Segredos De Sangue

1 Vida, vida minha.




Meu nome é Lucy, Lucy Haner, esse sobrenome, sinto que não mereço ter, se eu fosse digna para isso talvez não teriam me abandonado, não sei a história dos meus pais, só sei que me deixaram aqui quando tinha cinco meses, olhando pelo lado bom eles ficaram comigo por alguns meses, quem sabe eu fui um bebê do mal que aniquilava todas as mamadeiras da vizinhança, ou eu nunca deixava eles dormirem, talvez eles pararam de amar.


Vivi em um orfanato em um bairro de casas antigas e abandonadas, assim como eu, abandonada, essa palavra soa como um drama de menina mimada querendo atenção em redes sociais, mas na maioria das vezes quando uma pessoa diz estar abandonada quer dizer que ela perdeu a si mesma, isso é extremamente trágico, o mundo torna-se sem cor, parece que a morte quer jogar xadrez nas tardes ensolaradas, as palavras ficam tão chatas e as frases mais clichês ainda, para uma pessoa estar abandonada, primeira etapa, as pessoas perdem a confiança nela, é tão chato não ser amigo de segredos de alguém, mesmo que sejam segredos não tão secretos, como admitir estar apaixonado por alguém, uma pessoa apaixonada por mais que ela tente ela não esconde, os olhos de uma pessoa apaixonada são tão brilhantes que se eu fosse um serial killer colecionaria olhos apaixonados das minhas pobres vítimas, minha casa seria coberto deles, é uma ideia assustadora mas é meu jeito de amar esses olhos, pobres olhos que depois de um tempo param de brilhar,a paixão parece ser mais destruidora que o amor, mas só por fora mesmo, a pessoa chora, come chocolate, chora mais, olha as redes sociais da pessoa por quem era apaixonada, chora de novo, depois ela arruma outra apaixonite ou toma vergonha na cara para arrumar um amor, a dor do amor é intensa, dói lá no fundo e envolve a alma, envolve cada momento do corpo, transforma o ritmo da respiração, se essa dor não for curada, prepara-se mundo, menos um amante de filmes românticos, eu reparei que filmes românticos são menos comuns hoje em dia, está na moda zumbis, guerras, tudo que envolve morte e sexo, duas coisas que fantasiamos tanto.

Depois dessa perca de confiança das pessoas, que não é diferente da perca de interesse, começa a segunda etapa, a de não confiar em si mesmo, parece que tudo que você vai fazer não vai ser o suficiente, cada passo parece ser torto, cada gargalhada parece ser contra você, o mundo está tão alegre esfregando na cara “Olha todos estão rindo, todos estão felizes menos você!”, nessa hora não se sabe se você não é suficiente bom para ficar alegre por estar vivo ou se todos escondem tão bem a tristeza.

Terceira e a mais mortal, quando tudo, absolutamente tudo perde sentido, uma caixa de ossos sem alma, vagando sem rumo, não sente, não vê, não fala, as coisas pioram quando a pessoa implora para a morte, meu amigo se você se sente assim, melhor procurar ajuda, e rápido. Eu me sentia assim, mas me ajudaram, não posso reclamar do orfanato, as pessoas de lá eram boas, de palavras confortantes, eram minha família que não tive a oportunidade de ter.

Estou estudando história, foi o único lugar onde eu passei que era de graça, eu até gosto, depois que eu saí do orfanato o mundo não foi muito a mil maravilhas, as coisas são mais difíceis que eu imaginei, quando eu vivia lá imaginava um mundo cheio de expectativas, esperanças, onde os sonhos se realizavam, era melhor do que ficar fazendo nada em meio a tantas crianças iludidas, não diferentes de mim. Saio de casa ás sete da manhã, passo na mesma lanchonete e tomo o mesmo café com leite, o mesmo gosto de sempre, ás vezes penso em mudar, mas tenho esse medo de mudanças, tenho o mesmo corte de cabelo faz nove anos, eu entraria em pânico se cortasse ele bem curto, pintasse de outra cor, eu me olharia no espelho e pensaria “Que ser é esse?”, sim eu sou muito chata e sem sal, mas é o meu jeito de ser, uma coisa muito difícil de mudar.

Não tenho meu carro, ainda, o melhor jeito é ir de bicicleta uma forma sustentável, aproveita e faz exercícios, mas infelizmente o sedentarismo me domina, acabo indo de ônibus, muitas coisas deixamos de fazer por preguiça, já pensou se Thomas Edison em vez de criar a lâmpada resolvesse, sei lá, queimar formigas com sua lupa, ele ficaria viciado nesse hobbie exótico e faria uma coleção de diferentes espécies de formigas torradas, ele não seria “O cara que inventou a lâmpada” seria “O cara das formigas torradas”, voltando ao assunto da minha vidinha cheia de aventuras, depois de dois ônibus, super cansada, fico cinco horas sentada assistindo aulas, é meio tedioso mas eu não durmo, não muito, uns dez minutinhos no máximo, quando as aulas acabam eu vou para a biblioteca, fico maior parte do tempo ali, não sou a senhorita simpática e social que todo mundo quer convidar para sair, ninguém convidou para sair, nem para tomar um sorvete, acho que meu visual “Oi sou uma nerd, virgem e sem sal” não agrada os garotos.


xxx


– ­I'm left in misery, the girl I love's gone across the sea…

– Droga! –grito para o celular estúpido.

Caio no chão enrolada no edredom igual a um casulo, um casulo de uma menina patética. Olho para a janela, o dia está lindo, seria um crime hoje não ser fim de semana... espera, hoje é sábado! Aquele sentimento de descobrir que tem o dia de folga, não tem preço, sério, é quase como acordar ás duas da manhã sem sono e descobre que vai ter mais tempo para dormir.

Arrumo-me para um dia inteiro de folga, traduzindo, continuo com pijama, procuro alguma coisa na geladeira, quando passei a morar sozinha qualquer comida mata a fome, dois pedaços de pizza de ontem meu café da manhã está servido, olho meus e-mails, nenhuma novidade, então meu celular toca.

– Alô?

– Oi, eu falo com quem? – uma voz masculina.

– Lucy. –respondo tentando lembrar quem me ligaria em um sábado.

– Preciso falar urgente com você Lucy, me encontre na praça mais próxima. – a ligação é cortada imediatamente.

Não sei o que é mais estranho, alguém me ligar em pleno sábado ou alguém me ligar para me encontrar, sem deixar nome nem nada, bom eu não tenho nada pra fazer mesmo, não pode ser uma coisa perigosa ainda é claro, o sol está a pino. Coloco uma blusa do Iron Maiden e uma calça jeans básica, deixo meu cabelo solto para que meus cachos fiquem do jeito natural, meio rebelde.

Chegando à praça vejo um homem solitário, sentado em um banco, olhando para um ponto distante parece que sua mente vagava em algum lugar, chegando mais perto ele percebe que estou olhando então se levanta.

– Então você é Lucy? – perguntou ele com um tom de voz macio.

– Sim, sou eu e você é? –perguntei dando passos para trás.

– Me desculpe a falta de apresentação, eu sou Louis Haner, seu irmão.

Naquele momento fiquei sem reação, ele poderia ser um vigarista, mas eu não tenho dinheiro, um traficante de pessoas, mas cara, eu não sou atrativa para isso, pensei em mil coisas para justificar o fato de estar ali não aceitando o que ele disse, que é meu irmão.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.