Segredos Submersos
52 Acerto de contas
No que acordei, havia uma compressa gelada em minha cabeça e mãos gentis traziam a minha boca pequenos goles de néctar.
A princípio, nos primeiros instantes em que recobri os sentidos, minha mente pareceu ser um vazio completo, empertigado apenas da mais pura confusão. Não mais que um segundo mais tarde, quando meus olhos fitaram o teto do cômodo em que eu estava – não mais interminável e feito de estrelas como no salão dos deuses no Monte Olimpo ou em Hogwarts, mas apenas de gesso branco e liso – que as memórias voltaram.
A batalha na Ponte do Brooklyn, o sangue de Thalia Grace manchando o asfalto, Pallas e um rastro de loucura em seus olhos junto da mais profunda humanidade, Morfeu fugindo da mesma forma que o vento soprava no fim de uma tempestade – calmo até desaparecer no ar ao seu redor. O Monte Olimpo. A luta sob os pés dos tronos dos deuses. O chifre de erumpente. As pupilas de Pallas a centímetros das minhas, muito abertas e chocadas, suas íris lembrando-me demais dos olhos claros de Thalia em sua morte e de Percy após um longo beijo.
E a explosão.
Que fez o corpo de Pallas se desintegrar, tão forte quanto uma estrela em uma supernova.
As memórias vieram abruptamente a minha mente no exato momento em que minha cabeça tentou se erguer, o que causou uma súbita tontura.
Aquelas mãos gentis não demoraram a vir ao meu auxílio, tocando em minha testa de modo suave e forçando-me a permanecer deitada.
– Shhh... – a voz murmurou, feminina e baixa.
Meu corpo doía, mas o rastro de tal dor me parecia mais ser um fantasma, algo dormente. Por baixo de meu corpo, percebi, havia algo incrivelmente macio. Não olhei para baixo para ver o que era – a vertigem não permitia –, mas supunha ser uma cama. O teto acima de mim e o cenário em minha visão periférica aparentavam ser parte de um quarto convencional de um hotel qualquuer.
Um rosto não tardou a aparecer em meu campo de visão. A dona das mãos gentis.
Levei um certo tempo até reconhecê-la de fato – no primeiro instante, seu rosto delicado contornado por cachos longos e dourados, os olhos grandes e claros de uma menina de não mais de doze anos de idade pareceram um borrão em minha memória –, mas depois associei suas feições a Mildred, híbrida como eu e que costumava fazer parte do Maelström junto de Dupin, Marie e Montag.
– Você tem que descansar, Hermione – disse ela. Sua voz era macia. – Já se sente melhor?
De minha boca saiu um murmúrio de concordância. E eu estava de fato melhor, se comparada a como me sentia durante a luta com Pallas ou William Wilson, mas apenas cansada. Muito cansada. Talvez uma boa noite de sono resolveria...
(No fundo, porém, você sabe que isso não é verdade. O tipo de coisa que você presenciou nesse dia, as coisas que você viveu durante todo esse período como meio-sangue, as coisas vividas desde exatos cinco meses atrás, quando Voldemort caiu... você sabe que por mais finalizadas que estejam, em sua mente elas nunca acabarão)
Suspirei.
– Quanto tempo fiquei inconsciente? – perguntei.
– Não muito – disse Mildred. – Quarenta minutos no máximo. O suficente para seu amigo Percy encontrá-la nos escombros de uma pequena explosão no Olimpo e com Pallas totalmente fora de vista... a princípio acharam que ele havia fugido. Mas depois de darem uma boa olhada pelo salão dos deuses...
– Eu o fiz explodir – a voz rouca e baixa que saiu de minha garganta nem pareceu ser a minha própria. Mildred assentiu, engolindo em seco, como se aquilo fosse o que ela precisasse ouvir para finalmente acreditar.
