Segredo Virtual
40 2º T: Capítulo 15 Homem Morto
Notas iniciais
Sentados em volta da fogueira do lado de fora das casas, o grupo conversava sobre qualquer coisa que aparecesse para distrair suas mentes do mal ao redor.
— Se estivéssemos em condições normais, estaríamos contando histórias de terror.- Disse Rebeca, comendo uma barrinha de cereal.
— Isso aqui é a história de terror.- Resmungou Mark, encolhido em um canto no qual tinha uma parede para se apoiar.
Daniel encarava a fogueira, dando umas espiadas de vez em quando para Noel dentro de uma das casas sem teto, o vendo pela porta aberta fazendo a segunda fogueira da noite.
A ideia de passarem o tempo ali antes de irem dormir estava mantendo-os sãs. Mark agradecia por estar um pouco mais relaxado do que no dia anterior. Rebeca tomava cuidado com as palavras, sabia que lembrar a cidade e como viviam poderia fazer mal a alguns, então tentou pensar em um assunto legal e que não os remetesse ao que estavam vivendo.
— Já ouviram falar da história do homem de paletó branco?
— Ah, não, Rebeca. Sem histórias de terror, por favor.- Rafael insistiu, preocupado em como se sentiria quando fosse vigiar todos na madrugada.
— Ah, vamos, é bem legal. Se te der muito medo eu cubro seu turno.
— Sendo assim...Tá, vai, conta.
— Ok, a história começa com um homem que morava sozinho numa cabana na floresta, lá pros anos 80, 90.- Ela se ajeitou, começando a movimentar as mãos.- Tinha uma vila que ficava perto da cabana dele, e quem o via de vez em quando comprando algo, sempre dissera que ele tinha uma cara fechada, amargurada, e sempre vestindo um paletó branco. A verdade sobre ele é que era um caçador, mas não apenas de animais, mas também de humanos...índios! Ele realmente odiava os índios, tinha um ódio mortal por eles, odiando tudo o que representavam. O homem do paletó branco saia toda noite com sua espingarda, atrás de alguém para caçar. Algumas crianças disseram que o viram se alimentar de carne humana uma vez. E é aí que tá. Algumas crianças quando iam brigar na floresta, começaram a não voltar mais!
Todos se envolveram na lenda urbana de Rebeca, tanto que nem prestaram atenção quando Sara saiu da casa da Banheira Vermelha, completamente molhada e com um novo corte de cabelo horrível. Daniel percebeu ela o chamando com os olhos, e então se levantou, dizendo bem baixo que já voltava. Marina, sentada ao chão, olhou de relance para os dois indo se encontrar nos portões.
— Os moradores da vila começaram a suspeitar do homem de paletó branco, afinal ele era estranho e um assassino de indígenas...
A partir dessa parte da história, Daniel não conseguiu mais ouvir a lenda, focando sua mente apenas em Sara.
Caminhou até a entrada da Vila Sanru, cruzando os braços.
— Vou ter alguma explicação quanto a isso?- Disse, analisando-a de cima a baixo.
Sara o encarou, trocando olhares sérios e perguntadores. Depois de alguns segundos e um suspiro de impaciência, ela levantou sua blusa até metade da barriga, mostrando a arma que encontrara enquanto se banhava. O queixo de Daniel caiu.
— Onde você achou isso?- Perguntou, olhando para a roda de pessoas distantes.
— Naquela banheira com sangue. Estava lá dentro.
— Você entrou na banheira?- Os olhos dele se arregalaram.
— Não tem balas.- Ignorou a pergunta.
Ela não respondeu mais nada, apenas abriu uma brecha nos portões e foi para fora. Daniel seguiu Sara até depois da descida do barranco, tentando entender todas as coisas novas que ela tinha trazido ao aparecer. Um cabelo feio, corpo banhado em sangue e uma arma.
— Sei que é o líder, mas eu não confio essa arma na mão de ninguém, mesmo sem munição.
— Concordo com você.- Eles pararam em frente a uma árvore.- A gente vai acabar se matando.
Sara olhou para cima, tirando a arma de dentro da calça e a entregando para Daniel.
— O que quer fazer?- Passou os dedos pelo objeto inutilizável.
— Esconder lá em cima.- Enfim disse, se referindo a árvore.- Se a gente enterrar, alguém acha.
— Concordo.- Daniel encarou o tronco, pensando se conseguiria escalar após muito tempo sem subir em uma árvore.
Aos poucos e desengonçado, começou a subir com a arma na mão. Sara vigiava com os braços cruzados, olhando para a entrada da Vila Sanru e também além das árvores, mesmo que não conseguisse ver nada naquela escuridão. Ele se segurou em um galho e subiu mais um pouco, até não estar na visão de quem olhava de baixo. Ao abaixar um tronco pequeno, viu uma caixa de madeira, parecida com o baú, porém menor, situada em um tronco mais grosso.
— Tem um baú aqui.- Disse Daniel, chamando a atenção de Sara.
— Um baú? O que tem dentro?
Ele levantou a tampa, encarando o interior do baú por algum tempo, seu rosto fez uma expressão estranha.
— Daniel?
Após alguns segundos ele desceu da árvore, sem a arma ou um baú nas mãos. Estava apreensivo. Limpou suas mãos na calça e olhou ao redor.
— O que tinha dentro do baú?
Ele soltou o ar com força, pensando se aquilo era a favor deles ou contra eles.
— Dinamites.
No meio da madrugada, Rose foi se encontrar com seus amigos no quarto de Ramona, que era o mais centralizado do corredor. Ela e Miguel contaram a todos sobre o bebê que viram ser carregado até a sala do trono. Tinham um plano para usá-la para sair de lá.
— Mas a gente não sabe se esse bebê é importante pra ele.- Anya comentou, com medo do plano dar errado.
— E o que a gente tem a perder ficando parado aqui?- Miguel estava convicto de que ia dar certo.
Rose explicou como funcionaria o rapto, teria que ser no meio do dia, para assim saírem do castelo ainda com claridade.
— Aonde a criança tá agora?- Perguntou Luke, sentado na cama.
— Temos que descobrir. Mas eu e o Miguel sabemos onde é o berçário dela.
Anya ainda assim parecia com muito receio, as chances de dar tudo errado eram gritantes. Se Dylan foi capaz de dopar Clara, paralisar a respiração de Luke e matar Leonardo, o que ele não faria se tentassem escapar das mãos dele. Rose olhou para os olhos cansados de Luke, mesmo aparentando estar bem, dava para ver que as coisas do dia anterior foram demais para ele.
