Segredos Malditos
9 Oberon
Notas iniciais
Segurei o pesado livro em capa preta, sem nada de título.
Na primeira página estava escrito em tinta preta:
Pertence a Oberon.
“Ewald era o meu melhor amigo. E eu acho que acabei de o encontrar em uma reencarnação. Eu o conheci quando criança, mas lembro dele quando rapaz e tem o mesmo rosto e a mesma voz que Dankan.
Pensei que fosse o destino trazendo meu passado de volta, porque eu sei o que eu fiz, mas o destino não teria sido tão cruel. Isso foi obra dele. Ele não morreu quando eu pensei que tivesse.”
Eu estava lendo o diário dele, pensei.
“Depois eu conheci o tio dele. Einar, e foi aí que tudo fez sentido, o velhote era o pai de Ewald com a mesma aparência de antes, como se os anos não tivessem passado!
Se eu me lembro bem, o velho tinha apoiado os humanos anos antes. Desgraçado!
Quando nós elfos, vivíamos juntos em comunidade e eu era apenas uma criança, os humanos chegaram. Eles foram bem recebidos no começo, foram nossos hóspedes e embora alguns de nós os temessem, eles ficaram em nossas terras, comeram nossa comida e aprenderam os nossos costumes.
Ewald e eu éramos como irmãos inseparáveis mesmo não tendo laços sanguíneos. Tudo mudou quando o seu pai Einar decidiu se juntar aos humanos. O plano deles era unir a cultura dos humanos e a dos elfos e tornar os dois povos em um só. Bobagem!
Eu disse a Ewald que ele iria acabar morto por um homem, mas ele não me ouviu e preferiu ficar ao lado de seu pai, que a esta altura já era amigo da raça humana. A minha família sempre foi a mais pobre da vila dos elfos, eu e meus pais usamos as roupas mais simples.
Se os elfos eram conhecidos por partilhar tudo, era um engano. A realeza sempre teve mais do que os outros, e mais do que precisava. Não demorou muito para que os humanos mostrassem o que queriam desde o começo: impor a sua cultura e suprimir a nossa. Forçaram o nosso povo a se batizar. E tentaram nos ensinar a abandonar o politeísmo.
Alguns elfos ainda não deixaram suas antigas crenças para trás. Ainda cultuavam os antigos deuses Toth, Ox, Askar, Aquarios, Leonis, Solus, Lunus e Humus.
Estes elfos estavam interessados em revoltar-se contra os humanos, e é claro que eu me uni a eles. No entanto isso me custou a vida dos meus pais. Ninguém esperava que os homens tivessem armas tão poderosas.
Os anos se passaram e embora a maioria dos elfos reais fossem imortais, os humanos tinham todas as informações que precisavam para se livrar da família real e ficar na liderança da vila. Nunca deveríamos ter confiado neles e passado os nossos conhecimentos.
Ainda havia uma esperança, encontrar a armadura lendária do rei dos elfos, junto com a arma de arco e flecha sagrados. E a rebelião queria isto.
Levou mais tempo do que desejávamos, pois estava em um local secreto do castelo real, mas eu a encontrei, ao mesmo tempo em que meu antigo amigo Ewald. Como tudo na cultura élfica, a armadura também já era de conhecimento dos homens, e um deles estava com a armadura. Por não ser um elfo, ele jamais poderia usar.
O que eu previ aconteceu. Ewald foi morto pelo humano, o meu melhor amigo! Foi aí que matei pela primeira vez, impiedosamente o homem e arranquei sua cabeça. O que eu fiz me impediu de usar a armadura do rei dos elfos. E também o arco de setas. Quando tentei segurar, algo me repeliu. Então percebi que estava amaldiçoado, o sangue humano nas minhas mãos, ou então eu nunca pude usá-la.”
O que Oberon fez estava descrito em seguida. Nas últimas páginas do diário estava escrito:
“Ele matou o elfo o afogando no rio sagrado dos elfos, Aquarios o mesmo nome do mais alto deus dos mares e da água. É claro que ele não seria idiota para pensar que apenas afoga-lo eu estaria livre dele. O apunhalou com a adaga élfica também.
