Segredos Submersos
27 Interlúdio | A máscara da Morte Vermelha
Notas iniciais
Marie Roget carregava em suas mãos uma chave enferrujada.
Aproximou-se de mim, e, ajoelhando-se, começou a abrir as trancas das correntes que prendiam meus pés. Meus calcanhares logo sentiram a diferença ao serem soltos, a pele machucada e raspada daquela área logo formigou.
Auguste Dupin veio ao meu lado e ergueu-me pelas axilas, auxiliando-me a ficar de pé. Eu sabia que muito provavelmente eu não tinha forças o suficiente para levantar sozinha, depois de tantas horas sentada e deitada. Os ossos de meu joelho estalaram ruidosamente, os músculos – tanto das pernas quanto do restante de meu corpo – estavam fracos e doloridos.
– Vamos – murmurou Marie. – O chefe não gosta que nos atrasemos.
Começamos a andar em direção à porta; a mulher na frente e eu logo a seguindo. Dupin se posicionava logo atrás de mim, suas mãos em constante busca por meus cotovelos, caso eu não fosse capaz de movimentar-me sozinha.
Não cogitei a situação dele poder estar atrás de mim apenas para assegurar que eu não fugisse. Havia algo nele que transbordava confiança, como se pudesse me ajudar. Por mais que esta fosse a primeira vez que estivesse vendo Marie em minha vida, com ela pude sentir logo algo assim, também com Annabel Lee. Havia algo nos três que simplesmente não existia em, por exemplo, William o Careca – uma espécie de calor que era capaz de me abranger e fazer-me mais confortável. Não diria que era uma amizade, afinal eu não sabia qual era exatamente o plano deles ou de qual lado estariam; mas ainda assim. Parecia ser um início.
Passamos pela porta e logo estávamos no corredor. A escada que descia à minha direita ainda estava lá, o ambiente tão decrépito quanto o ático em que eu estive presa. Pequenas janelas com as cortinas levantadas mostravam que lá fora era noite. A hora exata, não havia como saber.
Com a voz rouca e a cabeça girando, perguntei:
– Vocês são espiões ou algo do tipo? – tive a a sensatez de manter a voz baixa, julgando o modo alarmado que eles me olharam. Tais olhares não deveriam ter durado nem um segundo, mas foi o suficiente para que eu entendesse.
Eles não responderam, e nós permanecemos a descer as escadas. Parecia que Marie havia diminuído o ritmo, porém.
– Estão contra o seu chefe, não é? – voltei a perguntar, a curiosidade me matando. Eu queria entender qual era o objetivo deles lá. Marie virou-se para olhar para mim e pôs o indicador nos lábios grossos. Minha voz diminuiu a um sussurro. – Infiltrados? Annabel também está com vocês?
– Se você não quiser que eu corte sua garganta agora, senhorita Granger, por favor fique calada – Dupin disse, sua voz quase inaudível. Sua ameaça apenas reforçou a confirmação da possibilidade deles estarem ao meu lado. Era um passo maior para poder escapar desse lugar.
– Você não faria isso – sussurrei, mal movendo os lábios. Virei a cabeça para olhá-lo, seus olhos castanhos estavam rígidos e diziam “sim, eu faria isso.” Engoli em seco e voltei a andar adiante, não ousando falar mais nada. Se fosse necessário, Dupin, Marie e Annabel não hesitariam em me matar. Eles me ajudariam e eu os ajudaria, mas se interferíssemos demais nos problemas um do outro, consequências viriam. A única coisa que parecia nos ligar era estarmos contra William Wilson e o chefe, por mais que no caso deles fosse secretamente. Um grupo de resistência interna.
Isso fez com que diversas memórias voltassem subitamente a mim. Memórias de poucos anos atrás que pareciam ter ocorrido há uma eternidade; a formação da Armada de Dumbledore, o quinto ano de Hogwarts. Consequentemente, todas as lembranças dos anos seguintes vieram à minha mente como uma explosão, rápidas demais para eu suportar. O enjoo voltou e me fez perder o equilíbrio.
Marie e Dupin não tardaram a impedir que eu caísse.
– Consegue continuar? – perguntou Marie. Seu rosto cor de chocolate demonstrava linhas de genuína preocupação. Assenti, porém ao continuar a descer as escadas, apoiei-me com mais força nos ombros dos dois.
Em poucos minutos alcançamos o andar de baixo. À esquerda havia uma sala com três outras portas que iam a outros cômodos, e à direita, onde nos dirigimos, havia mais um lance de escadas. Apoiei-me no parapeito dela momentaneamente; lá embaixo, podia-se ver ainda outro lance, que parecia ser o que levava ao andar mais subterrâneo. Por um segundo pensei em como seria cair deste parapeito. Talvez não morreria, mas facilmente quebraria vários ossos.