— Espera aí. Vamos fugir pra onde? Com que comida?- Ramona contestou, tendo uma linha de pensamento maior do que as quais estavam sendo apresentadas.
— Bem, como a gente não sabe o que tem além da floresta, vamos ter que ir o mais longe que pudermos.- Explicou Rose.- E a comida... podemos colocar numa cesta algumas coisas do almoço.
— É, mas alguém aqui tem uma cesta por acaso?
— Eu tenho.- Respondeu Anya.- Está cheia de frutas.
Kauan se perguntou por que só ela tinha uma cesta de frutas no quarto? Os membros do Cold Blood nunca são valorizados.
— Provavelmente vai dar errado.- Ramona desviou o olhar para uma penteadeira, já vendo como aquilo era um enorme erro.
— A gente precisa tentar. É fazermos algo e ter a mínima chance de nos salvarmos ou morrermos ficando parados.- Rose fez com que todos se calassem.- Querem que eu explique de novo? O plano?
— Eu tenho uma pergunta.- Anya começou.- Se a menininha não tiver importância pra ele, fazemos o que com ela?
— Corremos do mesmo jeito e levando ela. Talvez ele blefe, não tem lógica cuidar de uma criança sem ter um apego emocional ou coisa do tipo.
— Mas não vamos machucar ela só pra testar, né?
— Claro que não, não somos igual a ele. E com certeza ela tá mais segura com a gente.
— Então não vamos entregá-la?- Questionou Anya.
Rose umedeceu os lábios, não tinha uma resposta na ponta da língua.
— Eu não sei.
— Claro que não, né? Que condição a gente vai ter de cuidar de uma criança?- Ramona parecia certa de que ninguém ali sabia o que estava fazendo.- Já somos muitos, se ela tá aqui é porque tem cuidado.
Rose refletiu um pouco. Ramona tinha razão, arrastarem um bebê com eles seria um péssimo erro.
Lídia olhou para suas botas, pelo menos não fora largada com um par de saltos no meio de uma ilha. Desde que o sol nascera, começaram a caminhar em direção o que poderia ser a fonte de vida deles. Em pouco tempo, os três aventureiros tinham se enturmado, cada um com seu jeito, porém ninguém ali parecia mal intencionado. Eléxeu toda hora pegava o mapa para ter certeza da direção, mas na verdade nem tinha como confirmar, estavam cercados por árvores e arbustos, e aquele mapa não explicava muito.
Marcos, quem segurava o saco de suprimentos, ouviu o som de insetos e pássaros, aquilo o deixava confortável, era bom se sentir no meio da natureza em uma paz absoluta, sem buzinas ou gritaria, mesmo que com duas companhias indesejadas. A mulher do grupo se mantinha focada, tinha sim um jeito cansado, porém ao mesmo tempo destemido, pronta para encarar qualquer coisa, mas no fundo também era uma medrosa, ninguém ali estava realmente corajoso.
Se aproximaram de um barranco, com uma descida bem maior que a da Vila Sanru que com apenas um pulo se descia e um impulso subia. Pararam no topo e encararam a queda.
— Dá pra ir, gente, mas se quiserem caçar outro lugar pra descer...- Eléxeu ofereceu essa opção, mas Lídia rejeitava qualquer atraso, sendo assim, ia deslizando sorrateiramente pela terra inclinada.
Marcos foi atrás, e por último Eléxeu que decidiu descer sentado. No final da descida, tinha uma árvore com um buraco em seu tronco, aos poucos Lídia foi se aproximando dela, focada em parar lá.
— É divertido, eu ia gostar de descer barrancos em outras ocasiões.- Comentou o homem que descia com a bunda.
Ao chegar no fim, Lídia recostou seu braço esquerdo no tronco, apoiando o resto do seu corpo na árvore. Olhou para longe, continuava só vendo o verde das folhas e o marrom escuro da terra, totalmente desgastante, queria era ver era um oásis.
Os outros dois também chegaram ao final, parando um pouco para descansar. Faziam talvez duas ou três horas desde que voltaram a andar, e bem, já estava na hora de parar de novo.
Lídia olhou para o interior do buraco do tronco, e quando viu um rosto lá dentro, se paralisou inteira. Por um momento sentiu sua alma sair do corpo. Se jogou caindo para trás e emitiu um grunhido que chamou a atenção de Marcos antes da de Eléxeu.
— Tem alguém dentro da árvore!- Começou gritando, mas abaixou o tom. Levantando-se, se aproximou novamente, receosa.
— Toma.- Marcos arremessou o isqueiro à ela, que conseguiu pegar.
Acendeu o isqueiro, e aos poucos foi chegando mais perto, mais perto, mais perto, até que tomou um segundo susto com aquela face, mas foi um susto que valeu apena por dar-lhe um alívio. Deixou o isqueiro bem próximo, analisando o que era aquela coisa.
— E aí?- Perguntou Eléxeu, limpando a calça.
— É uma estátua...E parece comigo.- Respondeu.
Os dois homens foram confirmar o que ouviram. Marcos tomou o isqueiro da mão dela e iluminou por conta própria.
— Parece com você mesmo, Lídia.- Eléxeu disse, vendo Marcos descer o fogo e conseguir ver um pouco mais embaixo.- Esculpiram o resto do corpo também...nu.
Mil e um pensamentos percorreram a mente da mulher do trio, mas apenas um foi dito ali, e da boca de quem menos falava:
— Por que essa caralha tá aí dentro?
— Rafael?!
Rafael estava em outro mundo. Tão absolvido em pensamentos que nem ouviu Sara o chamando para ajudá-la com algo.
— Rafael?- Chamou outra vez. Ele não se mexeu, continuava deitado na única cama que tinha ali, a do quarto de Sara.
Nem todo mundo sabia daquele confortável colchão, mas quando Marina descobriu ontem durante a madrugada, fez um belo chilique. Daniel preferiu esconder aquilo durante os dois dias que passaram, já tinham intrigas demais acontecendo. No terceiro dia todos descobriram e agora não tinha nenhum motivo para continuar sem uso.
— Rafael!- Ela chegou do lado da cama, passando sua mão por cima da vista dele. Ele enfim despertou do transe, dando algumas piscadas e sentando-se.
— O que foi? Aconteceu algo?
— Não. Não aconteceu nada.- Sara cruzou os braços, caminhando para a porta.- No que estava pensando? Parecia em outro planeta.
Ele soltou o ar, olhando ao redor.
— Na história da Rebeca. Você não ouviu, mas é muito boa.
