Segredo Descoberto
38 O que houve com a Vilu?
Notas iniciais
Francesca C. Hernández
— Vamos descer! — Respondi de imediato, e me esquivando de Diego para poder descer.
— Argh! Espera, Francesca! — Ele me puxou o mais gentilmente possível — Eu vou na frente.
Eu assenti, revirando os olhos já cansada das ordens dele, mas não disse nada, já que o que estávamos fazendo era um perigo, e qualquer passo em falso podíamos colocar tudo à perder.
Diego foi na frente, Bella foi caminhando entre mim e ele, caso tivesse algum capanga de Clement ela estaria mais protegida atrás de Diego do que no colo.
Descemos os degraus sorrateiramente. O local estava muito escuro, e por isso não enxergávamos quase nada. Peguei meu celular e então liguei a lanterna do mesmo, iluminou pouco, mas o suficiente para ver que não tinha ninguém ali, a não ser uma pessoa se contorcendo na cama. Violetta.
— Vilu!
Eu gritei correndo até ela, e pude ouvir o arfar de Diego. Provavelmente ele estava bravo por eu não ter cumprido sua ordem de ficar atrás dele. Ou também havia avistado Violetta numa situação tão preocupante.
— Fran... — Ela falou com a voz embargada.
Me ajoelhei ao lado da cama e retirei o cabelo de seu rosto. Era a mesma Violetta. Mais acabada e magra, mas continuava sendo minha melhor amiga.
As lágrimas caíam de meus olhos como rios, e Violetta também chorava baixinho.
— Amiga... nem acredito que encontramos você! Procuramos tanto... —Falei emocionada, Vilu sorriu fraco, e só então percebi como ela estava...
— Tia Vilu? Por que você está cholando? — Isabella perguntou preocupada, juntando as mãozinhas em frente ao rosto.
— Bella, querida... fique atrás da escada e não saia de lá, ok? Não saia. — Diego disse rapidamente, e Isabella correu para trás da escada, obedecendo. Eu não entendi o que Diego planejava, mas não tinha tempo de questionar no momento.
— Diego... ela está em trabalho de parto... temos que fazer algo... e rápido! — Eu disse nervosa.
Não ouvi respostas de Diego, pois ele não respondeu. Não quis olhar para ver o que ele estava fazendo. Minha amiga precisava e mim mais do que tudo no momento.
Ajudei Violetta — com muito custo —, a se deitar na cama de forma mais confortável, ela gemia de dor, e isso me deixava mais nervosa ainda.
— Me... aju...da... — Ela sussurrou e eu assenti rapidamente.
— Diego... vem cá! — Falei brava, e então procurei por Diego no cômodo.
Ele estava em baixo das escadas, junto com Bella, que estava sentada no chão encolhida. Olhei para Diego tentando decifrar seu olhar. Ele fez sinal de silêncio e apontou para o andar de cima, então entendi: Clement tinha voltado.
Me apavorei na hora, mas ele fez um sinal com a boca para mim continuar cuidando de Violetta. Eu obedeci, com medo.
— Vilu... respira fundo... respira e solta a respiração... — Fui falando — Respira... e solta.
— As dores... ai! — Ela colocou a não sob a barriga e fez uma careta.
— Está doendo muito? — Perguntei, e ela me lançou um olhar furioso.
— O... Clement... quer... ma..matar meu filho... — Ela falou em meio às respirações entrecortadas — Salve meu... bebê. Por... favor, Fran. Ai! — Ela gritou alto.
— Calma, calma. Ai meu Deus. Tem que ser agora, Vilu. — Disse tentando manter a calma — Você vai ter que fazer força...
Ela assentiu, com a respiração acelerada e se ajeitou da forma mais confortável possível. Ela estava de vestido, o que facilitaria.
— Vamos lá... força... faz força, Vilu... — Respirei fundo, e olhei para o rosto da minha amiga. Suas caretas seriam engraçadas se não estivéssemos correndo tanto perigo. Perigos de vários tipos. — Força...
E ela fez mais força, já conseguia ver a cabeça do bebê, mas Violetta estava muito fraca, eu percebia isso. O bebê nasceria prematuro, e minha amiga poderia morrer.
— Eu... ai... Não consigo... — Ela disse deixando as lágrimas rolarem.
— Não diz isso... você consegue, Vilu... vamos... é seu bebezinho, faça isso por ele... — Eu respondi chorando junto.
Fechei os olhos por um momento, tentando respirar, pois eu também não estava me sentindo bem sob essa situação. Minha melhor amiga estava em trabalho de parto, e era eu quem estava o fazendo. Eu não podia deixar Violetta desistir. Eu não podia deixar seu filho morrer... e nem minha amiga. Eu nunca me perdoaria por isso.
