Segredos
7 Sob A Chuva
Notas iniciais
Cara, Russell e Charlotte estavam reunidos pensando se deveriam ou não ir atrás de Jedikiah pela pista que Tim conseguira, apenas ouvindo o gostoso barulho da chuva lá fora.
– Cara, eu tenho algo que pode ser do interesse de vocês. – Falou Tim de repente.
– Ponha no telão. – Ordenou Cara
Tim projetou a imagem de uma das câmeras de vigilância. Stephen e John acabaram de teleportar para irem de encontro à Cara e os outros.
– O que diabos...
– Meu Deus! John! – Charlotte ficou toda animada
– Porque ele está com Stephen?
– Vai ver, Stephen achou Jedikiah antes de nós. – Sugeriu Russell. – Devemos ir até lá?
– Stephen vai trazê-lo aqui em cima. Eu vou esperar. Se você quiser descer, fique à vontade.
– Nah! Vai ser uma confusão lá embaixo.
– Então eu vou descer e vê-los. Principalmente John. – Charlotte deixou a espada, guardada na bainha, em cima da mesa de Cara e teleportou-se.
– Essas crianças!
De fato, foi uma confusão. Os mais antigos, como Charlotte e Irene abraçaram John com força, porém os mais recentes – que vieram após o sumiço de John — ficaram um tanto confusos, apenas avaliando quem seria esse novo cara.
Charlotte e Irene acompanharam John e Stephen, enchendo-os de perguntas, porém as duas se afastaram quando este chegou à antiga sala de Jedikiah, agora ocupada por Cara e Russell.
Ele abriu as portas, um pouco receoso e, além do vidro podia ver Russell e Cara. Ambos sorridentes, olhando para o rapaz, porém John não sorria. Encarava os dois como se estivesse triste, mas não quisesse demonstrar. Stephen segurou seu ombro, mostrando-o apoio, mas ainda assim John não estava muito confiante.
– John! Cara, há quanto tempo! – Russell praticamente pulou em John, abraçando. Emocionado por ver o amigo.
– Russell, né?
Stephen fez que sim com a cabeça. Cara estranhou, mas antes que um dos dois pudesse dizer algo, agarrou John.
– Você não tem ideia de como eu senti sua falta.
Stephen começou a ficar vermelho sem perceber, chegando a cerrar os punhos. Não estava gostando de ver Cara se agarrando com o namorado.
– Você deve ser Cara, certo?
– É, ela mesma. – Falou Stephen relaxando um pouco.
– Tudo bem com você, Stevie? – Perguntou Russell estranhando a pele vermelha de Stephen.
– Estou ótimo. Eu trouxe John, porque ele não sabia onde ficava o prédio da Ultra.
– Como assim? Você trabalhou pra Ultra John, como pode não se lembrar de onde fica o prédio?
John encarou Stephen profundamente e, ao pensar um pouco, respondeu à Cara com uma voz baixa.
– Eu não me lembro de nada.
– O quê? – Russell surpreendeu-se
– O que aconteceu? Jedikiah fez algo à você?
– John não se lembra de nada. – Disse Stephen – Quando meu tio lunático deu poderes à ele, John perdeu sua memória.
– Eu poderia tentar recuperá-la. Só me deixe...
– Não, Cara. – Disse John – Nós temos outras prioridades agora.
Cara não discutiu embora quisesse insistir. Imaginou que John não a quisesse na mente dele porque para ele, naquele momento, ela era uma estranha. Nem ela deixaria um estranho qualquer ler sua mente. Stephen por outro lado, achou que John não queria que entrassem em sua mente para não vê-lo transando com o rapaz. O que o fez ficar aliviado.
– Então o que faremos agora? – Perguntou Russell, mas ninguém respondeu – Qual é, gente. Essa é a parte que todos esperavam. John está aqui, acabamos com a Ultra, estamos em tempos de paz e vocês assim como se o mundo tivesse acabado.
– O mundo pode acabar para alguns de nós hoje, Russell. – Disse Cara
– Você quer dizer: Kevin. – Disse John finalmente parecendo feliz por estar conversando com Cara.