Foi nesse momento, de duração no máximo de um segundo, que as mãos de Dupin roçaram levemente meus cotovelos e sua voz atingiu meus ouvidos, em um sussurro:
– Eu sinto muito, Hermione.
Tive a forte impressão que ele não se referia a ter ameaçado cortar minha garganta. Era um pedido de desculpas prévio. A seriedade em seu tom fez com que eu começasse a ouvir o pulsar de meu coração.
Descemos todos os lances de escada e logo nos encontramos em um porão, incrivelmente parecido com o aposento do museu de Edgar Allan Poe.
(Talvez houvesse uma ligação entre tudo. Muito provavelmente haveria uma ligação entre tudo. As circunstâncias ligadas a Poe eram fortes e presentes demais para passar despercebidas. Não podia ser coincidência, todas as minhas experiências anteriores durante a adolescência ensinaram-me que coincidências não existiam. Propósitos existiam.
Entretanto meu corpo debilitado não permitia que eu raciocinasse propriamente. Sabia que aquilo poderia ser uma grande pista para voltar a encontrar Harry, Ron, Percy, Annabeth, Thalia e Nico.)
Porém no porão em que eu agora estava possuía menos móveis e uma grande cadeira de mogno posta ao centro do aposento, quase que como um trono improvisado. Fora isso, podia-se perceber claramente que o local estava organizado para lembrar o porão de Poe.
Assim que chegamos, os olhares de todos os presentes se voltaram a mim. Havia vários lá, dez pessoas facilmente. Percebi Annabel Lee e William Wilson, parados a cantos opostos da sala. Não encarei todos, mas perguntei a mim mesma qual deles se chamaria sr. Valdemar, Morella, Ligeia ou Berenice.
Não prestei atenção em todos porque meu olhar rapidamente se focou em um único homem, o que mais se destacava. Alto e imponente, sua pele pálida contrastava com o preto de seus cabelos; o azul de seus olhos faiscava e suas feições angulosas eram sérias. Ao me ver, todavia, seus lábios repuxaram-se em um sorriso, simultaneamente charmoso e forçado.
Era notável que ele era o chefe. Um arrepio percorreu minha espinha.
Todos se aquietaram e o silêncio repentino pesou em minhas costas. Eu estar sendo encarada por uma roda de pessoas que queriam-me morta – com exceção de três, provavelmente – não ajudava.
O chefe sentou na cadeira de mogno. A atenção se focava apenas em mim e nele.
– Senhorita Granger – disse ele. Sua voz era grossa e baixa. – Que bom ver que já se recuperou dos ferimentos.
Defina recuperar, pensei, mas não me manifestei.
– Desde que a senhorita chegou aqui, tenho ansiado muito em falar com você. Fico muito feliz agora.
Silêncio.
Mais silêncio.
Ninguém ousou quebrá-lo, a não ser o chefe, por uns dois minutos completos. Pareceram uma eternidade.
– Vamos, menina. Gostaria de conversar com você, não fazer um monólogo. Posso fazer um monólogo com os meus seguidores aqui – fez um gesto apontando todos os outros –, a hora que eu quiser, mas não é sempre que temos uma convidada de honra como você.
A bile que subia por minha garganta incapacitava-me de me expressar propriamente.
– Vamos – ele repetiu. Suas palavras eram cordiais, mas o tom o qual falava era perturbador. Algo que eu encontraria talvez em meus pesadelos –, não se acanhe.
Respirei fundo e meu tórax doeu com o movimento. Tentei manter o tom mais educado e suave possível.
– Por que sou a “convidada de honra”? Qual é o objetivo de me terem aqui?
Ele levantou da cadeira e aproximou-se de mim em passadas largas.
– Você já deve ter ouvido até então sobre como sua hereditariedade é algo único, senhorita Granger. Bruxa e meio-sangue, que anomalia! Com certeza a senhorita sabe que sua própria existência é uma herança de conflitos passados. Conflitos e guerras extremamente sangrentas, há centenas de anos, tenho de ressaltar.
Levantei as sobrancelhas. O sorriso do homem abriu ainda mais.
– E – continuou ele –, agora que esses problemas voltaram à tona depois de séculos de silêncio, e seu papai não está na melhor das situações... eu simplesmente quis vê-la, senhorita Granger. Ter a chance de conhecê-la em carne e osso. É um momento único, sem dúvida.
