. — Eu preciso de uma pausa.

— Ainda bem que tu disse isso porque eu não abriria mão desse jantar. — Kitty replicou, dando de ombros. — É uma data especial demais pra deixar passar em branco. Nós temos que comemorar.

— O que?! — Dirfino arregalou os olhos e puxou a mão debaixo da dela. — Eu devo tá mesmo me afundando nos estudos. Bah meu... Eu sou sempre o primeiro que se lembra de datas importantes, mas, na moral, eu não faço a mais remota ideia do que tem de especial hoje.

— Ué. Hoje faz um ano que você voltou pras nossas vidas. — Kitty revelou sorrindo largo.

oOo

Os quatro já haviam acabado de comer há horas, mas ainda estavam sentados à mesa, conversando e rindo. Kitty tinha mesmo razão, Dirfino estava muito feliz de estar ali com eles (e prestes a ficar ainda mais).

Ezevel pegou a mão da namorada e por um breve momento eles tiveram uma conversa particular só através de olhares, até que ambos afirmaram com a cabeça.

— Então... Nós queremos perguntar uma coisa pra vocês. — Disse o mais velho.

— Pode perguntar. — Dirfino respondeu, pois aquela comunicação não verbal já o havia deixado curioso.

— Vocês acham essa casa muito pequena pra quatro pessoas? — Questionou, sorrindo de canto.

— Não mesmo. Na verdade, eu acho que ela é até grande demais da conta pra morar só duas pessoas. — Kitty replicou, se animando com o rumo que a conversa estava tomando.

Yasmin emendou a óbvia próxima pergunta. — Então o que é que vocês achariam de ter a gente morando aqui com vocês?

— Seria incrível! — Dirfino respondeu em seu tom mais empolgado. — Eu ia adorar ter meu irmão por perto todo dia, como nos velhos tempos. E você seria muito mais que bem-vinda aqui também.

— Que bom porque... Eu acho que estou pronto pra voltar pra casa. — Ezevel confirmou o que já estava óbvio, fazendo o irmão e a amiga sorrir de orelha a orelha.

— Quando vocês vem? — O mais novo indagou com alegria escorrendo na voz.

— Então... O problema é que o contrato do apartamento só termina daqui quatro meses e não faz sentido pagar sem estar morando lá. — Informou, coçando a nuca. — Mas acho que isso é bom porque dá tempo da gente se organizar.

— Ainda mais considerando o quanto ele é sistemático. — Comentou Yasmin, fazendo todos rirem.

— Eu vou pegar refrigerante. — Disse Kitty ainda com um sorriso enfeitando os lábios.

Claro que ela pensou primeiro em pegar o vinho que havia na geladeira para brindar a boa notícia, mas logo mudou de ideia por saber que Ezevel não gostava de bebidas alcoólicas.

Depois de voltar à mesa e servir todos, a ruiva ergueu o copo e propôs. — Um brinde ao começo de uma nova fase. Uma mudança que chacoalha o barco das nossas vidas, mas nos leva pra uma maré ainda melhor.

Dirfino entendeu que aquela parte do discurso era especialmente para ele e sorriu para Kitty, logo juntando seu copo ao brinde.

(...)

O calor do sol lambia as costas nuas de Dirfino enquanto ele virava o boné para trás, se abaixando para colocar mais carvão na “churrasqueira” improvisada com tijolos e uma antiga grelha de fogão. Era um sábado bonito de céu azul e poucas nuvens, perfeito para um churrasco de comemoração.

Ezevel saiu pela porta da cozinha, também de bermuda e chinelos, mas sem boné, com uma travessa de carne temperada coberta por um pano. Houve um churrasco como aquele para celebrar quando voltou a morar naquela casa, assim como teve mais um para festejar a entrada de Dirfino na faculdade e esse era para comemorar a conclusão do terceiro semestre em que ele conseguia manter notas excelentes, o que de fato era um grande mérito para um estudante universitário que tinha que equilibrar o trabalho e os estudos, ainda tentando sempre encaixar um tempinho para se aprimorar em fotografia. Embora fosse um trabalho a mais, esse “hobbie” foi o que muitas vezes impediu Dirfino de acabar tendo um surto de ansiedade.

Mas estresses a parte, o importante é que o semestre passou e agora o alívio do início das férias havia chegado.

