Segredo Virtual

32 2º T: Capítulo 7 Nem tudo Acontece Onde deve Acontecer


Notas iniciais
Desde desse capítulo, já quero adiantar aos leitores que Segredo Virtual irá entrar em Hiatus até o mês de fevereiro para eu poder me dedicar a outra fanfic, e dar um tempo na história de Segredo Virtual que já está me saturando. Obrigado a todos.

Os adolescentes são muito idiotas e imaturos. Acham ser os donos da razão e experiência. Quem dera soubessem que o buraco é mais embaixo. Se acham difícil meter a cara nos livros, imagina trabalhar e sustentar sua família? Com certeza estudar não era a melhor coisa do mundo, mas é bem melhor do que se preocupar com contas pra pagar. Se eles ao menos soubessem valorizar esse momento das suas vidas...ou apenas as suas vidas. Miguel estava mais que arriscando a sua vida naquele dia, estava arriscando também a sua internet, o seu celular e o seu computador. O horário do desligamento do Wi-Fi pode ter sido um castigo para ele após ter ido ao encontro com Dylan, mas claramente aquilo foi um ato de piedade do seu pai. E é lógico que o pré-adolescente não iria mais arrumar confusões e passar por cima de seus pais, certo? Errado! "Você não vai à esse acampamento. Não importa se é perto de casa. Olhe a sua mãe, quer que ela continue assim?", essa última frase dita por Daniel acabou mexendo na sua mente. Pena que não o suficiente para ele cair na real. Já tinha organizado tudo para sair de fininho: Colocou colchões para fingir estar dormindo e falsificou a assinatura de seus pais. Estava pronto para sair de mochila pela porta do quarto, até que sua queridinha irmã apareceu no corredor de braços cruzados.

— Eu vou junto. — Disse, tirando sua bolsa do quarto. — Deixei uma mensagem pra nossa mãe dizendo que fui sair com o meu namorado.

— Como você... — Ela colocou o dedo entre os lábios do garoto. Rose não era burra, claramente sabia o quão idiota seu irmão era. É lógico que também queria ir nesse acampamento, já que é tão perto da casa de sua tia Bi, e ainda tinha seu pai ao seu favor, ou pelo menos cinquenta porcento. — Deixou um bilhete grudado no travesseiro caso eles descobrissem que você saiu, né?

— E por quê eu faria? — A irmã mais velha arfa. É lógico que seria bem mais prudente colocar aonde está, do que deixá—los te procurando e aumentar dez vezes o castigo.

— Eles já vão descobrir de qualquer jeito, vamos dormir lá, esqueceu? É só ficarmos com o celular em um lugar de área para ligarem pra gente. — Muito bem pensado. Quem sabe Daniel e Lídia podiam até considerar isso. — E qualquer coisa, eles só mandam a tia Bi lá verificar a gente. A casa dela não é meio que na frente da floresta? — Ah, tá. Com certeza seus pais iam aceitar isso se descobrissem, mas até lá... Ela entra no quarto do menino, tirando do bolso o tal bilhete que havia dito, o colando com uma fita adesiva no travesseiro que servia de cabeça para aquela montanha de almofadas. — Agora estamos prontos.

— Ei, se realmente fosse perigoso esse lance do Cold Blood e tals, acha que a polícia mandaria alguém para cuidar de nós?

— Você acredita na polícia? — Os dois se mantém em silêncio. Alguns segundos depois, partem para fora de casa.

Flashback on:

A Garotinha corria pela casa, segurando seus carrinhos de brinquedo e usando roupas muito parecidas com os dos moleques vizinhos. Algumas crianças não chegavam perto dela por pedido dos pais, e a criança sinceramente nunca se perguntou o porquê de não quererem brincar com ela. Sua mãe disse que era preconceito, mas ela não sabia o que era isso.

