Filósofos conseguem passar uma nova imagem em relação aos sábios, covardes, ignorantes e praticamente tudo. Por isso no momento em que entrei na sala de biologia não gostei de pensar em mim mesma como uma covarde. Afinal, eles são representados de maneira vergonhosa.

Pensar nessa imagem que os filósofos têm me deu coragem para adentrar a sala e escolher uma cadeira perto da porta para ocupar. Havia várias mesas de madeira e duas cadeiras na frente de cada uma delas, indicando que essa aula era em dupla.

Pouco a pouco, as pessoas ocuparam as cadeiras, até que sobrou apenas a cadeira ao meu lado. Ótimo. Ninguém queria se sentar com a novata esquisita.

O professor entrou na sala e todos se aquietaram.

– Boa tarde turma. Sou o Sr.Helden, o professor de biologia.

A turma inteira revirou os olhos, como se todo ano ele fizesse essa mesma apresentação. Mas dessa vez era necessária, já que eu não o conhecia.

– Abram seus livros de biologia na página 9 para que possamos iniciar o semestre falando sobre plantas... – Nesse momento houve uma batida na porta. Todos se viraram para ver quem era. Ouvi suspiros e gemidos baixinhos de algumas garotas. E não era á toa.

Parado ao lado da porta estava um garoto alto de cabelos com a cor pouco mais escura que areia e olhos azuis. Ele usava um jeans, uma jaqueta preta e all stars também pretos.

– Posso entrar? – Perguntou ele, não parecendo nem um pouco interessado em fazer isso.

– Sempre atrasado, Stoll – resmungou o Sr.Helden – entre.

Ele varreu os olhos pela sala procurando por um lugar. Quando chegou à fileira em que eu estava, olhou diretamente no fundo de meus olhos. E eu decidi que não gostava dele. Não sei exatamente o motivo, mas o jeito como seu olhar era profundo e ele parecia uma estátua me observando me deixava nervosa.

Ele sentou-se ao meu lado e eu decidi voltar minha atenção à aula de biologia, afinal, eu sempre amara plantas.

Comecei a fazer anotações.

Mesmo prestando atenção na aula, ainda podia sentir os olhos do garoto sobre mim, e isso me incomodava.

– Algum problema? – perguntei, irritada.

– Nenhum – respondeu ele dando de ombros.

– Então pode parar de me encarar, por favor?

– Não, isso é legal. Sabe, da pra descobrir muito sobre uma pessoa apenas observando-a.

– Tipo o que?

– Eu descobri que você não curte muito ser observada.

Revirei os olhos com o comentário.

– Também descobri que quando fica em duvida ergue a sobrancelha esquerda e quando você reconhece uma informação que já sabia sorri de lado, fazendo uma pequena covinha aparecer bem aqui – ele encostou seu dedo em minha bochecha, que eu rapidamente me livrei com um tapa.

– Não tem nada de melhor pra fazer? – Já estava muito irritada.

– Na verdade não. E acho que você vai amar saber que as duplas da aula de biologia são sempre as mesmas das aulas de química. Sempre.

– Então, antes de eu aparecer você ficava sozinho sempre?

– Não. Qualquer garota que eu chamasse abandonava a dupla dela pra vir comigo – Disse ele, dando uma piscadela em seguida, ato que eu achei extremamente irritante.

Decidi que iria ignorá-lo o restante da aula, o que foi bem fácil, considerando que ele parara de conversar comigo.

Três aulas depois já era hora do almoço. Guardei meus livros em meu armário (que ficava ao lado do armário da garota punk) e fui em direção ao refeitório. E me surpreendi com o que vi.

Eu esperava encontrar um refeitório normal, com uma fila e comida nojenta onde uma gorda rabugenta com uma redinha no cabelo iria jogar um bolo de sei lá o que no meu prato e eu iria sentar e tentar enfiar a gororoba goela abaixo. Mas não havia nada disso.

O refeitório era aberto, em primeiro lugar. Havia mesas redondas espalhadas sobre um gramado bem cuidado e todos os alunos agiam como se estivessem de férias em Los Angeles, com os pés em cima da mesa e com óculos de sol no rosto.

