Segredos Fatais
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Não! Diz pra mim que ele não fez isso? Em que mundo ele achou que me fazer passar vergonha em meio ao público mais critico, incluindo o meu chefe, seria uma boa forma de me atrair?
Ao meu redor eu pude quase ouvir os pensamentos dos ricaços esnobes:
“Quem ela acha que é pra fazer uma cena desse jeito?”
“Essa é a nova assistente do Alexander?”
“Espera aí, ela não estava transando com o Monroe?”
“Quem é essa vadiazinha que acha que pode enrolar os dois jovens mais ricos da festa?”
Dentre outros comentários ainda mais revoltados ao meu redor. Mas essa não era a opinião que mais me importava. Eu passei os olhos pelo salão até me encontrar com o olhar de Alexander.
Para alguém não familiarizado com as expressões confusas de Alexander Monroe, pareceria que ele estava simplesmente aborrecido por terem interrompido sua dança com a loira estonteante em seus braços, mas pelo frio congelante que passou pela minha coluna ao fitar suas geleiras azuis eu soube que ele não estava gostando nem um pouco da ideia.
Honestamente eu não o culpava. Homens podem ser muito territoriais quando se trata de... Bom, praticamente qualquer coisa. Mesmo que eu e ele não estivéssemos socialmente envolvidos, ou tivéssemos qualquer intenção de estar, o resto das pessoas nessa sala achava que eu era algum tipo de propriedade dele. Não pode ser legal assistir o seu melhor amigo dar em cima da “sua garota” na frente de todos os empresários com os quais se trabalha. Se essa não fosse uma ideia tão machista, sexista e antiga eu teria sentido pena dele.
Eu decidi ignorar o comportamento dele, afinal nós dois sabíamos que ele não tinha razão alguma para me despedir. Virei-me novamente para o sorriso angelicalmente esperançoso e travesso de Matt e acenei. Dando a ele o sorriso mais brilhante que eu fui capaz de produzir.
* * *
Marcamos o encontro para o final de semana seguinte e ele me disse que iríamos ao cinema e depois jantaríamos. Na hora parecia perfeito, mas ao passo que as horas iam passando nesse domingo eu ficava cada vez mais ansiosa.
Eu tinha saído para comprar algo decente para usar nesse encontro durante a semana. Usando o meu próprio dinheiro eu tive que ser mais seletiva com as lojas que olhava, mas considerando que eu nunca tive muito dinheiro, fazer muito com pouco sempre foi uma especialidade minha. Acabei comprando um vestido creme bem soltinho e sandálias azul-escuro para a tão esperada noite. Eu agradeci por ser verão, já que, com o inverno de Chicago eu não teria o orçamento para comprar roupas adequadas.
19:30 e eu estava pronta para o meu primeiro encontro com Matt Johnson. Ou bom, tão pronta quanto se pode estar com uma nuvem de borboletas ameaçando fugir do seu estômago para a sua boca...
* * *
Minha preocupação esvaiu-se assim que entramos no carro de Matt. Ele era ótimo em fazer você esquecer os problemas. Passamos o tempo todo tirando sarro um da cara do outro e nos divertindo com piadas internas. Absolutamente confortável.
Quando chegamos ao cinema, optamos por um filme de ação. Daqueles que tem explosões extraordinárias originadas apenas de uma Glock 45, códigos de computador que decodificam qualquer programa em segundos, acontecimentos impossíveis e personagens idealizados. Ele parecia levemente surpreso com a minha escolha, mas nem um pouco incomodado. O que eu posso dizer? Eu sou uma nerd de coração!
Não que o filme não fosse bom, porque na verdade era muito bem feito. Com ótimos efeitos especiais, roteiro e atores tão bons que podiam muito bem fazer milhões lendo a lista telefônica na frente da câmera. Mas lá pela metade eu me achei levemente decepcionada.
O herói é preso pelo grupo terrorista em questão e torturado. Ou pelo menos era assim que deveria ser.
Sério mesmo que isso era tudo que Hollywood pode fazer? Eu não sei se o produtor queria guardar o dinheiro para gastar com as sequencias de luta e não com sangue falso, ou se o roteirista simplesmente não tinha noção do significado da palavra dor, mas aquilo que mostraram não pode ser classificado como tortura.
