Segredos da Casinha
11 Capítulo 11 - Você, Você e Todos Você
Notas iniciais
O bonde mal teve contato com Maddison na primeira semana após o recesso, pois foram dias em que ela gastou todas as horas livres possíveis para sentar com seus pais e fazer as mais detalhadas pesquisas sobre o conjunto Blue Stars, Ryan Hall e Henry K. Matsui. E como previsto, não conseguiram achar um único problema ligado à qualquer um deles, pois de fato não existia.
Por um lado, o senhor e a senhora Mitchell estavam preocupados com a decisão de sua filha em seguir a carreira artística porque o caminho era difícil, além de não ter qualquer garantia de sucesso, mas olhando por outro ângulo, toda profissão exigia os mesmos graus de dedicação e esforço que Maddison direcionava à música por amor, e aquela proposta feita à ela era uma enorme oportunidade.
Depois de muito refletir, o casal decidiu ligar para o produtor e acabaram marcando um almoço para conversar sobre o possível futuro de Mad dentro da Blue Stars.
E, no dia do tal almoço, não restou ao bonde nada além de esperar na casinha, roendo as unhas, esfregando as mãos sem parar ou andando de um lado para o outro enquanto a amiga não voltava com novidades.
O tempo até parecia se divertir passando o mais arrastado possível apenas pelo prazer de observar a ansiedade crescendo nos coraçõezinhos dos adolescentes.
Mas, por fim, Maddison abriu a porta com uma expressão tão animada que assim que os seis pares de olhos a encontraram os seis rostos também foram estampados com sorrisos.
— E aí? — Luke perguntou fazendo um esforço inumano para não gritar, totalmente empolgado assim como todos ali.
— Gente, foi tão incrível! — A garota exclamou, aliviada de poder demonstrar o quanto estava eufórica. — Imagina só almoçar com o Ryan Hall! E ainda com ele falando pra minha mãe que eu sou super talentosa e o Henry K. Matsui dizendo que a minha técnica é muito boa e eu poderia crescer muito na Blue Stars Academy.
— Não sei como conseguiu manter o controle perto do deliciosíssimo Sugar Daddy Ryan Hall. — Comentou Luke se abanando com a mão. — Se eu fosse ia ficar toda molhada.
— Menino, para com isso! — Exclamou Maddison aos risos antes de responder. — Não só por isso. Eu tava super nervosa, mas tive que fazer a séria e conversar como se fosse a pessoa mais madura do mundo sobre a porcentagem da bolsa de estudos e todo o resto. Os meus pais fizeram seiscentas e oitenta mil perguntas, parece que estão considerando real oficial me deixar estudar lá. Como foi tudo certo, nós marcamos uma audição de verdade pra equipe inteira de admissão da BSA daqui a duas semanas em Los Angeles. Mas não vai ser simplesmente na BSA, e sim na própria Blue Stars Records. Vocês tem noção do que é isso?! Galera, eu não sei se estou surtando mais de alegria ou de nervoso, só sei que é uma sensação foda pra caralho.
— Ai, miga, se a gente já tá surtando, nem imagino como tá a tua cabeça. — Adele foi a primeira a responder, indo abraçar a amiga. — Nada pra dizer além de: parabéns, eu estou muito orgulhosa de você.
— Estamos, meu docinho. — Luke não esperou ela se afastar, abraçou as duas.
— E surpreende um total de zero pessoas. — Disse Morgana, juntando-se ao abraço em grupo. — Tu arrasa demais.
O próximo foi Connor, que além de felicita-la sugeriu uma comemoração, então Andrew, ainda feliz, mas começando a ficar preocupado com que tipo de comemoração era possível seu amigo estava pensando, e o último foi Dirfino, também dando parabéns.
Depois disso, Maddison conectou o celular na televisão e colocou uma de suas playlist’s mais animadas no Spotify para tocar bem alto, Adele e Morgana saíram para comprar cervejas e Dirfino, que já conhecia de cor e salteado o gosto de todo mundo ali, ligou para a pizzaria de costume e assim fizeram a festa até tarde daquela noite. E, como sempre, Connor acabou indo para casa carregado por Andrew e Luke, pois estava muito, muito bêbado, porém, pelo menos daquela vez, não vomitara em ninguém.
Mas a lembrança dessa “festinha” logo se tornou apenas uma sombra, já que nos dias que se seguiram Dirfino percebeu que sua amiga com duas cores no cabelo não parecia mais tão animada com a audição que se aproximava. Pelo contrário, sempre que alguém tentava falar sobre, ela rapidamente tratava de desconversar e mudar o foco da conversa.
Pensando que talvez ela estivesse nervosa, decidiu esperar por algum momento em que estivessem a sós para poder abordar o assunto.
A oportunidade para isso surgiu no sábado, na verdade nas primeiras horas do domingo, enquanto voltavam para casa após o trabalho no Crow Claw Bar, caminhando devagar sob a luz das estrelas.