– Seja... seja direito ao ponto, por favor – não consegui me segurar. – Sem eufemismos. Você quer me matar.
O chefe espalmou as mãos uma na outra, cerrando os lábios.
– Mas por que quer me matar? – prossegui. – O senhor por acaso seria um titã? Quer soltar as criaturas do Tártaro apenas para desestabilizar o Olimpo?
Ser tão direta assim era de fato algo muito perigoso para mim, mas eu precisava encarar os fatos. Eles tentariam me matar de qualquer jeito, então que fosse melhor sofrer um atentado já sabendo do que se tratava.
Um dos subordinados, do tamanho de um armário, bufou raivosamente e tentou avançar para cima de mim. O chefe espalmou a mão no peitoral dele, impedindo-o. Pude ver que os lábios daquele líder estavam ainda mais cerrados e o resto de sua expressão estava lívida. Respirei profundamente, tentando acalmar a tremedeira que começara em minhas pernas.
– Você não saberia dizer quem eu sou, senhorita? – perguntou o chefe, parecendo raivoso e transtornado. Por um momento fiquei confusa; esperava que ele ficasse brabo por eu ter acusado-o de ser um titã, e não por eu não saber quem ele era.
(“Sabe como é, o chefe é um tanto egocêntrico”, dissera Auguste Dupin em nosso primeiro encontro)
– N-não – minha voz falhou.
Ele me encarou com uma expressão severa.
– Estou desapontado com você, moça. Esperava mais de sua capacidade de dedução. Eu deixei tantas, mas tantas pistas para você seguir!
(”Está aí algo que pode levá-la a uma possível resposta de qual seria o enigma.”)
O enigma era, de fato, a identidade do chefe. Levei as mãos às têmporas e fechei os olhos com força, tentando ligar as informações pela metade que poderiam me ajudar a desvendar. A dor de cabeça não deixava com que eu pensasse direito e mal consegui raciocinar.
– Não desvie o olhar de mim quando falo com você! – meu coração quase parou ao ouvir uma mudança tão repentina no comportamento daquele homem. Agora seus olhos azuis pareciam me esfaquear e sua voz aumentara consideravelmente.
A face do chefe estava a centímetros da minha. Seu hálito cheirava a álcool. Segundos depois, desviou o rosto e olhou seus subordinados ao redor do porão, erguendo os braços ao lado do corpo, como se estivesse próximo a mostrar a eles um show. Um show a qual eu seria a cobaia.
– Proponho um jogo a você, Hermione Granger. Dupin ou Annabel já devem ter mencionado como sou fã de joguinhos e enigmas – ele não perguntou se eu concordava ou não. – Hmm... você necessita de um tempo para realizar a atividade. Que tal trinta segundos? Sim, sim. Trinta segundos para você dizer corretamente quem sou eu. As pistas estão sendo dadas há muito tempo; alguns dias, posso dizer.
Não havia como recusar, haveria algum tipo de punição. Esse grupo de pessoas queria me ver ser punida, se divertiriam com meu sofrimento. Eu estava apavorada e sentia lágrimas formando em meus olhos. Aquilo era humilhação. Será que Dupin ou Marie ou Annabel me ajudariam? Eles eram espiões bruxos infitrados naquele meio – o que fazia com que o chefe provavelmente fosse mais ligado aos Olimpianos – para derrubar este homem, no fim das contas.
– Se você acertar, uau, parabéns. Não a incomodarei mais com esse jogo. Se você errar, bem... aí existe uma consequência, não é? – o chefe prosseguiu. Soava animado. – E o tempo está... valendo!
No meio minuto seguinte tudo em minha cabeça parecia um borrão. Voltei a pressionar os dedos nas têmporas para pensar, mas sob toda essa pressão eu tinha um progresso muito pequeno.
Era muito provável que as pistas fossem diretamente ligadas a Edgar Allan Poe – o museu, as obras, os próprios trabalhadores desse chefe tendo nomes ligados a seus personagens; tudo se ligava mas ao mesmo tempo não conseguiam se encaixar propriamente em minha mente.
– E o tempo acabou! – exclamou ele, cedo demais. Senti as lágrimas voltarem e apenas cobri o rosto com as mãos, sem conseguir segurar o choro. Tinha a sensação que sabia qual seria a punição. Ter sido torturada por Lestrange há menos de um ano havia se parecido um pouco com o que eu passava agora. Os traumas daquele acontecimento ainda estavam em mim e fez-me capaz de prever o que esse grupo iria fazer comigo.
