Notas iniciais
Hello! Primeiro, muito obrigada a todos que estão comentando e favoritando. É um ótimo incentivo. Eu tinha planejado esse capítulo bem curtinho, umas 1500 palavras no máximo, mas me empolguei e demorei mais para terminar. Se a reação a ele for muito boa, vou postar uma continuação. Este é um capítulo num universo alternativo, certo? Boa leitura!

Não estava reconhecendo a mim mesma. Quer dizer, eu geralmente era mais controlada ― menos quando estava irritada. E eu estava irritada demais! Irritada, nervosa, confusa, ansiosa. Minhas bochechas voltaram a esquentar, droga! Porque, principalmente, eu estava envergonhada. E a culpa era daquele pervertido: Usui-sensei.

Ou melhor, Teacher. Aquele idiota sempre me corrigia quando eu falava em japonês durante as aulas. Argh! No final a culpa era minha, só minha. Se eu não fosse péssima em inglês, não seria necessário contratar um professor particular. E se eu não precisasse desse maldito professor, nunca iria conhecer aquele universitário imbecil, presunçoso, irritante e pervertido. Pensar nele só fazia com que eu pensasse nas aulas anteriores ― quando aconteceu aquilo.

***

Já era a quarta semana de aula. Um mês, desde que meus pais adotivos perceberam que meu conhecimento em uma língua vital para mim dali por diante era quase nulo, e que nem as aulas do colégio conseguiam modificar. Eu precisava de reforço, e ele veio ― da pior forma possível.

Usui Takumi, em uma primeira impressão, era uma ótima escolha. Apesar de jovem (tinha 22 anos, universitário prestes a se formar), era descendente de britânicos e herdara deles o sotaque característico. Seu inglês era fluente, óbvio. Além disso, tinha dois bônus para conquistar a qualquer um: o profissionalismo e a bela aparência.

Lembrei-me de como meus pais foram cativados por aquele rapaz que, apesar de não tão simpático como os outros da mesma idade, era educado como ninguém. Bons modos, um currículo excelente. Foi admitido de imediato. E então descobri que aquele mesmo rosto quase indiferente era capaz de esboçar o sorriso mais pervertido de todos.

Não gostava muito de pensar nisso, mas ele era bonito também. Muito bonito, na verdade. O rosto continha traços orientais e ocidentais, e transparecia muito da maturidade que ele tinha. Ao contrário dos garotos de quinze, dezesseis anos com quem eu convivia na escola, Usui era definitivamente um homem. E ainda havia aqueles detalhes que pareciam ter sido acrescentados apenas para torná-lo mais irreal: loiro, alto, olhos verdes. E de que valia tudo aquilo? Tudo desperdiçado em um irritante provocador.

― I didn’t know you were a stalker, Miss Ayuzawa.

Assustei-me com a voz grave que quebrou o silêncio. Droga, não percebi que focara meus olhos nele durante o devaneio. E pior, enquanto ele corrigia meus exercícios e estava atento a cada mínimo movimento meu. Apesar das palavras sérias, sabia que por dentro ele estava rindo de mim. Insuportável! Mesmo não entendendo tudo o que ele dissera, revidei o suficiente que consegui traduzir.

― Eu não sou stalker!

― I don’t understand what you say.― E sorriu daquela maneira que eu odiava.

Aquela era a frase que ele mais usava durante as aulas. Aprendi a reconhecê-la com a prática. Eu sabia que aquela era uma aula em que eu deveria praticar meu inglês, e não minha língua materna. Mas ele sempre fazia questão de me deixar com raiva quando dizia aquilo, com aquele sorrisinho estúpido e sonso.

― Argh! I no stalker ― corrigi-me, a contragosto.

Era evidente que existiam vários erros ali, porém não era necessário que o idiota abafasse o riso. É, eu era péssima! E ele estava ali para me ensinar, não para zombar de mim. Enquanto Usui retirava os óculos de aro fino para limpar as lágrimas que rolaram com as risadas, passei a fazer a minha especialidade: ofendê-lo de todas as formas possíveis.

― You try to insult me in English ― indicou, divertido.

― You idiot! ― comecei, já que ele mesmo pedira por isso. Usei de todas as ofensas que aprendi: ― Asshole! Jerk! I hate you, stupid and perverted outer-space alien!