– Ainda assim – a garota mudou suavemente de assunto. Seus dedos finos corriam por meus cabelos em uma carícia silenciosa que fazia os pelos de minha nuca ficarem arrepiados e eu sentir uma vontade extrema de dormir –, Percy foi quem a encontrou. Seus outros amigos vinham logo atrás e minutos mais tarde os deuses apareceram. Foi Poseidon quem instruiu eu, meu irmão, Marie e Auguste a trazê-la para descansar aqui.
Não pude evitar que um pequeno sorriso se repuxasse em meus lábios ante o pensamento de Poseidon tomando conta de mim.
– Acho que a essa altura os deuses já devem estar naquela reunião com aquele bruxo – disse Mildred. Minhas sobrancelhas franziram e ela percebeu a dúvida em meu rosto. – O homem de vestes roxas e chapéu engraçado.
– Kingsley?
– Acho que sim. Marie e Auguste estavam indo àquela reunião também. Se um acordo fosse selado entre os deuses e os bruxos, disseram eles, seria bom se os híbridos fossem incluídos nessa também.
– Tenho que ir para lá – falei e imediatamente me levantei, para longe do toque macio dos dedos de Mildred.
A tontura veio com tudo ao ponto de quase me fazer cair deitada outra vez. Apoiei-me no colchão e cerrei os olhos com força, esperando que o mundo se aquietasse ao meu redor novamente. Assim que minhas pálpebras voltaram a se abrir, meu olhar se encontrou com o de Mildred.
– Hermione, você tem que descansar!
– Millie – lembrei-me do apelido que um dia eu ouvira Auguste Dupin chamá-la. A garota mordeu o lábio inferior e seus olhos pareceram se arregalar por um instante ao me ver chamá-la de algo tão íntimo. – Se não se importa que eu a chame assim... você tem que entender que eu tenho de ir lá. Sou híbrida assim como vocês e, honestamente... desde o começo eu tenho feito parte dessa batalha. Eu não posso simplesmente largá-la, sabe?
Achei que Mildred iria me obrigar a ficar no quarto do hotel, portanto me surpreendi quando ela suspirou e falou:
– Eu entendo. Perfeitamente. Mas é que, e se você ainda não estiver bem o suficiente...?
– Mas estou – essa foi a palavra final e Mildred apenas concordou com a cabeça.
– Só tome então mais um gole de néctar – ela pegou uma garrafa e jogou em minha direção. Peguei-a no ar e tomei um gole generoso. Tinha gosto das refeições fartas que a Sra. Weasley sempre fizera, e não demorou para que aquele gostoso calor percorresse meu corpo e me renovasse.
Antes de sair pela porta do quarto, sorri.
O mundo já havia retornado a sua normalidade e Nova York corria como o habitual.
Todos os trouxas e mortais haviam acordado e as ruas perderam aquele macabro aspecto que os poderes de Morfeu haviam jogado sobre os quarteirões.
Um tanto maravilhada, percebi que era como se nada houvesse acontecido. E, de fato, para a maioria das pessoas que agora transitavam o mundo nada havia realmente acontecido. Perguntei-me como elas teriam reagido ao finalmente acordarem e não fiquei surpresa ao pensar que talvez nem tivessem se surpreendido.
Nova York era uma coisa para loucos.
Um tanto sorridente ao observar todas as pessoas que transitavam as ruas, percorri os quarteirões em direção ao Empire State Building em passos rápidos.
Quase sem perceber, porém, meus pés acabaram não me levando em direção ao Empire State, mas fizeram meu corpo virar algumas quadras antes, em uma das ruas que cruzavam com a Quinta Avenida.
Tal coisa foi feita por puro instinto, sem pensar. Ao finalmente reparar em qual direção eu estava caminhando, eu já estava na beira de um estreito beco da 30th Street.
Franzi as sobrancelhas, sem saber de fato como eu havia chegado lá. Era como se algo houvesse me guiado, uma pequena voz em minha cabeça. Estremeci ao pensar que Morfeu havia feito basicamente a mesma coisa, enquanto nos controlava por nossos sonhos.
