Segredos Submersos

10 Um cachorro me joga na água


Notas iniciais
E eis que a verdade é revelada. :)

Eu, Harry e Ron nos levantamos rapidamente, alertas. Os alunos gritavam e apontavam para uma coisa atrás das árvores. Olhamos naquela direção e eis que damos de cara com um cachorro gigante e negro, que soltou um bufo bem na nossa cara. Por um momento, outra sensação de déjà vu veio-me à cabeça, como se algo do gênero já tivesse acontecido conosco antes. A única diferença é que agora nós três não tínhamos mais 11 anos, e o cão não possuía três cabeças.

Talvez isso fosse um bom começo.

Entretanto, mesmo que tivesse apenas uma cabeça, aquele cachorro do tamanho de um armário não tinha uma cara muito pacífica.

– Sem. Movimentos. Bruscos. – disse Harry, quase sussurrando. Eu e Ron apenas assentimos lentamente, todos nós com os corpos rígidos. Começamos a andar lentamente para trás, um passo de cada vez. Nós três segurávamos a respiração e tentávamos piscar o mínimo possível, enquanto aquele cachorro nos encarava com um olhar assassino.

E de repente, aquele cão imenso rosnou, de um jeito tão alto que parecia que o mundo ia começar a desabar. Dentre todas as pessoas que poderia resolver atacar, ele foi logo atrás de mim.

– Ok, esqueça o que eu disse, Hermione! – gritou Harry. – Só corra!

Resolvi fazer o que Harry mandou e apenas corri. Comecei a correr com todo o fôlego que eu tinha e pude notar que o cão começou a me perseguir, rosnando. Em um desses rosnados senti que gotas de sua saliva caíram sobre o meu cabelo, mas eu não me importei.

Por um segundo, virei-me de frente para o cão, correndo de costas. Ele rosnou mais uma vez, levantou uma pata e tentou arranhar minha cara. Por sorte, coloquei os braços em frente ao rosto antes que ele pudesse atingir minha face. E por azar, ele acabou arranhando meus braços, cortando-os e os fazendo começar a sangrar, em carne viva.

Tentei ignorar a grande ardência que começou a se instalar ali, e também o fato de que naquele exato momento eu devia estar perdendo uma grande quantidade de sangue. Meu olhar acabou desceu em direção aos meus ferimentos, e fiz uma careta ao ver o estado em que meus braços se encontravam. E foi nesse momento que tudo aconteceu rápido demais.

Em um segundo, eu estava vendo os ferimentos de meus braços, que sangravam sem parar. No outro, o cão avançou sobre mim, arranhando a região de minha barriga, e "acidentalmente" fazendo com que eu caísse dentro do lago.

Antes que eu finalmente afundasse, ouvi as vozes de Harry e Ron berrarem meu nome em desespero, mas também tive a impressão de ouvir lá de longe a voz de Nico e de Thalia, e tudo lá em cima, fora da água, finalmente se silenciou.

Bom, pelo menos eu achava que as coisas se silenciaram, mas eu estava afundando no Lago Negro cada vez mais, então não dava para tentar prestar muita atenção no que acontecia lá fora.

Pelo visto, aquela seria minha hora. Dentre tudo que passei, em muitas vezes havia pensado nas diversas formas em que eu poderia acabar morrendo, mas a opção de ser atacada por um cão gigante e se afogar no Lago Negro nunca havia passado por minha mente. E o mais engraçado era que por mais que eu afundasse cada vez mais, eu não sentia o ar começar a se esvaziar de meus pulmões. Eu estava perfeitamente normal...

... E certas vezes eu tinha mesmo que aprender a não pensar em coisas assim tão precipitadas.

Simplesmente porque apareceram sereianos a minha frente. Uns cinco, deviam ser. Não estava com tempo para contar quantos tinham. Um deles sibilou, e apontou um tridente em meu pescoço. Os outros quatro fizeram a mesma coisa.

Tateei meu bolso, em busca de minha varinha. Nada. Provavelmente eu deveria tê-la deixado cair enquanto tentava não ser morta pelo cão gigantesco.

Depois, só senti algo agarrar minha cintura e me puxar de volta à superfície.

Ao chegarmos lá em cima, deitei-me no chão, arfando, e fechando os olhos. Não por cansaço, nem por dor. Arfei devido a uma estranha e inexplicável que eu tivera enquanto estava embaixo d'água. Parecia até que eu estava ganhando energia, ganhando mais força.

Abri meus olhos e sentei. A primeira coisa que eu vi a minha frente foi Percy, completamente encharcado, assim como eu. Provavelmente fora ele quem me puxara para a superfície.

– O que aconteceu com aquele cão? – perguntei.

– Nico deu um jeito nele. Você está bem? – murmurou ele, e tentei ignorar o fato de que nossos rostos estavam estranhamente próximos. Apenas assenti, e ele sorriu. Pegou meus braços, e de repente arregalou os olhos. – Hermione... você não tinha machucado seus braços?

– Sim – disse eu, franzindo as sobrancelhas. Percy enrijeceu, e mordeu o lábio inferior, ainda olhando para meus braços. Acompanhei seu olhar, e vi que minha camisa estava rasgada na região da barriga, e também nas mangas, exatamente onde o cão gigante havia me atingido. Mas não tinha sangue lá. Estava totalmente limpo, e as feridas haviam se cicatrizado. – Mas como...?

Olhei ao redor. Vários estudantes estavam em volta, mas nenhum prestava atenção em nós dois. Eles olhavam com curiosidade para algo que parecia estar acima de mim. Harry e Ron também estavam inclusos nesse grupo, bem como Gina, Luna, Neville e até mesmo Draco, junto com Goyle e Pansy Parkinson.

– Hã... Percy, cara – disse Nico, ao lado de Thalia. Ambos também olhavam para o alto, mas a expressão de seus rostos eram mais para choque –, por que... você não olha para cima?

Percy franziu o cenho, mas fez o que Nico pediu. Sua expressão de repente mudou, de confuso para chocado. Mas ao mesmo tempo, em seus olhos, eu conseguia ver outros sentimentos... surpresa, choque, incredulidade, mas principalmente uma certa mágoa. Uma sensação estranha veio em direção ao meu peito ao vê-lo assim. Aqueles olhos azuis, que às vezes oscilavam com o verde, sempre pareciam um pouco alegres, mas agora...

– Não é possível – disse ele, a voz falhando. – Não pode ser possível.

Logo acima de mim, um símbolo se estendia. Era um tridente, um tridente verde, que girava. Franzi as sobrancelhas, enquanto via aquela figura descer até um pouco acima de minha cabeça.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou a diretora McGonagall, entrando no meio da multidão. Ao ver aquele símbolo do tridente, sua expressão ficou tensa. Ela rapidamente balançou a cabeça, e voltou-se aos outros. – Alunos, por favor, voltem às aulas! Já estão atrasados!

Enquanto a multidão se dispersava, ela suspirou e olhou para mim. Parecia estar preocupada, e até mesmo com um pouco de dó.

– Alguém pode explicar o que está acontecendo? – disse Ron, arrancando as palavras de minha boca.

Thalia suspirou.

– É simples – disse Nico, hesitando um pouco. – Ela acabou de ser reconhecida por seu pai divino. Hermione... hã, meus parabéns, eu acho. Você é filha de Poseidon... e meia-irmã de Percy.

– É – disse Percy, com a voz meio embargada. Seus olhos azuis ainda estavam extremamente duros. – Minha meia-irmã.