— E aí, Ted, o fogo já tá no ponto? — Ezevel perguntou, colocando a travessa em cima da mesa ao lado da “churrasqueira”.

— Já. Tu trouxe o garfo grande? — Dirfino respondeu se levantando e batendo as mãos na bermuda na tentativa falha de limpar o carvão delas.

— Esqueci. — Disse ele soltando um muxoxo. — Vou lá pegar.

— Não, deixa que eu vou. Preciso mesmo lavar as mãos. — Replicou mostrando-as.

— Tá.

Dirfino entrou em casa e o som de música ficou mais alto, dando para distinguir vozes e instrumentos. Ele sorriu porque sabia que Kitty havia escolhido aquele canal na televisão por ser o seu favorito, já que passavam bastante clipes de artistas indie em começo de carreira e tinha muita coisa experimental e interessante. Depois de lavar as mãos e pegar o garfão próprio para churrasco, ele fez questão de ir até a sala só para aumentar ao máximo o volume.

— Tu vai nos deixar surdas assim. —Kitty brincou quando o garoto passou pela cozinha no caminho de volta para o quintal.

— Te compenso depois. — Prometeu sorrindo.

— Olha que eu cobro, hein? — Disse ela, recebendo apenas uma piscadela em resposta.

— Acha que um dia vai rolar alguma coisa a mais entre vocês. — Yasmin perguntou com um sorriso sugestivo assim que o garoto saiu.

— Credo. — Kitty respondeu e riu de um jeito muito esquisito.

Yasmin manteve o sorriso, mas preferiu não comentar nada.

Mal Dirfino havia colocado a primeira leva de carne na grelha e os convidados do almoço começaram a chegar trazendo refrigerantes e mais algumas coisas como farofa e vinagrete. E a companhia de seus amigos deixou o dia dos anfitriões ainda mais animado.

Em alguns minutos, Kitty e Yasmin saíram da cozinha trazendo arroz e maionese.

— Tem mais coisa pra trazer? Querem ajuda? — Dirfino perguntou enquanto tirava uma enorme bisteca da grelha e colocava em uma travessa na mesinha ao lado.

— Tem, mas pode deixar, a gente pega. Só desliga lá a televisão que eu vou ligar a caixa de som aqui fora mesmo. — Disse Kitty com um sorriso de agradecimento.

— Tá bom. — Respondeu enquanto limpava as mãos na bermuda.

Quando chegou na sala, Dirfino percebeu só de bater o olho que aquele clipe que estava começando a passar era um que nunca tinha assistido, então parou um instante para verificar se a música era boa para pesquisar na internet depois, caso fosse.

O primeiro quadro parecia ser uma torneira mal iluminada envolta por rosas, mas logo deu para notar que era uma banheira. Um mão surgiu ligando a agua e logo na cena seguinte o ângulo de câmera mudou e dentro da banheira ainda em baixa luz surgiu em carne, osso e cabelo bicolor ela mesma: Maddison Mitchell.

Dirfino não percebeu que estava sorrindo, apenas ficou ali admirando o quanto ela era talentosa com aquela voz perfeita e como ficava linda e tão fofa fazendo caras e bocas estranhas. Uma alegria imensurável transbordava seu coração em saber que ela estava realizando o sonho de alcançar milhares de pessoas com sua música.

— Sabia que te dar essa missão ia ser difí... — Kitty chegou na sala zoando o amigo por não conseguir deixar passar um clipe novo daquele canal, mas se interrompeu franzindo a testa ao reparar um detalhe do que passava na tv. — Essa guria tá lambendo sabonete?

— Ela tinha razão, a música tá fantástica com os efeitos sonoros. — Dirfino sorriu ainda mais com o sentimento de nostalgia, lembrando de quando ouvira aquela música a primeira vez na casinha da árvore, só com voz e violão. — Ela é genial.

— Espera aí. — Ao ouvi-lo falar assim, Kitty se atentou mais a tela e reconheceu a garota que já conhecia por fotos. — Essa é aquela sua ex que você não superou?

— Ela não é minha ex, a gente só dormiu juntos uma vez. — Ele respondeu revirando os olhos por já ter explicado aquilo mais de mil vezes, mas sem conseguir apagar o sorriso. — Vou já almoçar. Eu só preciso mandar uma mensagem pra ela.

— Finalmente vai tomar coragem? — Exclamou animada, seguindo-o de perto. — Esse milagre eu quero ver.