— Rebeca é uma ótima contadora de histórias.- Não estava mentindo, só que tinha um tom irônico na voz.
— Sério, é muito boa. Tem um homem de paletó branco que gostava de matar índios, aí passou pra crianças de uma vila e no final foi salvo por um homem de terno preto que trouxe crianças iguais as anteriores para os pais da vila e também deu bastante dinheiro a eles. É bem legal com ela contando. Sara sabia que aquilo realmente poderia ter acontecido. Segundo Dylan, Rebeca teria se casado com um homem envolvido com a organização, ouviu algo sobre ele, que talvez se chamasse Alan.
— É melhor que as histórias sem graças da prisão.
Sara demorou um pouco para lembrar sobre a passagem criminosa de Rafael.
— Ah, é. Você foi preso, não foi?- Sara passou o dedo sobre o monitor empoeirado do computador.
— Fui. Por culpa do Dylan, mas não gosto de falar sobre isso. Eu fiz merda ao me envolver com ele.
— Todo mundo aqui fez merda por causa do Dylan, ele é a nossa diarreia.
Ele acenou com a cabeça, dando um sorriso bobo.
— Já olharam dentro dos armários ou usaram as coisas daqui pra fazer...armas?- Indagou ele.
— Eu e o Daniel olhamos tudo, mas aqui não tem internet pra ver tutorial de como fazer coisas. Nem a Rebeca conseguiu pensar em algo.
— É uma pena. Ei, por que a gente não deu todas essas garrafas pra eles levarem?
Sara entortou a cabeça, olhou para as vazias garrafas d´água no chão. Não era possível terem esquecido de algo tão básico.
— Não fala pro Daniel.- Queria poupar o velho amigo de mais uma frustração.
— Tá bem, senhora cabelo novo.- Ela não respondeu, concordava com a porcaria que seu cabelo tinha ficado, mas mesmo com Marina por perto, quando parava para conversar com Rafael ou até mesmo apenas ficar junto dele, não se sentia mais como a mulher que entra em banheiras com sangue, apenas uma mulher com um amigo.
"Não se apegue emocionalmente a ninguém, Sara. Você não sabe quem eu vou matar", ela repetiu na mente o que Dylan a tinha dito uma vez. E levaria de lição até conseguir sair dali. Ou pelo menos tentaria.
— Tá, vamos lá ser úteis, se é que tem alguma coisa pra fazer aqui.- Rafael se levantou e foi vila a fora.
Sara continuou na porta, agora era ela quem estava em outro mundo. O mundo de Dylan.
Enquanto todos comiam o almoço na sala onde se reuniram pela primeira vez, ninguém ousou trocar uma palavra sequer. O clima se sobressaia estranho, com apenas olhares grandes e murmúrios para si mesmos.
Clara serviu um pouco de suco de uma jarra à Anya que agradeceu com um breve sussurro. A mesa da refeição era repleta de comida, daria para alimentar até cinquenta pessoas muito bem servidas, com gostos e escolha alimentar diferentes.
Já em sua mesa, Miguel não conseguia tocar no prato, mesmo que ele estivesse com quase nada para se alimentar. Estava ansioso com o plano de Rose. Antes tinha confiança de que ia dar certo, mas agora só conseguia ver tudo sendo um desastre total. "Durante o almoço os guardas se concentram lá, ou seja, quase não há deles por outros cantos do castelo", lembrou o irmão menor da fala da irmã.
Antes de todo mundo, Rose já tinha acabado seu almoço. Ela se levantou e caminhou tranquilamente pelas mesas espalhadas, indo em direção a três guardas que escoltavam a saída mais próxima para os aposentos
— Quero ir para o meu quarto.- Arriscou para conseguir sair antes dos outros.- Estou com dor de cabeça.
Os servos se olharam, não confortáveis em deixá-la ir, porém o rei nunca disse para prendê-los em um cômodo enquanto se nutriam. Rose foi liberada a passar.
Luke olhou de longe, parando de comer assim que a viu sair. Ele colocou os braços na mesa e recostou a cabeça entre eles, torcendo para que tudo desse certo com ela.
O único que não parecia afetado era Kauan. Seu prato além de cheio, era reposto. Comia com gosto tudo o que pegava. Sem restrições alimentares. Gostava mesmo era daquela mordomia de poder se deliciar com tudo o que lhe era proposto. Um jogo, um quarto confortável, uma mesa de comida. Talvez não fosse tão ruim ter sido mandado para a Coruja Negra em vez da Vila Sanru.
No corredor para os aposentos, Rose, escoltada por um guarda, não tirava as mãos do bolso de seu vestido, apertando uma faca que escondera lá dentro. Andou rezando para que não precisasse ter que usar aquilo, nem antes nem depois de conseguir pegar o bebê.
Ela parou em frente ao seu quarto, girando a maçaneta e entrando sem contato visual com o servo. A porta se fechou, logo depois ouviu passos recuando.
A garota ruiva apoiou seu corpo contra a porta, respirando fundo. Olhou para suas sapatilhas, não eram das mais bonitas, porém era o melhor calçado para correr daquele castelo quando estivesse pronta. Rose tirou o vestido depressa, colocando uma calça e uma blusa no lugar. Escondeu a faca no bolso de trás do jeans, mesmo não a cabendo inteira, e usou a blusa para esconder a parte que ficou de fora.
Esperou dois minutos, de olhos fechados, contando na mente. Estava tensa e na hora de fazer algo. Abriu a porta sorrateiramente, olhando para os dois lados do corredor. Sem sombra de um guarda. Esperou mais alguns segundos. Saiu por completa do quarto e fechou a porta com cautela. Carregava suas sapatilhas na mão, começando a andar na ponta dos pés. Torcia que para quando encontrasse uma empregada, ela não soubesse seu horário de almoço. Virou o primeiro corredor, também não havia ninguém. Acelerou um pouco, nervosa, ansiosa. O berçário não era longe, mas e se a menininha não estivesse mais lá? Se estivesse na sala do trono? Teria que voltar correndo e pensar em outro plano. Suas vidas dependiam daquele bebê.
No começo de um novo corredor, ouviu passos vindos da passagem interligada no meio dele, achava que aquela era a área onde os guardas dormiam, um dos únicos corredores sem saída. Rapidamente abriu a porta que viu mais perto e entrou no cômodo, antes de uma camareira cruzar o corredor onde estava.
