Segredos Submersos
32 Sweet dreams
Notas iniciais
O elevador descia com uma rapidez inesperada. Eu havia de me segurar nos apoiadores acima de minha cabeça, para evitar me desequilibrar com os constantes solavancos.
Uma sensação de estranheza pairava sobre mim, uma inquietude sobre o que poderia vir a acontecer. De modo consciente, eu não sabia para onde deveria ir ou o que eu em primeiro lugar estava fazendo, mas eu ainda estava com uma impressão de que meu corpo inconscientemente levaria-me ao lugar certo. Como se as minhas pernas fossem se movimentar de modo automático, sem o uso da minha própria força de vontade.
Seria isso seguir os instintos? Ou seria isso estar sob o controle de uma força superior?
Como uma marionete...
Olhei para os lados. Harry e Ron estavam comigo. Ambos estavam em silêncio e olhavam a frente, em direção à porta do elevador. Não havia sinal qualquer do restante de meus amigos.
Eu poderia ter aberto a boca e perguntado a eles o que estava acontecendo, mas não o fiz. Era como se uma pequena voz em minha mente, muito distante, dissesse que aquilo não era necessário. Nós, logo, logo, saberíamos o que aconteceria. A voz parecia puxar-me lenta e gradativamente para dentro de minha própria consciência, deixando-me sonolenta, persuadindo-me.
Ainda assim, não era como se eu estivesse sendo forçada a algo. A voz simplesmente soava natural, certa.
Olhei para Harry e Ron. Seus olhos pareciam meio desfocados, vidrados, como se estivessem sob um leve transe. Como se dentro da mente deles houvesse também uma suave voz guiando-os a um lugar onde nem nossas consciências pareciam querer alcançar. Estaria meu olhar assim também?
Em um último solavanco, o elevador parou. A porta se abriu com um ding! e uma voz calma e feminina entoou:
– Departamento de Mistérios.
Eu, Harry e Ron saímos do elevador e começamos a andar. O corredor coberto de pedras escuras continuava igual a como eu me lembrava.
Permanecemos a avançar por algum tempo e logo o corredor escuro se abriu para um grande salão circular, com uma cadeira no centro e circundada por conjuntos de bancadas altas. Estávamos em uma das Salas de Tribunal do Ministério da Magia.
Porém, tanto a cadeira central como as bancadas estavam vazias.
Havia apenas dois bruxos dentro daquela masmorra, de pé, próximos à cadeira do réu. Um parecia ser apenas um oficial do Ministério qualquer, já o outro, era Kingsley Shacklebolt – atual Ministro da Magia. Imersos em uma conversa privada e importante, não pareceram nos ver. Talvez eles nem fossem ao menos capazes de nos ver.
Eu e meus dois melhores amigos nos aproximamos para ouvir melhor a conversa. Sabíamos que bisbilhotar a conversa alheia não era algo gentil, mas eu sentia novamente aquela voz suave escorrendo por minha mente, empurrando-me em direção a Kingsley e o outro homem. É importante, a voz parecia formular.
Junto da voz persuasiva, outro som aparentava aparecer, mas ao invés de se localizar dentro de minha própria cabeça, parecia vir do próprio ambiente. Um som baixo e contínuo, melodioso... quase como uma música.
Kingsley e o funcionário – talvez fosse seu assistente – não pareciam ouvir. Talvez apenas eu, Harry e Ron fôssemos capazes de ouvir, pensei.
– Esse assunto não pode escapar do Ministério – escutei Kingsley dizer. Estava sério e preocupado. – Se a comunidade descobrir que os Olimpianos querem se meter novamente conosco, as coisas ficarão preocupantes.
– Mas, senhor, achei que todas as histórias das guerras entre os bruxos com os deuses gregos fossem apenas lendas... – dizia o assistente – eu nem ao menos achava que eles eram reais!
– Pois se acostume de agora em diante, porque eles foram reais, sim. Foram e ainda são, e ainda permanecem a se perpetuar pela humanidade e tendo filhos. Um tratado que durou milênios foi recentemente quebrado; uma bruxa foi reconhecida como filha de Poseidon. Zeus deve ter ficado possesso e provavelmente culpa os bruxos pela quebra da cláusula, e você sabe pelos contos da mitologia como é que Zeus age quando sua vontade não é realizada, Smith.
