Segredo Virtual
31 2º T: Capítulo 6 O Passado é Seu Futuro
Notas iniciais
Lídia não contou nada para a policia. Seus lábios permaneceram selados durante toda aquela noite que passou em reflexão. As outras pessoas tiveram que mentir em seu lugar, dizendo que tudo foi apenas uma festa de velhos amigos, e que por acaso uma empregada tinha escrito o nome da patroa no site do concurso. As crianças disseram a verdade. Estavam apenas curiosas para saber o que os mais velhos estavam escondendo, até que estavam no local errado, na hora errada. Todos foram orientados a passar a madrugada lá, prestando depoimento e contando tudo o que viram e ouviram. É lógico que aquilo não adiantaria nada. Dylan podia ser detido por uma ligação, mas isso não o prendia por muito tempo. Só até perceberem que ele é, e o soltarem. Daniel tentou consolar a esposa, até perceber que não adiantaria nada. Ela estava em outro lugar, um outro mundo onde a única coisa importante era aquela horrenda cena que levaria pelo resto da sua vida, mas se as coisas continuassem assim, isso não duraria muito. Com certeza seriam motivo de matéria novos jornais, assim como Marina. Por falarmos ela Marina, ela foi a que conseguiu chamar ajuda, após o exército do Cold Blood se retirar, trancando todos ali por quase uma hora. Rose tentou acalmar a mãe, mas como conseguiria acalmar alguém, estando tão eufórica quanto? Depois de quase uma semana, as coisas " voltaram " ao normal. Para todos, menos Lídia, que insistia em continuar fraca e comendo pouco, enquanto se tornava cada vez mais dependente daquela cama. Miguel queria sua mãe de volta, mas ninguém tinha coragem para dizer a ela que tudo ficaria bem, sabendo que na verdade, nada ficará bem:
— Mãe.- Rose deitou na cama ao seu lado, olhando para as costas de Lídia, que permanecia virada para a parede.- É sério mãe. Eu não gosto de te ver tão deprimida. Sabemos de tudo o que aconteceu, com o meu avô e a minha mãe...É duro pra mim também, mas todo mundo está tentando esquecer isso, seguir a vida. As pessoas sempre morrem uma hora ou outra. Você não pode tentar voltar ao normal?
— " Normal "?- Ela se vira, revelando seu rosto encharcado de tanto chorar.- Sabe o que acontece quando voltamos para a normalidade? Somos surpreendidos por outro golpe por trás. Todo mundo que eu amo morre! E até a gente morrer, isso nunca vai acabar!
— Se você quer tanto nos salvar daquele homem, por que não sai da cama e vai fazer algo?- Gritou Miguel da porta.- Meu pai tá lá fora, trabalhando e tentando tomar conta da gente e de você ao mesmo tempo. E a única coisa que está fazendo é reclamando do quão duro está sendo pra você, mesmo que todos tenham passado pela mais porcaria de cena!
— Miguel!- Rose se levantou, indo atrás dele, que havia derramado algumas lágrimas antes de ir embora correndo. Lídia engoliu a seco aquelas palavras, mas continuou deitada, observando a parede branca de seu quarto.
Flashback on:
Era a noite mais brilhante que a menininha de trança havia visto. Tinham estrelas no horizonte, e elas rodavam e rodavam várias vezes, como se fosse algo cotidiano na vida delas. Até que o encanto acabou por se desfazer. Eram apenas luzes de lâmpadas, mas continuavam tão belas, em meio a algumas construções estranhas, que já tinha visto uma vez na televisão de sua pequena casa. A mão de sua mãe esquentava a sua delicada palma, enquanto os dedinhos estavam entrelaçados naqueles outros enormes e pintados de vermelho. Uma outra criança um pouco mais velha, chamou aquele lugar de " Parque de Diversões ", e então a garotinha se lembrou do áudio da TV. Disseram alguma frase que só conseguia lembrar palavras, algo como... "Brinquedo " e " Queda ". Era um dia bastante frio para passear, mas já que quase nunca saia daquela caixinha que era o seu lar, se alegrou ao ser vestido com seu casaquinho branco e de capuz rosa por dentro:
— Onde nós vamos?- Perguntou a pequena. A mãe não a respondeu, só continuou andando pelo parque. Estava sentindo algo estranho vindo de sua mamãe, como se ela a estava evitando. Não olhara em seus olhos desde que saíram pela porta de casa. De repente pararam de frente para um banquinho, onde a criança se sentou por conta própria. Com apenas quatro anos, seu comportamento parecia a de uma garota bem mais velha e esperta.