Com apenas alguns golpes o herói já aparentava estar à beira da morte, mas só havia uma pouca quantidade de sangue saindo de um corte em sua esta e do seu nariz. Sem hematomas gigantes devido a costelas quebradas, ou dentes tingidos de sangue. Sem gritos agonizantes, sem lagrimas involuntárias caindo de seus olhos, sem o ódio cego em seus olhos... Definitivamente isso não era uma tortura.
Eu até estava determinada a relevar tudo isso pelo bem do filme e ignorar a minha própria experiência quando o carrasco manuseou um chicote e golpeou o chão com ele. O som eletrizante mandou uma corrente gelada pela minha coluna, eu comecei a suar frio e respirar tornou-se uma tarefa complicadíssima. Eu sabia o que estava por vir, e eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer para parar. Tudo o que eu podia fazer era fechar os olhos e esperar que Matt não notasse a minha reação enquanto os pesadelos que eu chamo de memórias invadiram a minha mente.
* * *
Acordo ao me chocar em algo frio e rígido, uma dor latente se espalha por meu corpo e minha cabeça lateja enquanto sinto algo viscoso escorrer por minha face.
“ Não sei o que Dimitri vê de tão promissor em você...” uma voz ecoa em meio à escuridão que me cerca.
Abro lentamente os olhos e me deparo com um homem alto e careca de pele branca, sob seu olho direito se estende uma cicatriz que deixa seu olhar ainda mais assustador. Tento me levantar e após um esforço sobre humano, consigo. Encaro-o confusa, a névoa em minha mente ainda não se dispersou.
“Quem é você?” questiono-o enquanto busco apoio na parede mais próxima a mim.
O homem sorri com uma satisfação perversa e caminha lentamente em minha direção, a cada passo seu eu me contraio mais contra a parede até que estamos próximos o suficiente um do outro para que eu sinta o cheiro da vodka que parecia estar presente no halito de todos os russos.
“Você não precisa saber!” ele sussurra ameaçadoramente em meu ouvido deixando todos os músculos de meu corpo retesados em alerta.
Ele recua calmamente e vai até uma pequena mesa metálica do outro lado da sala. Atrás dela há uma porta a qual está ladeada por dois brutamontes de semblantes quase tão amedrontadores quanto os do homem.
Preparo meu corpo porque o que esta por vir vai redefinir a minha definição de dor (ela vem sido redefinida quase todos os dias durante... há quanto tempo que estou aqui mesmo?). Agora tudo o que eu tenho de fazer é focar no que eu aprendi durante esse tempo.
Guia para iniciantes na arte de manter a boca fechada sob tortura
Se você for pego e não houver como fugir não se deve reagir, afinal se o fizer as coisas só irão ficar ainda piores.- Eu tenho a leve sensação de que o ditado: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.” Foi inventado especificamente para as vitimas de tortura.
A única parte do corpo que se pode proteger durante uma sequencia de tortura é a mente. Por mais atrativas que sejam as promessas que o carrasco lhe fará, nenhuma delas é real.
“Tenho a sensação de que vamos nos divertir muito hoje Vanessa!” o homem diz sorrindo de uma forma doentia enquanto pega um soco inglês e o posiciona em sua mão.
Ele vem até mim calmamente e me observa como um predador a sua presa. Eu não estou com medo, pelo menos não como estava da primeira vez. Eu não vou implorar, eu não vou me humilhar, eu sei que não adianta. Tudo o que eu quero é que isso acabe logo.
“Qual é a sequência?” ele me questiona e eu permaneço muda e me pergunto se essa sequencia é realmente importante ou só um bando de números sem sentido. Provavelmente a segunda opção. Um sorriso de satisfação se forma em seus lábios “Obrigada por não responder, isso deixaria as coisas muito menos divertidas!”
E então mais rapidamente do que meus olhos conseguem captar ele desfere um soco em meu maxilar. Tudo o que sinto é o metal frio se chocando com minha pele e fazendo minha cabeça girar enquanto eu me agarro à parede para não cair. Uma dor horrenda se alastra do ponto de impacto em direção ao restante de minha cabeça, apenas sinto essa dor, o restante de meu corpo parece dormente em reação ao golpe.
O homem agarra meus cabelos e arremessa meu corpo em direção ao chão (porque mesmo eu tenho cabelo comprido?), tento cair em uma posição que me machuque menos, mas isso é impossível já que todos os meus músculos tem a mesma consistência de gelatina.