Ao perceber onde entrou, seu coração disparou. Tinha entrado no quarto de algum empregado do castelo. Ele repousava na cama, aparentemente dormindo. Tinha uma pele morena e dormia de barriga para cima com roupas normais. Era um lugar pequeno, mas confortável, tinham retratos na cabeceira da cama, uma cômoda, um armário e talvez um banheiro fechado. Do outro lado da porta, um guarda encontrara com a camareira. Ela comentou:
— Vou avisar ao rei que a máscara dele está pronta.
Trocaram mais algumas palavras. Os passos se distanciaram, em poucos segundos sumiram por completos. Rose segurou até mesmo a respiração, colocou a mão na maçaneta e começou a girar. Ouviu um grunhido vindo do homem, a fazendo gelar por inteira. Ele se moveu na cama, passando a mão no rosto, mas voltando a repousar. Agora tinha a preocupação com a pessoa de dentro e as de fora. Continuou a girar, até enfim conseguir sair e fechar a porta torcendo para que ele não ouvisse a saída assim como foi na entrada. Trocou o calçado de mão, indo ainda mais rápida em direção ao destino. Será que tinham percebido seu sumiço? Teria mais algum guarda à frente ou acertou em cheio a hora para conseguir executar o plano?
Enfim Rose chegou na porta do berçário, sem encontrar mais ninguém pelo caminho. Antes de adentrar, fechou os olhos, pedindo para o universo estar ao seu favor. Ele precisava estar. Não era possível que aquele monstro tivesse comprado até o que universo queria.
Calçou as sapatilhas e entrou no quarto, correndo para ver se a garotinha tinha sido colocada de volta lá. Seu coração palpitou novamente. Levantou o véu, e para sua alegria viu o rostinho dorminhoco e corado no berço. A pegou com cuidado e alívio, mas a pior parte estava apenas começando.
— Larga essa menina!- Esbravejou uma empregada que repousava numa cadeira no canto do cômodo.
Rose se assustou, mas com rapidez correu para fora do quarto. Fazendo a babá bater de cara na porta. Correu segurando o bebê com as duas mãos, tinha que chegar à sala do trono. Passou pelos corredores mais veloz do que nunca tinha ido, sem se preocupar com o barulho estrondoso que fazia. Sua respiração começou a ficar ofegante, e quando passou reta pelo corredor sem saída, um guarda que trancava o quarto a viu, começando a correr em sua direção.
Ouviu passos de alguém vindo atrás dela, mas não virou a cabeça vez alguma para olhar. A menininha em seu colo começou a chorar, o que a desesperou ainda mais. Rose estava abeira de um colapso, sentia a adrenalina tomar conta de seu corpo. Parou perto da porta dupla para a sala do trono, onde tinham dois guardas a escoltando. Tirou a faca do bolso e a colocou perto da criança, encostando suas costas na parede, para assim o guarda de trás não a conseguir pegar.
As palavras não saíam, estava assustada, com medo, e um bebê chorando.
— Me deixem ver o Dylan!- Ela gritou.- Agora!
Rebeca vasculhava os arredores da Vila, de novo e de novo, mas dessa vez fora mais longe, na direção oposta a do grupo de explorados. Junto dela, Godobllir, Daniel, Mark e Marina também ajudavam.
— Não é possível que não tenha uma árvore com uma frutinha sequer.- Reclamou Marina, olhando para cima, procurando qualquer cor destacada no meio do verde das folhas.- Só tem folha, folha, folha...
— Se isso for mesmo uma ilha, não tem ser vivo nenhum aqui além dos azarões.- Rebeca fez graça.
Daniel estava com um rosto ameno, sem emoções alegres, talvez um pouco de tristeza no olhar cabisbaixo. Tentava não pensar em Lídia, mas era difícil demais ignorar o fato de que sua esposa havia saído por um lugar desconhecido. Godobllir prestava atenção nele.
— Mas e aí, gente, como é...era a vida de vocês antes daqui?- Marina tocou no assunto que ninguém tivera coragem.
Mark suspirou, se lembrando de Luke. Sentia tanta falta dele.
— Como era a sua, Gado?- Indagou a mulher que começava conversas.
Godobllir demorou um pouco para perceber que era pra ela, mas quando percebeu respondeu rápido:
— Igual a de vocês. Eu tinha um namorado, vivíamos juntos, éramos bons namorados eu diria. Eu tinha um salário bom, boa relação com minha irmã... Até que chegou ele.-Daniel prestou atenção, olhando direto nos olhos dela.- Ele foi tipo o nosso...Dylan, né?- Marina concordou, enquanto olhava dentro de um tronco caído.- Entramos no jogo de um riquinho. Praticamente andávamos em poças de sangue. Mentíamos uns pros outros. Desde que o Alan chegou foi tudo uma carnificina.
Rebeca, que escalava uma árvore, estremeceu, quase caindo de encontro ao chão.
— Como era esse Alan?- Perguntou, desistindo da escalada.
— Magro, esguio, cabelo preto...Deve ter uns trinta.
— Você não disse que não sabiam o nome dele?- Daniel lembrou.
— Bem, suspeitamos que esse seja o nome dele, eu, o Noel e os outros. Ouvimos alguém o chamar assim, mas se for um nome falso eu não sei.
Marina lançou um olhar para Rebeca. "Você tem alguém lá fora?", "É, eu tenho...O nome dele é Alan, é ele quem estava me avisando sobre os passos do Dylan", foi essa conversa que tivera com Rebeca há 3 dias atrás.
Com certeza não era coincidência alguma os dois terem o mesmo nome. Rebeca encarou Marina de volta, com uma cara receosa. Seu marido estava envolvido na parte mais suja desse jogo.
Sua mente continuava indagada naquela peculiar escultura que parecia consigo dentro da árvore. Tinham deixado aquilo para trás faziam horas, mas sempre estavam comentando e procurando outras.
A estátua também possuía a cicatriz em cima de seu peito direito. Na direção da barriga, segurava o que parecia ser um espelho, protegido em uma moldura redonda.
Eléxeu olhava em todo tronco que achava, metendo as mãos e a cara lá dentro. Marcos já prestava atenção em outra coisa, no rastro de animais.
Enquanto continuavam a trilha no meio da mata, se sentiam estranhos, vigiados. Como se a qualquer momento algo ou alguém fosse pular na frente deles. Talvez um bicho, um monstro, um índio ou Dylan. Todas as opções eram ameaçadoras. Dylan era a pior, pelo menos para a mulher do grupo.
— Que horas deve ser?- Perguntou Eléxeu.
— Meio-dia, uma da tarde, por aí.- Lídia olhou para o céu, realmente não tinha nenhum resquício de sol.
— Ainda temos água suficiente?