― Good girl ― elogiou com um sorriso malicioso, como sempre.

É, mesmo que eu quisesse impedir minhas bochechas de avermelharem-se, foi impossível. Idiota, resmunguei baixinho. O restante da aula foi terrível. Errei metade do questionário, a pronúncia de uma dezena de sentenças, e só conseguia responder bem quando estava com raiva ― isto quando não o xingava naquela língua maldita. Diante do pouco avanço, Usui suspirou exausto com a aluna difícil. Mas quem disse que eu facilitaria as coisas para aquele imbecil?

― Talvez vá funcionar se eu usar de outro método ― murmurou para si mesmo.

― Outro?

― Let’s play a game, Miss Ayuzawa. ― De novo aquele sorriso perigoso!

― O quê!? Você tem que me ensinar, Usui id-

― Be quiet, right? ― pediu, calmo, mas ainda bem humorado.

Então levantou-se de onde estávamos, à volta da mesa de estudos, e foi até as poltronas próximas da lareira. Atordoada, o segui em reflexo, e o imitei quando se sentou confortavelmente no estofado de sabe-se lá o valor em ienes. Inclinou-se para frente, fitando-me nos olhos. O olhei de volta confusa.

― I’ll ask you and you must answer them correctly, you understand?

― Yeah ― respondi, embora só tenha entendido superficialmente algo sobre perguntas e respostas. Mas surgiu uma dúvida: ― Ei, o que acontece se eu não conseguir responder?

― I’ll do what I want with you ― disse como se não fosse nada.

Arregalei os olhos, corando pela enésima vez naquela aula. Aquele alien pervertido! Se ele achava que eu ia obedecer a algum pedido estranho que ele fizesse, estava muito enganado. Além do mais, eu deveria estar praticando outro idioma, não me envolvendo em jogos desnecessários e depravados. Neguei terminantemente:

― Nem pensar!

― It's too late to turn back now ― discordou ele, com um sorriso de canto atrevido.

― Ande logo com isso ― concedi, mal humorada, enquanto afundava-me de braços cruzados na poltrona.

― What’s the color of the underwear you’re wearing now?

Durante muito tempo o encarei sem reação nenhuma. Quer dizer, além do rosto ruborizado, é claro. Que tipo de pergunta era aquela? A cor da minha roupa íntima? Por que ele queria saber?! Eu estava tão perplexa e enfurecida que demorei minutos até conseguir articular as palavras certas. E enquanto isso, o cretino assistia à minha falta de jeito como se eu o divertisse. Detestável!

― O qu-…?! Eu não vou responder isso de jeito nenhum! Outra pergunta!

― Lembre-se que posso fazer o que eu quiser.

Não entendi muito bem porque desta vez ele falara em japonês, mas a ameaça surtiu efeito. Aquele era meu ponto fraco: odiava não cumprir o que prometi (mesmo que fosse tudo uma artimanha elaborada) e principalmente, não queria de modo algum perder para ele. Apesar de embaraçosa, era simples de responder. No entanto, isto não me fazia menos zangada.

― You idiot! ― Respirei profundamente para conseguir coragem, e prossegui, fitando o carpete: ―I-It is blue.

― Can you show me? ― Quando ameacei socá-lo, o abusado esclareceu entre risos: ― It’s a joke, it’s a joke.

Durante as horas restantes, e as próximas cinco aulas, Usui continuou a me indagar, e entendi o tal método de que ele falara. Com raiva e sob pressão, eu me esforçava mais ainda e conseguia respondê-lo em inglês. E ao contrário do que imaginava, nem todas eram pervertidas. Algumas vezes me perguntava sobre meu doce favorito, ou o que eu mais gostava no meu irmão.

Permaneceu naquele questionário verbal e dinâmico em vez dos tediosos escritos em folhas de papel para que eu respondesse, e o avanço era absurdo de tão nítido. Talvez porque o ensino não fosse mais tão impessoal como antes, o que me estimulava. Além disso, ao notar que eu estava errando demais na gramática, interrogava-me de maneira tão indiscreta que era impossível manter a calma. Como descobrimos, o ódio era meu aliado no aprendizado.

― What’s the most sensitive spot on your body? ― indagou de forma insolente.

