Segredo Virtual

29 2º T: Capítulo 4 Recordações de Mentes Banhadas em Sangue


Notas iniciais
Sejam bem-vindos a mais um capítulo GIGANTE de Segredo Virtual. Obrigado por estarem lendo essa estranha e obscura !

— "Chacina em frente a grande festa de Halloween: O Cold Blood está de volta? ", " Sobrevivente das mortes anuncia volta do Cold Blood ", " Grupo de assassinos estão de volta ", " Novo Cold Blood foi responsável pela morte de Prefeito? ", " Polícia anuncia toque de recolher após 10 ano da última morte do último assassinato pelo Cold Blood ".

— Pare com isso, Rose.- Daniel se incomodava com aquela montanha de jornais sobre a bancada, cada um com um novo título para a mesma notícia: A volta do Cold Blood. Mas como tudo aquilo estava enchendo o estabelecimento, não poderia mostrar-se está tão incomodado.

— Já é início de outro mês, podem começar a decorar a cafeteria em homenagem ao Cold Blood.- O pai a olha sério.- É brincadeira...Eu acho. Mas é bem poético eles terem se próprio anunciado depois da terceira morte, igual o original.- Rose levanta-se e volta para os sofás perto da janela, onde ao lado estava uma estante repleta de livros. Na prateleira do meio havia um cartaz sinalizando que ali era onde ficavam os livros de Halloween, mas bem, teriam que arrancar aquilo logo logo. Helena pegou seus dois capuccinos e agradeceu ao atendente, Luke, e depois se retirou. Carla conversava ao fundo com uma nova moradora da cidade. Clara estava admirando a placa da senha do wifi, enquanto digitava freneticamente os números. E várias outras pessoas rodeavam aquele espaço, se sentindo totalmente acomodadas. Marina acabara de chegar junto do irmão, tendo toda a atenção à sua volta. Era legal uma cidade em que todos se conheciam, pensava Rose, mas não quando acontece alguma merda com você. Havia pontos em várias partes de seu corpo, e usava um óculos escuro para tentar abafar sua visita, mas não dera certo. Ela andou calmamente com a ajuda de Diogo, mancando um pouco até chegar na mesa onde Carla conversava com uma moça de cabelos ruivos.

— É uma droga todos ficarem olhando pra mim.- Comentou baixinho enquanto sentava-se. Daniel deixou em cima da mesa de centro um chocolate-quente, orientando Rose a pegá-lo. Aquele vapor que saía de dentro da caneca na qual dizia " I Love Coffee ", era como uma foto do Pinterest ou do Tumblr, junto ao cenário nublado atrás dos vidros da janela. Miguel nem parecia existir naquele cenário, estava calado no último banquinho da bancada, obviamente futucando o celular. A jovem ruiva então esticou-se no sofá, colocando uma almofada xadrez atrás da cabeça, e retirando um livro qualquer da estante, até perceber que havia pego um livro de pintar. Ah, claro, como se andasse com lápis de cor por aí, então visualizou um pote repleto deles, em cima da balcão. " É sério que eles sempre estiveram aqui? ", perguntou mentalmente. No início do ano, havia se comprometido a ser uma boa filha e ajudar os pais com a cafeteria, mas a preguiça prevaleceu contra sua boa vontade. Leo chegou por trás da namorada, cobrindo seus olhos com as mãos.

— Com certeza é um integrante do Cold Blood.- Disse, retirando as palmas dele de sua visão.

— Você me parece muito obcecada por esse assunto. Vai entrar na fanbase deles?- Estava sendo irônico, mas Rose realmente parou pra pensar. Ele se joga no sofá, derrubando algumas almofadas.- Isso é seu?- Questiona apontando para a caneca.

— É, e por acaso não vou te dar.- Ela pega o chocolate-quente com as duas mãos e o leva a boca, dando um pequeno gole, enquanto é fuzilada pelos olhos do garoto a sua direita.- Calma.- Ao estender a bebida, Leonardo a pega sem exitar.- Parece que nunca bebeu isso. Tem aula pra gente hoje?- Ele se engasga e tosse.

— Você acha mesmo que vão dar aula depois de toda aquela gente morta na rua?! Pelo menos aquela cena horrorosa serviu para um bem maior.

— Olá, casalzinho. Já que estão falando de morte, pois saibam que eu estou seriamente pensando nessa possibilidade, e gostaria de presentes no meu enterro.- Luke imita o gesto que Leo fez ao se jogar no sofá. Os dois encaram o folgado que acabara de sentar ao lado e bufam em conjunto.

— Se continuar assim, não vai dar nem tempo de embrulhar...- O jovem dá uma risada meio sem graça.- Não é sua folga hoje?- Perguntou Rose, apoiando seu cotovelo no braço do móvel.

— Exatamente por isso vim.- Ele se levanta para pegar um livro.- Só assim pra eu terminar de ler esse queridinho aqui.- Rose tira o elástico do cabelo, desfazendo seu avermelhado rabo de cavalo. Ela coloca o elástico entre os dedos com o intuito de se distrair.- Ei, aquela moça não é a...

— Carrie, a estranha?- Luke parecia não ter pegado a referência da personagem que havia tomado um banho de sangue durante um baile. Rose bufou novamente, dessa vez em solo.- Que povo sem cultura.- Mas voltando ao assunto Cold Blood, será que continuaram matando por diversão?- Leonardo jogou-se mais para trás, pegando uma almofada e abraçando-a.- Faz sentindo serem de aluguel já que estão matando pessoas com ligações políticas, e agora um outro grupo de assassinos.

— Rose, é sério, você realmente está citando eles desdo incidente de ontem a noite.- Diz ele, insinuando as milhares de mensagens sobre esse assunto enviadas pela namorada.

— Bem, sendo por diversão ou não, o importante é que meu chefe continua vivo para me pagar.- Luke manda beija para Daniel, que mexe a cabeça em tom negativo, não acreditando no que acabara de receber.

— Eu realmente não quero pensar em você tendo um caso com o meu pai.- O jovem intrometido dá um sorriso bobo para ela.