— Temos, mas só vamos beber mais tarde.
De repente, enquanto caminhavam retos pela floresta, viram um animal branco e peludo saltar a poucos metros de distância. Lídia abriu um amplo sorriso, amava coelhos, e ver um no meio de toda aquela desgraça era reconfortante.
— Tem animais aqui!- Gritou Eléxeu, espantando o coelhinho para uma moita.
— Idiota!- Esbravejou Marcos, indo atrás do Coelho que saltou para outra moita.- Perdemos carne!
— Calma, cara. Se tem um coelho, tem vários outros.- Se defendeu.
— E tem água.- Lídia se animou.
Provavelmente haveria árvores com frutos, uma vegetação perto do rio da cachoeira. Pois se havia uma cachoeira, também havia pelo menos um rio. Não estavam em completa solidão. Os pássaros agora não pareciam mais um delírio coletivo que só era visto raramente e de relance. Estavam acompanhados de outros seres vivos.
— Temos que continuar.- Ela prosseguiu, andando com motivação.- Se formos depressa, talvez achemos água e dê tempo de voltar ainda hoje. Estamos tão perto!
Os dois a olharam com o rosto torto, de repente a mulher cansada ganhara um ar aventureiro e animador.
— Isso é só por causa de um coelho?- Sussurrou o gordo ao amigo fumante.
— Efeitos colaterais do cansaço.- Ele pegou um cigarro do maço e colocou na boca.- Deixam a gente com uma energia que não temos.
— Tipo alucinógenos?
— Não.
A verdade era que ninguém ali sabia sobre ganhar energia do nada. Mas Lídia estava tão empolgada em saber do quão perto se encontrava do que precisavam para sobreviver por mais tempo, e assim encontrar Rose e Miguel para saírem dali o quanto antes.
Seria realmente uma pena se Dylan ainda tivesse muitas cartas na manga para impedi-los de sair.
Rose foi posta para dentro da sala do trono, encontrando Dylan sentado como um rei, com Alan ao seu lado segurando o cetro que continha um pen drive. A cabeça era erguida, seus braços seguravam com força o bebê que tinha nas mãos, como se protegesse algo precioso.
— Eu tô com ela!- Gritou, encarando seu pai.
Dylan jogou seu corpo para frente, entrelaçando as mãos e piscando devagar.
— Você sabe quem é ela?- Questionou.
— Sei que é importante pra você!- Deu passos firmes a frente.
— Ela é. Eu a adotei em Paris. Vai fazer seis meses amanhã.- Deu um breve sorriso, olhando para a pequena menininha nos braços da irmã mais velha.
— Então acho melhor abrir os portões deste castelo, se quiser que ela complete seis meses.- Ameaçou, deixando a faca mais amostra e a apontando na direção da criança.
Sentia suas costas soarem, não apenas pela corrida, mas pela apreensão. Seu coração pulsava forte no peito, mas tinha que continuar firme.
— O que quer dizer, Lídia?- Ele se levantou, indo calmamente em sua direção, igual da vez em que cuspiu nele.
— Quero dizer que...que você, a gente...- Sua linha de raciocínio havia sido cortada. Tinha que aguentar. Já a pegou, não podia parar agora.
O pai de Rose entortou a cabeça, cerrando um pouco os olhos e sorrindo. Dylan parou a um passo dela.
— Me dê ela...- Disse, estendendo os braços.
— Sai!- Gritou, dando passos para trás e apontado a lâmina para ele.- Só vou devolvê-la quando deixar todo mundo sair daqui!
O rei a encarou inexpressivo, parecia estar pensando no que fazer. Se Dylan dissesse não, Rose não sabia o que faria. Era incapaz de matar um bebê. Ele desviou a atenção para um guarda na porta e balançou a cabeça na direção dele. Rose engoliu a seco.
— Venha.- Disse passando por ela e indo para a porta.- Você e os outros podem sair se quiserem. Vou acompanhá-los até os portões principais.- Rose o olhava, incrédula.- Ah, ainda não viram o jardim, não é? É bonito, aproveitem. O resto da ilha que não recomendo...
Rose andou para fora da sala, seguindo seu pai, sem que nenhum guarda ousasse lhe tocar. Estava aliviada, mas ainda assim com a pulga atrás da orelha. Olhou para o bebê sã e salvo entre seus braços.
— Eu estava pensando... Vocês querem que eu mande preparar cestas de comida? Posso pedir para...
— Não!- Emitiu bem alto. Ele poderia os envenenar por estarem fugindo.- Já iremos levar parte do almoço.
— Está bem. Como preferirem.
A empregada que quase avistou Rose minutos atrás, passou pelo patrão, cochichando algo em seu ouvido e se retirando.
— Guarda, avise para encerrar o almoço, traga as crianças para o portão principal. O mais rápido possível, por favor.- Mandou, sendo atendido prontamente.
— Só vou entregá-la quando todos saírem.- Disse em alto e bom som.
— Ok. Faça como quiser. Serão como pássaros no céu.
"A gaiola é muito maior que um castelo", pensou a menina ruiva.
Minutos depois, esperava junto com Dylan de frente para os grandes portões fechados. Aquela era uma parte da Coruja Negra que ainda não conhecia. A menininha tinha parado de chorar, e Rose não sentia mais precisar manter aquela faca por perto, mesmo assim a manteve, por precaução. A ansiedade só aumentava, seus amigos não tinham chegado ainda. Realmente não era tão rápido de chegar no andar de baixo, acabara de conhecer a escadaria e esperava nunca ter que a subir de volta . Ás vezes, seu pai lançava olhares indecifráveis. Maliciosos ou de pena. Nunca conseguiria descobrir como funcionava a mente dele. Ouviu passos, se virou e enfim viu todos reunidos. Luke levava a cesta de comida, e quase todos pareciam levar jarras que pegaram da mesa do banquete. Rose se aliviou, estavam preparados. Ergueu a cabeça, respirou fundo, ajeitou a criança no colo e falou:
— Podemos ir?
Dylan a olhou, sem expressão de novo. Os segundos foram passando, e ele não piscava. Enquanto o encarava, percebeu olheiras, talvez tenha dormido mal essa noite ou esqueceu de passar maquiagem, não era possível sua pele ser tão bem cuidada. Um genocida que usa maquiagem, seria Dylan o primeiro? Finalmente ele piscou. Sorriu.
— Guardas, podem abrir os portões.
Dois guardas caminharam até as portas, um foi para o lado direito, de Dylan, e o outro o esquerdo, de Rose. Todos encararam aqueles enormes pedaços de madeira, esperando a brecha da luz os cegar e ir em direção a ela.