O computador demorou um pouco para ligar, afinal era bem antigo, mas isso não tirou a determinação baseada em euforia de Dirfino. Ele entrou no facebook, foi direto para o chat de Maddison e digitou.

Hey Mad

It's been quite some time since we talked, since I didn't have the guts to talk to you since... Well, know what happened that night.

After that and after what I wrote in that letter, I didn't know if you wanted to talk to me, if you were mad or upset. And since you didn't talk to me, I thought you actually didn't want to.

I just saw your video on TV. It didn't look like it was a high budget production, but it was one of the most fantastic things I've ever seen. I needed to tell you how amazing you are and how happy I am that you're accomplishing your dream bit by bit.

You don't have to reply, but know that I was rooting for you everyday since we said goodbye.

I love you and I know you'll shine even brighter

— Tá. Você escreveu o que? — Perguntou Kitty depois de algum tempo tentando juntar as palavras que conhecia para formar frases com sentido sem ter muito sucesso.

Bah. Que a música é foda, ela é incrível e vai fazer sucesso. — Ele respondeu sentindo o rosto corar.

— Ahan, sei. — Ironizou com um sorrisinho de deboche. — Achei que tivesse dito “tentei te esquecer, não deu. Pensei que fosse mais forte que esse amor”.

— Por que você é tão chata? — Replicou rindo e empurrando-a pelo ombro. — Deixa só eu desligar o dinossauro e vamos almoçar.

(...)

Kitty e Dirfino haviam acabado de lavar a louça do jantar e foram para a sala se jogar no sofá e continuar conversando. Talvez discutindo, mas só um pouquinho.

— É o casamento de um grande amigo que foi e ainda é muito importante pra mim. — O garoto repetiu pela trigésima vez. — Eu ralei pra juntar essa grana e mereço ir. E o Andrew se esforçou pra caramba pra conseguir uma data em que todo mundo pudesse ir, inclusive eu.

— E eu disse que não merece? — A ruiva replicou, revirando os olhos. — O que eu quero, Dirfino, é que você seja sincero consigo mesmo. Você só quer tanto ir pra ver a Maddison.

— Isso não é verdade. Mas se quer eu diga, eu digo. — Resmungou respirando forte. — É claro que eu quero saber como ela tá! Ela nunca fala da vida pessoal em entrevistas, nada sai em sites de fofoca porque ela é super precavida com paparazzi e sempre que eu pergunto sobre ela pra galera, eles fogem do assunto ou me pedem pra ter paciência e esperar o tempo dela, falam que ela quer e vai falar comigo quando estiver pronta. Mas já fazem quase cinco anos. Eu só preciso vê-la pelo menos, mesmo que ela ainda esteja chateada comigo e vá fingir que eu não existo.

— Obrigada por finalmente admitir. — Kitty sorriu já usando um tom ameno, pois agora sim estava satisfeita. — Ainda não acho saudável não superar uma pessoa em cinco anos, mas... Se é um desfecho que você precisa, pode passar um caminhão de horas dentro de aviões de ida e volta pra passar um fim de semana nos Estados Unidos.

— Eu já disse que quero mesmo ir pro casamento. — Dessa vez foi Dirfino quem revirou os olhos. — Não é só a Mad que quero ver. Preciso corar de novo com outra cantada péssima do Luke, tietar o meu casal Connele e... Claro, eu to devendo uma pra Morgana. Além do mais, você tá me dando bronca como se já tivesse superado a...

— Shiiiiiiiiiiiiii. — Kitty interrompeu, fechando a cara. — Eu já concordei com você. Vamos encerrar o papo aqui, não temos que falar dela.

Dirfino riu e mudou de assunto para aliviar. — Quer ver uma série? Te deixo escolher.

— Eba! Se prepara que a gente vai fazer cosplay de torneira de tanto chorar. — Ela disse batendo palmas e se levantando para pegar o controle perto da televisão.

Bah. Tanto tempo morando juntos e eu continuo esquecendo que não posso te deixar escolher as séries e doramas. — Dirfino murmurou, dando um tapinha na própria testa.

— E espero que nunca lembre. Drama é arte, meu amorzinho. — Kitty riu, voltando a se acomodar no sofá.

(...)

Dirfino estava feliz de arrumar a mala com suas roupas de extremo frio que já não usava há anos, pois não eram para o clima brasileiro, nem mesmo naquela região de invernos severos. E para animá-lo mais ainda, seus fones bombardeavam seus ouvidos com Maddison Mitchell.

