Segredos Submersos

14 Isso não é algo bom - não mesmo


Notas iniciais
Eu demorei. Eu sei.

Annabeth estava à minha frente enquanto apresentava tudo o que eu via no Acampamento Meio-Sangue. Era um lugar bem simpático... e bem bonito, também. Provavelmente devia ser o lugar mais bonito em que eu já havia convivido — deveria ter que me acostumar com essa palavra, já que pelo visto eu teria que viver ali por um certo tempo -, depois de Hogwarts.

Enquanto Annabeth falava, eu apenas acenava com a cabeça e murmurava um "aham", já que, honestamente, eu não estava prestando muita atenção. Afinal, já havia muita coisa em minha cabeça...

– Oooi! – disse Annabeth, estalando os dedos em frente do meu rosto, voltando minha atenção para ela. – Terra chamando Hermione.

– Ah... desculpe. É que... – Não terminei a frase, apenas soltei um suspiro cansado. Annabeth também suspirou, colocando as mãos na cintura.

– Você está com muita coisa na cabeça, não é? Bem que você parece cansada, está parecendo até um zumbi.

Lancei a ela um olhar de incredulidade. Como ela conseguia fazer piada, quando o mundo parecia estar pesando em minhas costas agora? Ela deu um sorriso curto.

– Ok, ok, desculpe. Mas você deveria mesmo ter um descanso, garota. Parece que você vai morrer a qualquer segundo. – Ela deu uma palmadinha amigável em meus ombros. – Sei como você está se sentindo, toda essa pressão é mesmo horrível.

– Parece que o mundo está caindo em minhas costas – fui honesta.

– Bom... pode até ser que você esteja sofrendo um pouco com tudo isso – Um pouco?, ia protestar, mas achei melhor ficar quieta –, mas você realmente não está sentindo todo o peso do mundo. Acredite, eu já senti esse peso. Literalmente.

Meus olhos se arregalaram de surpresa por um momento, e antes que eu pudesse abrir a boca para perguntar algo sobre isso, Annabeth riu e deu outra palmada em meus ombros.

– Mas isso aí é uma longa história – disse ela, com um sorriso aberto. – Talvez em outro dia eu te conte como aconteceu. Mas agora vai dormir, vai. Você está muito cansada.

– Ir dormir às 5 horas da tarde? – perguntei, enquanto começava a me afastar dela em direção ao meu novo chalé, o qual ela já havia me apresentado um pouco antes.

– Só vai dormir logo, menina! – exclamou, aumentando um pouco a voz, já que já estávamos um pouco distantes. Eu ri, e voltei a andar em silêncio.

Eu havia andado mais ou menos cinco metros quando me lembrei de algo. Virei-me de costas, olhando para Annabeth, que já estava bem mais distante.

– A propósito – praticamente gritei para que ela me ouvisse –, obrigada!

Ela andou alguns passos em minha direção, mas ainda assim estava um pouco longe.

– Obrigada pelo quê? – perguntou.

– Por ter me livrado daquele probleminha que estávamos passando na Casa Grande.

– Não tem de quê – disse ela, dando de ombros. – Mas, Hermione, lembre-se de uma coisa: eu não realmente te livrei do problema, apenas o afastei de você. Em uma hora ou outra, você vai ter de voltar a encará-lo. E enfrentá-lo também.

Meu sorriso sumiu na hora. Annabeth estava falando a mais pura verdade, o único problema é que eu não queria ver que aquilo era um fato. Podia ser apenas uma mentira. Para ser sincera, tudo isso que eu estava passando podia ser apenas uma mentira, um sonho. E quando eu acordaria deste sonho ruim, eu estaria deitada em minha cama, no dormitório das garotas, lá em Hogwarts.

Assenti, e tentei sorrir. Tinha certeza que esse sorriso saiu mais como uma careta, mas eu não me importei. Apenas voltei a virar as costas para Annabeth, e continuar minha caminhada até o chalé.

Assim que cheguei ao chalé, arrumei minhas coisas, deitei em minha cama e tentei tirar um cochilo. Pelo menos eu consegui dormir por algumas horas, antes de acordar por causa daquele sonho.

Neste sonho, eu estava em um elevador de um prédio. Uma música meio irritante tocava enquanto este elevador subia rapidamente até o último andar. Por alguma razão, eu sabia o que devia fazer assim que eu chegasse nesse meu destino. Parecia ser instinto, algo que fora despertado em minha alma de última hora.