Um dos subordinados pisou à frente e sacou a varinha. Pude ver de relance – teria sido impressão? – os punhos de Annabel Lee se cerrarem. Eu estava de costas para Dupin e Marie, portanto não havia como observá-los.
– Crucio! – meus joelhos cederam e eu caí no chão ao sentir as familiares milhares de facadas de dor percorrer meu corpo. Por um momento achei que ficara surda; não conseguia ouvir meus próprios gritos, por mais que minha boca se abrisse.
Então, tão repentinamente quanto a dor chegara, ela se cessou.
Permaneci no chão, arfando. A fatiga em meus músculos piorara.
– Tsc, tsc, senhorita Granger. Estou desapontado – disse ele. – E não é pelo fato de você não conseguir distinguir quais são as pistas que eu me esforcei tanto em deixar para seu grupinho de amigos; você sabe muito bem quais elas são. Já deve ter visto que sou um grande fã de literatura norte-americana, querida. Estou desapontado mesmo é pelo fato da senhorita saber as pistas mas não locálizá-las.
O chão daquele porão era frio às minhas costas.
– Você sempre foi considerada a bruxa mais inteligente de sua idade; ao ouvir sobre seus grandes feitos nos últimos anos, sempre a considerei um grande desafio intelectual. Um obstáculo o qual eu adoraria passar por cima, Hermione Granger. Mas parece que estive enganado. A senhorita não parece valer a pena.
Meus olhos fixavam-se no teto, sem realmente prestar atenção ao que aquele homem dizia. Eu tentava pensar, mas a exaustão e a vontade de chorar distraíam-me em demasiado. Vi de relance o homem fazer um gesto ao bruxo que me torturara, e só pude ouvir sua voz repetir:
– Crucio.
A dor voltou, mais forte como nunca, queimando cada centímetro de mim. O ruído monstruoso de agonia que saiu de minha boca foi involuntário, assim como os espamos que tomaram meus músculos. Eu mal sentia o piso embaixo de meu corpo.
Foco, Hermione, foco. Já fazia dias que a voz de meu subconsciente não falava comigo, e pela primeira vez, creio que ela não foi assim tão importuna. Tente distrair a dor e pense em algo bom.
Como o pensamento que produzia um patrono. Tentei focar-me em todos os bons momentos que já havia passado, ao mesmo tempo que minha mente parecia berrar com a dor. A carta de Hogwarts que dizia-me ser bruxa, tudo que passei com Harry e Ron. O alívio ao ver a guerra acabar, por mais tristes que estivéssemos por perder Lupin, Tonks, Fred e tantos outros. A sensação que eu sentira, meses atrás, ao perceber que conseguia dominar alguns dos traumas que a guerra deixara em todos. A sensação de autocontrole. Os rostos e o som das risadas de meus novos amigos, os meio-sangues, que eu conhecia há tão pouco tempo porém já os confiava como se fôssemos companheiros eternos. Annabeth, Thalia, Nico. Rachel e Quíron, com quem eu conversara apenas por poucos minutos.
E havia Percy, é claro. Com quem eu passara mais tempo e o meio-sangue mais ligado a mim por nossas relações sanguíneas. O meio-irmão que, em certos momentos, eu pegava a mim mesma desejando por um único instante que ele não fosse meu meio-irmão.
Pensar em todos eles não fazia com que a queimação parasse, mas ajudava-me a canalisá-la. Controlá-la, nem que fosse por uma fração de segundo. Já ajudava.
De repente, a ardência parou tão rapidamente quanto da primeira vez. O servo que me torturava parou de realizar a maldição Cruciatus.
Meu peito subia e descia, tentando recobrar a respiração. Enxuguei as lágrimas que eu não havia percebido que caíram por minha face. Permanecia deitada, fitando a luz bruxuleante no teto do porão. O rosto do chefe logo entrou em minha linha de visão.
– Vou dá-la outra chance, Hermione. A chance de adivinhar a charada. Estou ajudando-a, e não é sempre que faço isso. Se você conseguir adivinhar, não descobre apenas quem eu sou, senhorita Granger. Você também fica com a oportunidade de descobrir o que o destino reserva a sua missão. Está tudo interligado, lembra?
Por mais fraca que eu estivesse, minha atenção voltara a ele e suas palavras. Ele levantou as sobrancelhas, como se esperasse que eu dissesse algo.
– Vá em frente – falei, minha voz rouca e por um fio.
Ele sorriu. Disse, como se estivesse recitando:
– “E a vida do relógio de ébano se extinguiu junto com a do último folião. E as chamas dos tripés expiraram. E as Trevas e a Dissolução e a Morte Vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre eles todos.”