Mesmo que não se falassem desde que ele voltou para o Brasil, Dirfino não conseguia deixar de ficar imensamente feliz pelo sucesso conquistado pela garota de cabelo bicolor. Depois do clipe independente de Soap que Maddison fez sair na mídia, não demorou quase nada para aparecer investidores e produtores querendo investir nela e logo o álbum Cry Baby estava nas lojas e mais clipes foram feitos, bem mais profissionais e com uma linha cronológica que rendia milhares de teorias na internet. Até Soap ganhou uma versão repaginada.

Pacify her. She's getting on my nerves...” Nessa parte da música, Dirfino sempre parava tudo que estava fazendo para fazer a reboladinha. Ouvir Pacify Her em específico era o que mais o deixava contente quando se tratava dela, pois a dancinha estava no clipe, como o prometido. Talvez isso quisesse dizer que eles ainda eram amigos, lá no fundo... Que Mad ainda tivesse algum sentimento por ele e realmente só precisasse de tempo.

Da porta do quarto, Kitty apenas riu da completa falta de habilidade que Dirfino tinha para fazer aquela dança até que ele percebesse que ela estava lá e parasse de súbito, corando fortemente enquanto tirava os fones.

— Tá aí há muito tempo? — Dirfino perguntou.

— Não, só o suficiente. — Ela respondeu ainda com ar de diversão. — Vim avisar que o almoço tá pronto. Mas e aí? Tá nervoso pra viagem agora que chegou o dia?

— Mais ansioso que nervoso pra falar a verdade. De um jeito bom. — Replicou com um largo sorriso. — To louco pra ver todo mundo sem ser por uma telinha e abraçar eles apertado até ficar ruim de respirar. E... Reencontrar a Mad.

— Fico feliz que vai rever seus amigos. — Kitty sorriu de volta. — Só... Cuidado com suas expectativas desse encontro com a Maddison Mitchell. Você merece esse desfecho, mas não se machuque no processo.

— Do fundo do coração, eu só quero ver com meus próprios olhos que ela tá bem. Não espero mais nada.

— Tu é muito piegas. — Brincou, rindo.

(...)

Foi difícil dormir durante o voo por causa da euforia que sentia em voltar, mas como era uma viagem muito longa o sono acabou vencendo Dirfino nas últimas horas. Graças a isso não se sentia tão exausto quando desembargou em solo americano, só um pouco cansado.

Depois de pegar sua mala e comprar uma garrafa de agua ridiculamente cara, ele foi até o ponto de táxi e deu uma olhada ao redor, logo um sorriso se espalhou por seu rosto, pois bem ali também querendo pegar um táxi estava Luke Campbell em carne, osso e estilo.

Um estilo novo que incluía um cabelo azul e uma barbinha muito rala que era provável não ser de fato parte do novo visual e sim uma consequência de também ter feito uma longa viagem até ali. Ele não morava mais na cidade por conta da faculdade como seu amigo brasileiro, mas ainda morava no país.

— Luke! — Dirfino chamou já andando rápido até ele.

— Dirfino! — E lá estava aquele gritinho espalhafatoso tão típico, era muito nostálgico ouvi-lo de novo pessoalmente.

— Senti sua falta pra caralho, sabia? — Murmurou no ouvido de Luke assim que ele se jogou em seus braços.

— “Senti saudatchi, seu gostosso”. — Ele respondeu com um sotaque carregado mesmo já sabendo falar um português muito fluente, pois sabia que seu amigo gostava do sotaque.

— Oi. Você deve ser o famoso Dirfino. — Disse um homem barbudo e gordo atrás de Luke, empurrando os óculos de grau para mais perto do rosto enquanto estendia a mão coberta por uma luva azul por conta do frio.

— E você é o famoso Baby Bear. — Constatou sem qualquer dúvida, aceitando o aperto de mão. — Eu não acredito que demorou cinco anos pra gente se conhecer.

— Sou, mas o meu nome mesmo é... — Antes que pudesse terminar a frase, o namorado bonitão de Luke foi interrompido por uma voz feminina.

— Não brinca! — Era Morgana, ainda com seu estilo gótico que só não estava lhe dando um ar psicopata por causa do sorriso enorme em seu rosto. — Sem combinar nada a gente parou no aeroporto na mesma hora.