— Leo, vem tomar o remédio! — Se perguntava se era por causa de sua doença, que nem ao menos sabia o que ela era. A única coisa tinha que consciência era daquelas pílulas que tomava semanalmente. Uma vez, sua mãe se meteu em uma discussão e quase brigou no meio do parquinho. Queria tanto entender o motivo de tudo aquilo, seria ótimo se alguém lhe contasse. Pegou o remédio com suas mãos pequeninas, colocando-o na boca e pegando um copo d'água para ajudar a empurrá-lo. — Muito bem. — Sorriu a moça. Ela era muito parecida com a sua filha, que insistia em chamar de filho. Seu marido morreu faltando um mês para o nascimento do bebê. Os dois decidiram que deixariam o sexo da criança em segredo, comprando coisas amarelas e brancas para não errarem se fossem menino ou menina. A decepção foi enorme para a esposa ao descobrir que era uma saudável garotinha. Foi um desgosto imenso, já que seu sonho era ter um menino para educar.

— Podemos ir tomar sorvete? — Esse era o seu vício desde alguns meses atrás. Amava tomar sorvete, e se bobeasse tomava todo dia. A mãe se preocupava com que tivesse diabetes futuramente. Mas será que tinha como dizer "não" à essa criaturinha? Sim, tinha.

— Hoje não, você já comeu muitos doces que sobraram da festa. — Crianças amam doces. Dizem que quando você tem menos de cinco anos, não consegue sentir quando as coisas estão doces demais. — Amanhã eu compro um pote no mercado.

— Me leva? — Perguntou em euforia.

— Não. Você sabe o que ocorreu da última vez. — Achou uma ex-vizinha que tinha se mudado para outra rua. Ela sempre teimou em querer educar o filho dos outros, mas dessa vez talvez estivesse certa ao ir contra Lúcia. Essa doida queria trocar o sexo de sua filha, e estava fazendo isso à todo custo. Nesse encontro, as duas acabaram discutindo assim como no parquinho, mas dessa vez com mais público. A vizinha já teve filhos também. Seus nomes eram Thiago e Amélia, mas os pediu para fugirem de casa, e se salvarem do pai agressor. Depois que passou dos sete anos, Leonardo confrontou a mãe, e descobriu uma versão distorcida da verdade. Mesmo assim, já estava ciente de que aquilo era um abuso de poder. Mal sabia a pobre criança que daqui a alguns anos sua mãe morreria de câncer, e desde então teria que arrumar um jeito de se virar sem a ajuda de ninguém.

Flashback off:

Os irmãos confusão adentraram quase caindo no ônibus da escola. Estavam atrasados, e por pouco não tiveram a porta fechada em suas caras. Entregaram a autorização para um professor que começou a acompanhá-los para o corredor aonde todos os encaravam e cochichavam. " É aqueles irmãos que viram o Cold Blood, né? ", perguntou um garoto, falando baixo no ouvido do amigo ao lado da janela. A dupla se constrangeu, mas foram sentar perto de seus amigos. As escolas Ensino Médio e as do Ensino Fundamental se uniram para fazerem esse acampamento, já que não havia nenhum por perto. Tinham dois ônibus para levar os sessenta alunos que queriam ir para o meio da mata, e dormir desconfortavelmente em barracas. Rose sentou-se ao lado de Leonardo. Já tinham esquecido aquela discussão boba, agora estavam brigados por ele não deixar a namorada ver suas mensagens particulares.

— O que você tá lendo? — Perguntou Miguel, observando a capa do livro de Clara. — Parece ser um romance dramático.— Ele supôs isso ao ver apenas nuvens rosas em cima das águas do mar.

— É algo parecido com isso. — Fechou o livro, dando toda a atenção para seu colega de classe. —É uma história sobre irmãos em um lugar secreto, como uma enorme mansão. Dizem que tem uma reviravolta emocionante.

— Ah, tá, é o livro do filme. No final aquilo é tipo um internado subterrâneo para crianças que vão morrer em pouco... — Nem pôde terminar a frase, e levou uma livrada na cara, que com certeza deixou sua cabeça inteira vermelha.