Bianca olhava atentamente o quadro vazio. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo mal feito, e usava um avental verde, que por acaso havia deixado algumas gotas de tinta caírem mesmo sem ter tocado nelas. Sua palma estava enfaixada pelo corte de ontem, havia dito a Helena que tinha se cortado com um pedaço de vidro de uma janela quebrada, que por acaso seu tropeço permitiu-se o acidente. Mesmo assim tentava fazer algo, já que pintar era uma habilidade descoberta há pouco tempo, e não podia perder a prática. Helena adentrou na casa, carregando os capuccinos que tinha comprado há 15 minutos. Bianca se vira para beijá-la, mas o beijo acaba acertando em seu nariz:

— Muito sexy.- Responde Bi, tirando a marca de batom do nariz. Ela coloca as bebidas em cima do balcão, e vai em direção ao quarto.

— Você não imagina em quantas máscaras eu atropelei pra chegar aqui. Deveriam ter me falado que essa cidade é maluca.- Ao retornar, Helena se esgueira para perto do quadro, tentando ver o que Bianca estava começando a pintar.

— Eu avisei, mas parece que alguém não quis me escutar...Acho que te contei a história da minha vida inteira.

— Na verdade, você sempre falou meio vago sobre isto, mas nunca te incomodei com o passado. Somos um futuro agora.- Era para Bi se sentir tensa com o início daquele diálogo, mas a fofura final a fez abrir um sorriso.- Agora, o que eu não sabia era que você sabia pintar um...O que é isso? Parece uma criatura mexendo no celular.- Bianca deu uma pequena risada disfarçada.

— Quando eu terminar, perceberá.

— Se isso é uma pessoa, ela está meia estranha, não acha?

— Eu ainda não a finalizei.- Helena dá um suspiro, balançando a cabeça e intrigada com aquela sinistra pintora. Sua noiva olhou para trás, sentindo a mira dos olhares passarem por seu ombro.

— Está bem, já estou indo. Não vou mais ficar criticando sua obra de arte. Mas eu faço melhor.- Após a frase final, tosse, tentando disfarçar o ato egocêntrico.- Ei, estava pensando...

— Você pensa demais.- Disse antes que a outra pudesse terminar a frase.

— Quando a gente se casar, será que um carro vai invadir a igreja e matar o padre?- Bianca riria senão estivesse levando aquilo tão a sério no momento. Era algo que realmente poderia acontecer, se relembrarmos todas as catástrofes anteriores.- Foi só uma piada, nem vamos nos casar da igreja...Talvez um avião caia em cima do cartório. Ai, Ai, Bianca, sua sem senso de humor.

Jessica repetia a mesma frase diversas vezes em frente ao espelho, usando o seu lindo e elegante capuz avermelhado, onde teve que esfregar muito para tirar as manchas de sangue. Há quanto tempo não usava aquele uniforme...Pena que teve que abrir mão das máscaras, para não a acharem também uma fã de assassinos. Seu cabelo havia sido pintado recentemente, dado isso pelo excesso de fios grisalhos em sua cabeça. Ah, a velhice, chega para todo mundo que respira há mais de quarenta anos, e Jessica estava decidida a recusar que não era mais uma sedutora garota no colegial que por acaso matava pessoas. Quando soube que o Cold Blood havia voltado, ela só teve um pensamento, " Dylan está por trás disto ". Se aquele genioso rapaz estava atacando com uma estratégia reciclada, ela faria o mesmo. Criar um novo Cold Blood:

— Nós vemos tudo...- Seus lábios continuavam com o batom vermelho que sempre usava em situações importantes. Sua boca se mexendo com a frase, era algo que realmente admirava muito, achava bem sexy.- Inclusive a sua...

— O que está fazendo?- Perguntou Sebastian, se esgueirando na porta. A que fingia não ter cinquenta e poucos anos, fez questão de retirar o capuz, ficando sem graça com a situação. Havia perdido a prática ou não era mais propensa aquilo?- Cada um com seu cada qual.- Ele aproximou-se dela, e a beijou. Suas bochechas rosaram instantaneamente. Ao se olhar no reflexo do espelho novamente, apenas conseguiu ver seu olhar cansado e enrugado, junto de seu cabelo emaranhado e sua pele flácida. Sebastian pega sua carteira em cima da penteadeira, se posicionando para sair.- Vou ver Lídia. Hoje eu estive lá de manhã, o colégio ligou para ela, falando que Rose que estava chegando muito atrasada para a aula.

— Por que ela não veio falar diretamente comigo?

— Talvez não quisesse incomodar, ou até não se lembrou, dando em conta tudo o que está acontecendo pelas redondezas...

— Eu não me importo em ser incomodada quando se trata de Rose. Nós temos um acordo.- Jessica senta-se de frente para a penteadeira, pegando sua lixa de unha.- Já abri mão da guarda dela, e de sua presença nesta casa. Agora eu não vou perder a vida dela.

— Lídia não fez por mal, esqueça isto. Você aceitou a decisão de Rose de ir morar com ela.

— Eu não posso privá-la dessa escolha. Às vezes penso que a sua filha faz isto apenas para me provocar.

— Apenas pela Rose? Lídia é grata por tudo o que fez por ela.- Lícia vinha do corredor, trazendo com sigo o celular do patrão tocando. Sebastian olha para o numero, e decidi que não precisa atender agora.

— Aquela garota nunca aprovou a nossa relação. Sempre se opôs de que a gente ficasse junto.

— Lídia nunca superou completamente a morte da mãe. Deveria ser compreensiva com os sentimentos dela!

— E os meus sentimentos?! Eu posso ter passado por muitas coisas, mas nada disto tira a minha humanidade.- Jessica se levantou, deixando seu secador cair no chão, juntamente da cadeira.- Lídia sempre quis tirar tudo de mim, dizendo que eu era a vilã da história! Eu criei Rose como minha filha, e ela a tirou de mim! Agora quer que eu abra mão de você?- Ágatha apareceu na porta, com uma expressão de surpresa.- Não quero perder mais ninguém que eu amo...

— Você não vai me perder. Eu te amo, e se Lídia também me ama, não vai tentar abalar a nossa relação.- Ele a abraça. De vez em quando tinham discussões assim, que sempre acabavam em um aconchegante abraço.

— Tenho medo de que tudo desabe, sabe...- Lícia orientou Ágatha a voltar ao seu quarto, e as duas foram juntas cochichar sobre o que acabaram de ouvir.- Não sou mais jovem como antes...

— Não diga isso. Você continua linda.- Sebastian ajeita o cabelo de sua esposa, colocando-o para atrás da orelha.