Garçons entravam e saiam por uma porta, carregando bandejas cheia dos mais variados pratos ( quiches, lasanhas, ovos Benedict, waffles). Como o almoço começava 11h e acabava 12h os alunos podiam escolher entre tomar um café da manhã reforçado ou realmente almoçar.

Encontrei Will e Miranda conversando animadamente em uma mesa. Juntei-me a eles.

– Oi – disse, sentando-me numa das cadeiras.

– Oi, Kat – respondeu Miranda animadamente – Não parece um sonho? Fala sério! Acho que por ser uma cidade pequena e só três escolas nela a prefeitura pode investir muito bem nelas!

– É tão lindo – disse, olhando as flores florescendo em alguns arbustos perto das mesas.

– O que vão querer? – Perguntou um garçom, que havia se aproximado sem que eu percebesse.

– Um X burger com fritas e uma latinha de sprit. – Disse Will.

– Uma pilha de panquecas cobertas com chocolate belga e café puro, por favor – Disse Miranda – Se minha mãe perguntar, direi que comi salada.

– Waffles com cobertura de framboesa e chantilly – Eu disse já inspirada pela alegria do lugar – Ah, e café fresco.

– Já volto com o pedido de vocês.

– Isso deve ser o paraíso – Disse Miranda – Fala sério gente, é perfeito. Eu posso comer e vestir o que quiser!

– E, é perfeito pra eu começar a colocar o meu plano em prática. – Eu disse.

– Ainda quer fazer isso? – Will perguntou.

Ambos sabiam do que eu falava. Eu dissera á eles sobre o meu plano, e pedira á eles para me acobertarem. Eu iria aproveitar a mudança para começar uma vida nova, onde eu estrelaria como a garota popular.

Pedira para eles fingirem que nós três éramos super populares na antiga escola. Na verdade eles dois eram realmente populares, só eu que era a excluída que fazia parte da orquestra da escola junto com outros fracassados. Eles só andavam comigo porque nos conhecemos desde o jardim de infância e nossos pais são tipo, melhores amigos desde a época do colégio.

– Realmente acha que eu estaria vestida assim se eu não quisesse mais fazer isso? – Ergui as sobrancelhas para ele. Eu estava usando um vestido tomara que caia florido e era justo na parte de cima e se abria em camadas quando chegava a altura da cintura. Ele se estendia até pouco acima da metade da minha coxa, o que fazia com que eu me sentisse uma vadia só de vesti-lo na escola.

– Sabe que não precisa fazer isso, né?

– É – concordou Miranda – Gostamos de você mesmo sendo reservada e desastrada.

– Eu sei que gostam, mas eu preciso sim fazer isso. É importante pra mim de um jeito que vocês nunca entenderão. E eu não sou “reservada”, eu sou simplesmente invisível.

Miranda e Will trocaram olhares e depois assentiram para mim.

– Okay – Disse Will – O que temos que fazer?

– Apenas finjam que sou uma vadia extremamente interessante desde sempre.

O garçom chegou com nossa comida.

Conversamos um pouco sobre coisas alheias, quando notei que a loura alta vinha em nossa direção.

– Oi – Disse ela, sorrindo e sentando-se conosco. – Sou Annabeth. São os alunos novos, certo?

– Sim – eu disse – Sou Katie e esses são Will e Miranda.

Retribuímos o sorriso de Annabeth.

– Então, como essa é a primeira semana de aula vão começar os testes para as atividades extracurriculares. Na verdade, isso não passa de uma formalidade á anos, já que sempre entram as mesmas pessoas para os mesmos times. Mas então, vocês irão tentar entrar para algum time?

– A equipe de lideres de torcida – eu disse

– Eu também – Disse Miranda.

– Futebol – disse Will.

– Ah, que maravilha! Sabe, eu sou a chefe da equipe de torcida e o meu namorado Percy faz parte da equipe de futebol. Mas ele não é o capitão. Bom, mas eu não vim aqui para me gabar. Aqui nós temos o costume de dar umas duas festas por mês e a primeira será hoje á noite. Vim convidá-los. Vocês vão né? – Annabeth nos olhou com expectativa.

