Segredos Fatais
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Ok, então talvez sair dançando loucamente por uma casa que não é minha não tenha sido uma das ideias mais brilhantes da história!
Claro, já que eu sou um ser excepcionalmente inteligente e sensato, esse pensamento nunca passou pela minha cabeça, a música simplesmente me dominou e eu não tive escolha... Ou talvez eu não quisesse ter. Independentemente das minhas razões, no entanto, eu sabia que agora não havia mais escapatória.
Virei-me lentamente em direção à porta da cozinha e tirei meu cabelo emaranhado da frente dos olhos para poder ver a silhueta esbelta de Alexander casualmente encostada na parede. Ele era a imagem perfeita da calma. Braços cruzados na altura do peito, cabeça levemente inclinada para o lado e aquele sorrisinho esnobe que eu tanto odiava (ou será que eu gostava... honestamente, eu não sei!) estampado em seu rosto.
Sim, eu estava morrendo de medo de perder meu emprego, mas eu estava com mais medo ainda de manter o emprego e ouvir sobre esse momento o resto do ano. Alexander sabe ser bem irritante quando quer e ele nunca me deixaria em paz. Então, considerando que eu já tinha jogado o bom senso e a sabedoria para escanteio, eu decidi apostar todas as minhas fichas quando dei três passos lentos em sua direção, apresentei o sorriso mais malicioso e zombeteiro que sou capaz de produzir e disse:
“Claro que não! Quando eu acho que estou sozinha eu não me incomodo em usar pijamas.” Pisquei pra ele.
É um milagre que eu não tenha sido jogada pra fora daquela casa no mesmo instante. Mas eu acho que ele estava muito ocupado tentando não babar quando sua boca ameaçou formar um "O" perfeito de surpresa. Eu nem tentei lutar contra a gargalhada de vitória que surgiu em minha garganta quando vi o choque congelar sua posição na parede.
Ponto pra mim!
Afastei-me dele andando de costas e fui até o balcão para recolher minha comida e continuar com os meus planos de sábado à noite. De alguma forma eu consegui equilibrar todos os itens nos braços e fui passando ao lado dele na porta ainda aproveitando o gostinho da vitória. Foi quando eu senti um peso ser aliviado de meus braços. Alexander tinha tirado o refrigerante e o pote de sorvete de cima da caixa de pizza e estava me seguindo em direção as escadas.
“O que você acha que está fazendo?” eu perguntei me virando de frente para ele.
“Evitando que Kate tenha que lavar as escadas pela segunda vez nessa semana” ele respondeu irônico.
“Eu posso muito bem carregar minha própria comida para o quarto.” Eu respondi em tom de indignação.
“Você não parecia assim tão certa dessa teoria um pouco antes de dar aquele showzinho ali na cozinha...” ele comentou com aquele sorriso zombeteiro característico. Merda, ponto pra ele!
“Vigiar uma mulher na cozinha, analisar as suas ações e assistir enquanto ela dança... não são essas as características principais de um stalker?” eu rapidamente respondi. Ele não ia ganhar essa discussão sem uma luta, minha dignidade dependia disso.
Alegrei-me brevemente pelo brilho de surpresa e ódio que passou pelos seus olhos, mas o empate não durou nem um minuto, pois ele rapidamente retrucou:
“Eu não estava perseguindo ninguém, a culpa não é minha se você resolveu exibir seus passos de dança no meio da minha cozinha! O mínimo que eu podia fazer era observar!” a falsa inocência em sua voz só durou até ali, porque ele logo acrescentou em um tom de zombaria mais pesado que o anterior: “Desculpe eu deveria ter jogado uma moeda pra você no final?” isso me parou.
Então é guerra que você quer? Aqui vai!
“Você não deveria estar em casa a essa hora, eu que faço o seu itinerário, lembra? Sábado a noite, das 20:00h até no mínimo 01:00h você tem um espaço reservado em branco no seu calendário, eu não esperava ter uma plateia. Na verdade, o que está fazendo em casa mesmo? Não tem alguma vadiazinha bêbada esperando em alguma boate por você? Eu não gostaria de impedir essa pobre garota de acordar sozinha depois de uma noite com o grande Alexander Monroe!” Ok, talvez eu tenha pegado um pouco pesado nessa, mas a minha pizza estava esfriando, eu estava com fome e essa nossa briguinha tinha deixado de ser amigável um tempinho atrás.