— Eu já volto. Vou comprar ingressos para você ir nos brinquedos. Não saia daqui, está bem?- Animou-se. Estava pronta para ir naquele brinquedo que era uma minhoca nos trilhos, achava que a chamavam de " minhocona ". Será que dava medo? Saberia logo logo. Viu sua mãe se perdendo no meio da multidão, enquanto sua visão era diversas vezes tapadas pelo corpo de outras pessoas, que não a viam tentando enxergar a sua responsável de longe. Alguns minutos passaram, até começar a se preocupar com a sua mãezinha. Será que ocorreu algo com ela enquanto foi buscar os ingressos? O frio começou a aumentar, mas seu casaco dava conta do recado. Uma mulher acompanhada de um homem enorme tampou a sua visão, olhando-a de cima.
— Oi.- Sorriu ela, sentindo um pouco de medo dos dois.
— Oi pequena.- Respondeu Lícia, sentando do lado da criança, enquanto trocavam sorrisos fofos. Sebastian sentou do outro lado, admirado com o rostinho da sapeca.- Venha com a gente. Te levaremos até a sua mãe.- A garotinha ficou com o pé atrás. Os adultos sempre lhe disseram para ficar longe de estranhos, e não confiar neles. Mas sua mãe parecia que não ia voltar para buscá-la. A menininha cedeu, se levantando e começando a caminhar com as mãos dadas para os estranhos. Pareciam uma família feliz, como se aquela linda garota, os unissem de alguma forma. Mais tarde, naquela mesma noite, alguém bateu na porta de uma humilde casa, onde aquela mulher que deixou sua filha sozinha esperando em um banco, acabara de atender a porta.
— Olá, senhora.- Cumprimentou Sebastian, segurando uma das mãos da criança, enquanto é surpreendido pela expressão de medo da mãe.
Flashback off:
— Qual é o seu problema?- Chegou dizendo Rose, ao ver que Dylan estava sentado na beira do penhasco.- Eu não acredito que você matou aquelas pessoas. Elas eram a minha família! E você é um monstro!
— Você nem parecia me conhecer quando eu entrei lá.
— É lógico que não. Eu nunca pensei que seria capaz de toda aquela crueldade!- Ela se aproximou, enquanto gritava as palavras que tinha deixado trancadas na garganta até a próxima vez que o visse, que seria exatamente agora.
— Faça me o favor. Por que eu não seria capaz disso? Já fiz coisas bem piores.- Seu rosto parecia pensativo, como se um mar de lembranças tivesse cruzado sua cabeça.- Rose se encontrava um passo de seu pai biológico, e ele nem demonstrava ter medo de que fosse empurrado dali. Provavelmente porque sabia que sua filha nunca teria essa coragem, não importava o quão impulsiva ela fosse.
— Chega de matar, Dylan! Por favor, não mate a minha família!- O som de um riso quase abafado, revelou o deboche que deveria ter em seu rosto.- Eu nunca vou te perdoa se machucar mais alguém que é importante pra mim!
— Lembre-se que eu também sou sua família.- Teria ciúmes? Pelo menos era isso que o tom de voz parecia introduzir na fala.- Desde que me conheceu, sabe exatamente quase todas as coisas que fiz por esse jogo. E agora você pode conferir como vip. Eu não vou matar você, tenho planos para minha ruivinha.
— Que planos?- Rose olhou para baixo, vendo uma flor branca crescer entre uma rachadura nas pernas. Como será que ela chegou lá?
— Talvez um dia eu te conte. Alguns dias antes do planejado. Se eu estiver de bom humor, deixarei você escolher alguém para matar.- Aquilo parecia ser mais uma ordem do que um pedido. Uma brisa começou a soprar em seus cabelos, aquilo sempre acontecia quando ia para o penhasco, como se o vento quisesse deixar os momentos mais especiais. Dava para ver umas pessoas lá longe na praia, tomando banhar de mar e de sol, enquanto alguns jovens brincam com a bola, correndo pela areia quente da manhã.