— É que eu não vou ficar aqui por muito mais tempo...Eu estou envelhecendo...Morrendo. E com certeza não quero deixar esse mundo com arrependimentos, quero que o final da minha vida seja repleta de felicidade. Com você e a Rose.

— Quanto sentimentalismo, é nojento.- Comentou Ágatha, tomando um café no quarto. Lícia apenas balançou a cabeça, em sinal de concordância.- Eu realmente espero que ela seja feliz.- " Para deixar de frescura ", completou em seu pensamento.

Flashback on:

A garotinha de longos cabelos castanhos se encontrava sentada sob a sua cama de estampa floral. Estava pensativa, esperando a sua mãe voltar de algum trabalho que não fazia a menor ideia em qual era a área. Jessica ainda não compreendia o motivo pelo qual sua mãe tinha que sair tão tarde para fazer serviços, o certo seria ir cedo, não? O chão do quarto estava lotado de livros abertos e fechados, de diferentes gêneros e autores. Seu gosto por literatura era muito mais forte na infância, isso ativava a sua fértil imaginação que se perdeu com o tempo enquanto crescia, abrindo espaço na sua mente para tanta negatividade e temores. Sua estante de bonecas, centralizava uma mini versão de pano, dela mesma. As vezes sentia medo que aquela pequena pessoinha podia a matar durante o sono para usurpar o seu lugar, e as vezes se sentia segura com ela ali, como se um monstro que fosse sair de baixo da sua cama para pegá-la, fosse afugentado pela boneca. A porta do quarto da mãe rangeu, fazendo a garota se levantar instintivamente e correr até onde aquele barulho vinha. Será que tinha chegado e não a ouviu? Logo ao chegar lá, se deparou com sua mãe quase fechando a porta, ela estava encharcada de...Sangue? Estava com um capuz vermelho escuro, e o seu salto-alto estava deixando um rastro vermelho no chão, junto de alguns pingos de chuva da tempestade que havia acabado de começar. Mary se espantou ao ver sua preciosidade a encarando daquela maneira, mas nada se comparava a carinha de susto que a criança fazia, seria fofo, se não em um momento tão assustador:

— Você não deveria estar dormindo?- A mãe a olhou no fundo dos olhos, meio como se a pergunta fosse uma ordem. Antes deste encontro, Mary conversava com um antigo amigo sobre como aquele cadáver tinha um lindo rosto másculo, deveria ser um ganharão que se interessava por garotas mais novas, mas se bem que não tinha muito a oferecer. Logo em seguida a conversa mudou sobre como aquele passa-tempo de assassinato era cansativo e mórbido. Matar pessoas já não era tão legal, virou entediante. É lógico que seu trabalho principal havia mudado desde que se infiltrou mais afundo na organização, ganhando o respeito de todos. A jovem mulher tinha um propósito em mente, uma espécie de projeto que fora roubado dela, algo que deveria deixá-la viva para sempre. O Projeto Sósia, como deveria se chamar, mas parece que esse ladrão queria deixar algo que fosse de sua própria originalidade, assim transformando o título, em " Gêmeos Artificiais ". Era basicamente um plano para sequestrar pessoas iguais a famosos ou a pessoas de grandes fortunas, para então fingir a sua própria morte, através desses pobres coitados que passariam por um processo, até chegar no modelo idêntico ao original. O DNA? Isso é fácil, não há nada que uma boa quantia em dinheiro não omita.

— Eu estive te esperando, mãe.- Jessica deu passos para trás, se sentia assustada com aquela mulher que não conseguia ver como a sua carinhosa mãe.

— Vá dormir, querida. Conversamos sobre isso amanhã.- Mary fechou a porta de seu quarto, deixando a pequena parada no meio do corredor, olhando para o chão. Ela fazia isso quando queria perguntar as coisas, mas não tinha coragem. Talvez tenha aprendido isso com o pai. A dona da loja de bonecas não tinha lembranças muito boas de seu marido, aquele homem que até pouco tempo afirmava a autoria do rascunho do projeto que fora criado pela esposa. Mas agora, ela não se importava mais com ele, não tinha motivos para se preocupar depois que o matou.

Flashback off:

Aquela cicatriz no peito de Lídia, na qual fixava o olhar em frente ao espelho, era uma lembrança de todas as crueldades que tivera que passar para sobreviver e amadurecer nesta cidade. Algo que nunca iria querer rever outra vez. Se sentia tão confortável com o cabelo castanho escuro tampando as beiradas daquele sutiã preto, e não queria vê-lo manchado com o sangue de seus filhos. Ela posiciona o dedo sobre a marca centralizada perto do seio, sentindo a textura daquela lesão que poderia tê-la matado instantaneamente, mas ao que parece, não queriam matá-la. Se fosse para Lídia morrer, com certeza já estaria apodrecendo em seu túmulo. O tiro daquela noite, aquela temível noite, foi calculado até o menor centímetro para que desse tempo de salvá-la. O porque? As coisas apenas são assim, eles que decidem quem deve viver e quem deve morrer. Provavelmente Ellen queria deixá-la respirando para causar mais emoção, talvez até uma continuação bem mais sangrenta. Seria uma pena ou uma vitória a líder do Cold Blood não ter sobrevivido para ver o quão empolgante este novo jogo está se tornando? Bem, para quem deu a volta por cima, sendo expulsa do grupo por Jason, muito antes de Sara ter virado uma Girl Blood, e então mostrando que era ela quem dava as ordens. Jason por muito tempo pensou que o Cold Blood era uma equipe que decidiam as coisas juntos, até se dar conta de que aquela sociopata estava no controle de tudo. Mais uns pensamentos vieram na mente de Lídia, enquanto analisava aquela recordação deixada em um luar de pura adrenalina. Era sobre todas as catástrofes que presenciou, como o seu atropelamento, suas fotos vazadas outra vez, a confirmação de que sacrificaria Rebeca para salvar Rose, a perseguição que fez para fugir dos policiais comprados, e a prisão que fez desnecessariamente para ocultar a verdade da Sara, que por sorte ninguém soube daquela falsa confissão, já que Sofia fez questão de esconder todo aquele caso. Comparada a todas as outras tragédias, deveria estar feliz por não ter passado a quantidade de tortura que os outros tiveram que enfrentar. As vezes se pegava pensando que a sua bondade não conseguiu ser contaminada por não ter assassinado alguém, como todos os outros fizeram. Uma coisa que nunca imaginaria durante aqueles anos diabólicos, era que um dia teria um final feliz ao lado de quem amava, e com dois filhos queridos:

— Talvez Miguel devesse saber.- Cochichou, acreditando estar falando em sua mente. Ela se referia ao saber de que Sara era sua mãe biológica, mas bem, foi apenas um dos pensamentos passageiros que de tempos em tempos retornam em suas memórias e reflexões. Lídia abaixou-se em baixo da cama, tirando de lá um baú de brinquedos fechado. Dentro dele havia a boneca cópia da original achada por Sara na casa abandonada, ao lado também tinha um colar. Ela encontrou aqueles objetos horas depois do inútil suicídio de Sara, Daniel não se agradava com a esposa guardando recordações tão pesadas, mas nunca conseguiu tirá-los de Lídia. Se tinha uma coisa que essa mulher não queria perder, era os momentos e o que sobraram deles, mesmo que fossem tão temíveis. Uma vez Daniel perguntou se não seria melhor arrancar a cabeça de Sara e a deixar exposta na casa. Era pra ser uma piada, mas acabou se tornando em uma briga.

— Quem compra globos de neve?- Acusava Rose, vasculhando a surpreendente casa de seu namorado, aonde poderia achar até um ursinho de pelúcia com câmera nos olhos.- Presentes pra mim que é bom, nada, não é mesmo, Leonardo...- Ele deu um sorriso. Estavam procurando uma camisa roxa com um coração estampada, que ela havia deixado lá há algum tempo, mas realmente, naquela muvuca de caixas não dava para achar nada. Já havia se mudado há quase um mês daquele mini-apartamento aonde ficara por quase dois anos, mesmo assim não se interessou em arrumar grande parte da mudança. Leo teve sua emancipação quando completou quinze anos, como morava distante de todos os familiares quando sua mãe morreu, ele teve a oportunidade de escolher entre seguir a sua própria vida, ou continuar durante algum tempo às custas de um parente que mal conhecia. Agora com dezoito, com certeza tinha bem mais responsabilidades, como evitar ser preso.

— Quem sabe no seu aniversário...- De repente um barulho estranho é ouvido no cômodo.- O que você...- Uma caixa lacrada acabara de cair das mãos da ruivinha.

— O que tem aqui?- Ela pega o estilete, começando a cortar a fita adesiva usada para selar. Leonardo rapidamente tirou a caixa de sua mão.- Garoto...

— Isso não é muito apropriado.

— Como se você se importasse com o que é apropriado. Anda, me dá!- Rose puxa a caixa com força, assim traçando uma insistência épica para saber o que teria ali dentro.- Eu não me importo se forem perversões...- Os dois conseguem rasgá-la. Do furo caiu algumas...Caixinhas de remédio?- A namorada se abaixa para pegar e ler a embalagem.- Isso aqui são hormônios?- Leo engole à seco. Sua expressão era indecifrável, parecia preocupado, triste, zangado, chocado, era mais fácil dizer que estava sem reação.- Me responde!

— Rose...Você está me assustando.

— Ah, claro.- Ela dá um sorriso sínico.- Sou eu quem está assustando alguém aqui. Por que você precisa desses remédios, Leonardo?- Ele apenas desviou o olhar, pensando em uma mentira boba para sair dessa situação, mas Rose não queria mentiras para não se preocupar.- Não quero tomar ideias precipitadas.- Ela devolve à ele o remédio.- Quando quiser me contar a vontade, venha me ver.- Então foi-se em direção à porta.

— Para de drama!- E após essa frase, apenas a batida da porta fazia algum ecoo por ali.

Miguel acelerava o passo, enquanto ia em direção ao local marcado para encontrar seu amigo virtual. Seu celular era a única coisa que levava com sigo, não era um local perto de casa, mas também não morreria se fosse andando. Queria apenas saber se aquela fábrica de roupas abandonada, era um ponto de referência para encontrá-lo, ou apenas um esconderijo para lhe dar uma enorme surpresa, que estranhamente não passava pela sua mente ser um sequestro. Pois bem, essa parte da cidade com certeza não é bem movimentada. Apenas dois carros passaram nas três últimas ruas que passara, e quanto mais se aproximava do local combinado, mais o passeio se tornava deserto. Seu celular apitou, devia ser uma mensagem de Dylan, ansioso para conhecer o filho de Sara, pessoalmente. Ao chegar ao local, apenas parou de frente para aquela construção sinistra, com janelas quebradas, e uma parte caindo aos pedaços, provavelmente do outro lado só restara metade do edifício:

— Eai, já está chegando?- Leu a mensagem em voz baixa. " Estou em frente ao lugar, cadê você, psicopata? ". Um sorriso cresceu ao digitar aquilo, e então começou a adentrar naquele território amigo. Estava fazendo certo ao se encontrar com um amigo virtual que nunca vira antes pessoalmente, e sem a presença de seus pais? Não, não estava. Mas até aparece que ele ligava para isto. Miguel apenas fazia o que lhe dava na telha, e isso resultou em várias confusões no passado, igual a vez em que estava fantasiado de pinguim e imitou o assaltante de um banco durante o assalto. Estava fofo, mas poderia estar morto. Já estava dentro do lugar, subindo uma escadaria para o segundo andar, mas o que era aquilo mais a frente, lá em cima quase no topo da escada? Era uma máscara..Igual aquelas que o antigo Cold Blood usava.- Puta merda...Que brincadeira é essa, Dylan? Não tem a menor graça.-Suas narinas foram tampadas por um lenço, enquanto seus braços eram presos com a outra mão do tal sequestrador. Adormeceu rápido na luta, e então a Girl Blood o arremessou da escada, para então o garoto cair nos braços de mais um assassino, um Guy Blood.

— Ah, sim. Posso te confirmar que isto tem a maior graça.- Disse Dylan, atrás do ombro de quem segurava a vítima.