Ele até recuou depois dessa. Ao contrário do que eu imaginei que aconteceria, seus olhos azuis não gelaram completamente quando eu o ataquei. É isso que geralmente acontece quando ele é desafiado, a frieza que aquelas joias azuis transmitem sempre garante que o desafiador saiba que cometeu um erro. Sua expressão demonstrava choque, ultraje, uma pontada de tristeza e indignação. Era como se eu tivesse realmente atingido um nervo com essa frase.
“Droga Vanessa! Será que é tão difícil assim pra você acreditar que tudo o que eu quero é te ajudar?” Ele esbravejou jogando os braços para cima fazendo com que o pote de sorvete voasse até o outro lado da sala se espatifando no chão com um eco.
Tudo congelou por um segundo. Eu podia muito bem simplesmente continuar o meu caminho e ir terminar a minha noite em paz, a culpa tinha sido toda dele afinal, mas o que eu disse tinha tirado ele do sério muito rapidamente e eu senti que algo de mais estava acontecendo então decidi trazer o tom alegre de volta à nossa conversa.
“Dá pra ver que você está mesmo preocupado com o trabalho de Kate para limpar sua casa” eu observei enquanto colocava a caixa de pizza, o copo e a colher no primeiro degrau da escada e fui saindo em busca de produtos para limpar aquela bagunça.
“Aonde você vai?” ele perguntou confuso e ainda um pouco em choque.
“Limpar a sua bagunça Alexander, não é isso que você me contratou pra fazer?” Só então eu percebi que essa era a primeira vez que eu o chamei pelo nome.
* * *
Eu sempre me perguntei por que ex-bilionários quase sempre acabavam nas ruas depois de perder sua fortuna. Quer dizer, eles no mínimo podiam arranjar um trabalho qualquer para se manterem em uma classe mais baixa certo? Errado!
Depois de assistir as tentativas de Alexander de limpar a sujeira do sorvete eu concluí que, apesar de essa regra não se aplicar a todos, os bilionários não tem a menor ideia de como limpar... Basicamente nada.
Pra começo de conversa, Alexander não sabia nem aonde Kate guardava os equipamentos de limpeza. Eu que tive que descobrir que o armário que ficava abaixo das escadas era onde todos os produtos estavam. Peguei um pano, um rodo e um balde com água para lavar o pano depois que o chão estivesse limpo. Deixei tudo no local da sujeira e fui jogar a embalagem do sorvete no lixo da cozinha. Quando voltei encontrei o chão todo molhado, já que Alexander achou que a forma mais eficiente de se livrar do sorvete era lavar o chão, isso me proporcionou no mínimo mais 10 minutos de trabalho.
Quando finalmente consegui me livrar de toda a água e sorvete, voltei ao pé da escada, recuperei o resto do meu jantar e comecei a ir em direção ao meu quarto. Alexander me seguiu com o refrigerante em mãos e eu não reclamei. Entrei no quarto e coloquei tudo em cima da escrivaninha, virei para a porta e encontrei Alexander do lado de fora com uma expressão hesitante estampada em seus olhos, como se fosse um vampiro não convidado a entrar. Bom, se esse era o problema...
“Não fique aí parado, entre aqui. Você merece um pedaço de pizza depois de seu primeiro trabalho braçal” eu ri baixinho.
Ele sorriu e vagarosamente veio depositar o refrigerante ou lado da pizza e depois ficou parado olhando pra mim como se não soubesse mais o que fazer. Eu tentei esconder um sorriso de compaixão dizendo:
“Bom, que tal você ir arranjar um copo enquanto eu vou me trocar?” eu falei, apontando para minhas calças que estavam molhadas graças aos dotes de limpeza do meu amado chefe.
Ele simplesmente concordou com a cabeça e saiu do meu quarto enquanto eu me dirigi ao banheiro para me trocar. Quando já estava usando a calça de outro pijama, me sentei no felpudo tapete cor de marfim em frente a minha cama, com a pizza e refrigerante na minha frente, eu tentava escolher um filme pra ver no Netflix.