— Casalzinho brigando... — Comentou um menino de catorze anos. Endi tinha repetido duas vezes, o que complicou a sua situação, sendo o maior de todos da turma do sétimo ano. Seu nome era Eduardo, mas preferira ser apelidado de Endi, e o motivo ninguém sabe.

— Cala a boca, idiota! — Gritou o irmão de Rose, se virando para olhar o mais burro da sala. Depois sendo advertido pela professora de ciências, que detestava qualquer tipo de barulho alto. Ela tinha um gosto meio peculiar, digamos assim, para uma professora...Cíntia era fã de HQ's, sempre ia na loja de quadrinhos do falecido Sebastian. Por falar nisso, não abriam aquele lugar desde a morte do avô. Se Lídia não estivesse tão abalada nos últimos dias, provavelmente teria uma dúvida cruel entre oferecer a loja para os filhos, ou vendê-la, mesmo que tenha sido um presente do avô.

Rose estava vermelha de tanto correr e suar. Só tinham chegado há três horas, e seus corpos estavam lotados de picada de mosquitos. Miguel não tinha andado quase nada, nem quis participar da corrida. Seus motivos para ir à esse passeio escolar, eram algo que intrigava Rose. É lógico que tinha teorias sobre isto, mas a verdade é que ele iria dar uma fugidinha de noite para ir em um evento de cosplays bem perto dali. Como faria isso sem ser pego? Só o tempo poderia nos informar. Talvez com a ajudinha da sua tia preferida...

— Você vem ou não? — Chamou o namorado da ruiva, gesticulando que deveriam entrar na mata. Ela olhou para trás, não tinha ninguém desconfiando de que os dois iriam se perder na floresta, então correu em direção a ele.

— Isso é muito arriscado, não acha?— Suas delicadas mãos começaram a bagunçar o cabelo liso do garoto, que sorriu com a atitude.

— Devemos correr riscos. A vida fica mais divertida assim. — Seu sorriso se expandiu. Rose sorriu de volta, estava crente de que os dois teriam sua primeira vez hoje, algo que esperava ansiosamente para acontecer. Sua mãe sempre disse para esperar um pouco mais, e partir pra cima apenas quando se sentisse pronta, mas até parece que uma adolescente à flor da pele iria ouvir o conselho de uma "velha".

— Sua irmã tá saindo de perto do grupo. — Comentou Clara, chegando por trás de seu amigo. Desde de o dia dos assassinatos só voltaram a se falar ontem, quando enfim os dois voltaram a escola.

— Ela foi transar com o namorado. — Miguel se levanta, pegando seu celular da mochila que está sobe seus pés. Sua senha era uma palavra um pouco quanto estranha, mas até que era bem esperto, pois quem iria descobrir que a senha de um menino de doze anos seria "Garrafa"? Na verdade, quem seria o doente mental que colocaria isso de senha? Só Dylan sabia que essa era a palavra para desbloquear seu celular, e não se falaram desde aquele dia, já que quando foi tentar mandar uma mensagem, a conta na rede social havia sido deletada, e não sobrara nenhum resquício de seu antigo amigo virtual. É lógico que tinha outros, mas nenhum foi tão marcante quando Dylan Augustos. No fundo de seu coração, sentia falta daquele psicopata, talvez até tivesse se apaixonado por ele, mas nunca contaria isso pra ninguém, jamais! Adrimara, uma das estudantes mais metidas da sala de Clara, acabara de cair de cara na lama, que por acaso era um dos obstáculos da corrida. As risadas foram incontroláveis, não tinha como não rir da menina que literalmente comeu terra molhada feiamente. Até seus cabelos loiros estavam todos sujos. Um professor foi ajudá-la a se levantar, também parecia segurar o riso diante da situação. O apito soou. estabelecendo o fim daquele enorme e degastante corrida, no final um garoto atleta ganhou uma barra de chocolate, enquanto o segundo colocado ficou apenas com um Bis. os colégios eram mão-de-vaca.