Abri os olhos novamente, bem na hora de ouvir um berro alto. Violetta tinha gritado, e em seguida veio um chorinho fino e que fez Violetta sorrir fracamente, em seguida ela fechou os olhos.
— Vilu! — Eu gritei chorando, e no mesmo momento ouvi o rompante da entrada que levava para o porão ser aberta, e em seguida passos descendo as escadas.
Corri até o bebezinho e o peguei com muito cuidado. Retirei meu casaco e o enrolei — era o único manto que eu tinha para mantê-lo aquecido. Quando o segurei, corri até Violetta para tentar acordá-la. Ela não poderia estar morta!
— Mas... como você chegou aqui?! — Ouvi a voz imunda de Clement.
Não me virei para encará-lo, só pude olhar para Vilu que estava desacordada. Ela ainda respirava, mas sua respiração se desfazia aos poucos. Estava muito fraca.
Ninei o bebê nos meus braços, pois ele chorava ainda. Tadinho, passando por tanta coisa desde pequeno.
— Me responda! — Clement gritou, e então eu me virei para encará-lo. Ele observou o pequeno embrulho em meus braços e seus olhos encheram de raiva — A peste nasceu! Podia ter morrido! Argh! E a Violetta... ela está morta? Você a matou!
Eu não conseguia assimilar tudo o que ele falava. Só saía besteira de sua boca. Peste? Morrer? Como ele podia desejar mal a um serzinho tão maravilhoso? Tão inocente e indefeso? E minha amiga não estava morta!
León Vargas
— Deve ser aqui — Falei nervoso, estacionado o carro em frente à uma casa velha de campo.
— Sim. Deve ser. — Germán disse e desceu do carro, e eu saí logo atrás.
— Vamos entrar. — Eu disse.
— Não. Não dá agora, León. Já consigo ouvir barulho de sirenes. É melhor esperarmos até a polícia chegar. — Germán disse olhando em volta.
— Tá... então você fica aqui e eu entro. — Eu disse irritado, e corri para a entrada. Germán não me seguiu, só pude ouvir ele suspirar antes de eu entrar na casa.
A porta estava caída no chão: arrombamento. Só podia ser. Será que Diego...? Não, ele não faria isso, a não ser... a não ser que Francesca pedisse. Droga!
Apressei os passos, mas fiquei atento a todos os mínimos detalhes, tomando cuidado para não ser pego.
Caminhei primeiramente pela sala, depois biblioteca, e então achei a cozinha no primeiro andar. Avistei pegadas de barro no chão, e segui com o olhar para ver aonde daria.
Vi o tapete todo embolado no chão, então o retirei, encontrando uma passagem para um cômodo que provavelmente seria um porão. Respirei fundo e comecei a descer.
No segundo degrau que eu coloquei o pé, ouvi um estilhaçar de vidro vindo do porão, então desci o restante dos degraus correndo, temendo que algo tivesse acontecido com Violetta, ou talvez, meus amigos.
Ao chegar no porão, vi um vulto caído no chão: Clement. Este estava com a testa sangrando e desacordado. Olhei para quem havia feito aquilo e avistei Diego apontando uma arma para Clement, pronto para qualquer reação que ele pudesse ter.
— León — Ouvi Francesca me chamar com a voz falha. Procurei-a pelo local, mas não a encontrei. Estava escuro demais, mas sua voz me preocupou.
— Me ajuda aqui, León. — Disse Diego, apontando a arma para Clement. Mesmo eu estando ansioso para procurar por Violetta, eu tinha que ajudar Diego, pois Clement era o verdadeiro perigo ali.
Procurei por alguma corda pelo local, e vi uma pendurada num prego na parede. A peguei e Diego arrastou Clement até uma cadeira que tinha ali. Então o amarramos depressa, antes que ele pudesse acordar.
— Desgraçado! — Eu disse com raiva, dando um soco na cara de Clement.
Mas logo fui despertado por Francesca:
— León! — Ela gritou novamente — A Vilu... — Ela não concluiu a frase, em seguida veio um soluço.
Corri até Francesca, conseguindo apenas achá-la quando a vi acender uma lanterna no celular. Vi alguém na cama desacordada... não... não podia ser...
— Vilu! Violetta! Não... por favor... Vilu! — A sacudi chorando, tentando acordá-la.
— León, calma. Ela está respirando, só precisamos levá-la para o hospital imediatamente. — Diego disse ao fundo.
— Então vamos... — Eu disse pegando Violetta no colo.
Era de partir o coração vê-la daquele jeito. Tão magra e tão acabada. Suas roupas sujas de sangue, suor e sujeira. Sua respiração fraca me dava arrepios, ela não podia morrer depois de tudo o que passamos. Ela não podia desistir agora que as coisas estavam se resolvendo.