Assim que a porta do elevador abriu, vi que havia chegado no 600º andar. Mas como? Resolvi que isso não era muito importante para ficar em minha cabeça neste momento, talvez eu pudesse voltar a me perguntar sobre isso depois.

Saí do elevador rapidamente, e comecei a andar em frente, sem nem prestar atenção nas coisas extremamente legais que estavam ao meu redor nesse tal de 600º andar do prédio. Apenas segui o caminho que eu sabia que tinha que seguir.

Cheguei em uma sala. Sala não era o nome apropriado para aquilo... aquele lugar era enorme, e extremamente bonito. A arquitetura era impressionante...

Mas, a arquitetura não era o que me chamava mais atenção, já que haviam tronos gigantescos posicionados na sala. Nem tentei contar, já que não era o meu objetivo, mesmo que não fossem muitos. E, além dos tronos, haviam pessoas lá. Não necessariamente pessoas, já que eles eram gigantescos. Era bem difícil olhar para eles sem sentir um breve desconforto, por isso tentei evitar olhá-los, apenas ouvir o que estavam dizendo. Estavam discutindo.

– Não me importa o que você esteja tentando argumentar! – trovejou um deles, que por sinal era o que parecia emanar mais poder, mais autoridade. – Havíamos feito o trato! Todos nós fizemos, e isso deve ter sido há centenas de anos!

– Mas e ano passado? – perguntou uma mulher, extremamente bonita. – O jovem Percy fez vocês jurarem que não haveria mais tratos entre os Três Grandes.

– O problema é que esse trato não se aplica apenas aos Três Grandes, Afrodite! – replicou ele. Afrodite...? De repente, a ficha caiu sobre mim. Eram os Deuses do Olimpo! Se aquela moça era Afrodite, muito provavelmente o homem era Zeus. – O trato foi feito sobre todos os Deuses e toda aquela comunidade bruxa! Fizemos isso para evitar todos aqueles conflitos que aconteciam entre nós. Mas agora, depois de tantos anos vivendo sem complicações com eles, você, Poseidon, resolve nos trair fazendo uma filha que além de ser meio-sangue, possui sangue bruxo!

– Eu não os traí! Admito, isso foi um erro! – protestou Poseidon. Meu pai. Cobri a boca, assustada. Eles falavam de mim – E a propósito, a mãe nem era bruxa! Como eu ia saber?

– Não importa! – trovejou Zeus. Pôde-se ouvir um trovão ao longe. – O que importa é que a menina é uma bruxa, o que é uma traição de qualquer jeito! Nunca pensou em como aquela garota pode ser poderosa?

– Eu não vou matá-la por causa disso, seu idiota! Ela é minha filha, ela não possui nenhuma responsabilidade sobre como ela nasceu!

Os outros deuses estavam sentados em seus tronos, todos extremamente rígidos e tensos com a discussão dos dois.

– Olhe só, Poseidon – disse Zeus, diminuindo a voz de um modo ameaçador. – Ela é sua filha, apenas sua. Então, arranje um jeito de consertar essa confusão que você acabou de criar, porque se os bruxos souberem disso, as coisas não irão acabar bem. E nós não estaremos ao seu lado para ajudar sua filhinha... o problema é todo seu.

Um silêncio frio e extremamente desconfortável se instalou no ar.

– E então? – disse Poseidon finalmente, olhando para os outros deuses nos tronos. – Nenhum de vocês vai pelo menos ficar ao meu lado?

Mais silêncio.

– Desculpe-me, Poseidon – disse um homem, provavelmente Hermes. – Mas você violou um dos mais importantes tratos de nossa história.

Poseidon não disse nada. Por um instante, não ouvia-se nada além da respiração nervosa dos outros deuses. De repente, Poseidon se desfez da forma gigante, e veio a um tamanho humano.

– Tudo bem – disse ele, a voz rígida e cruel. – Vou-me embora.

E, virando-se de costas para os outros, saiu do Olimpo.

E foi assim que eu acordei.

Mesmo que tivesse sido um sonho, eu tinha uma sensação horrível de que aquilo era real.

Foi aí que eu percebi – mais ou menos –, como é que Harry se sentia com seus antigos sonhos. Céus, eu devia tratar ele com um pouco mais de dignidade em relação a isso.