– Você está excitado ou é impressão minha? – Perguntou Cara
– Jedikiah me transformou num soldado. O que você esperava?
– Então o que? Você vai matar Kevin?
– Se for preciso.
– Tá, mas aonde está Jedikiah? – Perguntou Russell.
– Escondido. – Disse Stephen – Eu e John fomos alertá-lo.
– Vocês o que? – Cara pareceu supresa
– Se nós entregarmos assim de bandeja... – Stephen queria justificar-se, mas Cara o interrompeu.
– Porque vocês simplesmente não perguntaram para ele onde está o irmão do Kevin?
– Porque ele não lembra. – Disse John
– É claro que você vai defendê-lo. – Cara bufou
– Eu entrei na mente dele e tinha apenas algumas lembranças dos irmãos. Se Jedikiah sabe onde está Daniel, então ele não se lembra.
– Ou bloqueou. Ele viveu com um dos mais poderosos homo superiores. É claro que ele bloqueou... Não sei qual é o jogo do seu tio, Stephen. Mas se alguém morrer aqui hoje, a culpa será de vocês.
John não estava gostando do jeito que Cara falava com ele e com Stephen, porém Tim interrompeu.
– Cara, Kevin está aqui.
– Quem é esse? – Perguntou John
– Olá, John. Eu sou Tim. Um super computador, programado por Jedikiah. Nós costumávamos jogar xadrez.
– Desculpe. Não me lembro.
– Não importa. – Disse Cara com medo do que aconteceria a seguir, agora que Kevin chegara – Está na hora de recebê-lo.
Os quatro desceram sem teleportarem-se e pelo caminho, encontraram-se com Charlotte e Irene.
– Ele chegou? – Perguntou Charlotte.
– Sim, Charlie. – Disse John, surpreso consigo mesmo por lembrar-se do apelido pelo qual chamava Charlotte. Ficou imaginando se os outros três sabiam que ele a chamava asssim – Não se preocupem. Nós temos um plano.
– Stephen é sinérgico. John é o melhor jumper. Eu sou a melhor telepata e Russell é o melhor... brigão.
– Gostei disso, Cara. Use mais vezes.
Cara sorriu antes de continuar.
– Mas ele é um sinergista. – Todos olharam para Irene quando ela disse – Não quero estragar a surpresa de vocês, mas vocês não deram conta dele da última vez e ele pode matar... Além disso, está chovendo. Lutas na chuva nunca foram bons sinais.
– É, mas nós temos sinergia ao nosso lado também. – Disse John – E eu gosto de chuva.
– O que? Algum de vocês é sinérgico também?
– O que eu quis dizer é que com essa combinação que Cara acabou de descrever, nós talvez possamos assustá-lo. E esse é o propósito. Olha, se ele não estivesse bem na nossa porta, esperando por nós, eu explicaria tudo com detalhes, mas agora...
– Você e Charlotte precisam tirar todos daqui. Os novatos não sabem onde é o antigo esconderijo.
Cara estava sentindo como se estivesse perdendo a liderança e John a estivesse conquistando novamente.
Os quatro foram até a porta da frente do prédio onde viram Kevin. Sentado no chão com as pernas cruzadas e os olhos fechados, como se estivesse meditando. Sem se importar com o chão encharcado e a chuva caindo sob seu corpo.
– Será que ele está bem? – Perguntou Russell.
– É claro que eu estou. – Kevin falou abrindo os olhos lentamente. – John? O soldado preferido... Digo, briquedo preferido de Jedikiah.
John sentiu uma pontada psíquica em sua mente, mas não demonstrou. Precisava parecer que nem havia sentido, para que Kevin não o achasse fraco.
– Não faço ideia do que você está falando.
– Não, é? Eles sabem que você sabe?
– John, do que ele está falando? – Perguntou Stephen enquanto Kevin sorria.
“Isso é exatamente o que ele quer, Stephen. Nos desestabilizar. Não deixe. Lembre-se da sinergia”
– Porque vocês deixaram a espada com a garotinha? – Perguntou Kevin.
Cara ficou assustada, imaginando como ele teria conseguido essa informação. Talvez tivesse lido a mente dela enquanto os dois tomavam café ou faziam sexo. Charlotte poderia estar em perigo.