— Preciso que você prometa que não vai matar minha mãe. Nem o meu irmão, e mais ninguém que eu conheça pelo menos!- Toda a resposta que teve foi uma enorme gargalhada, e o rosto do cara se virando, aumentando mais ainda o vexame que tinha acabado de passar.
— Você é muito engraçada....- Continua seguido por mais risos, então ele volta a olhar para as pedras lá embaixo, talvez pensando em como Jason se sentiu ao bater seu corpo contra as rochas, mas nem esses pensamento conseguiram conter sua risada contagiante e alta.-...Sua mãe é a próxima na minha lista de quem matar.- Rose se enfureceu, abrindo suas mãos, e empurrando Dylan com toda a força que tinha para aquele momento, fazendo ele cair em uma queda lindamente. Seu pai não gritou, nem tentou se segurar. Apenas deixou seu corpo cair, e morrer no meio daquelas pedras, assim como seu irmão. Após um minuto, percebeu o que fez. Seus joelhos dobraram, junto das lágrimas que começaram a cair de seu rosto. Quantas vezes teria que chorar para aceitar que o que fez foi o melhor a ser feito. Estava salvando todos! Palmas começaram a rondar seus ouvidos....Palmas? Rose se virou, vendo Dylan tomando banho de sol logo atrás dela.- Meu Deus.- Queria abraçá-lo, ao mesmo tempo que queria matá-lo. Seria aquele que matou um dos seus sósias, de um antigo projeto que ouvira falar? Ou talvez mais uma de suas alucinações?
— Parabéns, agora sei que tem coragem para enfrentar as coisas.- Ele se vira de costas, apoiando o corpo na toalha rosa e floral.- Passa pra mim?- Pede, segurando na direção dela um frasco com uma espécie de óleo dentro.
Sofia estava lavando os talheres na pia. Seu cabelo estava mais loiro e ondulado, tinha ido em um salão de beleza há algumas horas. Queria convidar uma amiguinha, mas não tinha conversado muito com Lícia depois da notícia de que Jessica havia morrido, e tinha se mantido calada também desde então. Ouviu os rumores de que ela colocou o nome de Jessica no concurso, e que Dylan optou por assassinar o casal unidos, mas ainda não tinha certeza se acreditava em todos aqueles boatos distorcidos:
— Não precisa lavar nada.- Falando nela, acabara de entrar na cozinha.- Eu faço isso por você.
— Preciso garantir meu lugar aqui de alguma maneira.- Lícia abaixou as sobrancelhas, tentando captar a mensagem.- Bem, isso aqui vai virar uma pousada agora, né? Temos doze quartos, três banheiros, e isso parece uma mansão de tão enorme.
— Não tinha pensado nisso, mas esse lugar provavelmente vai ser herdado pela filha do...- Suspirou. Dizer o nome de alguém que já se foi pode ser bem dolorido no início, porém não tem como acabar com todos os " Sebastian " do mundo.- Talvez ela até me mande embora...- Sofia queria perguntar o que aconteceu naquele dia; Sentia uma enorme vontade de voltar para aqueles anos em paris, onde cautelosamente investigou os planos que Dylan criava, e mesmo assim assim, agora, não tinha certeza do que ele realmente tinha planejado. Sabia que o joguinho tinha duas fases, talvez até três, mas isso não era o suficiente. Precisava ir atrás de respostas, ou todo mundo voltaria para aquele banho de sangue...Espera...Já estamos de volta ao mar de sangue.
— Mesmo assim. Não gosto de ser um peso morto.- Secou o último garfo e virou-se para Lícia, que segurava uma faca que estava em cima da mesa.
— Ágatha....- Sofia sorri, esperando uma pergunta da moça.- Não precisa ser falsa, Sofia.- A expressão da loira foi de surpresa, e logo se transformou em um deboche.
— Você também tá ajudando ele?- Saiu de perto da pia, indo ficar frente a frente com a sua nova descoberta. Dali sairia uma aliança, ou uma nova guerra?- O que ele está te oferecendo por mantê-lo informado? Dinheiro?
— Não.- Lícia despôs a colocar a faca na mesa, para então encarar friamente Sofia.- Dinheiro Dylan deu para o seu irmão....Sebastian estava falido, e o seu queridinho filho o ajudou, com a proposta de que voltasse para cidade, para receber uma grana.
— Então qual é a sua motivação?