Mas Morfeu havia se acovardado e fugido, pensei, tentando expulsar as ideias de que ele poderia estar me guiando a outra armadilha. Eu mesma o vira desparecer no ar, entre a neblina. Pallas estava morto (se não morto, pelo menos havia sido jogado no Tártaro). O que Morfeu poderia fazer? Não poderia ser ele...
E não era, finalmente percebi, ao adentrar o beco e me deparar com o homem que estava parado ao lado da tampa do bueiro que se abriria ao túnel subterrâneo. Um arrepio involuntário subiu por minhas costas ao ver o leve sorriso no rosto daquele homem, que por alguma razão me recordou do Campo de Asfódelos – e as almas que para sempre vagavam por lá – e o monstro vermiforme que se escondia na escuridão das paredes do labirinto.
Por mais aliviada que eu estivesse que aquele não era Morfeu, não posso dizer que fiquei particularmente feliz ao encontrar Tânatos, a personificação da Morte. Eu ficaria mais feliz se fosse Poseidon ou algum de meus amigos...
– Oi, Hermione – disse ele. Meus lábios se franziram em uma espécie de sorriso sem dentes.
– Tânatos – falei, cumprimentando-o apenas com um aceno de cabeça. Ele não parecia mais estar lívido comigo da forma em que estivera quando eu o insultei durante um jantar em um sonho. Seu semblante estava tão calmo como sempre. – O que traz você aqui?
Ele deu de ombros.
– Eu queria ver como a batalha estava andando – respondeu. Recostou-se na parede do beco com tranquilidade. – Mas aparentemente cheguei muito tarde... uma pena. É que o Mundo Inferior estava bem chato, posso dizer, mesmo com todas as almas que minhas irmãs estavam trazendo.
Um bolo subiu por minha garganta ao pensar nas Queres, com seus dentes rangentes e garras pontiagudas, ceifando aqueles que haviam caído na batalha.
– Foram muitas? – não consegui não perguntar. Ainda engolindo em seco, percebi que eu de fato não sabia quantas mortes havia ocorrido; a morte de Thalia havia ocupado demais minha cabeça.
Tânatos torceu o nariz e encolheu os ombros.
– Nah – disse casualmente. – O normal para uma batalha comum. Eu fiquei até surpreso em como as mortes foram poucas, na realidade. Enfim. Então eu subi aqui para ver como as coisas estavam, e bem que tive tempo de pegar uma ou duas almas das mãos de minhas irmãs antes delas conseguirem descer ao Mundo Inferior. Sabe, mesmo que fosse uma guerra... não é certo que todos sucumbam de modo tão violento. Algumas almas têm de partir com uma certa tranquilidade. As que merecem, pelo menos.
Por um breve momento, os olhos de Tânatos lampejaram o mesmo brilho humano de Pallas em seus últimos instantes. Por trás de seu rosto de aparentes trinta anos, houve por um único segundo um reflexo de sua verdadeira idade, e não soube dizer se o que senti naquele momento foi compaixão ou medo pelo homem a minha frente, tão eterno como o universo.
– O que determina se uma pessoa merece ter uma morte tranquila no meio de uma guerra? – questionei, franzindo as sobrancelhas. Tânatos sorriu e aquele rastro de velhice desapareceu de seu rosto.
– Essa é uma boa pergunta. Acho que eu responderia “maturidade”, mas não é bem isso. O conceito é um tanto difícil para mortais propriamente entenderem. Resumindo, eu diria que seria o nível de preparação da pessoa. O quão disposto ele está para aceitar a morte. Você não tem ideia do quão difícil é para a sua espécie ter esse nível de pensamento, Hermione. Saber o que é a morte é uma coisa; mas aceitá-la verdadeiramente e com ela se comprometer em uma situação de risco... é diferente.