Antes que eu possa me reerguer sinto algo atingir minhas costelas fazendo uma pontada de dor penetrar meu peito e se espalhar rapidamente por todo meu corpo fazendo cada hematoma gritar em protesto. Eu mando o meu corpo calar a boca e tento proteger meu tórax com os braços, mas isso é inútil. Ele sabe que é isso que eu vou fazer e antes mesmo que eu tente, ele já está chutando minhas costas com toda força, é um milagre que eu ainda não tenha ficado aleijada. Meu amigo fôlego me deixa então eu tento rodar meu corpo para a direção oposta, mas ele me segura e faz com que eu fique deitada de frente para ele.
“Se me disser ao menos o primeiro número eu prometo que serei mais... Condescendente!” ele diz enquanto se posiciona sobre mim prendendo minhas mãos com seus joelhos.
Ele sorri perante meu silencio e tira seu, sobretudo jogando-o ao chão, então ele volta sua atenção para mim.
“Um número e eu serei mais bonzinho... Quem sabe eu até pare para que nós possamos nos divertir de outra forma!” ele diz e sorri enquanto eu concentro todas as minhas forças em não reagir a sua provocação
“Ouvi dizer que as garotas do Dimitri são muito prestativas...” ele sussurra em meu ouvido e eu perco o controle. Eu me mantive razoavelmente lúcida até agora, mas eu não acho que posso suportar abuso sexual... Isso seria a gota d’água.
“Vai se ferrar!” murmuro pausadamente. Sim, eu sabia que agora só ia ficar pior, e que ele ia levar a minha frase como uma ofensa pessoal (tipo xingar a sua mãe, ou chutar o seu cachorro) e eu devia seguir meu próprio conselho e calar a boca. Bom, se algum dia você passar por essa situação você vai entender que: Foi mais forte que eu!
“Parece que afinal você não é feita de ferro!” ele diz deliciado com minha reação e desfere uma outra agradabilíssima leva de socos.
Sinto os impactos se alastrarem por meu tórax e rosto e seguro o grito de dor que está engasgado em minha garganta. Não vou dar a ele o prazer de me ouvir gritar. Mesmo que eu quisesse, eu acho que não teria fôlego suficiente para que fosse audível.
O homem se levanta e me observa satisfeito. Ele não devia estar bravo? Será que eu disse a combinação e nem percebi? Não. Eu não vim até aqui para desistir assim. Eu tenho que voltar para a minha família, a única forma de fazer isso é ser livre, e para ser livre eu tenho que ser um deles. Então eu cerro os punhos e tento permanecer impassível para não demonstrar como estou sofrendo.
A tentação de contar a ele o primeiro número da sequencia se aproxima de minha mente, mas eu a afugento e me concentro em puxar o máximo de ar que meus pulmões doloridos conseguem.
“Você é fraca Miller! Olhe pra si mesma, destruída no chão! Você é a mais fraca que eu já tive a oportunidade de testar!” ele diz e ri deliciado.
Uma fúria estonteante assume o controle de meu corpo e eu gasto a pouca força que me resta me colocando de pé. Eu não vou deixar que ele esteja certo.
Ergo-me lentamente até ficar completamente ereta, uma onda de dor ainda mais forte se alastra por meu corpo e eu cambaleio para trás. O homem ri divertido e agarra meus cabelos jogando-me ao chão novamente, ele chuta minhas pernas tão fortemente que não será surpresa se algum osso meu tiver trincado com o impacto.
Minha visão começa a escurecer. Não, não Vanessa! Sem essa de dormir! Eu não posso fraquejar, esta é minha única chance.
E é aí que o protagonista dos meus pesadelos aparecer para brincar. Um chicote. Ouço o som arrepiante ecoar pela sala fria e o meu coração, já fraco, para. Nada até agora me fez produzir tanto terror do que a visão do meu carrasco bater o instrumento no chão próximo a mim duas vezes. Uma delas quase atinge meu rosto.
“Certo, se é assim que você quer, não vou ser mais gentil! Dê-me a sequencia!” ele diz exaltado, pareço ter ferido algum ponto de seu ego, pois seus olhos demonstram uma pontada de frustração. Uma pequena pontada de orgulho penetra a onda de dor e medo quando eu noto isso.