— Como se eu precisasse lhe dar informações.- A ex-empregada passou batendo seus ombros contra o dela, indo em direção a porta dos fundos. Sofia pegou a faca e a jogou contra a manga alta de Lícia, exatamente quando ela ia abrir a porta, ficando com seu braço preso na madeira da saída.
— Sou boa de mira.- Sofia dá meia volta, se retirando da cozinha aonde ficara um clima tensa. Já tinha decidido o que aquela garota era em meio à batalha; Uma peça desnecessária.
A campainha do apartamento de Carla, tocou. Seu marido tinha saído, a deixando sozinha para fazer as tarefas do dia da faxina. Isso a deixava irada, mas quem não ficaria, não é mesmo? O barulho irritante tocou de novo:
— Já vai!- Gritou, com uma vassoura na mão, e a outra na maçaneta para abrir a porta. No final não tinha ninguém lá. Talvez fosse alguma daquelas crianças que tocam a campainha e saem correndo. Ela os destetava, mesmo tendo feito isso na sua infância. Nunca se considerou uma criança feliz, já que nessa época estava de luto com a morte de um ente querido, que agora nem se lembrava de ter morrido. Já estava para fechar a porta, até que ouviu um choro vindo da virada do corredor. Olhou para baixo, e viu aquele estranho cesto tampado por um pano branco manchado de algo vermelho. Aquilo era assustador, teria aquele choro de criança vindo dali de dentro? Logo descobriu ao tirar o pano. Era um bebê chorando, usando uma frauda que provavelmente deveria estar suja, mas uma coisa fez Carla se assustar e desejar nunca tê-lo visto. Tinha uma frase escrita no peito da criança, algo que a fez remeter ao passado: " Eu sei o que você fez com a sua filha ". Quem tatuaria aquilo em uma criança? Quem saberia de seu passado? Apenas uma pessoa viva tinha conhecimento sobre o que houve antes de vir para a cidade, Lícia. Olhou ao redor, não tinha ninguém ali. Correu de volta para casa, fechando a porta e a trancando com uma corrente. Por que tanto medo? É só um bebê tatuado. Se ele continuasse a chorar, alguém ia verificar o que está acontecendo, se bem que nem ela mesma sabia o que estava acontecendo. Ainda mais com aquela mancha vermelha, ninguém a convenceria que aquilo era ketchup derramado, mesmo que não tenha visto ferimento algum. Talvez tenha sido Dylan. Ou talvez Rebeca, pelo o que ela falou naquele dia da reunião...O choro parou, talvez fosse a hora de voltar e tentar entender tudo aquilo. Arfou, destrancou a porta e andou calmamente até aquele ser que poderia expô-la mesmo sem saber falar ainda. E se achassem o bebê, como iriam relacioná-lo com ela? Talvez aquela mensagem nem fosse para Carla. Alguém tinha coberto o cesto novamente? Então alguém viu a criança...Mas se tivesse visto, teria levado com sigo ou mostrado para outros vizinhos do prédio. Colocou a mão no tecido, engolindo a seco. E se ele não estivesse mais lá? Puxou de vez o pano que o cobria, mas realmente o bebê não estava mais lá. Era apenas um boneco velho, bastante parecido com um daqueles que a sua filha brincava.
— Eu não acredito que você fez isso!- Gritou Helena, tacando um papel na escrivaninha aonde Bianca escrevia no nootbook. Ela abaixou seus óculos de enfeite, já que o usava para parecer mais chique, então olhando diretamente para a futura esposa.- Nós decidimos juntas que não entraríamos em um processo com o Diogo pela possível cópia.
— Não é uma possível cópia, é uma cópia!- Sem dar bola, voltou a escrever o último volume da sua história, que finalmente parecia estar ganhando forma. Helena empurrou as mãos de Bianca para fora do teclado, fechando o nootbook grosseiramente.
— Pensei que fossemos decidir as coisas unidas, por isso estamos nos casando! O que tá acontecendo com você? Essa história da festa, e que ai chegou o Cold Blood está muito mal contada. É preocupante, Bianca. Não consegue ficar sem guardar segredos de mim?- A escritora se levantou, indo sentar-se na cama, pronta para enrolar a sua noiva.- Você parece outra pessoa...
— Talvez eu tenha sido um pouco impulsiva...
— Um pouco?- Bianca abriu um sorriso de lado, tentando amenizar um pouco aquela tensão.- Ah, sim, você é um pouco impulsiva, um pouco teimosa, um pouco rebelde, um pouco trouxa...