Antes do meu encontro inesperado com Alexander meus planos se resumiam a fazer reprises de O Senhor dos Anéis ou algo assim, mas cada filme da saga dura 3 horas ou mais e eu não tinha certeza se queria que Alexander ficasse no meu quarto por tanto tempo. No fim acabei me decidindo por uma comédia romântica qualquer e fui ajeitando minha comida enquanto esperava ele chegar.
“Então, o que estamos assistindo hoje?” a voz de Alexander me parou no meio da tarefa de colocar refrigerante no copo.
“Filme de mulher.” Eu respondi com um sorriso zombeteiro tentando invadir meu rosto. Mas tomou conta de mim completamente quando vi sua expressão de falso pânico.
“Ei, minha comida, meu quarto, minhas regras camarada!” eu brinquei.
“Minha casa?” suas palavras saíram mais como uma pergunta do que uma observação.
“Não, da porta pra fora a casa e sua, da porta pra dentro você está sob os meus domínios” eu sorri e ele me acompanhou.
“Ok então” ele respondeu caminhando para vir sentar ao meu lado, só então eu percebi a diferença em sua aparência. Ele tinha tirado paletó, desabotoado 3 botões de sua camisa azul, estava descalço e seu cabelo estava levemente fora de ordem. Eu nunca tinha visto Alexander tão informal.
Teria sido uma visão agradável se não fosse pela sua expressão. Ele parecia cansado, abatido e desesperado por uma distração. Alexander não estava vestido daquela forma porque queria relaxar assistindo a um filme brega na TV, a razão de seu desleixo é que ele não ligava o suficiente para parecer apresentável.
Quando eu percebi isso meu coração apertou. Ele não era meu melhor amigo e eu não tinha o direito de me envolver nos problemas dele, mas meu primeiro instinto foi dar um abraço e tentar consola-lo. Felizmente eu não tive tempo o suficiente de tomar essa decisão já que ele simplesmente pegou o controle da TV e apertou play.
* **
Foi uma noite surpreendentemente divertida. No começo nos dois estávamos um pouco desconfortáveis com a situação, mas logo que começamos a comentar o filme e rir das piadas clássicas de toda comedia romântica a atmosfera entre nós se tornou leve e confortável. Como se fossemos amigos desde sempre.
Quando o filme acabou, no entanto, a alegria despreocupada fugiu de seus olhos e eu voltei a sentir aquela dorzinha no meu coração. Chame de instinto maternal, empatia ou compaixão, mas eu não podia deixar que ele saísse sem desabafar. E eu também não podia dizer: Sabe Alexander, você está com uma cara horrível e parece triste, que tal você desabafar comigo sobre o que quer que esteja te incomodando?
Antes que eu conseguisse formar um plano não tão ridículo para que ele não fosse embora ainda Alexander se levantou, andou até a minha escrivaninha e pegou o baralho que estava lá em cima.
“Que tal uma partida de poker?” ele perguntou.
“Hum... Não sei. Você tem certeza que quer ser humilhado por uma garota de novo em uma noite só?” eu zombei.
“De novo?” ele levantou uma sobrancelha acentuando a dúvida em sua voz.
“Tentar alagar a casa pra limpar uma mancha pequena de sorvete e perder vergonhosamente no poker se nós jogarmos.” Eu respondi enumerando com meus dedos.
“Eu acho que vou correr o risco” ele respondeu sorrindo e sentando novamente no tapete, dessa vez na minha frente.
“Droga, eu tenho que ir buscar as fichas na sala de jogos. Qual vai ser a aposta mínima? 100 dólares?” Ele perguntou quase levantando.
“Primeiro, você não me paga o suficiente pra eu poder apostar NO MÍNIMO 100 DÓLORES. Segundo, mesmo que eu ganhasse tanto assim eu não jogaria poker com você apostando dinheiro.” Eu respondi.
“E porque não?” uma mistura de curiosidade e irritação coloriu o seu tom.
“Porque não tem graça!” eu respondi como se essa resposta fosse mais óbvia que 2+2=4.
“Como ver você apostando seu salário mensal não tem graça?” Disse Alexander num tom de puro sarcasmo.
“Simples. Perder algumas centenas de dólares não ia mudar a sua vida em nada. É muito fácil, para milionários como você, apostar dinheiro porque não faz muita falta.”
“Então o que você sugere? Já vou avisando que se vamos jogar strip-poker eu vou precisar de uma dose de Whisky primeiro.” Ele gargalhou e eu dei um tapa de brincadeira em seu braço.