― Usui-sensei, seu babaca! ― gritei, automática. No entanto, já estava me acostumando àquilo, de alguma maneira. Num sussurro, respondi a verdade: ― I don’t know.

― Bem, acho melhor que seja assim. ― Ele pareceu satisfeito. ― Prefiro descobrir sozinho.

― Descobrir...?! No que está pensando-

― Don’t get distracted, Miss Ayuzawa ― interrompeu-me, com o sorriso insuportável.

― Então não faça esse tipo de pergunta! ― exigi o óbvio, mas ele pareceu me ignorar porque não pedi em inglês. Como se não me faltassem motivos para odiá-lo. Partiu para a próxima:

― Fine. What you think of me?

Não havia nada de estranho naquela questão. Ainda assim, obrigava-me a pensar em Usui, e os únicos pensamentos relacionados a ele me irritavam ou me envergonhavam. E detestava perder o controle daquela forma. Além disso, eu já o respondera tantas vezes. Todas as ofensas traduziam o que eu pensava dele, afinal.

― I-I told you ― gaguejei com a intensidade com que ele me observava. Aquilo era mesmo necessário? ― You are a perverted outer-space alien.

― Já disse que é muito excitante quando você cora? ― revelou, repentinamente.

― J-Já falei para parar com isso! ― exclamei, enquanto enrubescia todos os tons de vermelho.

― No, this is very fun ― recusou. Era impressionante como eu não era capaz de arranhar nem um pouco a disposição dele!

― I hate you!

― And I desire you.

Ele riu quando engasguei, novamente surpresa, antes de continuar o “interrogatório”. Grande imbecil! E as próximas foram as piores dentre todas, sem dúvidas. Na primeira, se preferia um sofá ou uma cama; seguida de outra: se gostava mais de estar deitada ou de pé. Por último, se algo mais calmo ou mais agitado era minha preferência.

Era óbvio para qualquer um o duplo sentido daquelas perguntas, e de maneira nenhuma iria cair naquele joguinho idiota. Respondi como se fossem questões comuns: eu achava a cama mais confortável, mas não gostava de ficar deitada o dia todo, porque me sentia preguiçosa. Logo, eu preferia ficar de pé, e minha animação combinava mais com algo agitado.

No entanto, o sorriso malicioso dele cada vez que eu respondia era tão irritante e constrangedor! Por pouco não atingi aquele rosto mestiço com meu punho, muito pouco. Principalmente quando não consegui respondê-lo logo em seguida. Na verdade, me recusei a dar a resposta.

O idiota chegou à brilhante conclusão de que eu gostava de sexo selvagem, mas como algumas de minhas respostas (segundo ele mesmo) eram contraditórias, perguntou se queria transar de quatro na cama. Com ele.

― Fuck you ― vociferei quando consegui controlar a mim mesma. Maldito professor cretino!

― Good girls don’t talk that way, Miss Ayuzawa ― censurou, embora mantivesse o sorriso ao levantar-se da poltrona. ― And do you really want me to punish you?

― Isso não quer dizer que eu vá fazer coisas pervertidas com você, estúpido.

― Mas eu não falei nada sobre algo pervertido.

Corei, e muito, ao perceber que me encurralei em seu próprio jogo. Que idiota eu era! Com o nervosismo a se espalhar por mim, não pude afastá-lo quando se aproximou, apoiando as mãos nos braços do assento. Pude sentir o cheiro de seu perfume masculino inundando minhas narinas, assim como a respiração quente sobre meu ouvido. Sussurrou, num timbre rouco:

― Naughty girl.

Antes que eu pudesse revidar, Usui eliminou todo o espaço entre nós ao me beijar. Com o contato, toda a tensão acumulada entre nós, e principalmente em mim mesma, explodiu de uma só vez. E com esta explosão todos os poréns também se foram: a diferença de idade, nossa relação quase profissional, meu ódio por ele. Na verdade, nem bem sabia se estava beijando-o porque comecei a gostar dele ou porque o detestava. E nada daquilo fazia sentido. Nem mesmo o beijo fazia sentido, caramba!

Com desejo e gentileza, ele se pôs entre meus lábios, provando de cada pequena nuance minha. Arrebatada com a surpresa e a sensação que me dominou, logo que recuperei a reação passei a tentar imitar a maneira com que ele movia a língua, mas minha inexperiência era nítida. Irritada com minha falta de jeito, despejei sobre ele minha frustração ao morder seu lábio inferior.