— Porque você não conheceu a Sara...- Sussurrou travessa. Lembrando da trajetória de sua amiga virtual contada por Jason.
— Quem é Sara?- Sentiu uma faísca de ciumes? Não precisaria se preocupar com aquela mulher agora...Ou talvez precisasse. Bi nunca perdeu aquele carinho especial por aquela trouxa de plantão. Normalmente esquecia rápido das pessoas que parava de falar por muito tempo, mas de Sara nunca esqueceu.
— É uma antiga amiga...Se quiser eu conto toda a história dela.
— Não tenta me enrolar. Você é mestre nisso.- Queria se gabar, mas não era o momento para isso. Talvez seja por esse motivo que estava procrastinando tanto para escrever o livro.- Poxa, eu pensei que você contasse comigo nessas situações...
— E eu conto. Mas eu precisava fazer isso. Despejar toda essa raiva...- Tirou o seu óculos, o depositando em cima da cama, para então esfregar o rosto com as mãos.- Desculpa. Sinto que isso é uma decisão que só eu posso tomar. É egoísmo, eu sei...- Helena sentou na cama também, abraçando sua garota impulsiva.- Eu juro que era mais quieta quando criança.
— Mas você não era independente...Só quero que tome decisões pesadas comigo a partir de agora, ok?- Ela concorda com a cabeça, recebendo um beijo na testa.- E nem pense que essa discussão acabou. Você não vai continuar esse processo.
— Helena, essa decisão é minha, e você não vai mudá-la.
— Está bem então. Compre mesmo briga comigo.- Ela se levantou, andando tranquilamente até a saída do quarto.
— Helena!
Flashback on:
Seu olhar estava perdido, como se estivesse em uma hipnose, presa em algo que a fez passar noites sem dormir. Que nada! Tinha é lembrado da oferta que já havia aceitado. Agora subia a passarela de pedestres que era parte do trajeto para o aeroporto, de mãos dadas com sua pequena Anne:
— Meu marido morreu há uns três anos.- Dizia em sua lembrança.- Aquele filho da puta, se matou cheio de dívidas.- Sebastian bebia o copo d`água oferecido pela dona da casa. Lícia e a pequenina brincavam com algumas bonecas quebradas e velhas, que mais pareciam com as da loja de bonecas da senhorita Mary. Uma delas era idêntica à Lídia antes dos dez anos passados.- Mas ainda não entendi o que querem. Só sei que conhecem a minha falecida prima, certo?
— Sara não está morta.- Afirma o homem, olhando a humilde e suja casa aonde se encontrara.- Aquela pessoa que você viu pulando da pousada quando veio visitá-la, não era a Sara. Pra ser sincero a sua prima só arrumava confusões bem complexas.- Carla se sentou na mesa junto a ele, tentando adquirir tudo o que estava saindo da boca daquele sujeito.- Lembra de quando ela foi suspeita de um assassinato? Nem tinha noção de ir para a cidade ainda...Bons tempos, não?
— Vocês são loucos.- Sebastian pega seu celular, mostrando uma foto de Sara deitada na cama de hospital.
— É ela, não é? Ou será uma irmã gêmea perdida chamada Cecília?- A criança continuava agitada no canto da casa, e parecia bem feliz brincando com aquela mulher de olhos puxados.- Olha, queremos te ajudar. .
— Me ajudar como? Olha aonde eu fui parar. Não tem como sair disso.- Lícia olha para a moça, estava sentindo pena dela, mas certamente não deveria. Sebastian tirou de seu paletó duas passagens.- O que é isso?
— Sua chance de uma nova vida.- É claro que não era uma nova vida, e sim uma sentença de morte, assim como estaria acontecendo agora nos tempos atuais.- Isso é por Sara...- O ano era 2020. Quem diria que 5 anos depois já teria se casado e recomeçado toda a vida. Era uma atriz nata, para seu marido nunca ter descoberto nada.