Morte Vermelha. Essas duas palavras ligavam-se fortemente a um conto de Poe. Suspirei, ainda sentindo os músculos de meu torso se retesarem de cansaço. Apenas reforçava a ideia que a pista era ligada a Edgar Allan Poe. Era uma provocação; o chefe sabia que eu sabia a pista, mas ainda assim permanecia reforçando-a, zombando de minha capacidade de decifrá-la. Eu tinha quase certeza que a resposta estava em minha cara, algo ligado ao escritor que já havia acontecido no decorrer da missão, comigo e com o resto do grupo. Porém eu não conseguia vê-la, permanecia distanciando-me gradativamente, como se a resposta final vestisse uma máscara.
– A senhorita entende que é exatamente o que vai acontecer quando eu fazer o que tenho de fazer, não é? Trevas, Dissolução. Pelo menos para você e todos que estão ao lado dos Olimpianos. Porque para nós – fez um sinal em direção às pessoas ao redor – e para aqueles que ainda serão libertados, haverá apenas o triunfo.
Seu timbre grosso e amaciado fez com que os pelos de meus braços se arrepiassem. Minha respiração acalmara porém meu corpo permanecia dormente.
– Desta vez, senhorita Granger – os olhos azuis do homem pareciam ainda mais frios – dou a você um minuto para pensar na resposta. Valendo... agora.
Minha linha de raciocínio desprendeu-se de meu ser físico e iniciou a analisar as informações que já tinha. Em minha cabeça, todas as recordações dos últimos momentos da missão, antes de eu ser sequestrada voltaram à tona. Naquele espaço de um minuto, pensei em tudo que acontecera. A chegada a Filadélfia, o museu de Poe. Sabia que a informação crucial estava guardada em algum lugar de minhas memórias daquele museu específico.
Relembrei o tour e o porão. A conversa com Percy e William Wilson nos encarando de modo engraçado quando Annabeth e eu lembráramos da pista relacionada a Atena. O busto da deusa com um corvo empalhado em cima, em um dos quartos. Devíamos procurar Atena mas não sabíamos nem onde nem por quê.
E foi quando a realização bateu meu corpo cansado e abatido das torturas. E a resposta veio a mim, finalmente, no último segundo restante do intervalo que o chefe me dera para pensar.
A voz de seu súdito logo chegou aos meus ouvidos no mesmo instante que o enigma fora decifrado em minha mente:
– Crucio!
Mas desta a vez a dor não pareceu tão insuportável, talvez pelo êxtase que percorreu meu corpo momentaneamente pela resposta. O chefe pareceu perceber. Ordenou que seu subordinado parasse a maldição, porque em menos de cinco segundos a dor já havia se esvaído.
Um sorriso maquiavélico surgiu no canto de sua boca, fazendo com que suas feições angulosas contorcessem-se horrivelmente.
– Você é um titã – fui eu quem quebrei o silêncio. Esforcei-me para sentar.
– Sim – ele apenas disse.
– Da segunda geração dos titãs, mas ainda assim.
– Sim – repetiu, mas soou mais duro. Não gostou que eu houvesse mencionado que ele não era um titã principal.
No porão do museu de Edgar Allan Poe, Annabeth e eu havíamos recordado um nome mencionado no poema O Corvo. Annie imediatamente ligara o nome com Atena, mas mal sabíamos que seria este o nosso erro. O poema de fato era ligado à deusa, mas, nesta circunstância, ligava-se a outra figura olimpiana. A figura que era sempre esquecida e deixada de lado quando seu nome era mencionado.
– Você é Pallas – falei. – O deus-titã da guerra.
Annabeth e eu havíamos alcançado a resposta, porém nos desviáramos dela. Não era Pallas Atena a figura ligada à nossa missão; apenas Pallas.
Não senti-me triunfante ao descobrir sua identidade. Senti medo.
– E você vai abrir o Tártaro e libertar as criaturas do caos, para derrotar os Olimpianos.
O sorriso aumentou no rosto dele. Lentamente, Pallas começou a aplaudir, colocando pausas assustadoramente longas entre cada palma.
– Parabéns, senhorita Granger. Pelo visto você não é tão burra quanto receei que fosse. Fico feliz que tenha feito jus ao seu título de menina inteligente.
Olhou ao redor, encarando o resto de seus súditos.
– Nosso trabalho por enquanto está quase pronto. Dupin, Marie, levem-na novamente para cima. Queria poder terminar o trabalho aqui e agora, mas parece-me que Hermione Granger está muito fraca. Levem-na e deixem-na descansar. Pegarei o que preciso dela pela manhã.
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