O rapaz chamado Smith assentiu e engoliu em seco.
– Guerra – falou, parecendo amedrontado. Kingsley apenas concordou com a cabeça. – Mas, senhor... pelo visto a população comum, tanto dos trouxas como a nossa, não sabe da existência dos deuses, não é? Então, um provável conflito entre nós e eles faria alguma diferença para a comunidade? Porque acredito que nem 1% das pessoas teriam ideia do que estaria acontecendo...
O ruído melodioso permanecia no ambiente e parecia começar a tomar forma em meus ouvidos. Era, de fato, uma música.
– De fato – interrompeu Kingsley –, elas não saberiam. Não teriam ideia da realidade, mas sentiriam o impacto. A simples quebra da cláusula já implica o início de catástrofes... o mundo inteiro as sentirão mas acreditarão ser catástrofes naturais... terremotos, maremotos, furacões. Quando a guerra emergir, talvez comecem a vir pragas. Ou assassinatos, genocídios, quem sabe.
Mas, espere. Algo parecia estar errado. A música tomou forma em meus ouvidos, e, por mais baixa que estivesse, reparei-na como sendo uma música trouxa.
Sweet dreams are made of this...
Who am I to disagree?
Harry e Ron também conseguiam ouvir e franziam as sobrancelhas, seus olhares ainda distantes.
– Os Olimpianos têm muito poder, Smith – disse Kingsley –, e os bruxos também. Não sei como o mundo ainda não foi destruído por essas duas forças.
I traveled the world and the seven seas...
– De fato, senhor – disse Smith.
Pelos deuses, por que diabos estava tocando Eurythmics no meio do Ministério da Magia?
A voz persuasiva aumentava o volume cada vez mais em minha cabeça, e a cada minuto que se passava eu me sentia mais em transe. Embriagada, com a vista começando a ficar turva. O ambiente pareceu ficar tão abafado de repente...
Everybody’s looking for something.
A voz então se cessou e eu caí em um abismo de escuridão.
Quando eu acordei, eu estava sentada em uma mesinha no meio de um parque. Meu rosto estava apoiado nas ripas de madeira gelada da mesa.
Esfreguei minhas pálpebras, pesadas de cansaço. Espreguiçando-me e com a mente terrivelmente confusa, olhei ao redor. Harry e Ron estavam sentados ao meu lado e também aparentavam ter acabado de acordar de um sono profundo.
– O que aconteceu? – disse Harry, a voz embargada.
– Não sei vocês – falou Ron – mas eu acabei de ter um sonho mega estranho.
– Eu também – eu e Harry falamos em uníssono.
Nós três nos entreolhamos e descrevemos o sonho um ao outro. Era exatamente o mesmo.
– Tá – eu disse, levemente assustada –, isso é estranho. Em primeiro lugar, onde nós estamos agora? E onde estão Percy, Annabeth, Thalia e Nico?
Nós três olhamos ao redor novamente. Em cima da mesa, próximo a onde meu rosto estivera apoiado, havia um pequeno rádio ligado. A música tocando? Sweet Dreams (Are Made of This). Fechei os olhos e suspirei. Era realmente estranho.
Some of them want to use you...
– Essa música estava no sonho também – murmurou Ron.
Some of them want to get used by you...
Frustrada com o que estava acontecendo – e pelo fato de eu não ter a mínima ideia do que estava acontecendo –, bati no rádio com força e ele desligou. Grunhi e enterrei as mãos no rosto.
A mesa na qual estávamos sentados de fato se localizava no meio de um parque, mas eu não tinha ideia de como havíamos chegado ali em primeiro lugar.
– Como nós chegamos aqui, a propósito? – perguntou Harry, roubando as palavras de minha boca. – Porque eu não me lembro de ter vindo aqui, pelo menos não enquanto acordado.
– Qual é a última coisa que vocês se lembram de ter feito? – perguntei. – Eu só me lembro da gente saindo da casa de repouso logo depois do café da manhã. E os outros ainda estavam conosco.
– Eu também – disseram Harry e Ron juntos. Foi o último que acrescentou: – Depois disso, só acordei aqui e agora.
Com outro suspiro, levantei-me.