Rose entrou em casa batendo a porta furiosamente. Lídia logo estranhou o comportamento de sua filha, supôs que fossem os hormônios com seus altos e baixos na adolescência. Logo Rose se tornaria adulta, faltava alguns meses para completar dezoito anos. A ruiva disse que quando fizesse a maior idade, iria para um intercâmbio no Estados Unidos, a questão era, com o dinheiro de quem? De jeito nenhum seus pais iriam deixar uma desnaturada viajar para outro país. Mas é lógico que tinha um plano, seu avô com certeza apoiaria sua decisão, seria muito fácil convencer ele a investir seu dinheiro no futuro da neta. Esse era um assunto que surgia de vez em quando, ao que parece até a própria promotora estava esquecida desse seu sonho:

— Se quebrar, você vai aprender a produzir portas.- Alertou a mãe. Rose bufou a mecha de seu cabelo que ficara atrapalhando sua visão.- O que foi dessa vez, briga de novo?

— Você não quer saber de problemas " juvenis ", só quer tentar me consolar.- -Ela caminhou até a cadeira do computador, sentando-se nela, e começando a fuxicar as guias abertas, até se deparar com a rede social de seu irmão aberta.

— Tem toda a razão.- Lídia enfim acabara de lavar a louça, mas isso não diminuía nem um pouco do trabalho que ainda tinha para terminar de arrumar a casa, onde nunca ficava cem por centro limpa.- Pelo amor de Deus, se tiver um prato no seu quarto, quebre e jogue bem longe daqui.

— A meia dúzia de copos também?- Estava tirando onda, mas o olhar de desespero da mãe foi bem mais engraçado.- O Miguel não tem nada comprometedor nas conversas dele, é tudo sobre joguinhos e umas coisas estranhas que ele assiste.

— O que eu disse sobre invadir a privacidade do seu irmão?

— Só quero descobrir sobre as " namoradinhas ", ai da próxima vez que a tia Bianca vier perguntar, posso mostrar as evidências...Opa.

— Chega, Rose. Saia daí.- Lídia havia lhe dado uma ordem, mas o olhar fixo da ruiva não sairia de jeito nenhum até acabar de ler a mensagem que descobrira.- Rose, já chega.- Ela se levantou, indo diretamente para o computador. A primeira coisa que leu foi aquele nome, o nome que a arrepiava quando ouvia. Dylan estava morto há quase quinze anos, e mesmo assim, tinha cravado na mente de todos, como se permanecesse vivo.

— Eu não conheço esse amigo do miguel.- Rose entrou no perfil do garoto. Parecia um moleque normal da idade do irmão, mas ao subir a conversa, leu que eles nunca haviam se encontrado.

— Cadê o seu irmão?- Lídia então leu o endereço do local de encontro, sabia aonde era. Seu corpo ficou tenso, eufórico, a adrenalina começava a crescer em seu corpo, mesmo sem ter saído do lugar.

— Eu não sei...- Mas agora sabia. O horário do encontro estava mais acima.- Vou chamar o meu pai!- Rose levantou correndo em direção ao telefone.

— O telefone da cafeteria tá quebrado. Avisa ao seu pai que eu vou atrás do Miguel.

— Estou ligando pra polícia.- A correria de Rose foi imitada por Lídia, que dessa vez correu em direção a porta.- Mãe!- Se ela ouviu, com certeza não voltaria, só conseguia se encontrar em seu outro filho, Miguel. Após terminar a ligação para a maior ajuda no momento, a ruiva apressou-se, indo para a cafeteria avisar Daniel da enrascada que aquele garoto se meteu. Seu pé tropeçou quase em frente a porta de casa. Que mal momento para acidentes. Tudo escureceu à sua volta, e apenas conseguiu ver do outro lado da rua um homem alto usando um casaco preto. Ele tinha algo na mão, parecia-se com uma peruca, mas ele escondia atrás de seu corpo.

— Rose!- Luke a tocou no ombro. Tudo voltou ao normal para ela. Apenas havia caído na rua.- Você está bem?

Várias coisas passavam pela mente de Lídia enquanto corria desesperadamente até aquela fábrica abandonada, que por acaso era na mesma rua da onde um dia existiu a casa abandonada onde Sara encontrou a boneca que atualmente guardava em baixo da sua cama. Essa rua tinha uma tendência em ser abandonada. Não apenas isso, mas também em ser propícia apenas em momentos bizarros. O tempo nem parecia passar, naquela velocidade, com certeza não iria sentir nada passar. Corria como nos velhos tempos, igual quando tinha que ser rápida para salvar sua própria vida. Tinha um atalho que descobriu quando acabou se perdendo pelas redondezas uma vez, nem ela própria sabia como conseguiu se perder na pequena cidade em que passou anos. O coque que tinha feito em casa, agora já não tinha nem resquícios de quê existiu, seu cabelo estava livre, leve e solto. Pena que o seu filho não teve a mesma sorte. Miguel estava acorrentado a uma cadeira, com os membros do Cold Blood em sua volta, formando uma espécie de círculo macabro. Um pentágono se sobressaia no centro do círculo feito por giz, e era justamente aonde a cadeira estava centralizada. Eram quatro pessoas no total, uma mulher mascarada, e dois homens também usando máscaras, todos uniformizados. Mas o quarto integrante era o único que não usava disfarce nenhum, Dylan. Dylan caminha até o garoto, lhe dando um tapa para que acorde, parece que funcionou. As outras pessoas ao redor de afastam, provavelmente para dar mais espaço para que o caçador converse com a presa:

— Finalmente. Você dorme muito.- Ele sorri cinicamente, apreciando a expressão de medo no rosto do filho de Sara.- Se sua mãe tivesse dormisse tanto quanto você, provavelmente não estaria aonde está agora. Meio irônico, não?

— Me deixa ir embora.- Pede choramingando.- Eu juro que não conto nada, só quero viver...

— Eu não confio em um garoto mimado e estressadinho como você. Pra ser sincero, esse tipo me dá nojo.

— Socorro!- Grita repetidamente, os membros estavam prontos para calarem a boca dele com uma fita, mas Dylan não se importava. Após quase dois minutos berrando, ele calou-se.

— Finalmente.- Disse um Guy Blood, retirando sua máscara. Era aquele mesmo cara que aplicou uma espécie de vacina em sara, no hospital.

— O que você quer de mim?

— Eu diria: " Tudo o que eu jamais tive ", é algo que eu sempre quis dizer, mas a vida não colabora para esse feito.- Dylan sorri ao levantar a sobrancelha. Ele puxa uma cadeira do canto e a coloca de frente para o menino.- Sabe o que eu quero de você? O seu medo. E eu sei que consegui te assustar. É muito fácil apavorar as pessoas, principalmente mariquinhas que nem você, precisa apenas matar alguém e jogar na cara delas.