“Não, eu tenho uma ideia melhor. Vamos apostar segredos!” eu disse com um sorrisinho malicioso.
“Segredos?” ele respondeu arregalando os olhos.
“Sim, se você perder a rodada eu tenho o direito de te fazer uma pergunta sobre qualquer coisa e você tem que responder não importa o que seja. O mesmo vale pra mim.” Eu retruquei. Essa era a melhor forma de perguntar mais sobre o que quer que o estivesse incomodando sem ser estranho.
Ele pensou um pouco. Eu podia ver as engrenagens girando em sua mente. Ele estava analisando exatamente quais os riscos de jogar comigo, quando eu estava prestes a sugerir que jogássemos por dinheiro mesmo ele disse:
“Ok.”
Eu respondi com um sorriso tímido e comecei a embaralhar as cartas. Distribuí as cinco cartas da mesa (Estávamos jogando o estilo Texas Holden). Ele cortou o baralho e eu distribuí duas cartas para cada um.
Ele olhou para suas cartas e, é claro, eu não consegui decifrar a sua expressão. Isso é o que eu chamo de pokerface. Olhei para minhas próprias cartas e a decepção me bateu forte.
Um 4 de paus e a rainha de copas. Droga! Minha única chance agora seria apostar nas cartas da mesa e eu não estava muito animada com essa opção, mas era a minha única chance.
Esse foi o momento em que uma pontada de arrependimento passou por mim. O que me possuiu pra jogar por segredos? Com certeza eu tenho mais segredos que ele, ou no mínimo, segredos mais perigosos! Eu tenho que para de fazer as coisas por impulso!
Mas não havia mais escapatória agora. Alexander virou as três primeiras cartas: 2 de ouros, Ás de copas e (gloriosamente) rainha de ouros. Pelo menos eu tinha uma dupla agora.
“Vai continuar?” ele perguntou. O fato que seu rosto não demonstrava emoção absolutamente nenhuma me assustou um pouco. Com certeza eu ia acabar contando o primeiro segredo! A coisa inteligente a se fazer seria fugir agora, mas eu acho que já estabelecemos que inteligência e bom senso não são minhas qualidades mais marcantes certo? Por isso não deve ser uma surpresa o fato que eu simplesmente acenei com a cabeça e ele virou a quarta carta.
2 de paus. Bom, isso não me ajuda em nada. Seu olhar me perguntou se poderia virar a ultima carta e eu acenei torcendo pra que fosse outra rainha, mas como (além de burra) eu sou azarada um 3 de copas deu as caras.
“Ok, senhorita Miller, vai querer apostar?” ele perguntou. Droga de pokerface! Eu devia saber que ele seria bom nesse jogo.
“Claro!” eu escondi minha apreensão num sorriso debochado. Ele colocou as cartas no chão ao mesmo tempo q eu e ele tinha um Ás de copas e um dois de ouros enquanto eu tinha minha humilde dupla de rainhas (mais a dupla de dois da mesa).
O cara fez um Full House, é isso mesmo produção? Eu chequei de novo. Sim, dois Ás e três 2 (contando com as cartas da mesa, é claro)! Um meio sorriso debochado e malicioso apareceu no rosto de Alexander e eu me preparei para o pior.
“Ok. O que você gostaria de saber Monroe?” eu desafiei. Estava morrendo de medo por dentro, mas ele não precisava saber disso.
“Hum...” ele fez pensar, mas eu sabia que ele já tinha uma pergunta em mente. “Você sempre dança pelada quando está sozinha?”
Não! Diz pra mim que ele não começou logo com essa! Por que mesmo eu fui falar aquilo?
A pergunta, obviamente, me chocou um pouco e eu sabia que ele tinha notado o pânico em meus olhos, mas eu não estava prestes a entregar o jogo antes que ele começasse. Então eu levantei levemente o canto direito da minha boca, me inclinei na sua direção e baixei minha voz ao dizer:
“Eu nunca disse que dançava pelada Alexander. Eu disse que não me incomodava em usar pijamas” pisquei pra ele e me afastei. A satisfação de vê-lo perceber o feitiço se voltando contra o feiticeiro foi impagável (mesmo que só tenha durado um segundo). Ok, talvez esse jogo não tenha sido uma ideia tão má afinal de contas.
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