Segredos Submersos
8 Descubro minhas origens
– Tudo bem – falei, tentando ignorar o bolo que se alojava em minha garganta. Minha voz falhava, e quase nem eu entendia o que saía de minha boca. Peguei a mão dele, por mero impulso. – Conte. Conte tudo.
– Lembra aquele dia em que você conheceu Thalia e Nico? – apenas assenti, em silêncio. – Então. Antes de eles nos interromperem, lembra-se do que eu estava falando para você?
– Sim – murmurei – você ia falar algo sobre mitologia grega. Os deuses, e tudo mais. – Percy fechou os olhos e segurou minhas mãos com mais força, como se não estivesse pronto para dizer qualquer coisa. Tentei encorajá-lo: – Vamos, pode dizer. Você consegue, e... eu não vou morrer se descobrir.
Meu estômago se contorceu em outro nó. Como eu queria que ele me contasse isso, sendo que nem eu conseguia acreditar em minhas palavras? Senti minhas pernas tremerem um pouco, como se eu fosse cair. Eu estava me sentindo fraca e extremamente cansada.
– Você é quem pensa – disse ele, sorrindo um pouco de canto. Internamente, revirei meus olhos. Seu sorriso se dissipou rapidamente. – Olhe, Hermione. Você acreditaria em mim se eu dissesse que os deuses gregos ainda estão vivos?
Franzi o cenho, mas logo depois permiti-me a rir.
– Parece ser algo difícil de se acreditar – disse eu. – Mas ora, eu sou uma bruxa adolescente que estuda em uma escola de magia e que ano passado ajudou o melhor amigo a derrotar o Lorde das Trevas. Já passei por muitas coisas que parecem ser impossíveis, por isso acho que saber que os deuses gregos ainda estão vivos não é algo assim tão bizarro.
– Pois é – disse Percy, sorrindo. – Mas acho que fica um pouco mais estranho se você soubesse que atualmente o Monte Olimpo se localiza no 600º andar do Empire State Building.
– O prédio de Nova York? – perguntei, arqueando uma sobrancelha. Ele assentiu. – Ok, isso é estranho. Mas como você sabe de tudo isso?
– Eu? Bem, é que eu não sou alguém... comum. Pelo menos não o comum no qual você está acostumada. Não sou um bruxo, não consigo conjurar nenhuma coisa com uma varinha – disse Percy. – Você é uma garota esperta, Hermione. E muito inteligente. Já deve saber que os deuses certas vezes criavam filhos com humanos. E atualmente... eles ainda costumam fazer isso.
– Semideuses – eu disse, tão baixo que mais pareceu um sussurro. Mesmo assim, Percy concordou com a cabeça. Olhei para ele, espantada, como se uma luz tivesse se acendido em meu cérebro. – Você é um semideus!
– Filho de Poseidon, prazer – disse ele, e meus olhos se arregalaram. Isso era uma descoberta fantástica! Em nenhum livro se dizia que os deuses ainda podiam conviver com os humanos... – E meus primos... bem, Thalia é filha de Zeus e Nico é filho de Hades. Por isso aqueles esqueletos tentando sair quando ele abriu a fenda, e por isso que as vezes Thalia dá choque nas pessoas ao tocá-las.
– Isso é... fantástico – eu disse, maravilhada. Logo depois minhas sobrancelhas se uniram. – Mas por que está contando isso a mim? Justo a mim?
– Bom – o sorriso dele desapareceu novamente, e hesitou –, é porque... você é uma também. – Minha expressão de felicidade desapareceu, e minha boca se abriu em choque. Percy notou isso e suspirou. – Como eu já disse, nem eu nem meus primos somos bruxos. Nosso instrutor, o centauro Quíron, mandou-nos para cá para resgatarmos você, afim de te levarmos com segurança para nosso segundo lar, o Acampamento Meio-Sangue, e que basicamente é uma Hogwarts... só que para semideuses.
– E como sabem que sou eu essa meio-sangue que vocês procuram? – perguntei, cruzando os braços.
– Não sabíamos, na verdade. Tínhamos sempre de prestar atenção a tudo ao nosso redor. Por mais difícil que acabe sendo, uma hora ou outra sempre acabamos descobrindo. Há... algo diferente nos semideuses, entende? Não sei bem como explicar, e desde o dia em que nos conhecemos no trem senti isso em você – disse ele. – Além do mais que... você deve sofrer de dislexia e déficit de atenção.
– Como você sabe disso? – perguntei, fechando a cara. Nunca revelava isso para ninguém, nem Harry ou Ron sabiam disso. Havia sido diagnosticada com esses dois problemas quando tinha apenas 7 anos de idade.
Percy me explicou o resto das coisas sobre os semideuses e também mais sobre o acampamento, os deuses, o Olimpo, e todas as coisas que ele passou nos cinco anos passados, e também sobre as profecias do Oráculo.