Um elfo teria uma vida muito longa se o destino assim quisesse, e nunca seria morto por um humano ignorante, mas com o conhecimento dos elfos poderia tirar sua vida se assim quisesse. Uma lâmina abençoada por Ox deus da guerra e das habilidades com armas seria o ideal pois apenas os deuses élficos derrotariam um elfo.
Mesmo assim eu desconfio que ele não esteja morto. Todo elfo consegue se transformar em fantasma temporariamente, e se tornar intangível, e até mesmo transportar a sua alma em uma viagem, com treinamento intenso.
O garoto Dankan tem medo de se ver em espelhos e no reflexo da água, ele é fraco agora, mas na vida passada era perigoso. Depois que eu matei o humano meu amigo já estava morto. O segurei em meus braços e em voz baixa, chamei o seu nome e falei com ele o que eu queria quando estávamos separados o quanto eu o amava, sussurrando no ouvido do seu cadáver enquanto a vida deixava o seu corpo.
Agora que conheci o seu novo corpo e a sua nova vida, podemos ficar juntos de novo.”
Quando li isso pensei imediatamente na minha Catoptrofobia, medo de espelhos. Se em minha vida passada morri afogado, e a água é refletiva, como um espelho isso explicaria minha fobia irracional. E as vozes que ecoam na minha mente, é isso! Tudo está ligado como eu morri na outra vida.
As próximas páginas estavam riscadas agressivamente o meu nome completo. Dankan Isaac. Na última revelava o final de tudo.
“Depois disso eu fui coroado como o rei dos elfos. Por matar um humano a rebelião me quis como seu líder e eu pude ter tudo o que não tinha antes. A esta altura os elfos já estavam sendo usados para trabalho escravo pelos humanos. Levou tempo, mas conseguimos vencer todos os homens, libertar nosso povo da escravidão e expulsar eles de nossa terra!”
O diário se fechou sozinho.
— Entende agora, jovem? — A voz dele soou mesmo que eu não o visse.
O silêncio permaneceu depois que eu não dei resposta, e agora um barulho alto de passos ecoou. Alguém estava chegando.
— Quem está aí? — Estava muito escuro.
— Sou eu, Dankan! Seu tio! — A voz era grave e áspera.
— Tio Einar! — Corri para abraçá-lo, com saudades e alívio por ver que ele era real. — Você me achou!
— Não, você que me achou. É aqui que Oberon me mantem preso. — Revelou.
— Por que ele te mantém preso? Por causa daquilo que está escrito no diário? — Perguntei.
— Ele fez isso para te afetar. Tudo que ele quer é você como aliado. Porque ele não pode te vencer. Ainda tem o livro que te dei? Ele pertenceu a meu pai há muito tempo atrás. — Entoou titio, enquanto suas rugas se moviam pela sua pele e sua barba grande.
— Sim, tenho. Do que você está falando? Como eu venceria alguém que viveu tanto tempo?
— Ora, o tempo que ele viveu não o fez aprender como usar a armadura sagrada, fez? Ele tentou pelo menos. Muito menos o arco élfico, mas você conseguiu usar, não é? O fato de meu irmão ter mudado de aparência e meus sobrinhos foi para desestabilizar você, Dankan. Ele queria fazer pressão psicológica em você.
— Eu não entendo. Se eu sou mesmo o Ewald, não deveria ser mais útil do que sou agora? — Fiz mais uma pergunta. Era muita informação para processar.
— E você é. encontrou todas estas cartas sozinho, seguindo apenas as minhas anotações. Estou orgulhoso de você. — Meu tio falou de um jeito paternal, afinal Ewald ainda era o seu filho, e eu a sua reencarnação. Vencer Oberon não deve ser tão fácil quanto encontrar cartas, pensei. Afinal ele é o rei dos elfos.
— Não se faça de inocente, velho. — Uma terceira voz masculina se fez presente. — Ganhou alguma coisa com a invasão dos humanos, não ganhou? Caso contrário não teria sido tão cúmplice daquele golpe!
Era Oberon, certamente. Lembrei das anotações do diário que li quando ele falou, de quando Einar era do povo elfo e ficara do lado dos humanos. O que fazia dele...um elfo?
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