— Morgana! — Dirfino e Luke exclamaram ao mesmo tempo, logo se embrenhando em um abraço triplo.

A chamada pirigótica do bonde era a que estava fazendo faculdade mais perto, a apenas cinco horinhas de carro dali, mas havia pegado um avião por pura preguiça de dirigir tudo isso.

Os três conversaram animadamente por alguns minutos, por fim colocando o papo em dia de maneira decente já que quase nunca estavam online no mesmo horário e acabavam por conversar em “parcelas” com uns respondendo os outros só quando visualizavam as mensagens horas depois. Era uma sensação maravilhosa estarem juntos de novo, mas não ficaram por muito tempo já que estavam cansados da viagem.

— Onde você vai ficar, Dirfino? — Perguntou Luke assim que ficou claro na conversa que todos queriam ir logo descansar.

— Ia ficar num hotel, mas a Adele e o Connor salvaram meu bolso e o rim que eu ia ter que vender me convidando pra ficar no apartamento deles. — O brasileiro respondeu erguendo as mãos em agradecimento pelo casal continuar morando ali (e agora juntos).

— Mal posso esperar pra ver esses dois e zoar com o Connor jogando na cara que até o Andrew tomou uma atitude e nada da Adele pedir ele em casamento. — Luke disse esfregando as mãos enluvadas uma na outra com um ar maquiavélico.

— Que bicha má. Por isso que te amo, capetinha gay. — Morgana comentou fazendo os outros três rirem. — Enfim, onde eles estão morando? Dependendo a gente até racha um táxi.

— Pera aí. — Dirfino pegou, com dificuldade por ter se desacostumado a usar luvas, um papel do bolso onde havia anotado o endereço. — Bem aqui.

— Poxa, nem dá. Ia ficar uma rota estranha e contramão pro motorista. — Ela constatou depois de uma olhada rápida. — Mas pra nós dois dá, Luke, se tu for passar a estadia em casa.

— Na verdade eu vou ficar ficar mesmo na casa do Baby Bear, mas podemos rachar sim porque antes de ir pra lá, vou em casa pra ver minha família. — Luke respondeu sorrindo.

Dirfino se despediu dos três feliz em saber que iria vê-los de novo no dia seguinte na cerimônia e na festa de casamento. Demorou um pouco para conseguir um táxi, o que já era o esperado em um aeroporto, ainda mais naquela cidade, mas assim que entrou no carro amarelo, o papel que estava segurando não parecia o endereço certo para ir. Seu coração pedia por outra direção. Ele respirou bem fundo e guardou o papel de volta no bolso, então disse ao taxista para ir para o lugar que durante muito tempo foi o seu lar.

Parar em frente a antiga casinha fez seu coração se agitar no peito e uma enxurrada de lembranças invadir sua mente. Tudo ainda parecia o mesmo de antes, até o cheiro, mesmo que tanto tempo tivesse passado.

Não tinha ninguém na rua, Dirfino deu uma boa olhada em volta para se certificar disso. Então, como fizera anos atrás ao ser expulso de casa, foi até a casinha na árvore e tateou a parte de cima do batente na porta até encontrar uma chave numa parte falhada da madeira que não a deixava visível. Tantos anos e aquilo ainda estava ali, no lugar mais óbvio. Ele riu e pensou que realmente era muita sorte aquele ser um bairro seguro.

Assim que abriu a porta, mais uma enxurrada de emoções atingiu seu peito, quase como um soco. A vontade de chorar foi inevitável, mas ele respirou fundo para controlar e entrou em seu antigo lar. Não parecia abandonado, pois tudo estava limpo, porém também parecia limpo demais para ser frequentado por alguém já há um bom tempo. E era só isso que tinha mudado, os móveis ainda estavam nos mesmo lugares.

Dirfino apenas empurrou a porta, sem prestar atenção que havia deixado uma pequena fresta aberta. Caminhou pela casinha tocando em tudo e sentindo uma forte nostalgia. Tinha a televisão que por muitas vezes havia usado de espelho, a mesinha que sempre virava um centro de bagunça, latinhas e embalagens quando o bonde se reunia, o velho frigobar ainda ligado... E tinha o sofá. O sofá em que havia sido apenas um com Maddison só por uma noite. O sofá onde admitiu para si e para ela que a amava, mesmo que ela não tenha entendido uma palavra sequer.