Bem, certas coisas se aprendem na prática. Porque nunca iria imaginar que aquilo faria com que dele surgisse um ruído arrastado, que me arrepiou por inteira. Senti a boca de Usui tornar-se mais exigente sobre a minha, e puxei-o pela blusa social para que pudéssemos estar mais próximos. É claro, a posição era completamente desconfortável para ele, inclinado contra mim enquanto eu estava sentada. Mas não deixei de odiá-lo mesmo enquanto o desejava (e que se danasse o bom senso). Aquele abusado merecia uma dor nas costas por ser o que era.

Ao menos no momento não pareceu incomodado; ao contrário, a intensidade com que me beijava fazia com que fosse pressionada contra as costas do estofado. Sentia-me aquecer, cada vez mais explorada por aqueles lábios. Foi a vez dele mordiscar o meu, e entendi o que tanto o afetara ― o resquício daquele misto de pequena pontada e estímulo intenso era delirante. Envolvi os braços ao redor do pescoço dele, apertando os dedos contra sua nuca enquanto esticava-me para alcançá-lo assim.

E breves batidas, seguidas do leve abrir das portas duplas nos interromperam. Imediatamente empurrei-o, extremamente consciente do que havíamos feito. Provavelmente enrubescida e bastante ofegante, tentei recuperar-me enquanto a empregada dizia algo que não consegui ouvir. As batidas do meu coração já eram altas o suficiente. Por sorte, minha poltrona estava de costas para a entrada.

Usui, ao contrário, não parecia nem um pouco atordoado: lidou com ela sem transparecer qualquer nervosismo que pudesse nos denunciar. E no que eu estava pensando? Já estava de segredinhos com ele? Ah, como se não me bastasse tudo...!

Logo compreendi que a mulher viera nos avisar que o horário das aulas havia terminado. Que ótimo, não teria que olhar para o rosto daquele estúpido pelos próximos dias. Mas (como sempre) ele não pôde deixar de me provocar. Não era suficiente uma despedida normal, claro que não: tinha de ser uma maldita frase com duplo sentido.

― We continue this next week, Misaki.

― Usui-sensei idiota! ― insultei-o alto o bastante para que ouvisse.

O bastardo sorriu para mim de volta.

Notas finais
Eu usei sentenças simples durante o texto, mas nem todo mundo sabe inglês, então aqui vai um glossário: Miss - Senhorita. I didn’t know you were a stalker. - Eu não sabia que era uma stalker. I don’t understand what you say. - Não entendi o que você disse. You try to insult me in English. - Tente me insultar em inglês. Asshole! - Babaca e sinônimos. Jerk! - Idiota e sinônimos. Be quiet, right? - Fique quieta, certo? I’ll ask you and you must answer them correctly, you understand? - Vou te fazer perguntas e você tem que respondê-las corretamente, entendeu? I’ll do what I want with you. - Vou fazer o que quiser com você. It's too late to turn back now. - É tarde demais para voltar atrás agora. What’s the color of the underwear you’re wearing now? - Qual é a cor da roupa íntima que está usando agora? Can you show me? - Pode me mostrar? It’s a joke. - É uma brincadeira. What’s the most sensitive spot on your body? - Qual é o ponto mais sensível do seu corpo? Don’t get distracted. - Não se distraia. What you think of me? - O que você acha de mim? I told you. - Eu te disse. No, this is very fun. - Não, isto é muito divertido. Good girls don't talk that way. - Boas meninas não falam dessa maneira. And do you really want me to punish you? - E você realmente quer que eu castigue você? Naughty girl. - Pervertida. We continue this next weet. - Continuamos isso na semana que vem. Claro que nem todas as frases foram traduzidas ao pé da letra, adaptei para o que soa melhor em PT-BR. Ah, tem uns termos muito, muito óbvios, e estes eu nem incluí aqui. Se não souber a tradução, diga que eu acrescento, ok? Assim como se encontrarem algum erro, certo? Digitar em inglês e português deixa o Word maluco, e o corretor ortográfico pode ter deixado algo passar. E então, o que acharam do Usui-sensei? XD
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.