Um silêncio breve se instalou, conforme eu assentia. Tudo aquilo era ao mesmo tempo estranho e assustador, mas de certa maneira reconfortante.
– Em campo de batalha eu sempre procuro buscar tais almas – continuou Tânatos. – Eu posso ser uma das faces da Morte, Hermione, mas a Morte ainda sabe ser legal. Busco recompensá-los, de certa forma... mas enfim. Não é para ficar explicando todo esse lenga-lenga que eu queria falar com você. Quer dizer, dependendo do ponto de vista, o que eu tenho a dizer é relacionado com isso, mas...
Não pude evitar que uma leve risada irrompesse de meu corpo, assemelhando-se mais a um ronco.
– Então diga, Tânatos, porque eu ainda tenho de ir ao Olimpo.
– Bem, eu mencionei que subi até essa batalha e acabei levando algumas almas, certo? Uma delas era de uma amiga sua. A líder das Caçadoras.
Minha respiração pareceu ficar presa nos pulmões e tudo em minha mente pareceu sair de lá e correr em direção aos meus olhos, querendo inundá-los. Pisquei com força e não deixei que Tânatos me visse em tal momento de fraqueza.
– E...?
– Por mais que a morte dela tenha sido um tanto, hã, brutal – disse Tânatos e momentaneamente estranhei sua atitude; ele parecia não saber exatamente o que dizer –, ela foi em paz.
Limitei-me a fazer que sim com a cabeça, porque as palavras haviam desaparecido de mim. Tânatos pigarreou.
– A alma de Thalia Grace sussurrou seus últimos pensamentos assim que a peguei. Sabe, isso é uma coisa um tanto difícil de acontecer... de qualquer modo, ela morreu acreditando fazer o que era certo. Está esperando chegar ao Elísio. Prestou toda sua fidelidade a Ártemis, mas ainda assim não deixou de mencionar um tal de Luke. E por enquanto está bem. Eu não ficaria surpreso se ela de fato chegasse ao Elísio...
Outro momento de silêncio. Eu respirava fundo e piscava com força, minha visão turva.
– Então é isso – concluiu o deus da morte. Voltei a assentir, percebendo que minha mão tremia. Bateu as palmas das mãos uma contra a outra. – A batalha acabou e, posso dizer a verdade, você fez um bom trabalho com Pallas.
Ainda com o tórax subindo e descendo descompassado, acabei por sorrir. Não mais o sorriso forçado e sem dentes, mas verdadeiramente. O pensamento que Thalia não havia sido levada pelas Queres, mas por mãos tranquilas que lhe garantiam a paz, era um pouco reconfortante.
– O-obrigada – consegui murmurar. Tânatos se aproximou em passos lentos e apoiou uma mão em meu ombro. Vi em seu rosto não mais a raiva do nosso encontro anterior, mas uma certa cumplicidade. De fato, ele era um aliado. – Não só por Thalia, mas por ter devolvido Harry e Ron. Acho que você acabou se mostrando mais bondoso do que poderia ter sido.
Sua mão soltou meu ombro e abanou o ar. Voltou a dar de ombros, quase indiferente.
– Espero que demoremos a voltar a nos encontrar, Hermione, se é que você me entende.
Tive de rir outra vez. Com um leve sorriso, nos despedimos e Tânatos abriu o bueiro e desapareceu na escuridão.
Assim que ele foi embora, porém, não consegui evitar que as lágrimas descessem e a realização que Thalia Grace estava morta, apesar de todas as vitórias, caísse sobre mim.
Quando cheguei ao 600º andar do Empire State Building, a reunião dos deuses já estava próxima de seu fim e Zeus apertava a mão de Kingsley Shacklebolt. Naquele aperto de mãos, filetes pretados de magia e poder cobriram os antebraços de ambos, selando o contrato de um novo acordo de paz entre os bruxos e os olimpianos.