— Por favor, me deixa ir...

— Se eu te deixar ir, qual vai ser a emoção de te ver implorando por essa sua vida tão desprezível? Sabe, meu nome é Dylan. Sim, eu mesmo, aquele fanático pelas mesmas coisas que você. E pra ser sincero, realmente gosto de todos aqueles jogos, e zerei eles. Mas este jogo em especial, esse jogo de poder controlar a vida de cada pessoa, e decidir exatamente como ela vai ser executada e controlada, é bem mais divertido do que aqueles do vídeo-game.

— A vida não é um jogo!

— Claro que é. A vida é um jogo de esperança, de libertação e aceitação. Você passa por fases, algumas mais difíceis que as outras. Nós construímos barreiras, fazemos laços, e aprendemos que precisamos de uma equipe para sobreviver. Sofremos em batalhas, nos regeneramos e morremos diversas vezes por dentro. Vemos grandes ajudantes desistindo no caminho, alguns perdendo por falta de recursos. Mas nós continuamos firmes e fortes, até que chegue a nossa hora de sobrecarregarmos e sermos desligados. Infelizmente, todo esse discurso acima, é apenas para a fase três, e você nem chegou na segunda. No momento, só resta para você uma banheira de sangue.- Dylan faz um pequeno corte no ombro de Miguel, que o fez gemer e gritar intensamente.- É sério que vai chorar por tão pouco? Seja como sua mãe, Seja como seu pai ou seus avós. Seja como todos os outros, caso o contrário, acho que terá que abandonar o jogo mais cedo do que pensei.

— Você é maluco!- O homem apenas sorriu, refletindo em como essa criança na sua frente, era bem mais fraca do que imaginava. Enquanto aqui rolava uma espécie de tortura através de diálogos poéticos, e lá fora uma corrida contra o tempo, em outro lugar deste mesmo edifício, alguém estava espionando a situação. Bianca não perdeu tempo, assim que voltou para a cidade, já começou a ir nos lugares marcados no mapa dado por Mary. Ela meio que acertou ao dizer que Dylan estaria entre essas três localidades. Não é como se ele estivesse estabilizado lá, mas o Cold Blood se reunia naquele lugar, então era um ponto para Bi. Ela chegou no lugar usando os túneis subterrâneos da cidade, estava literalmente atrás da parede da onde acontecia aquela conversa estranha. Da última vez em que esteve naquela fábrica abandonada, deixou um dispositivo de áudio escondido no meio de tijolos, e ao descobrir que seu sobrinho postiço estava em perigo, se dispôs a ir ajudá-lo. Estava louca para encontrar seu irmão novamente, mas não seria nada inteligente ir confrontá-lo assim tão direto. Bianca Tinha certezas dúvidas sobre o paradeiro de Mary. Depois que descobriu que a idosa é mãe de Jessica, e que parecia ter algum envolvimento com o Cold Blood, ela colocou sua fidelidade em prova. De quem a dona da loja de bonecas era aliada, Dylan ou Bianca? Na verdade, a velha apenas queria colocar lenha na fogueira, não importasse quem ganhasse, o que realmente importa é ver a luta para ter esse mérito. O mapa que estava usando para se localizar entre os túneis, era apenas mais um das cinquenta cópias que imprimiu. Não iria perdê-lo nunca, se precisasse até o tatuaria no corpo.

Lídia chegou ao destino, subindo a escadaria para onde estaria o seu filho adotivo. Seu suor escorria tão freneticamente, e suas arfadas eram tão fundas. Mesmo assim, isso não a deixou menos ágil e cautelosa para chegar até o segundo andar. Já dava para ouvir as vozes virando a direita no corredor que tinha apenas este lado para atravessar, entre as cordas vocais uma delas era a de Miguel, que apresentava total angustia:

— Lídia nunca te contou sobre o passado dela pelo jeito. É uma história fascinante.- Ela não reconhecia esta voz. Por que seu nome estava sendo citado? Deveria continuar escondida atrás da parede e tentar espionar, ou confrontar aquele amigo virtual que poderia ser ou não falso logo de uma vez? Mas e se fossem assassinos? Ou sequestradores? Mas e o nome Dylan? Dylan estaria vivo? Deveria ter refletido isto antes.

— Eu só quero voltar pra casa...

— No futuro não existirá mais um lar para se apegar, ou pessoas para amar.- " Meu Deus ", com certeza era um psicopata ou algo do tipo. Ela aproximou-se para o final da parede, olhando de fininho o que estava acontecendo. Um homem estava de costas para si, enquanto seu filho se encontrava em uma espécie de círculo demoníaco. Aquele homem, com certeza nunca o vira na vida, jamais viu alguém assim. Quem dera ele se virasse para poder gravar bem o rosto daquele molestador antes de dar uma boa surra nele. Espera...Havia mais gente no cômodo. Ela tenta enxergar um pouco mais adiante, mas ao que parece se desse mais um passo, seria descoberta instantaneamente. Dylan virou-se para a janela perto de Lídia, observando o reflexo do sol entrando no local, e lembrando das vezes em que isso foi tão inspirador em paris. O homem desconhecido enfim teve seu rosto analisado, e várias memórias foram retiradas da gaveta esquecida. De repente todos no cômodo se ensurdeceram com o mais alto grito que já presenciaram, lágrimas escorreram do rosto apavorado de Lídia, que jamais havia ficado naquela situação.

— Mãe!- Miguel começou a chorar também. Mas agora não tinha saída, já havia sido descoberta graças a mais uma reviravolta infernal. Como as coisas seriam agora? Bem, nunca ia descobrir se não corresse exatamente agora. Os membros do Cold Blood já estavam prontos para sacar suas armas e correrem atrás dela.

— Sigam-na! Façam como combinamos.- Todos partem para seus postos.- E você, não saia daí, hein!- Dylan piscou para o garoto acorrentado, e então partiu em direção à sua bonequinha. Bianca espiou por uma frecha, quando teve certeza que não seria vista, decidiu arriscar e ir em direção a Miguel, que gritava em desespero. Bi caminha sorrateiramente até seu sobrinho, tampando a sua boca com a palma da mão, enquanto tanta acalmá-lo.