De repente o branco começou. Rose abaixou a cabeça, vendo o rostinho dócil e delicado do bebê.
— Vamos!- Gritou Luke, correndo para fora enquanto os portões ainda eram abertos.
Passou para fora tão rápido que pulou três degraus da escada que nem conhecia, quase indo de encontro ao resto dos degraus rolando. Os outros conseguiram descer sem tropeçar.
Kauan parou por um segundo. Olhou para baixo e viu grama. Levantou a cabeça e viu a extensão do verde naquele lugar imenso. Tinham curvas dos dois lados do castelo, provavelmente o esquerdo era o caminho para o cemitério. Viu afastado o que parecia ser a entrada de um jardim.
— Por aqui!- Luke continuava em frente.
Kauan não entendera aonde ele queria ir, mas então viu a saída. Além daqueles muros altíssimos, de talvez trinta ou quarenta metros, tinha uma passagem sem portões, interligada por uma ponte. Correu em direção à ela.
Anya passou pela porta. Rose a viu sair depressa e desengonçada. Olhou para trás e percebeu que uma pessoa ainda não tinha metido o pé dali.
— Vamos, Rose!- Miguel segurou o braço dela.
— Vai na frente, eu vou quando perder vocês de vista.
— Vem logo!- Ele a puxou.
Rose se manteve firme, lançando um olhar sério. Miguel se lembrou de como sua mãe o olhava.
— Vai, eu alcanço vocês, vai!
Ele parecia indeciso, mas não ousou olhar para o homem logo atrás. Simplesmente ouviu a irmã e saiu depressa. Rose ainda se sentia tensa.
As crianças passaram correndo pela ponte que não tinha corrimão algum, era apenas um caminho branco de concreto reto. Ramona olhou lá embaixo, se apavorando ao ver uma queda enorme, onde tinha um rio passando.
Luke foi o primeiro a entrar na floresta, continuando correndo e sendo seguido por todos no meio do mato. Tudo envolta eram árvores e mais árvores.
Kauan parou no fim da ponte, olhando o céu. Foi o primeiro a perceber. Não tinham um sol.
— Que lugar é esse?!- Clara gritou, ofegante.
Dylan se virou para a filha mais velha, levantando os braços pedindo pela mais nova. Rose olhou para longe, não via mais ninguém naquele grande campo. Entregou cuidadosamente a criança nas mãos do pai. Ela ficou parada, o encarando de novo. Ele retribuiu o olhar, acenando a cabeça de leve. Rose respirou fundo e correu fuga afora.
Godobllir perguntou a Noel para aonde Daniel tinha ido naquela tarde. Ao seguir a orientação do colega de equipe, foi direto para a casa onde um cadáver se desfalecia lentamente.
Chegando lá, sentiu um cheiro de podridão adentrar suas narinas. Fez uma careta, mas continuou indo a frente. Começou a descer as escadas para o porão, e o cheiro podre só aumentava, mas antes de chegar no fim, encontrou seu amigo de infância sentado alguns degraus antes do último. Ele parecia ignorar o odor, admirando algo no fundo da sala, como quem pensa olhando para o nada. Mas especificamente, olhava o corpo de Lícia.
Além daquele cheiro insuportável exalando dela, pequenos insetos subiam em seu corpo, moscas a rodeavam, e algo branco se mexendo parecia sair de suas orelhas.
Não vestia mais a sua blusa, usava um sutiã, onde besouros pousavam em seus seios amostras. Dava para ver sua barriga inchada, como se tivesse uma bolha por dentro dela se formando no abdômen.
Godobllir se sentou ao lado de Daniel, colocou seu cabelo moreno para trás, e tentou entender mais afundo o que se passava na cabeça dele.
— Também estou cansada.- Disse, virando o rosto para o chão. Aquela cena era nojenta.- Mas não podemos nos deixar abalar, não é?
Ele permaneceu em silêncio. Seus olhos continuavam petrificados naquele horror. Godobllir encostou sua cabeça no ombro dele.
— Sinto falta de quando éramos crianças...Sei que você também sente. Era divertido.
— Ela merece um enterro.- Daniel cortou o assunto do passado, se preocupava com outras coisas agora.- Nenhum ser humano tem que apodrecer assim. Ainda por cima algemado.
— Ela já está morta há dois dias, não vale apena.
— Ela é gente.
— Mas ela morreu. Se eu morresse não ia querer que se preocupassem com o corpo. É só pele e ossos, daqui a pouco vira pó.
— Ainda assim ela foi alguém, não foi?!- Sua voz deu um sobressalto.- Teve uma vida. O que custa ser colocada dentro da terra e homenageada com flores?- Seu tom era agressivo, um pouco mais do que Godobllir esperava ver nele.
— Tudo bem, se quiser dar um enterro à ela. Eu chamo o Noel pra te ajudar...
— Deixa pra lá.- Daniel mirava exatamente onde o rosto de Lícia estava cheio de formigas.- Os bichos vão acabar subindo na gente, vai ser complicado, vão contestar...tínhamos que ter feito antes.
Godobllir não sabia mais o que falar. Lídia ter ido embora, o havia afetado cruelmente, mais ou menos como se uma parte melancólica e raivosa se mostrasse no lugar do homem incrível que era.
— Daniel, eu sei que tá doendo, mas passa. Tá preocupado com a Lídia, mas vai dar tudo certo. Precisa confiar que vai dar certo, estão todos tentando ser positivos, senão a gente quebra.
Já estavam quebrados. Daniel continuou quieto, hipnotizado pela imundice e tentando ignorar a motivadora que se revelava ao lado.
— Olha pra mim!- Godobllir virou o rosto dele para o seu. Estava cansada de sentir e o ver sentir aquele cheiro.- Olhar gente morta não te faz mais vivo. Conviver com pessoas te salva de enlouquecer! E mesmo se mais alguém morrer, a gente aguenta, juntos!
Daniel tinha um olhar cheio de água, concordava de que precisava continuar erguido, mas aquela era a sua forma de descarregar tudo, pensando. E Godobllir o estava atrapalhando.
— Quero e preciso te ver bem!- Continuou.- Todo mundo aqui precisa. Você é especial, Daniel.
Procurava um jeito de cortá-la, fazê-la ir embora e o deixar só, com um cadáver em decomposição e seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar em qualquer coisa útil, viu o rosto dela se aproximar do seu e sentiu a boca dela encostar na sua.