— Vamos tomar banho no lago! — Gritou cheio de energia um gorduchinho, correndo para mais adentro da floresta, onde tinha um lago grande. O dia não estava muito bom para tomar banho de piscina ou algo que não seja um chuveiro. Tinham mais nuvens do céu do que nos dias anteriores, ameaçava ter um pouco de chuva, mas até agora nada. Vão ter mais gincanas durante o dia todo, o que vai render vários memes para as câmeras do celulares de quem não tivesse crédito para ao menos tentar pega um ponto de internet. Leonardo pressionava a namorada contra o tronco de uma árvore, enquanto davam um beijo digno de cena de novela. A quase adulta estava pronta para tirar sua blusa de uniforme, na verdade queria tirar aquele coisa ridícula sempre que a colocava, mas esse, esse era um momento especial. Leo segurou suas mãos que estavam na bainha da roupa, evitando que ela se despisse.

— O que foi? — Indagou, dando um ultimo selinho antes. — Não é isso que viemos aqui fazer?

— Eu não acho certo fazer isso aqui e agora, Ro. — Ele quase nunca a chamava de "Ro", apenas quando se sentia culpado por algo. — E tudo aquilo que a gente passou... — Os dois se encararam por segundos, nenhum conseguia achar algo para falar. Estava sendo embaraçoso.

— Tá bom, Leonardo. Eu sei muito bem que tá todo mundo coisado com aquilo, mas nenhum adolescente rejeitaria sexo com uma garota como eu, e isso nem é auto-estima alta, é um fato. Tem algum problema comigo ou com você? — O namorado ia dizer algo, mas não foi rápido o suficiente. — Eu realmente tentei esquecer todo aquele mistério dos remédios que por acaso pareciam ser algo sexual, mas se tem algo com você, é bem mais prudente me contar. — O jovem engoliu em seco, parando para pensar um pouco, até que os dois cansaram de esperar uma resposta. — Ah, que se dane. — O empurrou para se libertar dos braços que a prendiam de frente para ele.

— Rose! — Queria correr atrás dela, só que as vezes é melhor deixar as pessoas irem do que dar explicações que podem ser difíceis de lidar. Sentou-se embaixo de uma das inúmeras árvores ao redor, ficando lá por alguns minutos pensando, voltando apenas quando foram lhe procurar para fazer a contagem de alunos.

As nuvens naquele clima quase frio traziam um clima melancólico na escritora. Quase todo dia sentia esse sentimento angustiantemente nostálgico. Conseguia descrever esse tipo de emoção em forma de lugares, mesmo sem nunca tendo estado em nenhum deles. As vezes se sentia em uma cabana no alto de uma montanha repleta de neve, colocando lenha na fogueira do seu aconchegante e quentinho lar. Aquele era o momento perfeito para ir escrever a sua obra literária, mas não tinha vontade alguma de exercê-la. Era como se a inspiração viesse para afastá-la da mesma. Eram coisas estranhas que sentia, e tinha o medo de não puder explicá-las para as pessoas, como se aquele vazio fosse especialmente seu. Em alguns de seus sonhos voltava à cadeira de rodas, em um lugar todo escuro, como se estivesse presa naquele lugar. Pavoroso era pouco para o que sentia durante aqueles pesadelos, pensou até em ser uma premonição, ideia rejeitada mais tarde. Mas e se esse sonho realmente fosse algo do futuro, um aviso? Só podia rezar para que não fosse. Helena tentava a convencer de que era bobagem, assim como o processo que fez contra Diogo. Aquilo não era bobagem para Bianca. Esperava o melhor de seu antigo amigo, mas recebeu uma cópia descarada. No mesmo tempo em que Marina e Helena se tornaram amigas, Bi e o cara quem processava também se aproximaram. Os dois queriam ser reconhecidos pelos livros que escreviam, eram obras fantásticas e precisavam mostrá-las ao mundo. Bianca já tinha começado a fazer sucesso nessa época, e realmente tentou empurrar a história de Diogo para o público, mas ninguém tinha interesse naquilo que ela acreditava ser tão interessante. É uma pena que teve que copiá-la para ser reconhecido, ela esperava tanto de você.