— Mad... Eu sei que você não quer falar sobre o seu teste na próxima terça, mas é justo isso que tá me deixando confuso. — Começou, já observando-a suspirar e virar o rosto com uma expressão entediada para o lado. — Olha, nós somos amigos e você pode confiar em mim pra contar o que aconteceu ou tá acontecendo, sei lá, pra te deixar tão desconfortável assim. No dia que seus pais falaram com o Ryan Hall e começaram a aceitar a sua ida pra BSA, tu chegou super animada pra contar a novidade pra gente, agora falar as palavras “Blue Stars” tá sendo tipo dizer o nome do Lord Voldemort no mundo bruxo. Porque isso?
Maddison parou de andar um instante e encarou o garoto alguns segundos, então bufou e voltou a caminhar, dessa vez enterrando as mãos no bolso do casaco para protegê-las do vento frio e constante típico da cidade.
— É complicado... Não vai ficar surtado, tá? Eu to pensando se vou mesmo pra audição. — Disse quase aos sussurros.
Foi a vez de Dirfino estancar no lugar, não por intenção, e sim devido ao choque de ouvir aquilo. — O que?! Mas... É o seu sonho!
— Não é beeeem o meu sonho. — Replicou, puxando-o pelo braço e acelerando o passo, pois estava realmente frio e ambos acabariam doentes se não chegassem logo em casa. — É um jeito de encurtar o caminho pro meu sonho. Mas... E se eu não estiver pronta ainda? É uma coisa grande demais e eu sou só uma garota. Só de pensar em tudo isso, meu estômago dá umas mil cambalhotas dentro da barriga. Talvez, sei lá, trilhar o caminho mais longo com minhas próprias pernas seja melhor pra mim do que ir pra BSA.
— Maddison... Pelo amor de Deus, para pra escutar o que você tá falando. — Pediu em um tom bem enfático. — Como é que tu poderia não estar pronta pra isso? Já tão tantos anos se preparando, ensaiando, se apresentando. Um dos maiores produtores musicais dos Estados Unidos passou semanas te observando e ficou tão impressionado com sua voz que quis te ajudar a ter uma chance de entrar na maior escola de música de Los Angeles da atualidade. É só ir lá e brilhar como já faz o tempo todo!
— Eu não sei... — Ela olhou outra vez para o outro lado, agora como se as casas pelas quais passavam fossem de fato as coisas mais interessantes do mundo. — Eu ainda tenho medo do palco, minha técnica tem muito o que melhorar e minha segurança é carregar o violão, como se fosse uma criancinha com seu ursinho de pelúcia. E, caramba, é a Blue Stars!
— Maddison...
— Puxa vida, olha só como chegamos rápido hoje. — Interrompeu-o antes que pudesse prosseguir. — Eu to exausta e você deve estar ainda mais exausto que eu, hoje o bar tava lotado. Vai dormir e aí a gente não fala sobre isso amanhã. A minha cabeça já tá cheia demais pra ouvir todas as frases clichês que você pode usar pra tentar me incentivar. Deixa que eu peso a minha decisão sozinha daqui pra próxima terça, tá bom? Boa noite, migo.
Sem dar tempo para uma resposta, Maddison beijou a bochecha de Dirfino e seguiu para dentro de casa. Logo o garoto também entrou na casinha, mas, embora estivesse muito cansado, não conseguiu dormir por um bom tempo, pois sua mente se recusava a desligar.
Acreditava em Mad?
Sim, em parte.
O medo de palco era real, mas para isso havia a Cry Baby. A preocupação com a técnica também poderia ser real, mas segundo Maddison o próprio Henry K. Matsui havia falado sobre isso e esse era um dos objetivos ao se estudar em uma escola de música: aperfeiçoar as próprias técnicas e aprender novas. E sobre o violão... Bem, com certeza aquilo era verdade, mas não era uma boa desculpa já que uma hora ou outra ela teria que trabalhar isso de qualquer forma.
E Dirfino também a conhecia bem o suficiente para saber que havia algo mais. Algo que ela não queria dizer.
O domingo se passou mais arrastado que o normal. A tarde o bonde se reuniu em uma das lanchonetes que tinham o costume de ir, mas não foi como as outras vezes. Maddison estava distante e isso deixou Dirfino pensativo, o clima na mesa ficou estranhou e ninguém chegou a realmente curtir o passeio.
A segunda-feira não foi muito diferente quando sentaram ao redor da mesa no refeitório do colégio, um espaço sempre envolto numa aura de piadas idiotas e risadas escandalosas, que naquele dia estava imerso em um silêncio tedioso e desconfortável.
Lá pela metade do horário de almoço, a garota com duas cores no cabelo se levantou dizendo que precisava pegar algo em seu armário, o que era apenas uma desculpa para ficar um pouco sozinha e seus amigos (melhores amigos) perceberam de imediato que era mentira, mas também sabiam que ela precisava disso e a deixaram ir sem questionar.