— Miguel, calma. Sou eu.- Sussurra no ouvido, esperando que ele reconheça a voz.- Vou te tirar dai, mas você tem que ficar quieto.- Ela tenta puxar a corrente ou procurar alguma coisa nela que facilite o trabalho, mas é lógico que teria que apelar para algum tipo de arma. Seu olhar rondou o quarto, procurando algo que sirva para tirá-lo dali.

— Eles estão atrás da minha mãe!- Esse garoto devia achar que era amadora. Estava mais do que preparada para ingressar nesta batalha. Enfim achou uma coisa útil. Bianca pegou o machado jogado no canto da sala, torcendo para que aquela corrente não fosse tão resistente. Miguel abre espaço entre os pulsos, e a corrente se quebra com uma machadada só.

— Vem comigo, eu sei como sair daqui.- Ela o pega pelo braço, correndo o mais rápido que pode naquele salto-alto que deveria ter pensado em tirar antes.

— Temos que ajudar minha mãe!- Disse quase gritando, enquanto " atravessava " a parede.

— Ela já passou por isso antes, vai conseguir de novo.- Várias perguntas nasceram a partir de então. Miguel não pararia de investigar até descobrir tudo no passado sombrio e sujo de sua mãe.

Lídia estava prestes a cruzar o corredor por onde entrou, até perceber que Guy Blood se encontrava de braços cruzados em frente a porta. Ela então olhou para atrás, e veja só, uma Girl Blood selando a passagem. Logo a dupla começou a se aproximar, os dois pegaram serras-elétricas encostadas nas paredes, e as ligaram, aumentando a velocidade em que andavam. Sua única saída era subir as escadas novamente, e foi isso que fez, pegando uma rota diferente dessa vez. Quantos andares esta joça deveria ter? E arriscou subir por uma escada em que o lado direito não existia mais. Aquele andar estava lotado de portas, e então começou a abrideira delas, procurando por um janela para se tacar como nos velhos tempos. Nessa jornada para encontrar uma escapatória, Lídia acabou encontrando um corpo morto, mas não tinha tempo para se assustar mais do que já estava assustada. Seus pés estavam mortos, e mesmo assim continuava em uma velocidade surpreendente. Ao abrir mais uma porta deu de cara com Dylan com um brilhante sorriso no rosto:

— Como vai, Lídia? Sentiu a minha falta?- Ela engole a seco, fechando a porta quase eu imediatamente.- Que falta de educação.- A Girl Blood retorna, dessa vez com um machado na mão. Lídia sobe mais uma escadaria, parando no meio do corredor para recuperar o fôlego.- Vai fugir de mim agora, e depois? Sei onde você mora, e sei até aonde vai se esconder.- Que patética perseguição era aquela? Os sons dele subindo os degraus era alto e claro. Queria apenas causar medo nela, e nem precisava de um Cold Blood para isto, só dele estar vivo já era razão o suficiente para temer o pior. Dylan a alcança, e ao ver ele no começo do corredor, voltou-se a correr novamente, virando a direita, a única continuação que tinha daquele andar. De repente se deu conta da burrada que havia feito. Uma parte do edifício havia despencado, e só o que sobrara para Lídia era uma beira para uma queda fatal em pedregulhos e lixo. Não havia mais nada, nada!

— Não pode ser você! Você morreu!

— Eu também pensava isso.- Ele começava a se aproximar. Ela queria se afastar, mas não tinha como.- Sabe, eu apostava em você para sobreviver ao futuro. É trouxa, mas consegue escapar da morte. Agora...Seria uma pena se realmente pensasse em se jogar dessa altura. Se sobrevivesse, com certeza estaria algo a Sara agora.- Lídia não esboçou reação alguma.- É meio estranho eu falar da Sara, não? Nunca tive a oportunidade de conversar com ela por mim mesmo, mas sei o quão idiota ela foi por ter vindo para esta cidade.- Ele tira uma arma da cintura, e a joga para longe.- Bem, a decisão é sua.- E se o chão rachasse agora mesmo? Ou se o telhado resolvesse desabafar? Sem saída, apenas duas opções.

— Lídia!- Bianca já estava longe, em um terreno baldio ao lado de Miguel, mas dava para as duas se olharem. Ela apontava para um colchão jogado no canto, talvez pudesse alcançar, ou morreria errando. Dylan corre para segurá-la, mas já era tarde. Lídia havia se jogado do terceiro andar, indo para uma queda fatal. Os carros de polícia chegaram. O Cold Blood reuniu-se com Dylan, e fugiram por uma passagem secreta que logo seria descoberta pelos policiais. Bianca e Miguel voltaram, indo diretamente para onde Lídia havia se jogado. Ela estava viva, mas ao que parece, havia ferido o braço.- Vai ficar tudo bem.- Seu grito de dor chamou a atenção de um oficial, que se dirigiu rapidamente até o barulho.

— Não, não vai...Dylan está vivo.

— Eu sei.- As duas se encaram por um período, até uma ambulância chegar para socorrê-la. Disse que conseguia se levantar e se mexer, e que a fratura foi apenas no braço esquerdo, tinha também algumas leves arranhões, mas nada grava. Imaginem o rolo para explicar toda a história e omitir várias fatos. Bianca enrolou ao dar seu depoimento em como havia chegado lá. Para Miguel não foi fácil explicar sobre sua amizade virtual com aquele homem, e em como saiu vivo de um grupo de assassinos. No fim de tudo, as coisas acabaram bem( Se levarmos em conta que o caso foi abafado para não gerar polêmica na cidade ), em algumas horas, Lídia estava de volta ao lar, com um braço enfaixado e cheia de amor e carinho para receber de seus filhos e marido. Bianca tinha uma história épica para explicar a esposa, enquanto continuava a sua pintura estranha, que enfim começou a ganhar forma. Todos estavam traumatizados por dentro, como antigamente, mas resolveram demonstrar esterem bem, para não preocupar quem amam, e para salvar a vida deles.