Uma espada, apareceu caindo no chão ao lado de Kevin.
– A mente de vocês está aberta demais. Mesmo que eles se escondam, eu já sei onde é o esconderijo. Não adianta fugir. — Kevin desembanhou a espada. – Agora... onde está Jedikiah?
– Nós não o achamos. – Disse Cara engolindo em seco, com medo de Kevin.
Os quatro perceberam que Kevin estava lendo suas mentes, mas não havia mais nada que eles podiam fazer, a não ser rezar.
– John e Stephen. Por que vocês esconderam-no? – Kevin apontou a espada para os rapazes. – Por que vocês esconderam-no? – Vociferou Kevin, esperando que alguém dissesse algo, mas apenas o vento e a chuva falavam naquele momento. – Ok, então. Hora da brincadeira.
Kevin girou, lançando a espada. John empurrou Stephen para um lado esperando que pudesse desviá-lo da espada, no entanto a espada sumiu em pleno ar e apareceu atrás de Cara.
A menina foi ágil e se desviou. A arma de Charlotte caiu no chão, porém passou de raspão no braço de Cara.
Russell apareceu ao lado de Kevin, mas este cobria-se com um campo telecinético, portanto nenhum ataque corpo a corpo o acertava. John aproveitou a situação e puxou a arma escondida nas costas embaixo do casaco e da blusa que usava e atirou contra Kevin. As balas ricochetearam devido ao campo telecinético.
Kevin lançou Russell longe e puxou a arma de John com telecinese. John tentou segurá-la com força, mas não adiantou. A arma flutuou até Kevin e, ao tocar sua mão, desintegrou-se.
– Imagine isso em um de vocês. – Disse Kevin com um sorriso enorme no rosto.
Cara apareceu na frente de Kevin tentando um chute giratório, que era um dos seus golpes mais fortes. Kevin desviou-se e tocou as costas de Cara, que desaparecera.
– Seu desgraçado! – Russell correu contra Kevin, mas ao tocá-lo também desapareceu.
Kevin olhou para John, que parecia ter perdido toda a postura de soldado. Kevin não era apenas um sinergista, ele sabia controlar os poderes que tinha e isso era uma vantagem.
– Cadê o Stephen?
John olhou em volta e não viu nenhum sinal do namorado, mas então percebeu que Kevin poderia tê-lo teleportado dali, assim como fez com Cara e Russell e estava usando isso como vantagem para atacá-lo. John virou-se rapidamente esperando um ataque repentino de Kevin, mas este parecia calmo, apesar de sorridente.
– Onde está o Stevie?
John parou para analisar suas chances. Não tinha armas e a espada estava um pouco longe, não dava para alcançá-la a tempo e atacar Kevin de surpresa. Kevin era um sinergista, John era só um Homo Superior. Kevin controlava bem os poderes e John não sabia nem quem era até ver Stephen alguns dias atrás. Por fim, concluiu que matar Kevin seria a única opção, mas sem uma arma seria difícil.
John abriu os braços e as mãos devagar, para parecer que iria se entregar, mas então os vidros do prédio atrás do loiro, quebraram-se e os milhares de cacos de vidro voaram na direção de Kevin.
À poucos centímetros de distância de Kevin, os cacos de vidros se desintegraram. Parecia uma enorme névoa de pó cortante.
John aproveitou-se que Kevin defendera e criara uma distração, para pegar a espada usando telecinese. Teleportou-se para trás de Kevin e pôs a parte afiada da lâmina contra o pescoço do inimigo.
– Acabou, Kevin.
Kevin, por sua vez, sorriu.
– Cara, você não aprende nunca?
A espada sumiu da mão de John e apareceu na mão de Kevin, que levou-a para trás, cortando a lateral do tronco de John. O garoto perdeu o equilíbrio e caiu no chão, pondo a mão no sangramento.
Kevin aproximou-se devagar, apontando a espada para o peito de John. O loiro sentiu a ponta afiada ir levemente contra seu peito. Estava com dificuldades para respirar devido ao corte que acabara de ganhar e por estar com medo de ser perfurado sem motivos... Bom, quase.