“Isso é o melhor que pode fazer?” digo já prevendo as consequências. Mas vale muito a pena porque antes que eu sinta o choque rasgante do chicote sobre meu braço eu me delicio ao ver uma leve fúria remoldar a sua expressão. Afinal ele não é tão desumano quanto eu pensei.
“Última chance!” ele diz e pausa como se esperasse que eu fosse realmente falar, mas minha ultima vitoria me deu uma ultima reserva de força. Eu não quero nem soltar um gemido de dor. Ele me dá mais algumas chicotadas, não consigo dizer quantas, já que pensar e sentir dor não andam juntas.
“Levante-se!” ele grita e eu me encolho junto ao chão.
Não é como se eu fosse capaz de levantar agora, mas mesmo que pudesse, não o faria. Sempre tive problemas com autoridade.
“Certo, então eu vou te ajudar!” ele diz e caminha em minha direção segurando o chicote com as duas mãos.
Ele desfere um chute em minha lateral fazendo com que eu fique deitada de bruços no chão, então sinto algo frio em volta de minha garganta, e em seguida me encontro dependurada no ar com o chicote em volta de meu pescoço. Por essa eu não esperava. Estão ensinando novos truques na escola de tortura?
O homem me iça com uma força anormal e ri enquanto eu me engasgo com o próprio sangue. Tento avidamente me livrar dele colocando as mãos entre o chicote e a pele de meu pescoço, mas isso só parece fazer tudo piorar.
Forço meus pulmões a puxarem ar, mas as minhas costelas quebradas não deixam. Puxo com todas as minhas forças o chicote e me debato na esperança de me libertar. Claro que isso é impossível, mas eu sempre fui uma pessoa otimista.
“Imagino como deve ser agonizante sentir a morte tão de perto!” o homem murmura em meu ouvido e então me lança ao chão.
O impacto é forte, mas parece nulo diante das dores que já dominam meu corpo. Respiro desesperada o precioso ar que me cerca e me delicio ao senti-lo invadir meus pulmões. Danem-se as minhas costelas quebradas.
“Vamos usar isso adequadamente! Que tal?” o homem diz e gesticula para os brutamontes que ladeavam a porta fazendo-os se aproximarem – Tirem as roupas e prendam-na as correntes!
Eles vêm em minha direção e rasgam minhas roupas inundadas de sangue, em seguida um deles me levanta e o outro puxa duas correntes que estavam no teto. Eles prendem meus pulsos a elas e se afastam.
Minha cabeça despenca sob meu tórax. Meu pescoço não serve para mais nada além de proteger a minha garganta. Abaixo de mim vejo uma poça escarlate se formando com o sangue que escorre do que parece cada poro do meu corpo.
Quer saber? Talvez eu não seja tão forte quanto pensava, sinto a sequencia de números formigar em minha língua. Dessa vez eu ia contar. Felizmente, antes que eu possa cometer o erro estúpido de pronuncia-la sinto o chicote cortar ardidamente a pele de minhas costas.
Vultos negros surgem em minha visão a cada chicotada e eu sinto meu corpo começar a desistir lentamente. Estou chegando a meu limite, posso sentir isso em cada ferida aberta na extensão de meu corpo. A essa altura não me importo com mais nada, com as consequências de falar a sequencia ou com a dor das novas chicotadas que são desferidas em minhas costas, neste instante meu orgulho parece diminuto se comparado com a doce inconsciência que estou prestes a alcançar.
Meus olhos se fecham pesadamente enquanto meu corpo desiste, mas então eu me lembro de que a única forma de escapar é me tornar uma deles, e para isso eu não posso desistir. Abro os olhos e travo minha mandíbula fortemente. A mente controla o corpo, não o contrário.
As chicotadas param e eu vejo o homem andando em volta de mim demonstrando uma espécie doentia de fascínio e frustração. Ele para a minha frente e puxa meus cabelos.
“Afinal, você parece ter um futuro brilhante!” ele diz e a ultima visão que tenho é a de seu punho vindo em direção a meu rosto.