Todos os deuses estavam lá presentes – ainda que em tamanho normal, não em suas formas gigantes – no centro do salão, com Kingsley e Zeus encarando um ao outro. Marie Roget e Auguste Dupin permaneciam mais ao canto. O sorriso que transpassava nas feições de ambos denunciava que, talvez, os híbridos houvessem sucedido em serem finalmente reconhecidos.
No outro extremo do salão, estavam Harry Potter, Ron Weasley, Percy Jackson, Annabeth Chase e Nico di Angelo. Pareciam cansados e abatidos, com leves ferimentos e alguns curativos e bandagens, mas em seus rostos havia também serenidade. O grupo parecia incompleto sem Thalia, pensei, conforme passava a mão na face de modo a apagar os últimos resquícios de lágrimas. Por mais que secos, meus olhos ainda ardiam.
Não chamei muita atenção ao entrar no salão, mas meus amigos imediatamente me viram e vieram em minha direção.
Fui ao encontro deles em passos leves e um tanto preguiçosos. Não havia mais o porquê de tanta urgência ao andar, e eu não sabia quanto tempo levaria até eu me acostumar.
Annabeth foi a primeira a me enlaçar em um abraço apertado.
– Você está bem, Hermione? – perguntou ela, ainda com a cabeça apoiada em meu ombro. Murmurei que sim. Ela me soltou e abracei meus outros amigos um por um, sem pressa.
– Deu tudo certo? – perguntei assim que me soltava de Nico, o último que abracei.
– É – disse Percy. Seu tom de voz batia com o modo de agir de todos; bem mais lentos do que o habitual e um tanto atordoados, como se (assim como eu) também não soubessem como agir em frente a uma calmaria tão inesperada. – A reunião foi um pouco longa e tivemos de intervir em alguns momentos, mas pelo visto finalmente as coisas deram certo.
– Zeus ainda não parecia muito feliz nessa questão de aceitar os bruxos, não é? – disse Harry, ajeitando os óculos na ponte do nariz. – Mas no fim das contas ele se convenceu, tanto em relação a nós como aos híbridos. Ele só teve de ser lembrado de tudo pelo qual sua filha única se sacrificou.
Acabamos por nos aquietar ante à menção de Thalia. Neste breve silêncio, pude ouvir ao longe a voz de Zeus, imponente conforme proclamava uma espécie de rito, ainda selando o contrato.
Aproveitando o fato de Harry tê-la mencionado, acabei por contar ao grupo o que Tânatos havia me dito. Todos pareciam fitar os pés assim que terminei, Annabeth especialmente. Ainda assim, foi capaz de levantar a cabeça e fazer um sorriso brotar em seus lábios. Eu, no entanto, sentia como se não possível encará-los, portanto voltei meu olhar ao centro do salão.
Kingsley já havia se soltado do aperto de Zeus e agora se retirava, andando calmamente em direção à saída do salão para tomar o elevador. Lançou-me um sorriso no meio do caminho, o qual retribuí. No momento, era Auguste Dupin quem estava de frente a Zeus, estendendo o antebraço para selar outro acordo o qual incluísse os descendentes de bruxos e olimpianos.
Fui em direção a Marie, ainda parada no mesmo local. Assim como Kingsley, sorriu ao me ver, e assim como meus amigos, seus olhos estavam serenos e cansados. Abracei-a também.
– Obrigada por toda a ajuda, Marie – falei, tendo a impressão de não tê-la agradecido antes. – Eu devo muita coisa a vocês.
Novamente, apenas sorriu.
– Sabe, Hermione – disse ela – quando Wilson a levou pela primeira vez ao esconderijo de Pallas e eu a vi naquele ático, eu nunca pensei em quanta coisa aconteceria. Mas aconteceu, e olhe só para nós agora. Foram tantas perdas, não é? Mas acho que no fim valeu a pena – e apontou com a cabeça em direção a Dupin.