– Onde está Jedikiah?
– Onde estão meus amigos?
– Eles não são seus amigos. Eu vi sua mente.
– Então você sabe que eu não sei onde está Jedikiah.
– Não, mas você pode encontrá-lo facilmente. Você é o brinquedinho dele, John. Não... Um cachorrinho. Sempre voltando com o rabo abanando para aquele que nos abandonou.
– Você estava na Ultra quando eu parti? – Concluiu John
– Sim, eu estava. Eu ainda tinha meu irmão, Daniel. Nós trabalhávamos juntos na Ultra. Exceto que eu era o irmão poderoso e ele o irmão habilidoso. – As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Kevin – Ele me treinou e me ensinou tudo o que eu sei. Exceto talvez pelo soro do projeto Anexo, no qual só houveram dois sobreviventes. Killian e você. Quando eu soube que o senhor Bathory tinha colocado a cabeça de Jedikiah à premio, eu dei-lhe a ideia de voltar com o projeto anexo. Eu não sou o único, John. E nem você... Me leve até Jedikiah!
John não respondeu. Continuava perdendo sangue e a respiração ficava cada vez mais difícil, porém ele sentiu o metal frio rasgar sua pele do peito e a chuva não estava ajudando. Kevin estava ficando impaciente.
– Se eu continuar com isso, você morre.
– E você não vai... Encon...
– Encontrá-lo? John, acho que você ainda não entendeu. Meu irmão é tudo para mim. – Kevin afundou a espada um pouco mais no peito de John, fazendo-o gritar – Eu enfrentaria o capeta para encontrá-lo. Se eu tiver que fazer um genocídio, extinção em massa e essas coisas... Eu vou.
John sentiu a espada perfurar um pouco mais seu peito.
Kevin ouviu o costumeiro barulho que era feito ao se teleportarem. Pelo canto do olho, espiou quem acabara de aparecer alguns metros atrás.
– Meu Deus... John!
Stephen correu em direção à John, enquanto Jedikiah permanecia ali de pé, porém Kevin, com uma agilidade sobrenatural, retirou a espada do peito de John e, teleportando-se para o lado de Stephen, o fez parar usando telecinese e então apontou a espada para a garganta do menino.
– Ele vai morrer, Kevin! Por favor. – Stephen suplicava.
– Ele vai morrer de qualquer jeito, no entanto, eu não tenho negócios com ele. Quero falar com seu tio, no entanto eu preciso ter uma garantia. Se tratando do seu tio...
– Deixe-os em paz. – Disse Jedikiah sem demonstrar qualquer sentimento. Se tinha alguém que podia esconder o que estava sentindo no momento, esse alguém era Jedikiah. – Fale comigo. O que você quer!?
Kevin sorriu com desdém.
–Você só pode estar brincando.
Jedikiah não respondeu. Fitou Kevin, observando-o perder a paciência.
– ONDE ESTÁ MEU IRMÃO!?
A garganta de Stephen sangrou um pouco.
– Ele está morto. – Disse o cientista.
– Impossível. – Retrucou o soldado.
Jedikiah continuou fitando Kevin que demorou para perceber que ele falara sério. As pernas ficaram bambas e as mãos trêmulas. Não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Seu irmão não podia estar... Não. Daniel jamais...
– Você o matou.
Nesse momento, John, quase inconciente, desesperou-se. Sabia o que estava por vir e quem faria o quê, afinal de contas, ele também já fora manipulado por Jedikiah. Sabia qual era o sentimento.
– Stephen... – Ele tentou chamar pelo namorado, mas já era tarde.
Stephen viu que Kevin se preparava para jogar a espada contra Jedikiah e teleportou-se para o lado do tio.
– Stephen...
Stephen tentou teleportar-se dali com o tio, mas o soldado os segurava com telecinese. Kevin lançou a espada e a impulsionou ‘’telecineticamente’’. A espada voou numa velocidade atroz em direção ao garoto e ao tio.
– STEPHEN!
A espada parou no ar quando John gritou. Jedikiah não se mexia, porém John, Stephen e Kevin sim.
– John... Você acabou de...
– Parar o tempo? – Completou Kevin
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