* * *
Eu dei um leve sobressalto na cadeira quando meu ataque de pânico + flashback acabou. Felizmente a explosão acontecendo na tela foi uma boa desculpa para a minha reação então quando Matt me olhou ele simplesmente sorriu e passou seu braço ao meu redor em um confortante meio abraço. Ele nunca saberá o quanto aquilo foi importante pra mim. 2 anos de terapia, milhares de técnicas para que eu me acalme, mas após um dos meus, agora raros, ataques de ansiedade a única coisa que eu queria era ser confortada. E mesmo que ele não soubesse o que estava fazendo, aquela pequena pressão ao meu redor significou o mundo pra mim. Foi também o que me manteve sã o resto do encontro. Afinal é de se imaginar que, depois de uma lembrança dessas, eu não fosse capaz de comer ou manter uma conversa inteligível, muito menos divertida, mesmo após os anos de prática que eu tive. Mas eu automaticamente associei o rosto de Matt com conforto e me forcei a agir normalmente (ou tão normal quanto eu posso ser) enquanto ignorava os resquícios de pesadelo pairando no fundo de cada pensamento.
Nós rimos, brincamos, comemos em um restaurante caro e fomos para uma caminhada à luz do luar no parque Millenium e rimos dos nossos reflexos no Bean, uma escultura de um feijão gigante feita de um material espelhado de uma forma que distorce a imagem. No final da noite, ele segurou a minha mão sobre o banco do carro até o portão da mansão Monroe e, quando eu estava pronta para começar a me preocupar com o beijo de boa noite, ele mandou o motorista parar o carro, saiu e me puxou com ele.
Quando leu a interrogação em meus olhos ele sorriu calmamente e disse:
“Sentir les roses Vanessa!”
“Cheirar as rosas?” eu perguntei sem entender. Eu sabia a tradução de suas palavras em francês, mas o significado delas estava perdido para mim.
“Sim! Significa aproveitar o momento.” Ele pausou nossa caminhada e olhou fundo nos meus olhos antes de continuar “Talvez eu não esteja pronto para que essa noite acabe!”
Eu derreti por dentro. A chama calma que sempre queimava nos olhos esverdeados de Matt estava mais brilhante do que nunca, combinando com a lua. A visão toda me fez sentir dentro de um filme, e o poder de suas palavras me inundou de uma forma calma e progressiva produzindo um sorriso em meu rosto.
“Talvez eu não esteja pronta para que essa noite acabe também.” Eu disse omitindo a parte em que, assim que ele fosse embora o meu pesadelo voltaria para a parte central de minha mente e eu não seria capaz de dormir. Matt não precisava saber o quão perturbada eu sou logo no primeiro encontro.
Sem esperar por mais nada ele simplesmente sorriu e me puxou pela mão enquanto continuávamos caminhando lentamente pela longa trilha até a porta da frente.
“Então quer dizer que você também fala francês?” ele iniciou alguns segundos depois.
“Não muito na verdade, mas quando você sabe português e espanhol, francês fica mais fácil de decifrar!”
“Português e espanhol hein? O que mais você fala Srta. Miller?” ele fala naquele tom Jane Austen que sempre me faz sorrir.
“Eu sou fluente de verdade em russo, português, inglês e espanhol. Eu arranho um pouco de francês e é isso que eu estou estudando na universidade.” Eu disse no tom mais humilde que pude produzir.
“Sério? Só isso?” a ironia coloriu sua voz. “Não posso crer que eu esteja saindo com alguém tão inculta quanto você Srta. Miller!” ele completou exasperado.
“Realmente, eu sou uma decepção Sr. Johnson” eu brinquei entre risos.
“Mas sério, como você aprendeu todas essas línguas assim?” ele usou um tom mais serio com a curiosidade queimando em sua voz.
“Bom, português é a minha língua natal, espanhol eu sempre tive na escola e, se você contar isso para alguém eu te mato, mas eu sempre tive uma quedinha por novelas mexicanas.” Eu ameacei e ele deu uma gargalhada alta. Mal sabe ele que eu na verdade poderia se quisesse.
“Inglês eu aprendi porque sou absolutamente incapaz se esperar que um episódio de qualquer série seja traduzido, ou mesmo legendado. Não quando eu gosto da série.”
“E russo?” ele indagou.
“Isso foi mais uma questão de experiência” eu disse esperando que ele não percebesse o pesar em meu tom.
“Outro intercambio?”