— Estou indo!- Saiu de perto da janela ao ouvir a campainha tocar. Se encontrava toda arrumada com um vestido vermelho, um salto-alto cor de vinho, o cabelo escovado e uma postura totalmente elegante. Era estranho até para a mesma se ver tão arrumada em casa, mas não podia se segurar com tantos produtos e roupas que tinha guardado. Ao abrir a porta, uma surpresa e decepção.

— O que é isso aqui?! — Perguntou ironicamente o homem, parado com pedaço de papel sendo segurado de frente para o rosto da acusadora.

— É um processo. — Aquela discussão seria longa, porém talvez seria melhor extravasar tudo aqui do que no tribunal. Deu meia volta e começou andar para dentro da sua casa chique. O rapaz passou pela porta, pronto para começar uma gritaria se precisasse.

— Por que você tá fazendo isso, Bianca? Não éramos amigos? — Quase riu na cara dele. Colocou as mãos com suas unhas vermelhas recém saídas da manicure na cintura, voltando seu olhar para o rosto de Diogo.

— Tive poucos amigos na infância, mas sei muito bem que eles não roubam o trabalho dos outros. — Pegou uma taça, servindo-a com um vinho que havia comprado na França.

— Eu não... — A taça erguida foi aceita pelo indesejado convidado. A mulher que adorava vermelho, selou os lábios do grande homem com o seu dedo indicador colocado no meio da abertura daquela boca vermelha.

— "Eu não roubei a sua história. Você precisa acreditar em mim, sabe que eu nunca faria isso com alguém que amo tanto...". — Sabia na ponta da língua todo aquele discurso.— É bom sair da zona de conforto às vezes. E nem tente vir com esse papo de "alguém que amo tanto". — Disse de um jeito tão caloroso e irônico. Era bom que Helena não estivesse ali naquele momento, na verdade, naquele dia. Nunca tinha ficado feliz por ter sua noiva longe, mas essa viagem à trabalhou caiu em um ótima hora.

— Nós falamos sobre o enredo juntos se a senhorita riquinha não se lembra. — "Senhorita Riquinha" era um apelido que usava de brincadeira na época em que se relacionavam saudavelmente, ao menos agora aquilo ganho um tom insultante. — É até frustrante que você tenha conseguido comprar essa "mansão" com o que eu criei.

— Eu nunca comentei sobre a minha história com você. Na verdade, nunca conversamos sobre novas criações juntos. — Uma mecha de cabelo começa a incomodar quando cobre parte do seu rosto bem cuidado.— Mal conversávamos direito naquela época, apenas em ocasiões casuais... — Diogo se aproxima, depositando a bebida em cima de mesinha que continha um vaso de vidro ao lado do sofá, que apresentava uma altura relativamente grande. Enquanto fazia isso, continua a ouvir os argumentos falsos que lhe apresentava. Seus dedos fizeram trabalho por ela, ajeitando seu cabelo atrás da orelha.

— Nosso beijo foi algo casual pra você? — Ela vira o rosto ao ser segurada pelos braços. Sua mente tinha começado a se embolar com tudo aquilo. O que queria lembrar e se forçar a esquecer? Seus passos hesitantes para trás e seus braços soltos á força revelavam o seu estado fugitiva da situação.— Talvez apenas precise se lembrar daquele sentimento. — Bianca tentou passar por ele, mas as firmes mãos de seu inimigo pegaram as suas antes de tudo. Seu impulsionamento para se desprender acabou resultando em um vidro quebrado com o movimento de suas mãos. Os cacos da antiga taça caíram bem perto da onde o documento trazido por Diogo havia voado durante a discussão. — Deixe que eu limpo.

