Sede de Vingança
1 Infinito vezes infinito.
Notas iniciais
´´Um acidente envolvendo 180 pessoas em um avião cuja a causa ainda está sendo analisada e os culpados ainda não foram descobertos, fizeram vítimas letais, entre elas está o braço direito de Conrad Grayson, o conhecido David Clarke.´´
´´Ainda não temos muitas confirmações mas ao que tudo indica o culpado do atentando do avião é David Clarke, sendo ele uma das vítimas de seu próprio erro.´´
´´Hoje é um dia em que o Estados Unidos está em estado de conformação, já que está confirmado que o culpado do atentando ao avião que feriu muitas pessoas e fez vítimas foi David Clarke. As famílias das vítimas poderão dormir mais tranquilas sabendo que o terrorista teve o mesmo fim que as suas respectivos parentes.´´
Eu novamente me peguei lendo aquelas manchetes. Todas elas foram escritas em 1998, ano em que eu perdi meu pai e que tantas outras famílias perderam seus entes queridos. Eu não era a única que estava sofrendo. Mas a minha dor com certeza era a maior. Hoje completam 15 anos que essa tragédia foi anunciada. Quando o acidente aconteceu eu tinha apenas 7 anos. Eu não entendia nada do que estava acontecendo e eu apenas queria ficar perto do meu pai. Lembro daquele dia como se fosse ontem. Eu lembro dos meus gritos por estar sendo levada para um lugar em que eu não conhecia ninguém, um lugar em que eu não poderia ver meu pai, nunca mais. Quando me contaram que ele havia morrido em um acidente de avião eu só conseguia chorar. Passei a minha infância inteira entre lágrimas e soluços. Mas hoje eu completo 22 anos. Como eu posso comemorar se hoje, o mesmo dia do meu aniversário, é o dia que aconteceu um acidente em que o meu pai morreu? O que mais me atinge é saber que ele provocou tudo isso. Foi ele o culpado de sua própria morte.
Eu estava morando em uma casa alugada. Consigo pagar o aluguel com o dinheiro que meu pai me deixou. Dói dizer ``me deixou´´. Dói usar palavras no pretérito para se referir á ele. Mas tudo isso passa quando eu continuo lendo as manchetes e me lembro que ele não foi uma vítima qualquer, ele causou todo aquele transtorno que atormenta tantas famílias assim como a mim mesma. Como ele foi capaz de tudo isso? Não consigo entender como eu pude ser tão ingênua a ponto de não perceber que ele era um terrorista e ficar chorando por isso.
Estava tão distraída com os jornais em minha mão que demorei para notar que estavam batendo na porta. Comecei a tremer pois ninguém sabia que eu morava ali. Ninguém sabia o meu verdadeiro nome. Fui em direção a porta e toquei levemente a maçaneta para abri-lá sem fazer muito barulho. Era um homem. Eu não sabia quem ele era mas ao mesmo tempo tinha a impressão que já o tinha visto em algum lugar.
– Eu posso entrar?
– Primeiro me diga quem é você.
Fiquei apenas olhando para ele, esperando um reação mas tentando não demonstrar nenhum nervosismo.
– Estou aqui apenas para te ajudar.
Não sabia o que fazer. Eu apenas tentei controlar a minha respiração enquanto falava com ele para não parecer que eu estava totalmente nervosa e com medo do que poderia acontecer.
– Isso não é o bastante, eu disse. Me dê uma boa razão para deixá-lo entrar em minha casa.
– Seu pai, David Clarke.
No mesmo momento em que ele mencionou meu pai senti vontade de jogá-lo contra a parede e dar-lhe um soco para que nunca mais tocasse no nome do meu pai. Mas quem era eu para ameaçar aquele homem? Não sabia lutar tampouco atirar.
– Sou Nolan Ross. Eu trabalhei com seu pai junto a família Grayson. Quando eu te conheci você ainda era uma criança. Seu pai era o meu melhor amigo. Ele foi o único que acreditou em mim quando ninguém mais queria acreditar. Ele depositou confiança em mim e graças a ele eu me tornei quem eu sou hoje.
– Um assassino?
Não sou um assassino, Amanda.
Sem deixá-lo terminar de falar perguntei com raiva:
– Como sabe o meu verdadeiro nome? Desde que completei 16 anos e sai daquele abrigo para menores eu me chamo Emily. Nunca mais me chame de Amanda Clarke, eu não quero ser ligada a um terrorista.
– Seu pai não era um assassino, muito menos um terrorista. É por isso que vim aqui falar com você. De acordo com o seu pai, 15 de Novembro é o seu aniversário.
– E também é o dia em que ele acabou com a minha vida.
– Amanda, sei que você acha que seu pai foi o responsável pela queda daquele avião mas eu te peço por favor, acredite em mim. Ele sempre quis o seu bem e eu te garanto que ele não foi quem organizou aquele atentado.
Ao mesmo tempo em que eu queria chorar por ele estar me dizendo aquelas coisas, queria expulsá-lo de minha casa por ter continuado me chamando de Amanda.
– Preciso te contar uma coisa e quero que você prometa que vai confiar em mim assim como seu pai confiou.
– Eu não posso te prometer nada.
– Apenas confie e me escute.
– O seu pai era e sempre foi um homem de total confiança de Conrad Grayson e talvez essa confiança fosse o bastante para ser enganado e culpado de algo que não fez e nunca faria. O David me deixou essa caixa onde contém tudo aquilo que você precisa saber sobre ele. Eu não peço que você faça uma vingança e queira acabar com os Grayson mas apenas te peço para que veja quem era o seu pai e deixe de acreditar em manchetes e reportagens que mostram o contrário.
Eu apenas observei ele saindo da minha casa. Naquele momento eu estava prestes a desabar com tudo o que ele tinha me falado. O que tinha dentro daquela caixa? Não sei se estava preparada para abri-lá e encarar uma verdade que até agora era desconhecida. Olhei para a mesa que estava a minha frente e em cima dela tinha um cartão com um nome e um telefone:
``Nolan Ross, 4593-5006´´
Peguei o cartão e guardei dentro de uma das gavetas da estante, a mesma em que guardei o cartão de aniversário que meu pai me deu quando completei 6 anos. Só depois de um tempo eu pude entender o que ele tinha escrito para mim naquele cartão...
Ainda tremendo, eu passei a mão sobre a caixa que estava um pouco empoeirada e conforme fui limpando percebi que havia um desenho que meu pai sempre fazia para mim. Infinito vezes infinito. Era assim que ele denominava aquele desenho. Ele sempre me dizia que aquele desenho significava que o amor dele por mim era duplamente infinito.
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