Um silêncio um pouco desconfortável se ergueu ao ar após ele terminar as explicações.
– Hã... você acredita em mim, não é? – perguntou ele, parecendo um pouco nervoso.
Fiquei quieta por um momento, só vendo o céu da madrugada. Já estava começando a amanhecer. Fechei os olhos, respirei fundo e peguei sua mão novamente, apertando-a com força.
– Pior que acredito.
– Já contamos toda a história para Harry e Ron – disse Thalia, assim que voltamos ao banheiro. – Já contou a ela, Cabeça de Algas?
– Já – disse Percy – Hermione já sabe de toda a verdade.
– E... bom, por acaso ela já foi reconhecida? – intrometeu-se Nico, com Harry e Ron vindo atrás dele.
– Ainda não – disse Percy. – Isso é estranho. Depois de meu pedido aos deuses ano passado, os meio-sangues geralmente são reconhecidos após saberem que são semideuses. Não fazemos a mínima ideia de quem pode ser o pai ou a mãe dela.
Levantei a mão, como se estivesse na aula esperando para ser chamada.
– Desculpem por me intrometer – disse eu, já me intrometendo –, mas eu sei que devo ser filha de um deus homem. Já que, bem, antes de vir pra Hogwarts eu descobri que meu pai na verdade era meu padrasto, porque de acordo com eles, meu pai verdadeiro tinha morrido.
– O que já notamos que é mentira – disse Harry.
– É uma pena, até – disse Thalia, franzindo o cenho. – Você podia muito bem ser uma filha de Atena. Temos uma amiga, Annabeth, que é filha dela... e olha, vocês duas possuem praticamente o mesmo gênio.
– É, mas ao mesmo tempo temos que dar graças por Hermione não ser meia-irmã de Annabeth. – disse Nico. – Seria pior do que um inferno, e olha que eu sei muito bem como é lá.
– Hã... obrigada? – disse eu.
– Ela podia ser filha de... hã, algum deus menor – disse Ron. Levantei as sobrancelhas, surpresa. Até que ele aprendeu bastante coisa na época em que namorávamos.
– É provável – disse Nico. – Bom, minha irmã ela não vai ser... Hermione definitivamente não tem cara de quem gosta de gente morta. E eu saberia reconhecer, de qualquer maneira.
– Não mesmo – murmurei, e acabamos rindo.
Depois, Thalia pegou uma moeda de sua pequena bolsa, que era um pouco parecida com um galeão. Andou até chegar perto das torneiras, que ainda pingavam um pouco de água.
– Percy – disse ela, fazendo um sinal com a cabeça. Ele assentiu, e fechou os olhos. Logo depois, um pouco mais de água começou a cair das torneiras.
– Legal – eu, Harry e Ron murmuramos ao mesmo tempo. Percy olhou pra mim e sorriu. Eu acabei sorrindo também.
A luz do sol do amanhecer que entrava pela janela com o desenho da sereia refletiu ao entrar em contato com a água das torneiras, formando um pequeno arco-íris.
– Ó Íris, deusa do arco-íris, aceite minha oferenda – disse Thalia, jogando a moeda em direção do arco-íris, que rapidamente tremeluziu e desapareceu. – Mostre-me o Acampamento Meio-Sangue.
O arco-íris tremeluziu outra vez e mostrou uma imagem. Era uma sala, onde duas pessoas jogavam algum jogo estranho. Um era um homem com cabelos e barba castanha, sentado em uma cadeira de rodas, e o outro era um homem gorducho com roupas que não eram muito na moda, bebendo uma lata de Coca Diet.
– Quíron, Sr. D! – exclamou Thalia. Todos nós nos aproximamos mais dela.
– Thalia, Percy, Nico! — disse o cara de cadeira de rodas, que não se parecia muito com o centauro Quíron que sempre havia imaginado lendo as histórias de mitologia grega. – Já a encontraram?
– Já, senhor – disse Percy.
– Ah, então já não basta o Peter, o Nicholas e a Thaís, agora eu tenho que aturar uma bruxa? – disse o gorducho, tomando um gole de sua coca-cola.
– Percy, Nico e Thalia, sr. D – Percy corrigiu. – Só queríamos dizer que tentaremos voltar ao Acampamento o mais breve possível.
– E também queremos que vocês deem a permissão para que dois amigos de Hermione venham junto conosco – disse Nico, apontando para Harry e Ron. Os dois só sorriram e deram um breve aceno com a mão.
– E por que eu deveria aceitar isso? – perguntou o sr. D, com uma cara meio ranzinza.
– Os dois podem vir, sim – disse Quíron. Pelo menos ele era um bom homem. – A ajuda deles pode ser muito útil.
– Muito obrigada, senhor – disse Thalia, e passou a mão no arco-íris, fazendo a imagem se dissipar. Por um minuto, ficamos em silêncio, e depois nos entreolhamos. Parecia que agora teríamos que sair de Hogwarts.
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