Godobllir o beijou. Daniel se espantou, a empurrando com força contra a parede. Ela emitiu um grunhido de dor, levando a mão à cabeça. "Que merda é essa?!", Ele disse entre os lábios.
— Desculpa!- Ele tentou se aproximar para ajudar, mas a mulher negou qualquer ajuda, se levantando e indo embora depressa.
Enfim poderia ficar a sós com seus pensamentos e Lícia morta. Porém, o beijo que acabara de receber e a real intenção de Godobllir se tornaram um tópico maior que todos os outros. "Afinal, o que foi isso? Ela é louca?".
Só parou de acelerar o passo ao tropeçar num galho caído, deixando uma maçã cair para fora da cesta. Luke se abaixou depressa para pegá-la.
— Vamos pra onde agora?!- Ramona gritou, parando atrás dele.
— Temos que esperar a Rose!- Miguel se apoiou em uma árvore, arfando.
— Mas a gente tem que ir logo, e se correrem atrás de nós?- Disse Clara.
Anya olhava ao redor, correndo de um lado para o outro. Era a única, fora Kauan, que não segurava uma jarra. Estava muita agitada, respirava forte e não conseguia parar.
— Vamos continuar, a Rose já deve estar vindo!- Instruiu Luke.
Voltaram a correr. Anya passou em sua frente, correndo mais veloz que o garoto que segurava a cesta de alimentos. Kauan corria com certeza facilidade no meio da floresta, era o único ali que não estava soado depois de passar pelo enorme quintal da Coruja Negra.
Anya começou a ficar muito a frente de todos, sem se atrever a olhar para trás, apenas corria, corria e corria. Tinha que correr o máximo possível para fugir. De repente, Anya, ao pisar numa pilha extensa de folhas, viu o chão se desfazer aos seus pés, a levando junto em um buraco.
Todo mundo parou de correr assim que a viu cair naquela armadilha. Depois de alguns instantes, Luke se aproximou da beirada do buraco, se chocando com aquela cena horrível.
A menina teve seu corpo atravessado por três estacas de madeira. Sua cabeça também tinha acertado uma, mas não o suficiente para passar por todo o seu crânio.
Aos poucos, todos viram aquilo. Ramona gritou, se virando para o outro lado, enquanto tampava sua boca e limpava suas lágrimas.
Miguel se assustou, quase caindo lá dentro também.
Kauan analisou a situação. Ela havia caído em uma "Estaca Punji", uma armadilha de origem asiática onde estacas afiadas feitas de bambu ou de madeira são espetadas verticalmente no solo e camufladas com folhas, terra, mato. "Talvez ela ainda esteja viva", pensou. Era sádico.
— A gente nunca devia ter saído daquela merda!- Choramingou Ramona aos prantos.- Quantas mais coisas desse tipo devem ter escondidas aqui?!
Clara olhou para Miguel, os dois também queriam voltar ao castelo. Aquela com certeza não era a única armadilha de Dylan ali. Se tivessem azar, achariam outra.
— Eu vou voltar!- Ramona correu na direção oposta a qual estavam indo, soltando a jarra e voltando para a Coruja Negra.
Luke respirava ofegante, não sabia o que fazer.
Miguel tentava falar algo, mas não tinha o que dizer. Clara pegou em seu braço para o puxar de volta para o lugar que nunca deveriam ter saído. Aceitou ir com ela, não conseguiria ficar mais ali depois de ver Anya morta tão tragicamente.
— A gente não pode voltar! Se voltarmos ele vai matar a gente!- Luke berrou, chorando, vendo todos fugirem de volta para o matadouro.- Não podemos perder essa chance...
— É melhor voltarmos.- Kauan aconselhou, o olhando com pena.- Lá a gente conhece o perigo, aqui somos mais vulneráveis ainda.- Ele também começou a correr.
Rose estava pronta para entrar na floresta, até ver Ramona passar correndo de volta para o castelo. Várias coisas passaram pela sua mente, mas antes de conseguir raciocinar, Miguel e Clara também voltaram.
— O que aconteceu?- Rose perguntou.
— Tem armadilhas aqui fora. A Anya caiu em uma e...- Miguel não conseguiu terminar a frase.
— De verdade, Rose. É melhor a gente voltar.- Clara olhou no fundo dos olhos dela, mostrando seu medo.
Kauan e Luke começaram a sair do meio das árvores, olhando para a garota ruiva e passando por ela.
Ao perceber que todos tinham atravessado a ponte de volta para dentro, o queixo de Rose caiu. Não era possível. Todo aquele trabalho que teve para pegar o bebê e encarar o genocida foi por água abaixo. Ela olhou para a floresta com grande pesar, mas voltou para dentro dos muros do castelo, ainda tentando entender como desistiram tão rápido.
Enquanto voltava, encontrou com Dylan. Ele vinha carregando uma mala, e parecia bem alegre, irônico.
— Já voltaram?!- Falou como se fosse uma grande surpresa.- Só não estou vendo a Rebeca, onde ela está?
Rose queria com toda a sua força socar a cara dele, mas continuou em frente, indo para o inferno de novo, desesperadas por satisfações.
Dylan atravessou a ponte e adentrou na floresta com a mala. Usava um terno de gala e não parecia se incomodar com os seus sapatos sujos de terra. Viu uma cesta com comidas jogada no chão, e jarras com águas derramadas. Ele chegou perto de onde Anya havia caído e olhou lá dentro, intrigado.
— É, né.- Disse, indo continuar sua caminhada.
Marcos não aguentava mais a cantoria de Eléxeu. Aquilo já fazia duas horas e ele não se cansava. Lídia achava graça, mas também não sabia se aquelas músicas realmente existiam.
— Caminhando pela floresta negra.- Cantava em um tom alto que sempre aumentava no final da frase.- Vamos juntos atrás, sem regras!
— Ah, por favor, para!- Marcos parou de andar e encarou o companheiro.
— E se no fim for apenas eu e vo...- Eléxeu teve sua boca tampada pela mão de Marcos, com certeza violência.
— Eu mandei você parar...- Tentava se soltar, mas estava com um dos braços preso por trás.
Lídia, que estava um pouco mais a frente, virou-se na direção deles e deu um breve sorriso.
— Os bobões podem brincar daqui a pouco, mas agora temos que andar.- Orientou. Dessa vez era ela quem levava o saco de suprimentos.
— Eu vou pegar a minha espada se você continuar.- Marcos ameaçou, soltando a boca de Eléxeu e voltando ao que tinha que fazer.