— Não quero que você toque em nada. — Disse direta. Correndo até uma bancada da onde tirara um pano para colocar os pedaços de vidro. Se ajoelhou diante do estrago que fez, colocou o tecido aberto bem perto de seu joelho, e então começou a limpar o que tinha sujado. A cena poderia até se tornar novelesca em sua brilhante imaginação, mas a tensão entre os dois não ajudava em nada na criatividade e inspiração. — Não quero que seja gentil apenas para eu acabar com este processo. Um celular começou a tocar, mas nenhuma pessoa presente fez questão de saber qual era ou atender. Agora Lídia deveria estar surtando dentro de um carro, tentando desesperadamente se comunicar com a prima para descobrir se seus filhos estão bem.

— Levar esse processo em diante é idiotice. Eu quero te ajudar. Na verdade, nos ajudar...Tudo isso com Dylan, talvez isso seja uma passagem para que ele... — Ela parou de juntar os cacos, fixando severamente na face irritante do homem que a levava a pensar que estava louca.

— Nada disso é sobre Dylan ou aquele dia. — A própria disse que pessoas que não participaram do início de todo esse caos não deveriam se envolver diretamente, mas ela tinha que esquecido que nunca lutou de verdade contra o Cold Blood, e tudo o que sabia era resultando das visitas noturnas que Jason fazia para lhe contar os acontecimentos do dia. — Pare de ficar mudando de assunto. Não seja medroso e encare os seus erros.

— Bianca, você está criando memórias falsas por vontade própria ou isso é involuntário? — Bi engoliu á seco. Levava na palma da mão um pedaço do vidro quebrado, porém continuou segurando-o. — Poderia ir em um psiquiatra para avaliar sua situação. É para a sua saúde mental, às vezes temos problemas e nem percebemos... — Ela não respondeu. Um silêncio ficou destacado entre os dois, mas o que ele não ainda conseguia perceber era o corte que nela introduzia com a movimentação do fechar das mãos. Se inclinou um pouco para o lado, tentando ver se a mulher estaria reagindo de algum modo à esse tipo de "provocação" para levá-la à descobrir sua doença. — Confie em mim. Você me pediu para não mencionar seu irmão, mas ele é louco, e toda essa rixa é uma fraqueza que você está nutrindo por problemas mentais. Não se torne igual a ele. — Então conseguiu ver o sangue inundando sua palma e o pedaço de estilhaço cada vez sendo mais pressionado para dentro da mão. — Bianca! — Disse correndo para se aproximar dela. É uma pena que Bianca acabou tomando essa decisão... Agora sim Dylan tinha do que se aproveitar. O caco de vidro foi arremessado certeiramente no pescoço de Diogo. O homem tentava estancar o sangramento, mas não tinha coragem de subir mais as mãos para tirar aquele pedaço de vidro, apenas continuava com elas em seu pescoço, inutilmente já que nem chegavam perto do sangramento. Caiu no chão exalando dor, e em pouco tempo tinha criado uma lambança de sangue, talvez até tenha se misturado com um pouco do vinho derramado. Morria agonizando no piso frio, enquanto mais à frente, Bianca continuava com seus joelhos ao chão, olhando para seu reflexo no último caco que tinha no chão.

Eram apenas duas da tarde, mas parecia ser bem mais tarde entre aquelas árvores que seriam sinistras durante a noite. Rose estava encostada em uma árvore, um pouco adentro da floresta, apenas apreciava as fotos que tinha tirado com seu celular, tirando e botando efeitos.

— Desculpa não ter vindo fazer algo bombástico até agora. — Chegou Dylan, apoiando seu braço na árvore aonde sua filha encostava o corpo. — Estava ocupado demais infernizando outras pessoas. — Ele se sentou ao lado, fixando o olhar nas fotos tiradas durante o dia. O manipulador sabia que não precisava dar uma chama de tragédia durante o acampamento das crianças. Precisava dar um tempo com elas já que iriam passar por algo bem mais sério e doloroso no futuro.