Ela parecia uma pessoa ótima. Simpática. Mas havia algo de errado nela, não sei bem o que. Era obvio que ela era a garota mais popular dali (havia mais de 200 pessoas na escola e eu já sabia disso no primeiro dia) e que era muito amada, mas também muito odiada. Parecia a companheira perfeita para minha nova eu.

– Claro que iremos – me apressei em dizer, sorrindo.

– Ótimo – disse ela, animada – Então apareçam nesse endereço, ás 19h.

Ela nos entregou um cartão prateado com seu nome e um endereço.

– Isso é perfeito! – eu disse

– O que quer dizer com isso? – Will perguntou um pouco desconfiado

– Quero dizer que hoje a noite eu serei a pessoa que sempre desejei e detestei.


(mais tarde)

É incrível como em pleno século XXI nós mulheres somos subjugadas a passar por situações de extrema dor e sacrifícios e ainda assim continuamos a ser o “sexo frágil”. Temos que ser bonitas, interessantes, com um corpo escultural, atitude inabalável e ainda escutar o homem dizendo que nós somos frágeis e molengas.

Nesse exato momento, eu estou pensando seriamente em voltar para o útero da minha mãe e ter algum jeito de que outro espermatozoide tenha ovulado, para que eu tenha nascido homem. Mas isso não vai acontecer.

O motivo disso é que eu estou sentada em frente á minha cômoda, sentindo dores agudas enquanto Miranda tira todos os pelos visíveis do meu corpo. Eu já havia raspado as pernas, as axilas e agora ela estava fazendo as minhas sobrancelhas.

– Sabe Katie, seria bem mais fácil fazer isso se você PARASSE DE SE MEXER!

– DESCULPA! É que eu nunca havia feito a sobrancelha em toda a minha vida e não sabia que doía tanto.

– Já terminei.

Virei a cadeira para me olhar no espelho. Nunca havia me achado bonita, mas também sabia que não era feia. Sempre tive grandes olhos castanho-esverdeado, pele clara e um cabelo cor chocolate que caía sobre meus ombros com ondas invejáveis. Mas agora eu estava com esperanças de que, após que eu passasse a maquiagem correta, eu me sentiria maravilhosa e poderosa.

– Obrigada pela ajuda Miranda.

– Eu ainda não acabei. Olha só o que eu trouxe. – Miranda tirou da grande bolsa azul marinho dela os saltos que ganhara de aniversário. – E sabe com o que eles combinam? Com aquele vestido lindo que a tia Afrodite te deu e você nunca usou.

– De jeito nenhum eu vou usar aquele vestido! – Falei, com a voz uma oitava acima do que eu esperava – Ele é curto e apertado e eu vou ficar parecendo uma puta querendo dar.

– Não é assim que você vê os populares? Putas tentando seduzir todo mundo?

– Exceto você, populares SÃO assim.

– Então você vai ter que ser assim também se quiser continuar com seu plano.

Bufei e fui até meu armário pegar o vestido. Miranda me deu os sapatos e entrei no banheiro para me trocar. Saí de lá e Miranda deu um sorrisinho.

– Vem, vou te maquiar – disse ela.

Depois uma hora quase chorando por sem querer eu me mexer e Miranda ter enfiado o lápis acidentalmente no meu olho, eu estava pronta. (http://www.polyvore.com/katie_gardner_segredo_dos_populares/set?id=91883836)

Me olhei no espelho. Miranda fizera um trabalho maravilhoso me transformando numa vadia, merece parabéns...

Antes que eu pudesse agradecer sua ajuda, ouvimos uma buzina. Will. Ele viera buscá-las. Descemos as escadas ás pressas

– Tchau mãe, não sei que horas volto! – Corri antes que ela pudesse protestar.

Entramos no carro, Miranda na frente e eu atrás. Will assobiou pra mim.

– Você ta um arraso, Kat!

– Brigada, era a intenção...

Seguimos para o endereço que Annabeth nos dera e fomos parar em frente a uma casa grande e agitada.

Saí do carro e respirei fundo. Essa noite promete...

Notas finais
Reviews???