“Algo assim... Eu tenho um bom ouvido para línguas.” eu disse omitindo a parte em que minhas primeiras palavras em russo foram nomes de armas de tortura e palavrões. E que os números em russo eu aprendi de sequencias numéricas falsas que eu devia guardar comigo durante cada encontro doloroso com Dimitri. Ele não precisava saber disso... Ainda.
Felizmente eu não precisei me importar com a história errada escapando pelos meus lábios, já que a essa altura nós já tínhamos alcançado a varanda. Ele parou no pé das escadas, me virou de frente para ele e me puxou para tão perto que eu só podia sentir sua colônia maravilhosa colocando todo e qualquer pensamento que eu já tive em segundo plano.
Encostou sua testa na minha e suspirou.
“Eu diria que alegria de pobre acaba rápido, mas isso só se aplicaria a um de nós...” eu comentei arrancando um meio sorriso dele.
“Ma belle...” ele suspirou. Minha bela! Ele me chamou de minha bela! Meu coração deu uma festa em meu peito. Eu não tinha uma resposta apropriada para essa confissão, mas eu não precisava. Ele se inclinou e levemente encostou seus lábios nos meus. Me beijou de uma forma tão calma que me fez sentir a mulher mais bonita da terra. Mais do que se ele tivesse me elogiado com palavras. Palavras mentem, mas não havia como duvidar da emoção fluindo dos seus lábios para os meus.
O beijo acabou e sem mais palavra alguma Matt se afastou, fez uma reverencia brincalhona e ainda assim solene e desapareceu por entre as sombras.
Eu poderia ter ficado parada naquele momento para sempre, exceto que as memórias começaram a me incomodar novamente. Eu entrei na casa planejando tomar meu calmante e dormir, mas meu celular começou a vibrar assim que entrei no meu quarto. Quando vi que era uma chamada do skype de minhas amigas no Brasil, corri até uma sacada no final do corredor, com vista para o bosque para conversar com elas.
“Oi estranha!” Adriana gritou assim que seu rosto apareceu na tela. Instantaneamente eu senti as lágrimas começarem a ser produzidas e a coisa não melhorou quando o resto do meu grupo de amigas apareceu ao fundo.
O cabelo encaracolado castanho claro de Adriana escondia um pouco das outras, mas eu podia ver o cabelo castanho-escuro intenso de Stephanie e o brilho do cabelo liso castanho-claro de Júlia ao lado das outras. Meu coração doeu de saudades ao vê-las. Elas são a família que eu escolhi para completar a minha família biológica. E eu as amo profundamente.
“Oi amores mios! Cadê as outras?” eu perguntei curiosa. Minha irmã e mais duas amigas moravam na mesma casa perto da faculdade.
“Elas já foram para a aula, mandaram um oi pra você amiga...” Stephanie respondeu.
E eu conversei com elas como se estivessem ao meu lado. Ouvi sobre os livros que Júlia tinha lido recentemente, sobre as loucuras de Stephanie e os comentários acalorados de Adriana. Eu ri, conversei, contei sobre os meus últimos dias em Chicago e tentei da melhor forma possível matar a saudade. Claro que só o skype nunca seria suficiente, mas era um ótimo analgésico para a ferida no meu peito. Nesses momentos eu questionava a minha decisão de vir para tão longe! Eu precisava delas!
No final da conversa de uma hora que tivemos, porque elas também tinham aulas para ir, eu não pude mais segurar e soltei todas as lagrimas silenciosas que estive represando por tanto tempo. Se fosse escolha minha, elas estariam comigo em todas as minhas viagens e aventuras, mas dinheiro e oportunidades não dão em árvore então eu me contentei em dizer que as amava e, no final da conversa, depositei um beijo na superfície dos meus dedos indicador, médio e anelar em um símbolo de uma saga muito importante para todas nós e toquei a tela do celular enquanto elas faziam o mesmo. Nosso adeus particular.
A tela ficou negra e eu permaneci esvaziando minhas reservas de lágrimas apoiada ao parapeito da sacada por um tempo.
Eu estava pronta para voltar ao meu quarto quando ouvi uma voz profunda, grave atrás de mim dizer:
“Quando o amor é sincero ele vem com um grande amigo, e quando a amizade é concreta ela é cheia de amor e carinho”
“Shakespeare...” eu respondi enquanto me virava para encarar os olhos azuis de Alexander.
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