O véu escuro desceu sobre a cidade. A noite estava graciosa com aquela lua cheia, e o céu em uma coloração um pouco mais azul do que normalmente é na noite. Estava tudo sereno, calmo, inspirador...Tão inspirador que fez Bianca terminar sua pintura bem mais cedo do que esperava. Nos fundo da casa de seu vizinho, um dos empregados queimava uma acumulo de lixo e folhas. O quintal dava diretamente para uma floresta, onde mais a fundo ficava uma lagoa linda a esse horário. Bianca esteve por perto de lá uma vez, mas decidiu que se continuasse a avançar não ia sobrar nem uma parte do seu corpo aonde não tivesse picadas de mosquito. Ela caminhou para os fundos da casa do vizinho, atravessando pela cerca que separa os dois terrenos, trazia junto ao corpo o quadro que havia acabado de pintar. O gramado estava um pouco molhado, e aquele cheirou era um encanto para suas narinas e ao seu cérebro, que tiraria daquele cheiro várias e várias ideias para histórias que nunca escreverá:

— Boa noite, senhora Bianca.- Cumprimentou o empregado, analisando seu casaco fino sobre seu lindo pijama branco.- Isto é um quadro?

— Sim, é.- Ela o vira, revelando o que tinha pintado.

— É meio macabro, foi você que fez?

— Sim. Era para parecer macabro.- Seu olhar é desviado para a floresta. Sentia que estava sendo vigiada por alguém...Talvez até algo. Várias lendas foram contadas sobre aquele lugar, e a história do lago. Dizem que quando muita gente se reúne lá, coisas ruins acontecem, pelo menos aconteceu em 1980, quando um grupo de adolescentes foram achados mortos, com seus corpos boiando no lago.- Posso colocar junto ao fogo?- Disse quase que colocando o quadro sem a permissão.

— Claro, mas, por que quer queimar uma pintura tão linda?

— Ela não é para enfeitar, é pra significar.- Bianca coloca cuidadosamente o quadro no fogo. O rosto de Dylan estava banhado em sangue, seu sorriso sínico era um grande destaque em sua face, enquanto em seus olhos, sua família queimava, assim como o quadro estava fazendo agora. Jason selado no olho direito, Sofia no esquerdo, todos os dois pareciam assustados, amedrontados. Mas havia uma diferenciação que Jason aderia dos demais, ele era o único que foi pintado de um jeito que parecia estar vivo, como uma pessoal física. Era irônico. Seu pai foi excluído da pintura, assim como ela o excluiu de sua vida, ao saber o quão imbecil ele era com sua mãe. O fogo já havia queimado quase tudo, menos aquele sorriso, aquele sínico sorriso.- Isso é arte.- Ela sorri para o empregado.

O tempo passou voando, das onze da noite, foi se para cinco da manhã. Daniel não sabia como conseguia levantar da cama tão cedo, era algo que nunca sonharia em fazer na sua época do colegial. Andava cambaleando pelas ruas, com os olhos cerrados e sujos, como se fosse um sonâmbulo. Reabrir a cafeteria foi uma ideia sua, que por anos não sabia se amava ou se odiava o seu próprio negócio, mas decidiu que é algo divertido, e que não viveria mais, sem poder sentir o cheiro do café durante todo o dia. Seus empregados eram adolescentes no ensino médio, e geralmente não traziam problemas aos seus ouvidos. A ideia de cada mês ter uma decoração de um tema diferente veio de Rose, que sempre quis ver a cafeteria decorada com elementos da sua serie favorita, pena que seu pai nunca efetuou esse desejo da rainha do drama. Ele chegou na porta trancada do lugar, e tirou a chave de seu bolso. Mas espera um pouco, tinha um cartaz colado na porta. Daniel esfrega bem os olhos para começar a ler. Tinha um desenho nele, seria uma...Máscara do Cold Blood? Logo acordou.

— " Sejam bem-vindos a uma caça ao tesouro. Sempre quis matar alguém ou se vingar? Sim, você já quis. Nós somos a sua oportunidade de fazer isto e sair ileso. Estamos abrindo um concurso. Envie ao nosso site quem você escolhe para morrer, junto de uma frase poética, e a motivação pela qual deseja a morte para esta pessoa. Este mundo está podre, repleto de pessoas cruéis e frias. Faça o mundo mudar, escolhendo alguém para matar ".- Logo olhou para o lado, uma mulher também lia o cartaz, mas em um muro. Daniel olha ao redor, e todos, absolutamente todos os muros estão cheios daquele mesmo papel. Agora a questão é: Nós faremos o caos, ou o Cold Blood o fará sozinho.

Sofia adentrou no hospital, pedindo ajuda a uma enfermeira para que a leva-se ao quarto de sua " sobrinha querida " Sara. Seu plano real era matá-la, ainda não decidira com o que ou quando, mas tinha certeza que isto chegaria logo logo. Talvez assim Dylan deixasse todos em paz:

— Eu levava muito Sara para passear, nós íamos no parque tomar um sorvete. O favorito dela era o de menta com flocos. Às ela me pedia para levá-la ao parque de diversões, mas a mãe dela, minha irmã, sempre teve medo dela sair correndo para a montanha russa e despencar dela. Ela tinha imaginação fértil igual a mãe.- A cara que a enfermeira fazia era tão engraçada. Estava ouvindo com atenção, mas o que realmente queria fazer era ir pra casa e dormir durante dias.

— É nesta porta o quarto dela.- Disse a enfermeira, acelerando o passo para se afastar daquela senhora faladeira.

— Obrigada.- Agradeceu quando a mulher já tinha virado o corredor, que aparentemente estava vazio. Sofia olhou ao redor, queria ter certeza de que realmente não haveria ninguém por perto. Quando enfim tomou coragem, entrou. Ela gritou alto, e logo depois colocou a mão na boca.- Meu Deus...Enfermeira!- Correu para fora do quarto, deixando a porta aberta, e ficando na virada do corredor. Uma médica gorducha e negra apareceu, perguntando a Sofia o que estava acontecendo, até que cansou de esperar ela retomar o fôlego, e foi diretamente para ver o que tinha no quarto: Um porco, um porco morto idêntico aquele da demolida casa abandonada, rodeado por moscas. Seu sangue pingava no piso, e já tinha encharcado toda a roupa de cama. Um colar sobressaia em seu pescoço, completamente igual aquele que Lídia guardava em um baú. E o entre os seus bracinhos? Uma pelúcia de porco. Aonde estava Sara? Nenhum sinal dela. Apenas...Desapareceu.

Continua...

Notas finais
Aguardem o próximo capítulo dessa estranha e obscura !