– Acho que Annabel teria ficado feliz – murmurei e encontrei os olhos de Marie fixos no meu. Não soube dizer o que se passava neles.
Marie pôs a mão no bolso da calça e retirou de lá duas moedas – um galeão e um dracma. Um símbolo do mundo olimpiano e um do bruxo, os quais nós duas sabíamos que para sempre seríamos conectadas.
– Eu assumo que você decidirá ir com seus amigos de volta ao Acampamento Meio-Sangue – disse ela – ou talvez a própria Hogwarts, não sei, mas tenho quase certeza que você vai acabar escolhendo não acompanhar eu, Auguste, Mildred e Montag.
Mordi o lábio inferior e encolhi os ombros.
– Eu... não sei, Marie – falei. – Ainda não tive tempo para pensar.
Mas eu sabia que um dia teria de tomar uma decisão; no final das contas, os híbridos estavam mais próximos de minha verdadeira identidade do que Hogwarts ou o Acampamento.
– De qualquer forma – disse ela – os híbridos vão se restituir. Fazer um novo Maelström, quem sabe, mas ainda vai levar tempo. Então, fique com as moedas para mantermos contato; o dracma pode ser utilizado nas mensagens de Íris e o galeão está encantado de forma a fazer chamadas. Se algum dia você sentir a necessidade de ir atrás de nós, Hermione, saiba que estaremos de braços abertos.
Olhei primeiramente para as duas moedas douradas, depois para os olhos castanhos de Marie, depois em direção a Harry, Ron, Annabeth, Percy e Nico. Minha cabeça voltou a doer, portanto apenas assenti quando encarei Marie novamente.
– Eu me lembrarei disso.
Auguste soltara as mãos de Zeus e agora vinha em nossa direção, conforme eu voltava ao outro lado do salão ao encontro de meu grupo. O híbrido deu um tapinha cúmplice em meus ombros, os lábios se puxando em um sorriso de vitória, assim que passei por ele. Retribuí tal cumprimento.
Eu já estava no meio do caminho quando uma voz, mais imponente do que as outras e cujas recordações dela eu só possuía em sonhos, me chamou:
– Hermione – ela era profunda e pareceu fazer meus ossos tremerem. Foi só nesse momento que minhas pernas fizeram me lembrar do quão cansada eu realmente estava.
Olhei para o lado, em direção ao centro do salão, e deparei-me com a figura alta de Poseidon.
A sessão havia chegado ao fim; com o canto de olho percebi que os outros deuses já se dispersavam pelo salão e Marie e Dupin já seguiam o mesmo caminho que Kingsley fizera, ao elevador.
Tornei a fitar meus amigos. Seus olhares entendiam que eu ficaria ali por mais alguns instantes, mas suas linguagens corporais indicavam que eles logo iriam lá para baixo também. Lembrei-me de que Neville, Luna, Gina e todos os outros estavam no saguão do Empire State.
Fiz um breve sinal para que eles não me esperassem; eu os alcançaria logo. Para Percy, porém, lancei um breve olhar de expectativa; afinal de contas, ele era meu meio-irmão. Ele abanou o ar com a mão, dispensando o convite, como se silenciosamente dissesse: já conversei com nosso pai
(“nosso” ainda soava de modo estranho tanto em minha mente como em meus lábios)
e esse momento deve ser de vocês. Vá em frente.
Abanei a cabeça afirmativamente e logo tive de desviar meu olhar do seu – aqueles olhos claros às vezes ainda me deixavam um tanto inquieta; e hoje, dado tudo o que havia acontecido, mais do que nunca.
Meu olhar, no entanto, voltou a encontrar o de Poseidon
(pai)
e quando tomei consciência de meus próprios movimentos, eu já havia coberto a distância entre nós dois e seus braços já enlaçavam meu corpo, da mesma forma que o cheiro salgado de mar parecia contornar o meu redor.
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