— Se te virem aqui vão achar que você é um maníaco que vive na mata. — Disse a grande Rose.

— Bem, eu não moro na mata. — Foi engraçado por um instante, mas nenhum dos dois confiava mais nas ações que o outro exercia. Não é como se Dylan tivesse realmente confiança na ruiva, mas tinha ao menos um pouco de consideração. É uma sensação tão boa saber até aonde as pessoas são capazes de chegar para salvar alguém...E acima de tudo, se salvar. — Bem, como vai o acampamento? Uma porcaria sem mim, não?

— É. — Seus olhos se encontraram.— Mas é bom ter um pouco de paz em vez de um demônio querendo te torturar. — Uau, que provocativo. O homem tinha uma resposta na ponta da língua, se bem que não quis dizê-la. Deixe a estudante pensar que suas palavras o intimidaram, pensar que estava forte com apenas aquilo só a deixava mais fraca. Alguns minutos se passaram, enquanto os dois vagavam por seus aparelhos eletrônicos sem internet. — Chega de brincar com o Miguel, ok? Ele está sensível demais mesmo parecendo mimadinho em busca de aventura.

— Nem se preocupe com isso. Seu irmão está à salvo.— Era aliviante ouvir aquelas palavras, mas mesmo assim ninguém garantia que seus pais também teriam sindo liberados do joguinho do manipulador Dylan. — Preciso ir, sua tia acaba de me dar uma aventura. — Ele bagunçou o cabelo da filha, fazendo-a parecer com a cara de boba, mas o que ela realmente estava era pedindo ajuda internamente. Nem adiantaria tentar ficar longe de seu pai, de qualquer jeito arrumaria um jeito de chegar até ela e a encher de preocupações. — Ah, quase esqueci. — De seu bolso saiu um novo frasco de remédio.— Os outros já acabaram, certo? — A movimentação com a cabeça confirmou que aquelas pílulas já haviam sido todas utilizadas ou jogadas fora na pia depois do dia em que tentou empurrá-lo do famigerado penhasco. — Se você não tomar, alguém vai morrer, e isso vai ser por sua conta, não minha. — Ele se virou, caminhando calmamente entre a natureza pura e inocente que vibrava naquele lugar. Algo bem diferente da sua alma. É lógico que não era louca de tomar aquilo, mesmo sob ameaça daquele cara garanhão e assustador. Se alguma morte estava para acontecer, seria provocada pelo próprio rei branco e ninguém mais. Guardou o pote na mochila, teria que esperar até à noite para se livrar daquele medicamento. Em poucas semanas, Dylan tinha perdido toda a consideração e proteção da filha construído em dez anos. Mas isso não o incomodava. Nunca precisaria da ajuda de uma pirralha para conseguir controlar todos que quiser.