Subi as escadas sem esperar por mais ninguém, só conseguia pensar em Violetta e se ela ficaria bem. Francesca veio logo atrás e Isabella estava ao seu encalço. Diego subiu atrás de Bella e trancou o porão, para caso Clement acordasse não conseguisse escapar.
Corri para a rua, e avistei viaturas e polícias cercando a casa prontos para invadi-la. Procurei por alguma ambulância, mas não havia nenhuma.
— Meu Deus! Violetta... Vilu... — Germán correu até nós e olhou para a filha e chorou, de um jeito que eu nunca havia visto antes. — Me perdoe por não ter cuidado de você melhor...
— Germán... precisamos levá-la para o hospital imediatamente! — Falei alterado.
— Senhor Vargas, avisamos que não deveria vir sozinho. Nós avisamos.— O delegado repreendeu-me e eu me irritei mais ainda.
— Não temos tempo para isso agora. Tenho que levar Violetta para o hospital agora mesmo!
Nos dirigimos para o carro correndo, eu fui atrás com Violetta no colo e Francesca foi no banco da frente com o bebê nos braços. Eu nem pude vê-lo ainda.
Germán dirigiu o mais depressa possível, percebi suas mãos tremendo no volante. Ele estava ultrapassando todos os limites de velocidade, mas ninguém naquele carro estava se importando com isso no momento. A única coisa que queríamos era chegar no hospital.
A viagem parecia que não terminava nunca. Não ia dar tempo. Violetta não reagia, não se movia, e sua respiração já estava quase imperceptível. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Eu não podia perdê-la. Não depois de todas as coisas que passamos juntos. Não depois de todas a brigas, intrigas e interrupções e pessoas querendo nos separar. Isso não podia acabar assim. Isso não iria acabar assim. Violetta não podia me abandonar agora.
Depois de minutos que pareciam horas, chegamos no hospital. Desci correndo do carro e Francesca veio atrás.
Entrei no hospital e médicos e enfermeiros já nos rodeavam. Coloquei Violetta numa maca e só vi quando enfermeiros a levaram às presas para uma sala que eu não podia entrar.
Passei as mãos nos cabelos respirando fundo, e então olhei para Francesca, havia duas enfermeiras perto dela, então me aproximei.
— Temos que levá-lo agora. Ele nasceu prematuro. Precisa ir para a encubadora depressa. — Uma das enfermeiras disse.
— Me deixe pegá-lo. Só um pouco. — Pedi com os olhos marejados. As enfermeiras sé entreolharam e assentiram.
— O senhor tem um minuto — Uma delas falou, então elas se afastaram.
Peguei o bebê do colo de Francesca cuidadosamente. Fran sorriu triste e ajeitou ele em meu colo, em seguida saiu de perto.
Me sentei em uma das cadeiras da sala de espera e observei meu filho. Um garotinho.
— Oi, pequeno. Você realmente é bem pequeno, hein — eu sorri para ele, que estava com os olhinhos verdes abertos e me encaravam curiosos. Os cabelos eram castanhos iguais aos de Violetta. Imediatamente deixei uma lágrima cair — Você e sua mamãe são dois guerreiros, filho. Os dois vão ficar bem e então vamos para casa e você conhecerá suas irmãzinhas. Elas vão adorar você. — Ele segurou meu dedo, em seguida fechou os olhinhos e bocejou — Te amo, pequeno.
— Senhor, agora eu preciso levá-lo. — A enfermeira apareceu e parou em minha frente. A encarei e vi seu olhar triste por ter que tirá-lo de mim.
— Tudo bem — Eu disse me levantando e entregando o bebê para ela. Beijei sua testa e a enfermaria sorriu, em seguida se retirou levando meu filho.
Me sentei novamente na cadeira, e suspirei.
*****
Fui acordado com vozes e choros envolta. Abri os olhos ainda sonolento e me levantei. Olhei em volta: Camila e Broduey estavam perto de Ludmila e Federico. As meninas choravam enquanto os garotos às consolavam, mas eles também estavam cabisbaixos. Francesca estava abraçada com Diego e soluçava baixinho, e Angie estava sentada no chão encostada na parede, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos cobriam o rosto inundado por lágrimas. Germán não estava lá.
E eu não estava entendendo nada.
Caminhei até Francesca que estava mais perto e perguntei:
— O que houve? Por que estão todos assim? — Perguntei preocupado.
Francesca me encarou e fungou, seus olhos verdes estavam tristes. Não estavam alegres como normalmente estaria. Ela enterrou o rosto no pescoço de Diego, então ele falou:
— A Vilu, León...— Ele só disse isso, em seguida vi Germán vindo de um corredor com a cabeça abaixada evitando olhar os rostos tão conhecidos. Ele chegou no centro da sala, então eu respirei fundo e perguntei:
— O que houve com a Vilu? — Indaguei temendo a resposta.
— A Violetta morreu, León.
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