Lídia não se sentia mais tão esperançosa, na verdade o dia já estava chegando no final, e senão encontrasse algo até o escurecer, teria que voltar de mãos abanando.
Bem, pelo menos a companhia daqueles dois homens foi divertida.
— Vamos ficar com calos nos pés.- Disse Eléxeu, olhando para suas botas e precisando de uma nova pausa.
— Já estamos com calos.- Respondeu a mulher do trio.
Em dois minutos, chegaram em um novo barranco, porém dessa vez, ele não era inclinado para descerem, teriam que pular dali. A queda não era muito grande, só precisavam ir com jeito. Lídia tacou o saco de suprimentos, seria um desastre tentar ir com eles. Ok, estavam prontos para pular.
Quando menos imaginavam, uma figura surgiu entre as árvores atrás deles, Marcos foi o primeiro a perceber, pensando ser um animal, se virou com agilidade.
— Porra!- Gritou, pegando a espada das costas e deixando o tecido no qual ela estava amarrada cair no chão.
Eléxeu e Lídia se viraram, vendo mais de uma figura forte, talvez seis ou sete, com roupas de couro e espadas nas mãos.
— São índios?- Eléxeu cochichou.
Um homem de cabelo longo se aproximou. Os três apontaram suas espadas a ele. Eléxeu olhou para os outros além daquele em sua frente, com certeza eram nativos daquela ilha. Deu um passo para trás, ainda apontando a espada, porém havia pisado além do limite do chão, caindo desastrosamente do barranco.
Lídia percebeu, olhando para lá embaixo e vendo mais três pessoas com aquelas roupas irem em direção ao homem gordo.
— She is the goddess!- Exclamou o ser parado em sua frente, com uma voz grave e um sorriso vitorioso no rosto.- Ceperunt eam!
Os outros nativos começaram a se aproximar, também apontando suas espadas. Marcos correu pela beirada da queda, indo de encontro com apenas um nativo e tentando acerta-lo com a espada. Sua tentativa foi falha, o inimigo se agachou e colocou sua lâmina na frente da perna dele, o fazendo se desequilibrar e cair do barranco com um corte perto do joelho.
Lídia estava sozinha e cercada. Respirava olhando para todos os lados e ainda para trás, com medo de cair.
Enquanto isso lá embaixo, seus amigos eram amordaçados e amarrados com cordas e tecidos.
Ela parou para raciocinar, mesmo no meio daquela muvuca. Tinha ouvido um deles falar em inglês, e depois falar em outra língua estranha.
— I understand your language...- Disse meio travada e receosa.- We don't want to cause problems.
— Você nunca será um problema, Deusa do Lírio.- Respondeu ele, em português.- Só para o nosso Deus.
Lídia ficou perdida, eles sabiam três idiomas? Que tipo de índios Dylan tinha criado ali? E que história era essa de deusa?
Envolta de vários pensamentos, teve sua espada acertada com outra e indo para fora de sua mão por não a estar segurando direito. Pensou em se jogar, mas o que adiantaria, seria pega lá do mesmo jeito. Talvez até um pouco mais quebrada.
Os nativos a pegaram, amarrando suas mãos com uma corda e sua boca com um pedaço de pano. O de cabelo longo a segurou envolta de seu braço e pulou junto dela o barranco. Saindo ilesos.
Lídia viu Eléxeu e Marcos jogados ao chão, presos colados praticamente dos pés aos ombros.
Ouviu som de cavalos e então percebeu seis deles lá na frente, já sendo montados pelos quais amarraram aquela dupla.
— Como dijo el ancião, este es nuestro day.- Uma quarta língua para Lídia refletir, mas nessa não sabia se comunicar.
Foi colocada em cima de um dos cavalos, eles tinham seus pelos bem pretos e pareciam ser ágeis. Aquele nativo que apareceu primeiro, a colocou envolta de seus braços e começou a dar leves tapas para o animal começar a andar.
E então Lídia se viu capturada por índios.
Sua noção de tempo tinha sido perdida. Quem sabe uma hora ou quarenta minutos. Talvez uma hora e meia. Mas enfim tinha chegado onde parecia ser o local no qual aquele povo morava. Passaram por um pequeno rio antes disso, pelo menos tinha a confirmação de que realmente havia água um pouco mais a frente. Eles cantaram uma música que Lídia conseguiu entender uma parte sobre duas deusas e um espelho, e era cantada com muita alegria e excitação.
Os nativos começaram a descer dos cavalos antes de entrar no meio das casas. Lídia foi colocada no chão, sendo levada por um deles. Passou por casas de mais ou menos três metros de altura, feitas de pedra. Haviam mais de vinte delas pelo o que conseguiu contar. Avistou um poço, e fornalha também feita de pedra e com fumaça saindo dela.
— Quis est?- Indagou uma mulher saindo de sua moradia com uma panela rasa de madeira.
— Quod dea.
Ao ouvir tais palavras, um sorriso enorme se formou no rosto dela, ao ponto de gritar palavras das quais Lídia não entendera, e sair correndo para pronuncia-las à todos.
Foi posta para entrar em uma das casas, onde um homem afinava sentado uma lança com sua espada. Aos poucos percebeu não se tratar de uma moradia.
— The ancião was right, we met the goddess today.- Falou o homem que a trazia.
O homem que afinava a lança sorriu genuinamente, se levantando e dando um forte abraço em Lídia. O que diabos estava acontecendo?
Ele abriu a porta de uma cela com grades, tirou sua mordaça e a jogou lá dentro.
Ela nunca estivera tão perdida em toda a sua vida. Por que a chamavam de Deusa? E qual era essa dos quatro idiomas? Onde que ficava aquela ilha? Os outros dois vão conseguir se soltar? E se forem atrás da Vila?
— Temos que contar a todos!- Os dois saíram daquele lugar, deixando a raptada sozinha com suas mãos amarradas.
Talvez, nem tão sozinha. Lídia olhou para a parede de pedras ao lado, tinha uma pequena janela com grades que iluminava a sua cela. Então, quando enfim prestou atenção no fim da cela, viu um homem encostado no canto da parede. Ela se desesperou, se arrastando até encostar nas pedras mais distantes dele. O prisioneiro tinha seu corpo sujo, roupas rasgadas, muito cabelo e barba enorme.
Definitivamente não dava para ver sua face naquela pequena escuridão que se fazia ali.
Ele se aproximou lentamente da janela, assustando Lídia. O sol iluminou seu rosto cansado, se mostrando alguém com quem ela já tinha tido pesadelos. Não tinha como, era impossível ser ele. Ele era um homem morto.
— Jason?!
Continua...
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