Passou quase quatro horas tentando compreender o que tinha feito, e só depois de todo esse tempo começou o seu plano para fingir que esse assassinato nunca aconteceu. Bianca se sentia refazendo a mesma cena de seu passado. O único problema era que agora era ela quem sentia o pavor e o mundo por trás do assassinato. O corpo em seu porta-malas, os pensamento à mil...Como chegou ao ponto de matar alguém? Parecia até que não se lembrava de ter matado a empregada de sua mãe há dez anos atrás. Diogo tinha razão, ela tinha problemas mentais. Cada impulsividade que dava, apenas deixava mais uma brecha para Dylan atravessar e usar de aliado em seu jogo. Tantos segredos, mentiras, mortes...Essas coisas aconteceram há mais de dez anos, mas agora voltavam de novo como uma fênix. O jogo tinha que virar assim como foi com Ellen, o único problema é que seu irmão não é igual à antiga líder do Cold Blood. Ele tinha planos, sabia até onde cada um chegaria com ele ao ponto de matar. Passou anos de sua vida estudando sobre cada peça do tabuleiro, sobre os projetos da organização que poderiam financiar o seu plano. Juntos, queriam acabar com o homem que os manipulava, é uma pena não conseguiram se unir para fisgá-lo. E mesmo se tentassem desbancar Dylan, ele sempre está um passo a frente, não adianta o que fizessem ou deixassem de fazer, sempre estava na frente. O carro testava sendo dirigido em uma velocidade tão absurda que nem a própria motorista sabia como ainda não tinha batido em nenhuma árvore da floresta. Percebendo o perigo que passava, resolveu desacelerar. Foi apenas fazer isso que uma espécie de bicho passou na frente de seu automóvel, fazendo-na ter que desviar, e assim batendo em uma árvore. A frente do carro se encontrava totalmente amassada, de um jeito que dava até dor nos olhos de quem o visse. Por sorte, Bianca não tinha se ferido, o Airbag havia acionado, apenas bagunçando seu cabelo que agora nem estava tão liso quanto antes.

— Merda! Merda!— Começou a bater os punhos desesperadamente no volante, deixando até que algumas lágrimas de raiva fossem liberadas. Respirou fundo, indo para o interior de sua mente para ao menos tentar alguma solução. Seu plano era jogá-lo no lago, mas não tinha como caminhar todo esse percurso por uma estrada que mal conhecia e segurando um peso bem maior que o seu. Por mais que o corpo humano conseguisse levantar o dobro de seu próprio peso quando se estava em perigo, Bianca nunca iria conseguir acionar essa super força.

— Precisa de ajuda?— Perguntou seu irmãozinho, abrindo a porta para ajudá-la a sair. Era lógico que Dylan já sabia. Por acaso tinha algo que ele não sabia? Quatro pessoas do Cold Blood surgiram em meio a escuridão da floresta. A Girl Blood abriu o porta-malas, vendo que o cadáver já tinha sido embalado em um tapete elegante. Dois Guys tiraram o corpo de lá, começando a levá-lo pela estrada, mas um deles acabou deixando-o cair. "Seu fracote", insultou uma outra Girl Blood, pegando parte do peso no lugar do que havia deixado cair. Bi ficou por dois minutos parada no banco do motorista. Isso foi tempo o suficiente para um carro idêntico ao seu chegar ao local. — Venha. — Ele entrou no banco de trás, na frente tinha um outro Guy Blood que veio dirigindo o novíssimo carro feito para substituir o que tinha quebrado. Sem ter mais o que fazer, Bianca aceitou a ajuda do vilão, entrando no mesmo banco que ele. — Os documentos já foram falsificados também. — Ela apenas ficou quieta com a sua cara triste e desinteressada, com seu olhar vinculado para fora da janela escura igual à do seu antigo automóvel. — Não vai pular no meu pescoço? Ou tentar furá-lo com os dentes? — As lágrimas começaram a descer de vez. Estava tão abalada com tudo, que por um momento, apenas um momento, esqueceu tudo de mal que seu Dylan os havia feito passar, todos segredos e jogos cruéis. Só se lembrou da época em que eram crianças brincando no jardim como uma família verdadeiramente feliz. E quando se percebeu já estava com a cabeça apoiada no colo de seu maninho, tendo seus longos cabelos negros acariciados pelas mãos macias que ele tinha. — Vai ficar tudo bem, querida. Vai ficar tudo bem. — Falou como a mãe, Sofia. Não queria admitir jamais que o antigo garoto fofo com obsessão por uma pele saudável, agora tinha se tornado um homem terrível, que por acaso era o seu porto seguro para todos os momentos. Mesmo com todas as batalhas horríveis, se amavam no fundo, afinal eram irmãos. O problema era que os dois sabiam a cruel verdade...Que em um futuro bem próximo, apenas um deles poderia continuar vivo.

Continua...

Notas finais
Segredo Virtual volta em breve com novos capítulos.