— Galera, a gente precisa se juntar e pegar a Mad pra conversar, botar mesmo ela contra a parede pra ela falar logo tudo que tá incomodando. — Dirfino afirmou com bastante ênfase. — Só assim vamos poder ajudar.
Ao invés de encontrar o apoio que esperava, apenas observou incrédulo os outros cinco se entreolharem desconfortáveis, evidenciando que estavam cientes de algo que ele não sabia.
Depois de um segundo digerindo a própria indignação, Dirfino se levantou e puxou todos das cadeiras também, então os empurrou para fora do refeitório até o armário do zelador, onde poderiam ter mais privacidade, embora meio apertados.
— Ok, desembuchem. O que tá acontecendo? — Exigiu olhando sério de um para outro.
— Não tem nada o que falar. — Adele murmurou sem sequer conseguir encará-lo, ela não gostava de mentir, ainda mais para um amigo.
— Qual é? Porque tão me deixando no escuro? — Replicou, agoniado pelo sentimento de impotência quanto aquela situação.
— Cara, a gente tá tão no escuro quanto você. — Connor, o melhor mentiroso do grupo, segurou Dirfino pelos dois braços e olhou-o nos olhos. — Tudo que a gente possa te falar sobre o lance da Mad com a Blue Stars, tu já sabe. Não descasca na gente, estamos frustrados também.
— Você é bom, Connor Williams. Muito bom mesmo. Mas não consegue enganar a mim, paizinho. — Dirfino se balançou para escapar das mãos do amigo mesmo não tendo espaço para recuar ali dentro. — Conheço demais a tua lábia pra cair nela. Foi mal.
—Cara, se acalma. — Pediu Andrew, tentando como sempre ser o pacificador. — Olha só, já tá quase na hora intervalo acabar, então...
— Não! — O garoto quase gritou, finalmente perdendo o autocontrole. — O que tá é na hora de você, você e todos você pararem de mentir pra mim! Porra, eu sei que cheguei depois, bem depois de vocês, mas sou amigo da Maddison também! Mesmo que eu não possa ajudá-la, quero saber o que tá havendo. Eu me importo com ela tanto quanto qualquer um aqui.
Morgana, que até então estivera com as costas apoiadas no canto da parede daquele cubículo cinza cheio de materiais de limpeza, suspirou e descruzou os braços, constatando. — Galera... Ele merece saber. Ainda mais porque isso é sobre ele também.
— Sobre mim? — Dirfino questionou com a voz consideravelmente mais calma e muito confusa. — O que quer dizer?
Antes de prosseguir, pelo código de honra do bonde, Morgana buscou a aprovação no olhar dos outros que, mesmo relutantes, acabaram cedendo.
— O motivo da Maddison tá considerando não fazer a audição é você, Dirfino. — Disse, quase no mesmo tom vacilante que usara na noite em que foi pega chorando. — A Blue Stars Academy, como você bem sabe, fica em Los Angeles, na Califórnia. Não tem como ela continuar te ajudando de tão longe. Seria muito mais perigo de você ser pego na casinha sem a ajuda dela e o que você ganha, vamos ser sinceros, não te daria uma vida lá muito confortável fora de lá. Ainda mais se levar em conta a sua vontade de juntar dinheiro pra voltar pro Brasil.
— E-ela... Ela quer desistir de uma oportunidade dessas... Por mim? — Murmurou num misto de encanto e tristeza enquanto seu cérebro processava a informação.
— A gente sabia desde o começo que você merecia saber disso, mas não queríamos que você se sentisse culpado, meu docinho. — Luke justificou, erguendo o rosto de Dirfino para que ele o encarasse. — É muita pressão pra carregar nos ombros. Ainda mais por uma decisão que, no fim, não é sua.
Adele tomou ar para dizer algo na intensão de tentar confortá-lo também, porém antes que tivesse tempo, o som da sineta que dava fim ao intervalo ecoou pela escola.
— Podem ir pra sala. — Dirfino sussurrou, esboçando um sorrisinho triste. — Eu já vou. Só preciso de um instante. Obrigado por me contarem. Eu precisava disso.
Um a um, o bonde foi se despedindo dele com o mesmo tipo de sorriso enquanto saiam do minúsculo armário para se juntar ao mar de adolescentes que se encaminhavam para suas salas. A último foi Morgana, mas esta não se foi de imediato.
— Lummus? — Perguntou enquanto repousava uma das mãos no ombro do amigo, como uma forma de dar apoio.
— Nox... Muito Nox. — Dirfino não tinhas o costume de mentir e não começaria naquele momento. — Mas... Eu vou ficar bem.
— Promete? — Replicou, preocupada de verdade.
— Eu vou. — Ele reforçou, dessa vez olhando-a e sorrindo, ainda sem qualquer ânimo. — Porque vou fazer a coisa certa.
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