– Seja o que aconteceu – disse eu – temos agora que saber onde estamos. Ou quando estamos.
Não havia como saber quanto tempo nós havíamos adormecido. Podíamos estar no mesmo dia de nossas últimas memórias, ou semanas mais tarde. Presa no epicentro de dois mundos se colidindo, qualquer coisa podia acontecer que não me surpreenderia, no fim das contas.
Andamos por alguns minutos, olhando ao redor e vendo se havia algo de errado.
Nada. Tudo parecia tão normal, tão ordinário que até doía. Nem parecia que nas mãos de nós três estava o destino do mundo – de novo.
Paramos em uma banca próxima, onde comprei um jornal, datado do dia em que estávamos. 20 de setembro de 1998, Baltimore, Maryland. Ainda estávamos na mesma cidade e no mesmo dia em que saímos da casa de repouso, o que era bom. Percorri o olhar pelas manchetes do periódico, e apontei para uma em específico.
Tornado devasta cidade do Texas.
– Acha que é por causa do exílio de Poseidon? – perguntou Ron.
– Se acho? – falei. – Tenho certeza que é. Por mais que nessa região tornados sejam comuns, na época em que estamos não é. O outono começará em três dias, por Merlin!
Essa não era a única notícia. Havia diversas outras matérias registrando atividades vulcânicas na região do Chile e terremotos na Ásia e em outros países da América do Sul. Era preocupante.
– E para alegrar a situação – Harry se manifestou, sarcástico –, outra coisa nós já sabemos: que o Ministério já sabe também da situação dos Olimpianos e sobre haver uma bruxa reconhecida como filha de Poseidon, por mais que eu duvide muito que eles saibam exatamente que seja você a bruxa em questão, Hermione.
– Pelo menos isso – murmurei. Guardei o jornal em minha mochila, preferindo deixar isso de lado pelo menos por algum tempo. Eu ainda estava frustrada em relação a como nós havíamos chegado no parque, e por que havíamos nos encontrado em um sono profundo.
Tinha a sensação de que a resposta se localizava naquela voz que se manifestou em minha mente – e nas de Harry e Ron –, que foi basicamente o que movimentou nossos corpos a irem até o Departamento de Mistérios e ouvir a conversa entre Kingsley e o assistente Smith.
Como uma marionete...
Eu sabia que era uma força exterior, um chamado externo que conseguiu penetrar em nossas mentes, controlando-nos mas ainda deixando-nos ter plena consciência que havia algo fazendo tal coisa. Sentia também como se essa força exterior, de certa forma, houvesse zombado de nós – instalando em nossos inconscientes uma música trouxa retratando sobre sonhos.
Minha cabeça já ia começar a doer, se eu permanecesse pensando tanto assim.
– Temos que achar o resto do grupo... – comentou Harry.
De fato, pensei.
Não demorou muito, de qualquer forma.
Aconteceu que eu, Harry e Ron andamos por mais uns quinze minutos pelo parque e chegamos próximos a um grande lago. Contornamos-no e não tardou até que encontrássemos quatro pessoas deitadas no chão próximos a uma árvore, profundamente adormecidas.
Nós três nos entreolhamos. Olhei ao redor, ainda bem que não havia nenhum trouxa por perto, fazendo caminhada ou algo parecido. Eles estranhariam ao ver três jovens parados sem saber o que fazer, observando quatro corpos inconscientes na terra batida.
Ron deu um chute bem leve no ombro de Annabeth. Ela não se mexeu. Se não fosse possível ver o movimento de sua respiração, julgaria que ela estava morta.
Tentamos acordá-los, sem sucesso. Cutuquei o braço de Percy. Momentânea e importunamente, lembrei-me do modo em que tal braço enlaçou meu corpo durante a noite em que eu tentava ao máximo não relembrar e em como aquilo sentira tão bom. Senti o sangue fluir para minhas bochechas e retesei-me, tirando os dedos do braço de Percy, como se tal movimento fosse fazer-me esquecer da noite anterior.
– Tudo bem, Mione? – perguntou Harry, com o cenho franzido.
Assenti rapidamente, aprumando-me e desviando o olhar.
– Tudo certo – falei. Harry balbuciou um “se você diz...”. – Vamos. A gente tem que encontrar um jeito de acordar eles.
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