— Mãe, vai devagar.- Pediu Anne, no topo da passarela. Trazendo sua mãe de volta ao presente. Não queria admitir para si mesma, mas a sua filha era um fardo. Um fardo que teria que carregar para toda a vida. Se contasse para alguém sobre isso, provavelmente a chamariam de fria, sem coração, insensível. Talvez todos esses anos realmente tivessem a transformado nisso tudo, mas negativamente aceitaria ser chamada disso. Vida nova, novas pessoas para impressionar, talvez mudar sua personalidade...Poderia ser um golpe também, talvez quisessem a sequestrar para algo criminoso, ou a sua filha. Mas o que tinha a perder? A vida? Isso era o que menos queria. O vento soprou seus cabelos, aquilo era revigorante. Tinha bastante carros lá embaixo, mas absolutamente nenhuma pessoa andando por perto da onde estava.- Calma, mãe!- Novamente foi acusada de andar rápido demais naquela madrugada, então parou, caminhando para a beira da passarela. Sua filha era pequena demais para ver os carros lá embaixo.- O que você está vendo?- Perguntou enquanto puxava a saia da mãe. Carla então a pegou por baixo do braço, a colocando de pé no pequeno muro que as separavam de uma queda fatal.- É tão legal vê os carros lá embaixo, né?- Estava vidrada naqueles automóveis, mesmo sentindo medo de cair, sentia uma sensação de estar livre ao vento. A não tão jovem moça, ficou calada, engolindo a seco, e tentando entender o porquê de seu corpo querer tanto parar de segurá-la, em vez disso empurrá-la. Isso é tão desumano, tão cruel...Tão perverso. Nada justificaria matar uma criança. Qual era a sua a motivação para ter feito aquilo então? Apenas olhou ao redor, e a empurrou em uma queda livre.
Flashback off:
E mais uma vez se olhava no espelho de chão. Aquele era um momento de reflexão só seu. Havia tantas coisas que queria refletir, mas a sua mente só conseguia se fixar em uma pessoa, Jessica. Elas eram tão parecidas em questão de passados e histórias. Jessica também veio a dar a sua filha por questões, também criou o filho de outra pessoa como se fosse seu...As duas tinham quase a mesma trajetória em questão de família. As duas lutaram por paz nesses dois jogos, e mesmo que uma dela teve que ir ao chão, o seu espírito sempre guiaria Lídia, a deixando mais forte à cada golpe que aquele sociopata lhe desse. Mesmo brigadas por causa de Rose, elas eram como mãe e filha internamente. A sua meta de conquista era ser igual a Jessica. Estar sempre na cola do inimigo, salvando as pessoas de infortúnios, se dedicar ao máximo para salvar todos. Essas coisas, a nossa falecida fazia, mas ninguém percebia os sacrifícios dela. Lídia percebia, e isso a fez se espelhar nela para continuar forte se algo viesse interferir a vida de seus amigos, da sua família. Seu reflexo pareceu mudar diante do espelho, se transformando naquela mulher que admirava em segredo, não como um jeito de dizer. Era como se Jessica tivesse diante dela. Se afastou para atrás, e então viu uma luzinha piscando embaixo do espelho, que por acaso não era o seu, mesmo parecendo idêntico. Só tinha uma razão para aquilo: Dylan. Pegou um jarro de plantas e tacou no reflexo de sua madrasta, destruindo a sua imagem. Sobraram apenas os cacos de uma bela moça destruída. Seu celular apitou, provavelmente seria uma mensagem motivadora de Bianca, como as anteriores. Deslizou a tela, vendo que um desconhecido tinha lhe mandado um vídeo. Ao entrar no perfil viu que ele tinha sido recém-criado, e então apertou o play; Tudo estava escuro, um breu total que não dava para ver absolutamente nada, até que um holofote é ligado, diretamente para um banquinho aonde uma mulher de cabelos negros chorava:
— Socorro!- Falou, levantando a cabeça e mostrando o seu rosto encharcado.- Ele vai matar todo mundo!- Sara olhou assustada para a pessoa que segurava o celular. A câmera voltou para o escuro. Tudo o que se pôde ouvir foram gritos, e o que se pode dizer ser um tiro. O vídeo acabou. Lídia olhou para a janela do quarto, caminhando até ela. Sara tinha saído do coma, mas como? Ou seria uma sósia? Da rua, viu Dylan encostado em uma árvore, balançando um bebê em seus braços. Aquele mesmo que colocou na porta de Carla. Ele olhou para a prima, acenando com uma das mãos por menos de dois segundos. O homem deu de costas, começando a caminhar pelas ruas daquela inspiradora e perversa cidade, onde em um futuro próximo, um novo banho de sangue aconteceria.
Continua...
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