Mas esse momento de nostalgia foi cortado por um estrondo muito alto quando a porta bateu contra a parede depois de ser chutada com toda a força.

Dirfino gritou, Maddison segurando o taco de beisebol gritou, então ambos perceberam que estavam ali, cara a cara pela primeira vez em cinco anos.

— Maddison. — O brasileiro sussurrou, sentindo os lábios tremerem antes de formar um sorriso. — “Já faz tanto tempo”.

— O que? — Ela replicou ainda de olhos arregalados e com a respiração errática.

— Ah é, aqui eu tenho que falar em inglês. — Murmurou com uma risada nervosa. — Eu disse que já faz muito tempo.

— T-tá, mas... O que você... O que você tá fazendo aqui? — Maddison parecia assustada por algum motivo.

— Bom, eu...

Antes que Dirfino pudesse sequer pensar em algo racional para dizer, foi interrompido por uma garotinha que entrou correndo na casinha, chamando atenção para si.

Ela era linda e devia ter por volta dos quatro, no máximo cinco anos de idade. Parecia uma pequena cópia de Maddison, tinha até metade do cabelo pintado de rosa, mesmo sendo bem nítido que tinha sido pintado com spray.

Só havia duas diferenças entre elas além do tamanho e características da idade, os olhos da menininha eram de um tom muito intenso de azul, idênticos aos de Dirfino, e suas bochechas eram estufadinhas assim como as de Dirfino eram desde criança mesmo ele sendo magro.

— Olha, mamãe, o que achei no seu quarto! — A menina exclamou animada mostrando seu sorriso de dentes espaçados enquanto segurava um coelho de pelúcia, porém logo percebeu que havia mais alguém ali e disse. — Ah, oi. Eu sou a Alice. Quem é você?

Dirfino olhou bem para ela por um longo instante, depois direcionou suas íris azuis para Maddison que estava ofegante e nervosa, abrindo e fechando a boca sem parar como se estivesse tentando pensar em algo para dizer. Ele olhou para a criança de novo e para Mad e para a criança e mais um vez para Mad, então lentamente a ficha começou a cair em sua mente e foi a vez dele arregalar os olhos.

Ele estava entendo certo? Não podia ser, podia?

Notas finais
Como diria uma certa Pérola: E é isso, acabou, acabou, acabou mesmo... Espero que tenham gostado e de novo muito obrigado por acompanharem até o fim, vocês estão fazendo um autor muito feliz. xoxo Atenciosamente, Leonardo A. Guedes. P.s.1: Links das músicas: Soap (primeiro clipe) - https://www.youtube.com/watch?v=l_U242PzYkE Soap (atualmente) - https://www.youtube.com/watch?v=P8AGVaYSLmks Pacify Her - https://www.youtube.com/watch?v=P8AGVaYSLmks Tentei te esquecer - https://www.youtube.com/watch?v=_PrmQ2GvqMI P.s.2: aqui a tradução da carta do Dirfino: Oi, Mad. Já faz muito tempo que a gente não se fala porque eu não tive coragem de falar com você desde que... Bom, você sabe o que aconteceu naquela noite. Depois daquilo e do que eu escrevi na carta, eu não sabia se queria falar comigo, se estava brava ou chateada. E por você não ter falado comigo, achei que não queria mesmo. Mas eu acabei de ver o seu clipe na tv. Não parece ter sido uma produção de muita grana, mas ficou uma das coisas mais fantásticas que já vi. Precisava te dizer o quanto você é incrível e o quanto to feliz de você estar realizando seu sonho aos poucos. Não precisa me responder, mas saiba que eu torci todos os dias desde que nos despedirmos pra você conseguir. Eu te amo e sei que você vai brilhar ainda mais. E só pra recapitular Os Mistérios Não Revelados de Segredos da Casinha 1 – Como está o Jason atualmente. 2 – Qual o sobrenome do Andrew. 3 – Porque a Morgana estava chorando. 4 – Qual o verdadeiro nome do Baby Bear. 5 – O que Morgana disse no ouvido da Belly. 6 – Como é o resto da música do Dirfino sobre a Maddison. 7 – Quem ganhou a taça das casas. 8 – Porque não se pode chamar a Morgana de Morg. 9 – O que estava escrito no final da carta da Maddison (e nas outras cartas de despedida). 10 – Caralho, o que acabou de acontecer nesse final.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!